Um Pouco De Sorte, por favor
5 Que comecem as confusões
Notas iniciais
Enquanto revirava minha bolsa a fim de ver se estava tudo em ordem, um papel solto voou para o chão. Minha advertência.
– Droga, eu tinha esquecido disso.
Peguei a primeira caneta que achei, coloquei o papel em um livro qualquer e assinei. Eu já estava acostumada e falsificar a assinatura da minha mãe. Faço isso desde que ela morreu. Me levantei, ainda precisava me arrumar. Coloquei minha bolsa jogada na cama, ainda desarrumada e comecei a caminhar em direção ao banheiro, mas assim que pisei senti meu pé quase quebrar algo. Por muito pouco meu celular não foi esmagado. Quando o peguei do chão, tive vontade de tacar ele novamente. Ele nem sequer ligava mais. Coloquei o aparelho na mesinha do lado da minha cama, e fui para o banheiro, dessa vez sem interrupções.
O banho fora demorado novamente, mas dessa vez, sem meu irmão para me atrapalhar. Alias, até agora eu não tinha ouvido nem sinal dele. Saí do banho na mesma hora, me vesti e corri até a cozinha. Nada. Procurei nos outros cômodos, sala, quartos, garagem, nada de Nick. Pensei em ligar para ele, mas lembrei que estava sem telefone. Minha esperança naquele momento é que ele já tivesse ido para o colégio. Mas de qualquer forma, ainda estava cedo demais para isso. Voltei para o quarto, e peguei minhas coisas e fui do jeito que estava.
– Cadê, o meu, carro?
Falei quase soletrando. Deixei minha bolsa junto com o resto cair sobre a calçada.
– Nick! Você tá ferrado.
Como eu pude achar realmente que eu e ele teríamos uma trégua? Olhei no relógio em meu pulso. Atrasada, ótimo.
– Vai estudar na rua hoje?
Estava tão nervosa que nem reconheci a voz.
– Você é a pessoa que mais me ignora, sabia?
Quando olhei para trás, tive a certeza de que meu dia não poderia ficar pior.
– Qual o seu problema comigo, garoto?
– Eu é que pergunto.
– Você ta em frente a minha casa e me irritando, só pra variar.
– Eu só achei estranho você parada na rua igual uma mula, sendo que está atrasada — Jeski olhou ao redor como se procurasse algo – Deixa eu adivinhar, seu irmão pegou seu carro?
– Sai daqui.
Peguei minhas coisas do chão, mas ele continuava ali.
– Se você for um pouco mais educada, eu posso te dar uma carona.
– Nem que fosse caso de vida ou morte – Falei e comecei a andar, Eu não sabia para onde exatamente estava indo, não dava tempo de chegar a tempo na escola, não a pé pelo menos.
– Para de ser teimosa, não to oferecendo um tratado de paz entre a gente. Só estou te dando a chance da sua situação não ficar ainda pior com o diretor.
Ele tinha razão. Odiava admitir isso, mas ele tinha. Minha ficha com aquele diretor já estava bem suja, não precisava mais dessa. Dei meia volta e fui até ele.
– O que você quer?
– Como assim?
– Não se faça de idiota. Você não está me oferecendo carona porque é uma boa pessoa.
– Tem razão. Mas seria interessante se você me devesse um favor.
Olhei novamente meu relógio; eu não tinha escolha. Subi na garupa da moto e Jeski não me deu nem tempo de me ajeitar, quase perdi todo meu material enquanto ele jogava a moto de um lado para o outro na rua.
– Já tenho experiencias de quase morte demais com você, então vai com calma.
– Você quer ou não chegar a tempo? — Ele disse, virando a cabeça para tras e dando aquele sorriso.
– Você poderia parar com esse seu sorrisinho.
Ele fez de novo, dessa vez para me provocar.
Chegamos poucos segundos antes de dar o horário. Eu já estava me levantando, aquela voz atravessou meus ouvidos de novo.
– Fica me devendo uma.
– Não precisa ficar me lembrando.
Sai correndo direto para a aula. Na verdade eu nem sabia qual era a sala, só queria ficar longe dele.
O tempo passou tão rápido que nem percebi que já estava na última aula daquele dia. Sem comentários idiota, sem confusão. Era apenas um dia normal, como deveria ter sido os outros. Mas algo estava estranho; o diretor disse que se eu não trouxesse o papel assinado, nem entraria na escola, e até agora não o tinha visto. E nem o meu irmão. Milhares de idéias passaram pela minha cabeça, mas nada comparado ao que realmente tinha acontecido.
– Senhorita Aegles?
Olhei diretamente para a silhueta parada na porta. — A moça parecia ter seus 40 anos, estava vestida com uma camisa, propositalmente aberta um botão acima da altura dos seios, e uma saia de cintura alta. Era a tipica "secretária sexy". Não rsisti a rir dos meus pensamentos. Foi quando ela me chamou a atenção.
– Senhorita Aegles, guarde suas risadinhas para depois, tenho um assunto sério para tratarmos.
Porque eu tinha a impressão que todos que trabalhavam náquela escola sofriam de falta de sexo?
– E leve suas coisas, duvido que vá voltar.
Acompanhei a moça até a sala, que reparei, era do diretor. Porque me trouxe aqui? — Pensei por um minuto – É aquela advertência, não é? Olha eu trouxe.
Comecei a fuçar minha bolsa, tinha que estar ali..
– Poupe-se do trabalho de me dar algo falsificado.
Era o diretor. Mas como ele sabia?
– Traga-o!
Assim que ele mandou, um cara arrastou Nick para dentro da sala.
– Nick? O que você tá fazendo aqui? — Assim que olhei suas roupas, entendi menos ainda – E.. o que aconteceu com você?
– Guarda seus sermões pra outra hora.
– Eu deveria expulsar os dois agora mesmo. Um é vândalo e a outra, uma delinquente.
– Alguém poderia me explicar o que está acontecendo? — Eu disse, podia jurar que estava quase gritando.
– O garotão aqui deve ter mesmo achado que não seria pego. — O rapaz, que mais parecia uma armário de tão grande se intrometeu.
– Do que ele está falando, Nick? — Ele apenas desviou o olhar do meu.
– O seu irmão, estava.. como posso dizer, destruindo o meu carro.
Meu olhar agora intercalava entre o careca e meu irmão.
– Isso é verdade?
Nenhuma palavra. Eu não sabia se estava decepcionada ou com raiva.
– E ainda encontramos isso no banco do passageiro do carro onde ele estava. — O meu carro.
Ele balançou o saco plástico. Era algum tipo de droga, que não fiz questão de reconhecer.
– Nick, você me prometeu.
– Você não é ninguém para me falar o que devo ou não fazer. — Ele estava alterado, mas havia verdade no que dizia — Você chegou aqui e causou a maior confusão com essa mania de bancar a garota durona e com isso estragou a minha chance de ser um garoto normal nessa escola, como sempre acontece. Você fuma que eu sei, bebe. Nunca soube dar o exemplo que mamãe sempre pedia.
– Cala a boca!
Me recusei a chorar, mas ele não precisava ter pego tão pesado.
– Leve-o daqui.
Observei Nick ser levado para fora. Meus sentimentos eram um misto de desespero, ódio e fraqueza. Eu precisava chorar, mas as lágrimas não apareciam. Meu coração estava tão acelerado, que parecia que eu teria um ataque cardíaco. Eu realmente fumava e sempre bebi muito, mas as drogas com que Nick se metia eram muito piores, muito mais destrutivas; sempre que ele consumia algo, ficava completamente fora de si. Não me espantava saber o que ele havia feito com o carro do diretor.
– Ele ainda estava sobre efeito do que usou, releve as coisas que ele disse.
Por um momento, achei mesmo que aquele homem se importava comigo.
– Julie, sei que começamos de uma forma conturbada. Mas peço que não minta novamente para mim e que tente cuidar de seu irmão, ele só tem você.
– Como, o senhor sabe?
– Conheci sua mãe, e devo muito a ela. E sei também do que houve. Sinto muito por ela.
– Eu não compreendo.
Vá para casa e leve seu irmão.
Ele sinalizou com a mão para que eu saísse. E foi o que eu fiz. Não queria mais saber de nada.
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