Notas iniciais
E depois de semanas... Eu retorno com outro capitulo.

O palácio das cinzas era muito maior do que eu podia supor composto por vários corredores e escadarias e tuneis subterrâneos. Era nos tuneis onde ficavam trancados os inimigos da rainha, encontrei enquanto buscava pela saída um casal que não reconheceria se eles não tivessem me chamado ao me verem passar, voltei ao escutar meu nome naquele tom rouco e fraco. Encolhidos no canto afastados da grade estavam o Sr. e Sra Cellini, pais de Leonel.

— O que faz aqui? – perguntou a senhora Cellini engatinhando para perto das barras de metal.

— Me perdi – respondi – Estava tentando sair do palácio, mas não achei a saída e vim parar aqui de novo. Este lugar é imenso.

— Para quem desconhece os labirintos é fácil de perder – respondeu o homem pequeno de olhos azuis como os do filho – Mas pode nos tirar daqui antes de continuar seu caminho?

Assenti, por experiência própria sabia que aquelas grades eram á prova de magia, felizmente as chaves não estavam tão bem guardadas quanto se deveria. Abri as portas de todas as celas com prisioneiros mesmo alguns deles realmente parecendo perigosos demais para ficarem soltos. Os guiei para onde sabia que ficava a saída daquele lugar subterrâneo avisando que depois dali eu não sabia para onde ir.

— Por que tantos gatos aqui? – questionou um prisioneiro olhando para os gatinhos adormecidos espalhados pelo corredor, assustado.

— São os guardas.

— Transmutou os guardas em gatinhos? – a senhora Cellini olhou para eles com preocupação.

— Eram gatinhos ou sapos. Sapos são nojentos. Não se preocupe com eles, quando acordarem estarão em forma humana novamente.

Os prisioneiros de minha irmã felizmente conheciam aquele lugar um pouco melhor do que eu, eles aparentemente estavam presos por traição á Rainha, não eram todos bruxos, alguns eram moradores de povoados de não-bruxos, um deles vinha de Callesta e não me contou coisas boas sobre a situação das outras aldeias de Risveglio. Fadas andavam livremente por todos os lados se alimentando de magia e quando não encontrava isso se alimentavam das pessoas. Nenhum lugar era mais seguro e grupos de rebeldes se formavam por toda a parte, mas quando alguém ousava agir contra a tirania da rainha, ela contra-atacava impiedosamente deixando que as fadas punissem seus inimigos. Os que não eram dados ás fadas iam parar ali nos calabouços para serem torturados até darem informações sobre qualquer coisa que Verbena julgasse útil.

— Aquela mulher ultrapassou os limites da loucura – comentou uma garota com ferimentos de queimadura pelo rosto que devia ter sido lindo antes de minha irmã a tocar – Pirou muito depois que a Imperatriz do Escuro se nomeou.

— Pelo menos a falsa rainha focou sua ira na Imperatriz nos deixando sossegados para morrermos.

— Não vamos morrer – afirmei sem convicção – Pelo menos não todos nós.

— Se ela nos pegar aqui, vamos com certeza.

— Se Verbena vier terá que lidar comigo – disso sim eu tinha certeza.

— A saída fica por aqui – disse o prisioneiro que estava nos guiando – Mas deve haver guardas lá fora e não sei se tenho forças para lutar.

Andamos mais alguns metros por um corredor escuro e mofado até chegarmos á uma porta que estava trancada.

— Tem certeza que está é a saída?

— Era da última vez que verificamos, usaríamos esta passagem caso precisássemos de um plano de emergência.

— Só por curiosidade, há quanto tempo foi isso e alguém verificou se havia mesmo uma passagem aqui? – questionou a garota com queimaduras.

— É claro que sim, ninguém planeja invadir um palácio cheio de guardas sem uma rota de fuga de emergência.

Eu devo ser a única pessoa que faz isso, por que nunca imaginei uma rota de fuga quando resolvi enfrentar Verbena, na verdade acho que nunca pretendi sair com vida deste lugar. Pedi que se afastassem e usei as sombras para criar uma saída, um buraco negro na parede por onde todos passaram e quem diria que realmente nos colocaria do lado de fora. Mas a alegria não durou muito, logo sons de asas chegaram aos nossos ouvidos e fomos cercados por gárgulas pedregosas de faces terríveis. Por que nunca é fácil?

— Majestade – a gárgula estranhamente familiar que se curvou diante de mim me entregou meu cajado que eu tinha deixado...

Céus, no quarto da pousada onde dormi com Dylan em um passado que me parecia ter ocorrido anos antes.

— Como isso chegou às suas mãos? – perguntei antes de pegar o que era meu.

— Estava em poder de um jovem irlandês capturado alguns dias atrás, fora Linnett quem disse que devia retornar para suas mãos, majestade.

Yvel! Esse era o nome da gárgula. Fora o mesmo que me recebeu quando cheguei ao palácio das cinzas. Só que ele parecia mais tenebroso quando o vi pela primeira vez. Agora parecia exausto.

— Yvel, pode ajudá-los a sair daqui? – perguntei apontando para os muros distantes.

— Posso sim, mas há súditos leais á aquela que se fez rainha, e eles não hesitarão em matar por ela.

Olhei para os prisioneiros, eles afirmaram que era melhor morrer lutando pela liberdade do que morrer trancado esperando pelo pior. Pedi aos pais de Leonel que informassem aos meus irmãos que estava tudo bem comigo e que logo eu devolveria Andreas para a família.

— E diga ao Leo que estou muito brava por ele ter usado Andreas como isca.

Então a expressão deles mudou, medo e tristeza com algo de desespero.

— Vocês foram presos por causa dele, estou certa?

— Conhece seu amigo, Morty, ele está sempre á um passo do abismo. Não sei o que ele estava fazendo, mas deixou Verbena muito zangada e como não conseguiu achá-lo ela nos prendeu – contou a mãe.

— Se meu filho ainda tem o mesmo espírito de aventura de quem faz idiotices sem pensar antes de agir, acreditamos que ele tenha vindo atrás dela e bem, Leo tem seus meios ilegais de fazer as coisas certas – completou o senhor Cellini.

Leo pode ser bom em escapar de problemas fatais no último instante, mas não sei até onde a sanidade de Verbena pode ter sido prejudicada.

— Se ele ainda estiver vivo, vou achá-lo – disse me arrependendo no segundo seguinte quando a senhora Cellini começou a chorar, não devia ter dito “se ainda estiver vivo”.

Voltei para dentro enquanto Yvel os tirava dos limites do palácio. Comigo viera a garota de rosto queimado que disse ter coisas para resolver com a rainha e se eu ia matá-la, ela queria ver pessoalmente para ter certeza que Verbena não daria um jeito de escapar. Não perguntei o que Verby fizera á ela, assim como não comentei que a rainha era minha irmã e que eu não tinha intenções de matá-la. Encontrar alguém naquele lugar era um tanto que difícil demais, e ao passar pelos guardas transmutados em gatinhos tive uma ideia, uma daquelas insanas e muito eficazes. Estendi o cajado para eles e pedi que me guiassem por aqueles corredores até encontrar quem eu procurava. As sombras dos gatinhos se levantaram e seguiram por um corredor que nos levou á uma escada. Muitos corredores e escadas e portas depois, achei Leonel. Ele estava preso ao chão por estaca cravado nos seus braços e pernas. Estava desacordado.

— Lamento – disse a garota cobrindo a boca e fazendo careta de quem vai vomitar.

— Me ajude aqui – pedi fazendo esforço para ignorar todo aquele fedor de sangue.

Descontente, a garota me ajudou a tirar as estacas que prendiam meu amigo e ficou chocada quando usei o cajado para fazer um corte na lateral de minha mão e apertar o ferimento contra a boca de Leonel. Quando ele abriu os olhos, e começou a se regenerar foi que ela entendeu.

— Ele é um...

— É – afirmei afastando a mão da boca de Leo.

— Seu sangue é muito ruim – ele disse se apoiando em mim para ficar em pé – Mas agradeço.

— É sangue, o gosto tem que ser ruim mesmo. Consegue andar?

— Sim, só preciso me recuperar e de um pouco de sangue.

Os olhos dele recaíram sobre a garota que se escondeu atrás de mim sem, contudo, deixar de observá-lo.

— Não fique nervosa, não vou beber de você – disse Leo – Só estava imaginando o que Verby queria de você para deixá-la assim.

Ela apalpou o rosto e baixou a cabeça, tentando agora esconder seus ferimentos. Os olhos de Leo parecia os de uma pessoa esfomeada se controlando para não comer qualquer coisa de origem desconhecida.

— Vamos indo – pedi entregando meu cajado para Leo se apoiar.

— Como me achou? – ele perguntou – Passei horas procurando você e meus pais, mas fui encontrado por uma marionete que tinha sua aparência.

— Quando cheguei aqui fui recepcionado por uma desses também, mas aquele tinha aparência de outra pessoa. Seus pais estão fora daqui, mas não sei se estão seguros ou bem. E sobre como te encontrei, pedi socorro ás sombras.

Leo não se importou com aquilo, reclamou apenas de que eu demorei muito para salvá-lo e que eu era a pior heroína da história dos heróis. Depois me atualizou sobre os acontecimentos recentes. Leo estava entre um grupo de bruxos de uma aldeia de Risveglio e quando me Anunciei como rainha das sombras eles baixaram a guarda pensando que talvez Verbena recuasse, mas ela atacou. Leo e muitos outros fugiram, e para atraí-lo fora de seu esconderijo, minha irmã fez os senhores Cellini prisioneiros. Funcionou.

— Não acredito que fez isso, sabia que era uma armadilha e veio tentar socorrê-los mesmo assim.

— Me conhece, Morty, tenho um fraco pelo perigo.

— Suas fraquezas te matarão um dia.

— Relaxa Morty, enquanto você gostar de salvar donzelas em perigo, eu sei que estarei sempre bem.

Ignorei o comentário final de Leo, apesar de ele estar tentando ser engraçado o que já era naturalmente muito esquisito por que o senso de humor dele costuma ser um pouco mórbido demais, ele estava errado. Eu não precisaria “salvar” as pessoas se eu não as colocasse em perigo. Nos separamos para encontrar Andreas mais rapidamente e sair daquele lugar antes que Verbena nos encontrasse, ou na minha versão omissa que esqueci de falar para Leo e Sofia – a garota de rosto queimado –, eles irem atrás de Dylan que estava preso em algum lugar onde Verbena o mantinha, segundo informações das sombras. E eu estava seguindo atrás de Andreas que estava junto de Verbena e seus novos amigos ladrões de magia, as fadas.

...

O salão era imenso e tinha muitas velas acesas, o cheiro de cera queimada era sufocante. Ao entrar vi um extravagante arco no meio do salão, ladeado por velas. Segui pelo corredor por onde as sombras dos gatos iam, o caminho formava uma curva e depois de olhar que outros corredorezinhos feitos com velas eram igualmente curvas e que iam de encontro com espelhos-portais, compreendi que o desenho formado ali era um imenso espiral. Aquele era um salão de feitiços poderosos. Quando cheguei ao centro, onde ficava o fim do corredor e o núcleo do espiral, atravessei o portal em forma de grande arco.

Me senti completamente estranha ao atravessar o portal. Olhei para os lados e tudo o que eu via era infinidades de corres berrantes, árvores florescendo e grama verde. Casas exuberantes ainda que um pouco remontadas, como se tivessem construído uma sobre as outras deixando que elas se equilibrassem sozinhas. Meu corpo ficou de repente mais leve e minhas roupas sujas e rasgadas pareciam novas. Onde é que eu fui parar? Andei um pouco, e resolvi pedir informações batendo na porta de uma casinha verde muito clara com um jardim incrivelmente florido. Quem saiu á porta foi uma mulher de belíssima aparência e cabelos cor-de-rosa. Recuei quando a vi, do mesmo modo que ela o fez o ver o que eu era.

— Fada! – murmurei

— Bruxa! – ela disse.

— Lamento, mas atravessei um portal em busca de uma criança de meu sangue – falei soando mais firme possível, se estava em terras encantadas das fadas eu podia nunca sair dali – Viu algum bruxo-menino por ai?

Ela apontou para além da estrada direcionando lentamente para uma colina de onde se podia ver torres pontudas. O palácio das fadas, claro. Gesticulei um agradecimento e corri para a colina. Nem todas as fadas são inteiramente más, são como nós bruxas e nós bruxas somos como os humanos. Somos bons, gentis, altruístas, pacíficos e somos capazes de amar, tanto quanto somos maus, rudes, egoístas, revoltosos e capazes de odiar profundamente. É claro que eu pessoalmente nunca cruzei o caminho de uma fada boazinha de tal modo que não aprendi á gostar delas. Existe no mundo-mágico um reino somente para as fadas, regido por um rei e uma rainha, assim como existe um reino para bruxos ou um para os elfos ou um para sereias. As leis dessas criaturas são severas e não me admira que os regentes das fadas se aliem com Verbena – afirmando minha opinião de que fadas são malignas. O palácio das fadas era exuberante, cheio de torres altas com muitas janelas e bandeiras coloridas esvoaçantes ao vento.

Não tinha certeza de como ia entrar ali quando notei que não tinha portas e as janelas eram um pouco altas demais. É claro que eram, fadas voam. Por que vão ter portas na altura do chão se tem asas para entrar por cima? Parei olhando para a janela mais baixa que devia estar á uns cinco metros de altura, como eu ia escalar aquilo? Então um homem altivo surgiu naquela janela, me olhou com indiferença e fez um movimento com a mão, no segundo seguinte eu estava ao lado dele.

— Majestade – disse em tom seco – Nós esperávamos por ti.

Nós? Somente então percebi que tinha caído em uma armadilha. Por isso estava tão fácil no palácio das cinzas, Verbena queria que eu a encontrasse e sabia que eu ia seguir o rastro de Andreas antes de ir até ela. Segui o homem de túnica roxa para dentro do palácio que era estranhamente simples, escadas, corredores e portas trancadas. Exceto pela porta em qual entrei e achei minha irmã, meu sobrinho e outras fadas.

— Está atrasada, Morticia – Verbena disse se levantando.

Suspirei, aquilo ia ser difícil.