Segunda feira agora era passado, menos para meu irmão.

- E ai garota do estacionamento preparada para mais um dia no estrelato?

Não hesitei em apontar a faca que eu usara para corta o pão, na cara debochada de Nick.

- Se me chamar assim de novo, não vou me importar de ir pra cadeira.

Pude ouvir Nick engolir em seco, ele havia entendido meu aviso. É claro que eu jamais faria algo contra aquele idiota, ele era a única pessoa que me restava.

Como sempre eu pouco me importava com as leis de transito e seguia rasgando pela rua entre os outros automóveis. Mas teve um em especial que me chamou a atenção.

- Mas quem diria... – falei enquanto olhava fixamente para o cara em cima da moto. – Desgraçado, é agora que você me paga.

- Deu pra falar sozinha agora?

Não respondi a pergunta de Nick, apenas afundei o pé no acelerador, fazendo o motor roncar de uma forma, que todos prestassem atenção, principalmente o motoqueiro logo a frente. Acelerei.

- O que você acha que está fazendo?

Não respondi.

- Droga Julie, para esse carro! — Nick segurou minhas mãos, e o carro girou no meio da rua, parando em cima da calçada. — Não sou obrigado a participar dessas suas loucuras.

Só consegui cair em mim quando ouvi a porta bater. Debrucei sobre o volante, tentando entender porque raios eu só fazia merda.
Cheguei na escola atrasada, como era o esperado. Achei uma única vaga, a pior delas. Estacionei ali mesmo. Peguei a bolsa e num lapso acabei por esquecer as chaves na ignição. Sai em disparada, toda e completamente desajeitada e sem notar a presença de alguém ilustre que passava por ali naquele exato momento. O ar que emanava de mim estava longe de ser sereno, e eu poderia facilmente matar alguém naquele dia. Bastava um simples "Bom dia".

Eu corria, mas o corredor parecia mais extenso do que o necessário. Tentei — sem sucesso — ajeitar a bolsa juntamente com os livros que segurava entre as mãos, mas assim que voltei a olhar pra frente, a visão do inferno diante meus olhos.

- Diretor.

Parei de imediato.

- Venha comigo. — Disse ele, seco e grosso.

Me recusei a dizer algo, lembrei a mim mesma de que o mesmo possuía uma audição invejável. Apenas o segui até a sala e adentrei a ela, sentado-me na mesma cadeira que da ultima vez. Já era a segunda vez que ia naquela sala em dois dias de aula, um péssimo começo. Baixei os olhos para o papel que ele empurrou em minha direção. Uma advertência. Que meus pais ou alguém responsável teria que assinar. Agora sim eu poderia me considerar ferrada. Quem assinaria aquilo pra mim?

- Você pode assistir as aulas hoje. Mas se não trouxer isto assinado amanha, passará o resto da semana sem aulas, querida. Agora retire-se por favor.

- O senhor me odeia.

- Não muito diferente da senhorita em relação a mim, suponho.

Levantei e me coloquei dali para fora. Tinha certeza que se eu respondesse, seria meu fim naquele colégio. Para minha sorte, ainda não havia terminado o período da primeira aula então não havia ninguém nos corredores. Pelo menos eu não seria o centro das atenções.

O sol estampava o céu porém uma brisa gélida soprava esfriando meu rosto e fazia com que fios soltos de meu cabelo voassem de acordo com a dança do vento. A parede fria e dura impactava contra minhas costas vestidas pelo uniforme. O silêncio era a única coisa boa naquele momento, mas para meu desespero o sinal que avisava o fim da aula acabou com ele. No segundo seguinte passos vindos de todas as direções eram captados por meus ouvidos. A manada estava solta, e eu me sentia como o alimento. Permaneci ali, intacta, imóvel, como se a espera do próximo ataque. Meus olhos giravam por toda escola a procura de Nick; mas ao invés disso, tudo que achei foi Jeski, com ar de superioridade, andava mais empinado que bunda de silicone. Era incrível até onde alguém conseguia ser prepotente.

- Achei que não te encontraria, não viva pelo menos.

Meu corpo se ergueu, como um gato prestes a atacar, Nick precisava parar com aquela péssima mania de me assustar.

- Tá querendo se livrar de mim por um acaso?

- Querer até quero, mas infelizmente preciso de ti viva, quem vai fazer meu almoço?

- A padaria.

O sorriso que brotava em meu rosto não era nada amigável, porém vê-lo bem, de certa forma, me amolecia. Disparei a sua frente, mas logo notei sua presença atras de mim. As vezes me impressionava a capacidade de Nick em parecer meu pai. Ele permaneceu a me seguir até ter a certeza de que eu estaria dentro da sala de aula.

Dentro de sala, não podia ser pior. Os olhares pesavam em mim. Podia sentir meus ombros caírem. Mas eu não perderia a compostura. De cabeça erguida segui para o meu cantinho. Até a professora, uma velinha até bem conservada, parecia me olhar diferente. Quando as pessoas querem 15 minutos de fama, com certeza ela não sonham com isso. Eu sequer tinha condições de prestar alguma atenção na aula, ainda mais sendo história. Por favor, quem gosta de história?

O ponteiro do velho relógio, ao centro em cima do quadro liso cheio de matéria parecia não andar; será que até ele tava afim de me estressar hoje? Desisti de ver as horas, baixei a cabeça disfarçadamente, tentando, pela primeira vez naquela – maldita – escola não chamar a atenção, mas foi então que algo chamou a MINHA atenção. De repente vi todos correrem para a janela. Pareciam até crianças querendo ver o circo passar. Quando olhei pela janela, senti meu sangue ferver no mesmo instante. O circo no caso era o meu carro e o palhaço.. até me recusava a lembrar do nome dele.

- MAS QUE PALHAÇADA É ESSA?

Nem percebi que havia gritado. Sai correndo de lá, direto para o estacionamento. Como ele havia conseguido pegar meu carro? Além de idiota, suicida, ainda era ladrão também? Naquele momento eu não queria nada, além da cabeça dele em uma bandeja de ouro. Cheguei lá mais rápido que um corredor de maratona. E lá estava aquele garoto mimado, com o meu carro, dando giros, como se fosse normal. Vou fazer giros com a sua cabeça no meu pé. Eu queria poder fuzila-lo a laser, queria tantas coisas, mas tudo que eu estava fazendo era ficar parada olhando enquanto ele brincava descaradamente.

- Larga esse volante agora mesmo.

Só dava pra ouvir a risada irritante de Jeski. Ele estava fazendo isso para me provocar. Pessoa errada que ele escolhera. Eu corri até o meio da pista onde todo aquele rodeio estava rolando. Me coloquei de frente com a minha fera. Agora seria assim, por cima do meu cadáver. O som dos pneus rasgando no asfalto quase fizeram meus ouvidos rasgarem junto. Fechei os olhos e os apertei. Não, eu não tive medo. Só não queria acreditar que morreria sendo atropelada por um garoto de escola. Abri os olhos novamente e olhei para baixo quando senti o vapor quente do escape envolver minhas pernas. Em contraste meu coração estava gelado.

- Você realmente é maluca, né?

Eu ouvi a voz muito distante, como se eu estivesse tão longe dali. Mas eu sabia que ele já estava fora do carro, e vindo em minha direção.

- Ei, você tá legal? — Ele falou de novo, dessa vez, eu escutei muito bem.

Minha mão se ergueu e em uma velocidade inusitada, se encontrou com o rosto dele, fazendo-o virar pro lado. Até aquele momento, eu não tinha noção da minha força. Na verdade eu queria mesmo é ter dado um soco. Não tive mais nenhuma reação. Nenhuma palavra. Parei ali e fiquei olhando. O meu silêncio era tanto que eu conseguia ouvir os cochichos de todos. Isso já era o suficiente para mim. Minhas pernas obedeceram perfeitamente o comando de meu cérebro – pelo menos dessa vez – e eu simplesmente sai correndo, esbarrando em tudo e todos, apenas tentando me proteger com os braços daqueles que tentavam me segurar. Aquilo era uma verdadeiro pesadelo.
Eu estava tão enfurecida que mal senti quando as lágrimas rolaram sobre meu rosto. Eu sequer conseguia respirar direito de tanto ódio. Meu corpo estava desabado no chão do banheiro, e por mim eu poderia ficar ali para sempre, desde que ninguém me achasse.

- Desculpa! — A voz rouca me atingiu como um choque. Eu sabia quem era, mas me negava a acreditar — Você é uma idiota. — Ele disse com aquele maldito sorriso no rosto que me fez perder a vontade de soca-lo. — Mas eu passei dos limites, como sempre faço.

Olhar para ele foi inevitável, nunca consegui reparar que ele realmente era.. lindo. Preferi continuar quieta, sabia que que se abrisse a boca, diria alguma merda grande.

- Você não quer mesmo falar comigo né? Mas ainda te acho uma idiota.

Eu também te acho um perfeito idiota. Era o que eu queria dizer, na verdade eu queria falar com ele, mas as palavras não saiam. Quando senti o calor de sua respiração se afastar, posso jurar, minhas pernas tremeram. Queria me dar um tapa, e acordar pra vida. O que estava acontecendo comigo? Porque fiquei daquela maneira? Eu devia te-lo matado – mas eu não queria.

As ultimas aulas foram um verdadeiro porre. As mesmas pessoas irritantes e os mesmo comentários. Só queria que aquilo tivesse um fim.

Antes que eu pudesse entrar no meu carro – que havia sobrevivido a toda a palhaçada – alguém me chamou. Mas dessa vez foi diferente, não havia risadinha, e nem "garota do estacionamento". Era apenas alguém me chamando pelo meu nome.

- Julie?

Não sabia se ficava feliz ou preocupada.

- É comigo?

- Bom, por incrível que pareça, você é a unica Julie aqui, então sim, é com você.

Quando me virei pra ver quem era, o susto não poderia ser maior. Como conseguia ser tão, perfeita. O cabelo loira flutuou com o passar do vento, sendo jogado para frente do rosto. O sorriso que ela deixou florescer, era capaz de arrumar a vida de qualquer ser humano. Eu ficara hipnotizada em seus olhos azul da cor do mar.

- O gato comeu sua língua?

Balancei a cabeça, como se quisesse acordar.

- Não, quer dizer... bom o que você quer comigo? — Nem percebi que havia me afastado, provavelmente evitando agarra-la ali mesmo.

- Calma, eu não mordo. Só vim te alertar sobre o meu irmão.

Um ponto de interrogação se formou em minha mente, e antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ela se adiantou na resposta.

- Jeski. Ele é um babaca..

- Pode parar por ai. Que ele é um babaca eu já sei. Não levei muito tempo para perceber isso. E não preciso de ninguém me alertando, sei me cuidar muito bem.

- Não foi o que pareceu quando saiu correndo feito uma menininha assustada no estacionamento. — Aquilo era jogo baixo — Ele tem uma carinha de anjo, mas é um verdadeiro diabo. — Ela continuou, e ainda com o mesmo maldito sorriso, é alguma herança de família isso? — To avisando como uma pessoa que sabe do irmão que tem, toma cuidado. Ele vai te infernizar até ficar satisfeito.

Me recusei a dar ouvidos ao resto.

- Muito obrigado pela consideração, mas eu dispenso. Bati a porta do carro, acelerando.

Quando cheguei em casa, Nick ainda não estava lá. Havia deixado um bilhete avisando que só chegaria mais tarde. Que educado da sua parte irmãozinho. Joguei o bilhete junto com minhas coisas em cima da mesa. Meu corpo foi direto para o sofá, ele estava realmente convidativo.