Um Outro Lado da Meia-Noite
42 Dança com a morte
A rainha das fadas tinha grandes asas vermelhas e transparentes que por alguns instantes pensei que fosse uma capa por estar fechadas e caídas para baixo, mas quando ela se movia percebia-se que aquelas coisas saiam de sua pele que era muito branca, os cabelos verdes eram muito curtos e seus olhos cor de carvão cobriam toda a órbita ocular, apesar da falta de íris e pupila dava para sentir quando ela estava me olhando – quando todos eles olham na sua direção é pior ainda, aquela sala com tantos deles parecia estarem vendo direto em minha alma. O rei feérico não tinha asas, vestia-se elegantemente e tinha aqueles bizarros olhos de cor roxa que combinava com as pequenas marcas tatuadas pelo rosto anguloso. Ambos sentavam-se em altas cadeiras douradas e diante deles todos os outros esperavam em pé. Meu nervosismo de estar ali desapareceu rapidamente, ainda sentia calafrios, mas ignorava as sensações. No meio do que era um semicírculo de fadas estavam Verbena e Andreas, o menino me olhou com algum resquício de esperança nos olhos lacrimosos e senti o ímpeto de mandá-lo engolir as lágrimas.
Por um longo tempo os escutei falar sem me pronunciar, parecia que eu estava em julgamento por meus crimes antes de me tornar soberana. Nunca me dei conta de que eu havia causado tantos estragos e a maior parte deles tinha ocorrido ao longo do último ano começando com a morte de três caçadores na floresta perto de casa até a morte de George no inicio da manhã. Então quando terminaram de falar sobre o que eu havia feito começaram a falar da punição que eu receberia diante da Corte Marcial Sobrenatural que incluía todos os seres racionais do mundo-mágico.
— Diante deste comitê – dizia o rei – Proponho um acordo com Morticia de Gardênia Belaya, empossada Rainha das Sombras. Tornar a atual regente de Risveglio, baronesa-consorte Verbena Zarel Belaya de Quarini Willians a nova soberana das trevas, abrindo mão de todos seus poderes sobrenaturais, recebendo em troca todos os seus crimes perdoados.
Todos me olharam á espera de minha resposta.
— Contudo? – murmurei apreensiva, sempre á um se em qualquer acordo.
— Todavia ao rejeitar a proposta feita será punida por seus atos.
— E qual seria a punição?
— Por todos seus crimes este comitê a sentenciou á morte.
Olhei para meus pés descalços, nunca tinha percebido antes os quão tortos eles são, não que faça diferença, eles são ágeis e isso é mais do que ideal. Abrir mão de minha magia ou de minha vida? Por que as escolhas eram sempre tudo ou nada? Mas eu não estava preocupada, como senhora das trevas, não poderia morrer até que as sombras elegessem outra rainha. Contudo eu precisava de tempo, recentemente descobri que Verbena estava fora de controle e disposta á qualquer coisa, não ia me apressar e correr o risco dela fazer algo inesperado.
— Posso me despedir antes? – perguntei para o Rei – Não quero morrer sem dar aos meus irmãos a chance de dizer adeus.
Mantive-me olhando para aquele homem de aparência austera, mas sentia os olhares confusos sobre mim como se esperassem que eu dissesse que era uma piada para que todos rissem.
— Não vai vencer simplesmente morrendo, Irmã – disse Verbena dando alguns passos na minha direção – Eu sei como essa sua mente doente funciona, Morticia e me preveni para o caso de escolher a morte. Fiz um acordo há alguns dias com Flannie, se você não aceitasse a proposta feita então ela poderia se alimentar da magia de Andreas.
— Quem é Fanny?
— Flannie – disse alguém que me pareceu muito familiar – Sou eu.
Era uma mulher negra na casa dos trinta, tinha cabelos anelados longuíssimos e olhos feéricos verde-escuros, mas a reconheci pela postura, as mãos estavam para trás e os pés juntos como se fosse um soldado.
— Francesca não era bruxa? – perguntei para Verbena.
Agora eu entendia o porquê a criada de minha irmã era tão incomum e por que eu me sentia estranha na presença dela.
— Nunca foi, ela é uma fada muito habilidosa, aliás. Foi de grande serventia para mim ao longo dos anos.
— Você sempre teve uma fada por perto, por isso sempre as defendeu. Mentiu para mim.
É eu disse isso.
— Morticia querida, vamos terminar logo isso. Me dê seus poderes e seu titulo que nosso sobrinho voltará em segurança para sua casa sem nenhuma lembrança do que aconteceu aqui.
Olhei para Andreas, quase podia o ouvir desejando que eu o salvasse de seja lá o que fosse lhe acontecer, mas também ouvia as sombras mudas e imóveis. E era o silencio delas que estava me perturbando, não o choro silencioso de meu sobrinho.
— Andy – comecei procurando as palavras certas e mantendo-me onde estava – Se lembra do que eu te disse quando estávamos presos? Sobre o que Verbena pretende fazer com todo o poder de controlar as trevas?
Ele assentiu olhando para Verbena por um instante e voltando sua atenção para mim.
— Eu não sei o que Francesca vai fazer com você e nem se vai doer. Mas se doer lembre-se de que as escolhas feitas aqui hoje por nós dois foi para manter aqueles que não fazem magia em segurança. Se eu dar á Verbena o que ela deseja o resto de nossa família e as pessoas que conhecemos no outro mundo e milhares de outras que nem sabemos quem são, sofrerão as consequências. Entende isso?
— Tia Verbena quer usar seus poderes para fazer coisas ruins que vai afetar quem não tem magia para se defender – concluiu Andreas me enchendo de orgulho pelo raciocínio.
— E?
— E se a senhora não fazer isso, eles – apontou para o Rei Fada – Vão te matar e eu vou ficar aqui para a Francesca me comer.
— Se alimentar de você não significa que ela vá te comer, mas o resto está certo. Não pense no que vai acontecer comigo e você. Está pronto para fazer um grande sacrifício?
— Promete que o papai e a mamãe e a Dayse e todo mundo ficarão bem?
— Não posso prometer nada, não depende de mim o que acontecerá com eles e também não depende de você.
— Depende de quem?
Dei de ombros. Já estava complicado demais fazer uma criança entender as consequências de ações presentes em coisas que poderiam nunca acontecer, não ia perturba-lo falando sobre algo que eu não compreendia. Andreas pensou por alguns instantes olhando com receio para as fadas, não sei o quanto ele entendia sobre o que estava acontecendo, mas era o suficiente para que ele entendesse que das escolhas que eu tinha, a morte era a que menos causaria caos.
— Se a senhora morrer, tia, o que acontece com seus poderes? – ele perguntou de repente – E se tia Verbena conseguir pegar para ela?
Me surpreendi com aquilo, achei que ele estivesse pensando nos pais e irmã, mas em vez disso ele só estava pensando nas chances de Verbena vencer. Talvez eu tenha subestimado meu sobrinho e a criação que ele recebeu considerando que a mãe é uma antibruxa e o pai só descobriu nossa existência á pouco tempo e por falta de opção no quesito “segredos”.
— Quem escolhe aquela que rege a escuridão são as sombras. Quando eu morrer, eles encontrarão outra bruxa que possa servir as trevas sem ser corrompida. E se a futura soberana for digna desse poder ela fará de tudo para protegê-lo de gente como Verbena.
Ele correu na minha direção e me abraçou. Não precisei de nenhuma afirmação verbal para saber que ele tinha se decidido por se sacrificar, era o certo, ainda que totalmente injusto e inaceitável.
— Não acredito nisso – reclamou Verbena – Como pode ser tão estúpido menino? Nunca mais vai ver sua família e seus amigos, e aceitou isso por que Morticia disse que é o certo? Ela que mata e fere as pessoas?
— Se minha família e meus amigos ficarem salvos e você não virar rainha então eu aceito.
— Onw! Ele pensa como eu, não é uma graça? – brinquei – Lamento Verbena, mas tomamos nossa decisão.
Em segundos ela atingiu um novo tom de vermelho-raiva, pela expressão dela com dentes trincados penso que ela estava se controlando ao máximo para não me atacar ali na frente das suas preciosas fadas.
— Vai deixá-lo se sacrificar? O que houve com a família em primeiro lugar e sempre?
— Minha família ainda vem e sempre virá antes de tudo, há alguns dias quando eu aceitei o titulo real a minha família aumentou. Sou uma rainha, Verbena, mas não rejo um reino com limites territoriais, o povo das sombras está espalhado pelo mundo todo entre as duas realidades. Natural e Sobrenatural. Eles nem tomarão conhecimento do que está acontecendo aqui e agora, não precisam saber, as decisões que eu tomo afetará a vida deles? Sim, afetará. Mas os danos serão mínimos.
— Está sendo boba se pensa que as coisas serão assim tão fáceis. Outros como eu virão e talvez não haja outra como você para deter.
— Nesse caso terei que confiar na capacidade das pessoas em serem heroicas e altruístas. Se houver outra pessoa maluca por poder acredite que haverá outra pessoa igualmente insana para detê-la. Verby, pare de tentar me persuadir. Eu sou uma rainha, morrerei com a dignidade de uma rainha e morrerei feliz sabendo todos nascidos nas trevas estarão á salvo de você.
Soltei Andreas que ainda estava grudado em mim e dei um longo passo na direção do Rei Fada cujo nome eu não sabia e nem me interessava saber.
— Vossa majestade ainda não respondeu minha pergunta. Poderei me despedir de minha família antes da execução?
O rei olhou para o que devia ser o Júri, as fadas olharam umas para as outras murmurando e gesticulando, então uma delas fez um solene gesto de negação. Fechei os olhos, eu queria tempo, precisava de tempo. Infelizmente as coisas nunca saem como eu planejo, e tenho que seguir uma das regras distorcidas de Leonel. Em caso de emergência, improvise. Verbena sempre dizia que havia brechas nas leis, para toda regra há uma exceção, Mort, encontre e use-a ao seu favor quando tudo mais estiver contra você. Foi assim que me convenci que ir para um convento me livraria de qualquer chance de me casar. Penso que sentirei falta de minha irmã-amiga com quem eu podia contar em qualquer situação. Olhei para Verbena e dei de ombros abrindo um sorriso, eu queria chorar, ela foi pega de surpresa quando me joguei em seus braços a abraçando com força. Me despedindo de certa forma.
— Seu castigo será pior que reviver a própria morte inúmeras vezes – sussurrei agarrando o cajado dela.
Verbena tentou tirá-lo de minha mão, dei um chute na barriga dela desequilibrando-a. Girei o cajado tocando seu peito com o rubi.
— Incluam mais um delito á lista – falei ás fadas.
As fadas que por um instante vieram em nossa direção talvez com a intenção de me impedir de feri-la se afastaram. Nervosos. Sabiam o que eu estava fazendo e que não poderiam fazer nada para me parar. Verbena tentava se afastar do cajado, mas não era capaz por que uma vez começada O Selar não pode ser interrompido ou alterado ou anulado. O vestido de Verbena manchou de sangue enquanto seu poder era drenado e a marca escarlate do Trevo Vermelho de Quatro Folhas se desenhava na palma de suas mãos. Nunca pensei em matá-la, é minha irmã. Quando o trevo vermelho se formou ela caiu de joelhos olhando para as mãos. Tremia, chorava e gritou tão alto que a voz desapareceu em um ruído agudo.
— O que fez comigo? – perguntou rouca para mim que estava ofegante, nunca havia feito algo tão perigoso como tirar a magia de alguém.
— Que pergunta besta – falei – Marquei você com um selo classe A. Não pode mais usar magia, não pode sair do mundo mágico, nunca mais verá nossa família do outro lado e se o acaso for justo irá sofrer as consequências de maltratar tantas pessoas.
Ela ficou em pé se lançando contra mim com violência.
— Somno— pronunciei a fazendo cambalear e cair adormecida no chão de brancura impecável – Eu te concedo os mais belos sonhos para que ao despertar conviva com os mais terríveis pesadelos.
A Roda dos Pesadelos é meu feitiço predileto ligado aos sonhos, ela terá delírios, vai perder a noção de realidade e enlouquecer de medo. Eu queria poder fazer algo mais maligno, mas meu conhecimento de maldições é limitado. Infelizmente eu conhecia meus crimes, já tinha sido condenada á morte antes e não tinha alternativas além de aceitar a pena. Não há nenhuma certeza de que as sombras me tragam de volta, afinal ao que eu sei, eles poderia já ter outra rainha em espera. Abracei Andreas e entreguei para ele o cajado de Verbena.
— Se Leo ou Dylan vier o seu encontro, entregue para eles. Saberão o que fazer. Seja forte, Andy. Você é um Belaya.
Agora sim eu não contive as lágrimas, eu chorei, ele chorou e as fadas observavam como se fossemos uma pintura excêntrica. Então me coloquei diante do rei fada e esperei por seja lá como eles iam me matar. Ele puxou de uma armadura ao lado de seu trono uma longuíssima espada de bronze e veio até mim. Decapitação? Que falta de imaginação. Não sei por que, mas consegui pensar apenas que seria capaz de fazer aquilo de modos mais criativos. A espada foi brandida.
— Andreas, feche os olhos, cubra as orelhas e vire-se.
Pelo reflexo da armadura ao lado do trono vi que ele fizera o que mandei. Ergui o queixo olhando para os olhos do rei e senti a dor da lâmina rasgando minha pele antes mesmo do aço me tocar. E quando aconteceu fui abraçada pela escuridão, respirei o ar gélido da morte e aceitei o fim.
☻POV da Autora☺
Andreas se virou vagarosamente para as tias caídas. Verbena dormia encolhida em posição fetal abraçada á si mesma e com um dedo na boca lembrando muito uma criança. Parecia tão inofensiva que se ele não tivesse visto e vivido a maldade dela, teria pedido que a cobrissem para que não sentisse frio ou que a tirassem do chão, mas algo dentro do menino tinha esfriado. Ao olhar para Morticia ele sentiu as lágrimas turvarem a visão, apertou os olhos com força, uma solitária lágrima correu pelo rosto e ele deixou-a secar ali. A espada do rei das fadas tinha perfurado o coração dela e atravessado a costa. Tinha muito sangue e ela estava morta ali na sua frente. Hesitou alguns passos antes de se aproximar e se ajoelhar ao lado dela. Não sabia o que ia acontecer em seguida nem como aconteceria. Então esperou em silencio pelo pronunciamento das fadas.
Uma equipe de fadas entrou no imenso salão, retiraram os corpos enquanto outra equipe limpava o chão manchado de sangue. Andreas seguiu a primeira equipe que levara as tias, mas fora impedido por um guarda que apontou para o lugar que ele estava antes e disse que não tinha permissão para se retirar ainda. Desapontando e assustado, ele retornou para onde estava. O pavor consumia cada fibra de seu corpo e não conseguia parar de pensar que talvez tivesse sido muito idiota em não pedir que Morticia o livrasse daquilo, sua família talvez nunca saberia o que lhe aconteceu. E isso o deixava mais angustiado do que pensar no que as fadas fariam contra ele. Se perdeu em pensamentos que o fazia sentir vontade de chorar e chamar pela mãe, mas seu chamado nunca chegaria até ela no mundo-natural. Quando voltou a se concentrar nas fadas percebeu que quem falava era Francesca, a criada de Verbena, ela falava fazendo gestos e parecia com medo, quem rebatia tudo o que ela dizia era a rainha e a julgar pelo tom de voz, ela estava muito zangada com Francesca. Quando terminou foi que ele entendeu que a fada-serva tinha sido julgada pelo conselho das fadas por ter se rebaixado á servir uma bruxa e compactuar com seus crimes.
— Este tribunal vota pela invalidação de todos os acordos mágicos e não mágicos feitos por Frannie Zatarh assim como opta pelo Banimento a condenando á viver no mundo humano sem direitos á revogação desta decisão – anunciou a rainha em voz alta.
No instante seguinte Frannie foi simplesmente sugada para o vazio desaparecendo. Andreas olhava sem entender o que aconteceu, então a rainha de aproximou dele que conscientemente se afastou.
— Não o machucarei criança – disse ela em tom suave – O acordo que Verbena fizera com Frannie fora desfeito por decisão do júri, o que significa que poderá retornar para casa.
— E minhas tias? – perguntou tremulo
— Verbena será retirada de meu reino, mas não poderá voltar para o outro lado devido ao selo com que a Rainha Morticia lhe marcou. Quanto á Rainha Morticia, você poderá acompanhá-la de volta. Siga Nowa, ele te mostrara o caminho.
Antes que perguntasse quem era Nowa, um guarda de aspecto juvenil se aproximou gesticulando para que o seguisse. Andreas acenou para a rainha que de todos ali era quem parecia menos assustadora, e seguiu o soldado de cabelos prateados.
...
Ele atravessou o portal oval por qual havia entrado no palácio das fadas e se encontrou naquela sala cheia de velas e espelhos. Morticia viera carregada por duas fadas que a deixaram ali antes de retornarem de onde vieram. Andreas correu para a porta e encontrou Leonel, Dylan e uma estranha de rosto queimado.
— Onde está Morticia? – perguntou Dylan.
O menino mostrou-a deitada no espiral perto do portal. Os três já haviam tentado entrar ali, mas a sala era protegida por um feitiço de sangue e nenhum deles era parentes consanguíneo de Verbena que lançara o feitiço, logo, nenhum podia entrar.
— Andreas nos convide para entrar – pediu Leonel.
— Hã, entrem?
Ele mal pronunciou e os dois homens correram para dentro, Dylan tomou o corpo da rainha das sombras nos braços e a levou para um lugar mais confortável. Até mesmo Absol, a jovem de rosto queimado que não conhecia a excêntrica bruxa se sentiu triste ao vê-la naquele estado.
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