Um Pouco De Sorte, por favor
4 Lembranças
Notas iniciais
O céu alaranjado estampava a janela. Era lindo de se ver.
Um perfume doce e envolvente invadiu a sala. Era o mesmo perfume de mamãe; eu jamais esqueceria. De repente tudo estava em tons de cinza, até mesmo o céu em seu por do sol perdera seu brilho. Eu podia jurar sentir meu coração parar de bater por um minuto.
– Julie, meu amor, venha cá!
Sua voz era tão suave, musica para os ouvidos.
– Já vou mamãe.
– Agora! Tenho uma surpresa para você.
Eu sai correndo, as surpresas dela sempre eram incríveis.
– Essa é a minha garotinha. Venha, venha. Tenho certeza que você vai adorar — Ela sorria, e eu não precisaria de surpresa nenhuma, se pudesse ver aquele sorriso para sempre — Aqui, abra e diga se gostou.
Me apressei a abrir o embrulho, tentava tomar cuidado para não estraga-lo; era dourado, todo trabalhado em pequenas estrelas que cintilavam contra a luz. Quando finalmente consegui abrir, uma voz confundiu minha mente. Não estava ali, parecia vinda de outro lugar.
– Julie. JULIE!
Então fui sacudida, meu corpo balanceou de um lado para o outro, até que por fim meus olhos se abriram. Quando dei por mim, Nick estava do meu lado, me olhando assustado, como se tivesse visto um fantasma.
– Cadê a mamãe, Nick?
– O que? — Ele perguntou com tom de espanto. De fato eu estava surtando.
– A mamãe, ela estava aqui a um minuto. Cadê ela Nick? Manda ela voltar, fala que eu vou me comportar, vou ser uma boa menina. Por favor, faz ela voltar.
Os braços de meu irmão me envolveram em um braço apertado, e eu desabei a chorar. Nick entendia minha, porque ele também a sentia.
Quando acordei, meus olhos estavam inchados e minha cabeça latejava. Na minha mente, tudo que se passava eram fleches de memórias que eu gostaria de ter apagado.
Novembro de 2009
– Não quer ir comigo? Talvez você goste.
– Não, Tenho que estudar. — Tenho certeza que ela notou eu fazendo figas pelas costas.
– Tudo bem então. Eu volto logo querida – Ela se aproximou para me dar um beijo, eu me afastei. Não queria ficar com a marca do batom vermelho, não mesmo. Tolice. — Fique bem, até mais.
– Tá.
Eu nem percebi que o tempo havia passado e já havia escurecido. Pior: eu não percebi que mamãe, ainda não havia voltado.
– Cadê sua mãe?
– Ela não voltou ainda?
– Não, e já está tarde, será que aconteceu alguma coisa?
– É claro que não. Ela deve está se divertindo por ai, e você deveria fazer o mesmo pai.
Tudo que ouvi foi um suspiro longo e pesado. Aquilo me irritava, ver o papai tão dependente da mamãe, e ela tão indiferente a isso. Ou pelo menos era isso o que eu pensava.
Já passava da meia noite, e nada dela chegar. Até que meu irmão invadiu meu quarto. Eu teria matado, se ele não estivesse chorando e nitidamente desesperado.
– Tem um minuto para me dar razões para eu não te bater agora mesmo.
– A mamãe Jú, a mamãe..
Minha expressão mudou por completo. Eu sabia como aquela frase terminaria
– O que houve com a mamãe Nick? — Eu fiquei impaciente – Anda, fala logo, o que aconteceu. Ele desabou de joelhos sobre o chão. As lágrimas pareciam uma cachoeira, rolavam sem um minuto de pausa. Isso só fez aumentar minha certeza e meu desespero. Eu me agachei a sua frente, o envolvendo em meus braços. Uma única lágrima desceu meu rosto. Nick largou o corpo sobre mim e naquele instante eu sabia: mamãe não voltaria para casa, nunca mais.
________
– O que houve com ela?
Papai perguntou ao policial, enquanto o corpo, embalado em um saco preto, era colocado dentro de uma espécie de ambulância.
– Um assalto. Parece que se recusou a dar o que o homem lhe pediu, e ele atirou.
– E o que era?
– Este colar. — O policial colocou a corrente dourada com um coração pendurado na mão de papai. Ele a observou atentamente e em seguida, começou a chorar.
Abracei Nick, evitando que ele visse aquela cena. Eu guardei a minha dor, para cuidar da dele.
Agora
Apertei o colar contra meu peito. Abri o pequeno coração, e dentro duas fotos minusculas: de um lado, eu e meu irmão, juntos, nos raros momentos em que nos abracávamos, e no outro lado, papai. Só hoje eu compreendo que mamãe nunca foi indiferente com a gente. Ela nos amava, do morto torto dela, mas amava. E meu pai nunca foi dependente dela, ele apenas a amava tanto, que não podia se ver sem ela. E ele tinha razão sobre isso; nossas vidas desmoronaram a partir daquele dia.
Papai agora estava com Katherynne ou Katty, como gostava de ser chama. Já eu preferia vadia asquerosa. Até hoje não entendo o que ele viu nela, parecia uma boneca de tanta cirurgia que havia feito, era silicone em todo lugar, Botox e toda aquela parafernalha que uma mulher faz para ficar plasticada. Ela é totalmente o oposto de mamãe: É falsa, arrogante, nada educada e interesseira. Eu e Nick nunca nos conformamos quando papai se casou com ela. Paramos de falar com ele, e a última vez que o vi, ele parecia 10 anos mais velho do que realmente era. Aquela mulher estava acabando com ele, e mesmo assim, ele fazia tudo que ela queria.
– Você tá melhor – Nick disse, parado na porta.
– Entra logo.
– Fiquei preocupado com contigo. Você realmente pareceu que ia surtar.
– Você não me viu surtando ainda.
– Acho que nem quero ver, você já me assusta de normal, imagina em um ataque.
Joguei um travesseiro nele e ele riu, mas eu podia ver a dor por trás daquele sorriso.
– E você, como tá? Nem perguntei como tem sido no colégio pra você.
– Você nunca pergunta esse tipo de coisa, já me acostumei.
– Eu sou uma péssima irmã.
– Realmente, a pior que existe.
Dessa vez nós dois rimos. Momentos assim entre eu e ele eram raros. Desde que nos afastamos de Richard, só tínhamos um ao outro.
________
O celular tocou 5 vezes, mas quando eu finalmente resolvi atender, a ligação já tinha caído. Mas havia uma mensagem na caixa postal. A voz fez eu acordar de uma vez.
Oi, Julie. Aqui é o Richard. Como você e Nick estão? Katty vai fazer o jantar na sexta, e talvez fosse bom se você e seu irmão viessem, como nos jantares de família que costumávamos dar..
Desliguei antes de ouvir a mensagem inteira. Ele está realmente tentando colocar a Katty no lugar da minha mãe? Não pode ser, eu não consigo acreditar nisso. O celular foi parar no chão no mesmo instante. Como eu odiava tudo aquilo. Katty não passava de uma vaca interesseira, explorava meu pai até hoje. Ele está quase sem dinheiro se comparado a quando mamãe estava viva. Ainda bem que ele não pode mexer nem na minha nem na herança do meu irmão. Aliás, isso é algo que eu nunca entendi. Mamãe sempre confio tudo ao meu pai, mas nossas heranças ela deixou terminantemente proibido que meu pai tocasse em algum centavo. Fico me perguntando se de fato ela confiava nele.
Novamente algo estava tocando, mas dessa vez era meu despertador, O ponteiro marcava 5 da manhã. Meu Deus, eu não havia dormido nada.
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