Um Plano Irrecusável Parte II
13 Amizades
Notas iniciais
Marinette olhava fixamente para Adrien durante a aula de química, enquanto a professora corrigia os exercícios. Desde que chegara ao colégio, não tinha trocado uma palavra com ele e já estava ficando impaciente com aquela situação. Eles não tinham brigado nem nada, mas nos últimos dias tinham se afastado como nunca antes aconteceu. E o que a preocupava era saber que, naquele momento, eles deveriam estar mais unidos do que nunca para lutar contra os novos vilões, procurar alguma pista sobre Gabriel e ainda pensar em quem seria Mayura e o — aparentemente — novo dono do miraculous da borboleta. Além, é claro, de ajudarem um ao outro a enfrentarem as preocupações de suas vidas pessoais. E ainda tinham que enfrentar a nova situação do seu relacionamento, que agora não era mais secreto. Mas não tinham sequer falado uma palavra sobre nenhum daqueles assuntos e, após a quase akumatização de Adrien no dia anterior, Marinette receou que os problemas do loiro estivessem ainda piores do que antes. Ele mal falava sobre o pai, e, pelo que a azulada sabia, Adrien não conversava com Nathalie em sua casa, sentindo-se mais solitário do que nunca.
Ainda com a mente imersa em seus pensamentos, ela olhou para o lado, observando que Chloé e Sabrina tinham voltado a se falar e sentiu-se muito feliz por isso, apesar de sua aflição em relação a Adrien e os noivos vilões que estranhamente não apareciam há alguns dias.
Na hora do intervalo, Marinette e Adrien trocaram algumas palavras, mas não sobre os assuntos que precisavam conversar.
— Então pelo visto a conversa com a Chloé foi ótima ontem. — O loiro comentou, observando Sabrina e a filha do prefeito conversando.
— Bom, tirando a parte de que eu quase fui expulsa do hotel por um segurança bizarro, é, a conversa foi boa. — Ela riu sem humor. Sentiu que as confissões de Chloé eram pessoais demais para que contasse a alguém.
— Então vocês duas são amigas agora?
— Por incrível que pareça, sim.
— Uau! Achei que esse dia não chegaria. — Falou e os dois riram.
Porém, depois disso, um estranho silêncio surgiu entre eles. E não era um silêncio reconfortante. Isso foi estranho para ambos. Sempre tinham algo para conversar e, quando não tinham e o silêncio reinava, era sempre algo confortável que rendia belas lembranças depois. Mas agora estava extremamente desconfortável para Adrien e Marinette permanecerem ali, sem falar nada, não porque não quisessem, mas porque não conseguiam.
Ela sentia que não era um local seguro para conversar sobre akumas, Hawk Moth e Mayura, além, é claro, de sentir que não deveria preocupar o namorado — que parecia já ter preocupações o bastante — com os seus problemas e receios.
Ele, ainda em seu dilema de não conseguir compartilhar o que estava sentindo com ninguém, sem saber exatamente o porquê. A solidão em sua casa parecia aumentar cada vez mais, embora tivesse sentido que Nathalie, na noite anterior, tivesse lhe dado um pouco mais de atenção. E ainda tinha, é claro, o fato de ele quase ter sido akumatizado na manhã anterior. Sabia que, como Kagami tinha dito, aqueles sentimentos guardados não lhe fariam bem e sua quase akumatização provou isso. Ainda não entendia por que razão o akuma e o amok se purificaram sozinhos e saíram dele sem que pudesse sequer ouvir a voz do novo Hawk Moth e de Mayura em sua mente. Queria falar com Marinette sobre isso, mas, ao lembrar do desespero dela na biblioteca, sentiu que aquele era um assunto delicado.
— Bom… então… eu… vou ali falar com as meninas, tá? — Marinette disse, um pouco sem jeito ao quebrar aquele silêncio esquisito.
— Tá bom… — O loiro respondeu, imerso em seus pensamentos.
Logo, a azulada estava conversando com Alix, e Adrien, com Nino.
— Eu ainda não consigo acreditar que o… você-sabe-quem é o… você-sabe-quem e que você é a você-sabe-quem e que tipo… vocês estão juntos! E que todos os meus ships favoritos são reais e são a mesma coisa! — A garota comentava animadamente, mas percebeu que Marinette nem lhe dava atenção, observando Adrien de longe. — Ah não, tá na Adrienlândia de novo!
— Desculpa, Alix, é que eu… — Ela suspirou. Não tinha desculpas para inventar e, na verdade, já estava cansada daquilo. — Ok, preciso de um conselho seu.
— Vai lá e fala pra ele o que você sente. Ah, não, espera, já passamos dessa parte. — Elas riram.
— Na verdade, até que esse conselho vai servir para o momento. Mas você sabe que eu nunca consegui seguir conselhos, né?
— Isso aí é verdade… — Alya falou, aproximando-se, e as duas amigas riram.
— Vai ficar aí falando em códigos ou vai contar pra gente? — Perguntou a garota dos cabelos rosas. Marinette sentou-se em um degrau e pediu que Alix e Alya fizessem o mesmo. — Ih… o assunto é sério. — Elas riram novamente.
— Bom, basicamente, é uma mensagem que eu mandei pra Alya há alguns dias…
— Qual delas? Você sabe que manda tanta mensagem que meu celular chega trava, né? — Todas riram.
— Aquela que eu falei que estava me afastando das pessoas sem querer que isso acontecesse. Uma dessas pessoas foi o Adrien. As coisas ficaram tão estranhas entre a gente esses dias… Quer dizer, não brigamos nem nada, mas mal estamos nos falando, mesmo que a gente saiba que temos muito o que conversar. Tipo… agora mesmo ficou um silêncio bizarro entre a gente, não aquele silêncio fofo, mas um silêncio esquisito mesmo, sabe? Aí eu saí de lá de um jeito mais estranho ainda.
— Ok… se eu entendi bem, você acabou de confessar que só está falando com a gente agora porque estava sem assunto com seu namorado. Que amiga, hein! — Alya falou, brincando, e as três riram. — Mas, falando sério agora, na época que você mandou a mensagem você realmente estava estranha, distante de todo mundo… E, mesmo que pareça que você voltou ao normal, eu estou sentindo que você ainda não resolveu o problema daquela época…
— Como você…
— Pra sua sorte, ou melhor, para o nosso azar, eu também estou com alguns problemas de relacionamento, então vamos poder chorar juntas enquanto assistimos a um daqueles romances água com açúcar insuportáveis que você gosta…
— Alguém falou em romances água com açúcar? — Rose disse, acompanhada de Juleka e Mylène.
— Hum… sabem o que isso significa? — Alya perguntou, com um sorriso sugestivo nos lábios.
— Festa do pijama! — As meninas responderam em coro.
— É sério isso? Quantos anos a gente tem? — Marinette comentou, fingindo um semblante entediado.
— Ah, para de fingir, eu sei que você ama nossas festinhas… — A morena comentou.
— Você me conhece tão bem que chega a ser bizarro. — A azulada falou e, ao olhar para Chloé e Sabrina, teve uma ideia. — Tudo bem, vamos fazer a festa do pijama típica de garotas de 11 anos, mas hoje teremos duas convidadas especiais… Ou melhor, três!
***
— Duvido que a Chloé, a Sabrina e a Kagami venham… — Alya comentou enquanto ajudava Marinette e as amigas a levarem os lanches para o quarto.
— Hum… sinto cheiro de aposta. — Rose falou.
— Ah, não! De jeito nenhum eu vou apostar com você de novo e arriscar perder meu unicórnio de pelúcia favorito! — Disse Alix, fazendo as amigas rirem.
— Ok, é oficial, temos 11 anos! — Marinette exclamou e todas riram novamente.
Porém, para a surpresa de todas, o toque da campainha anunciou a chegada de Chloé, Sabrina e Kagami.
— Ufa! Ainda bem que não apostamos! — Alix falou e Rose lhe lançou uma careta.
— Sério que vocês acharam que Chloé Bourgeois ia perder uma festa? — A loira comentou, animada, e todas sorriram.
***
Adrien jantava sozinho na enorme mesa de sua casa, percebendo que já deveria ter se acostumado àquele silêncio que insistia em pairar sobre o local. Mas, ainda assim, sentar-se à mesa sozinho trazia-lhe uma sensação horrível.
Ele foi surpreendido pela chegada de Nathalie. Ela recordou-lhe seus próximos compromissos e, quando estava prestes a sair — e quando Adrien já tinha se acostumado ao fato de que ela só lhe dirigiria a palavra para isso, como sempre acontecia — Nathalie voltou-se para o loiro.
— Você… está bem? Como foi a escola hoje? — A mulher perguntou, querendo entender a razão das emoções negativas extremamente fortes que havia sentido no dia anterior, embora não tivesse esperanças de que Adrien lhe contaria alguma coisa. Ainda sentia-se mal por quase ter akumatizado o garoto, pois por pouco teria descumprido a promessa que tinha feito para si mesma.
Adrien estranhou a pergunta repentina, mas tentou respondê-la.
— Estou um pouco cansado, semana que vem será semana de provas… — Disse, o que não deixava de ser verdade.
— E… a sua namorada? Faz tempo que ela não vem aqui… — Nathalie comentou, imaginando que talvez a razão dos sentimentos negativos tinha sido uma briga entre o casal. Mas também tinha certeza de que Adrien não compartilharia muito com ela e não o julgava por isso, afinal ela mesma tivera várias chances de se aproximar do garoto e ajudá-lo a ter pelo menos uma pessoa para conversar naquela casa, mas nem isso fizera.
— Ela está… bem, eu acho. Estamos um pouco afastados, mas tenho certeza que vamos resolver isso… — Ele falou, um pouco sem jeito. "Que droga! Eu fiquei um tempão esperando que alguém resolvesse conversar comigo e, quando acontece, é assim?", pensava.
— Espero que fique tudo bem entre vocês… — Nathalie pigarreou e saiu do local, um pouco sem jeito também. Mas tinha esperanças de que talvez aquele fosse um começo. Talvez, em pouco tempo, aquela casa não estivesse tão silenciosa.
Olhou para o garoto enquanto ele caminhava até seu quarto, sentindo um misto de pena dele e culpa. Sabia que, quando Gabriel estava lá, ele não dava muita atenção para o filho, na verdade, momentos entre os dois eram bem raros. Naquela época, Nathalie já sentia que o garoto sofria com aquela falta de carinho em casa.
Agora, com o pai sendo considerado um fugitivo, nem conseguia imaginar o que Adrien estava sentindo. Gabriel o abandonara em troca de quê? Duas jóias mágicas? Em troca de poder? Claro que o loiro não sabia que o objetivo do pai era trazer Emilie de volta, mas será que isso compensaria toda a dor que o menino deveria estar sentindo agora? Abandono, solidão, tristeza e incompreensão. O que ela havia sentido quando quase o akumatizou. Ainda não conseguia entender como ele lidava com aquilo diariamente. Suspirou, perdida em suas indecisões. Se trouxesse a mãe dele de volta, talvez Adrien finalmente fosse feliz. Mas, para isso, Nathalie teria de arriscar machucá-lo e isso a fazia sentir um aperto no peito.
***
Em seu quarto, Adrien conversava com Nino através de uma chamada de vídeo. O loiro até sentia-se um pouco mais aliviado após compartilhar com o amigo a distância entre ele e Marinette naqueles últimos dias, sem nenhuma razão aparente.
— Eu também tô meio brigado com a Alya, mas daqui a pouco a gente se resolve, que nem você e a Mari, relaxa. Mas vocês precisam conversar, cara. Ela não vai adivinhar o que você está sentindo, assim como você não sabe o que ela está sentindo… Tenho certeza que vocês vão se resolver.
— Tem razão… Vou falar com ela.
— Olha só, eu te dando conselhos amorosos… quem diria? Lembra daquela vez que você me disse que a Marinette nunca se apaixonaria por uma estátua? — Os dois riram com a lembrança.
***
— Verdade ou desafio? — Perguntou Alya.
— Desafio. — Escolheu Kagami.
— É verdade que você e aquele garoto novo da esgrima…
— Eu pedi desafio!
— Eu desafio você a dizer a verdade! — A morena falou e todas riram.
— A gente tem quantos anos mesmo? — Sabrina brincou e elas riram novamente.
A noite passou com diversos jogos, conversas e risadas entre as amigas. Marinette nunca tinha visto Chloé rir tanto, prometendo a si mesma que iria incluí-la em todos os próximos encontros das amigas, assim como Sabrina e Kagami.
Logo, o assunto que pareceu ter sido o motivo daquela reunião veio à tona, e as meninas comentavam sobre seus relacionamentos. Todas estavam curiosas para saber como Marinette e Adrien tinham começado a namorar e a azulada contou o máximo que pôde.
— Então, espera, se eu entendi direito, você e o Adrien começaram a sair menos de uma semana depois que você e o Chat Noir terminaram? Você supera muito rápido, qual o segredo? — Sabrina comentou, rindo. Então Marinette resolveu contar, afinal não fazia mais sentido esconder aquilo, na verdade, ela sentiu que nunca devia ter guardado aquele segredo das amigas.
— Eu e o Chat Noir não estávamos juntos naquela época… — Todas, exceto Alix, ficaram boquiabertas. — Nós fingimos que estávamos namorando para ver se ele conseguia alguma coisa com a Ladybug e para ver se eu conseguia algo com o Adrien.
— Marichat não era real? Minha vida é uma mentira! — Rose comentou e todas riram.
— Marinette, mulher! Você estava vivendo um romance clichê de namoro falso e não contou pra gente! A amizade acaba aqui! — Alya falou, fazendo todas rirem.
— Não foi totalmente clichê, ela o Chat não ficaram juntos. — Comentou Juleka. "Sabe de nada…", pensou Marinette, rindo sozinha.
— Vocês ficaram? — Mylène questionou ao ouvir o risinho da azulada.
— O quê? Não!
— Ah, qual é, Marinette? Você tinha, desculpa o trocadilho, um gato daqueles no seu quarto e vai me dizer que nunca aconteceu nada? — Kagami perguntou, arrancando risadas das amigas.
— É… bom… — Marinette sentia suas bochechas ruborizarem.
— Ih… acho melhor não tocarmos nesse assunto, hein? — Falou Chloé, fazendo as meninas rirem novamente.
— Então o plano deu certo, né? Você e o Adrien estão juntos… Será que deu certo pro Chat Noir também? Já pensou se Ladynoir é real e ninguém tá sabendo? — Rose falou.
— Quem sabe… — Marinette e Alix trocaram sorrisos cúmplices que as outras meninas não perceberam.
— Mas gente, eu ainda estou chocada que você e o Chat fingiram aquele tempo todo… — Sabrina comentou.
— Isso é muito história daqueles filmes que a Rose tanto assiste… — Disse Juleka.
— Falando nisso… — Alya falou, apontando para a televisão. — Em homenagem à Marinette e ao Chat Noir, iremos assistir a filmes clichês de relacionamento falso!
— Ah não! — Falou Alix, atraindo os olhares das amigas — Vai me dizer que é aquele filme que a mulher vai ser deportada pro Canadá, aí ela fala que vai casar com o assistente dela pra isso não acontecer, mas eles acabam se apaixonando? Ou é aquele que a menina escreve um monte de cartas pros crushes dela, incluindo o namorado da irmã dela, mas aí as cartas acabam sendo enviadas e ela tem que fingir que namora um garoto da escola por causa namorado da irmã lá, mas ela e o "namorado falso" se apaixonam mesmo? Ah, já sei! É aquele que o cirurgião plástico usa uma aliança falsa e uma história triste pra encantar as mulheres até conhecer uma que ele finalmente acha que vai ser sério, mas a mulher entende tudo errado e ele inventa uma história de que está se divorciando e chama a amiga dele e os filhos dela pra participar da mentira, mas ele se apaixona pela amiga? Eu já vi esses um milhão de vezes! — As amigas encararam Alix, surpresas.
— Ué, pensei que você não gostasse desses filmes… — Marinette comentou e todas riram.
Aquela noite ainda rendeu muitas gargalhadas e conselhos das amigas de Marinette. E ela estava decidida a segui-los e a acabar de vez com aquele clima estranho entre ela e Adrien o quanto antes.
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