Um Outro Lado da Meia-Noite
3 Meus planos
Não é estranho o que as coisas mais insignificantes da vida mexem com sua cabeça?
Sabe quando você está decidida á fazer algo que vai contra todos seus princípios e de repente uma coisa boba e te faz mudar todos seus planos?
Eu tinha planos, desde sempre tive planos e quando um terminava logo eu me colocava a fazer novos planos. Eu sempre planejei viver livre e feliz
Quando minha mãe morreu eu tinha dois anos e sete meses, Magnolia tinha apenas cinco horas de vida. Eu não me lembro dela, nem mesmo tento imagina-la, pois temo trair sua verdadeira aparência, sei que ela tinha idade avançada exatos 46 anos e estava bastante doente devido a sua gravidez de risco. Margarida sempre me descreveu ela com a semelhança de Verbena, embora Narciso dizia que era nossa irmã mais velha quem havia herdado a fisionomia de mamãe. Não sei em quem acreditar já que nunca a vi. Sei apenas que ela amou meus irmãos incondicionalmente e assim teria sido comigo se ela não tivesse partido.
Meu pai havia ensinado Verbena a interagir e controlar sua magia, ela me ensinou e eu cresci decidida á usar meus dons para fazer coisas boas. Então um dia quando ainda tinha doze anos eu vi um ritual macabro na qual pessoas queimavam uma bruxa para libertar sua alma das ações demoníacas que envolviam a magia, nunca mais eu usaria feitiços sem pensar duas vezes antes de agir. Eu por anos conservei meus segredos assim como meus antepassados haviam feito, sempre preservei as coisas boas antes de me deixar levar pelo que podia fazer, sempre pensei no próximo antes de pensar em mim e foi isso que me levou ao convento – e também para fugir de um casamento, mas isso é irrelevante agora. Eu sempre quis o melhor para todos ao meu alcance.
Naquele momento subindo as escadas eu tinha um objetivo, perturbar Magnolia, a torturar lentamente dia após dia, fazê-la se arrepender cada segundo de sua existência por ter me usado como alvo de magia negra, eu ia fazer dela uma sombra perdida, uma criatura que causaria pena até mesmo no pior dos seres, eu faria dela uma refém do seu próprio medo, o que não é difícil se você saber manipular as palavras ao seu favor e eu sabia como fazer isso.
Adentrei seu quarto em silencio e a observei chorando por longos minutos, aquilo não me causou a sensação que eu esperava sentir quando a visse se culpando, ao invés disso eu senti; culpa. Raramente sinto incomodo quando sou responsabilizada por algo e me sentir responsável por algo que não era culpada me deixou confusa e sem ação. Fiquei parada observando o quarto dela que um dia havia sido meu, era grande e claro ela ainda mantinha a cortina de farrapos que eu havia feito e usava para cobrir as imperfeições da parede – vários lugares onde cupins, umidade e tempo haviam destruído. No mais não parecia nem um pouco meu antigo refúgio.
– O que quer comigo? – a voz de Meg me tirou de uma rápida viagem as lembranças do passado que eu fazia.
Dei alguns passos enquanto a cadeira da penteadeira se arrastava até próximo da cama para que eu me sentasse. Adorei a confusão de minha irmã quando ela viu minha demonstração clara de uso de magia, normalmente eu desceria as escadas para pegar uma cadeira ou me sentaria na cama, mas fazer a cadeira se mover quando eu podia carrega-la com as mãos era algo imprevisível de minha parte. Seus olhos estavam vermelhos e para me irritar mais ela não parava de fungar – confesso eu detesto que chorem em minha frente.
– Por que está chorando desta vez? – perguntei com ar inocente, deixando ela ainda mais confusa.
Meg nunca foi capaz de acompanhar minhas mudanças de humor, ela jamais sabia quando eu estava sendo sincera e ingênua ou quando eu estava sendo maldosa e sádica. Em uma definição geral de minhas personalidades mutáveis apenas Verbena era capaz de me ler, ela e Leonel meu melhor amigo de sempre. Meg torcia o lençol da sua cama nas mãos enquanto me fitava ansiosa.
– Eu... pensei que estivesse... você não está zangada por eu ter... hã
Eu dei uma gargalhada bem exagerada balançando minha cabeça.
– Não seja tola Meg querida. Eu já fiz coisa bem pior que desejar ser outra pessoa e viver uma vida que não me pertence. Apenas nunca fui idiota o bastante para usar um feitiço para fazer isso.
Os olhos de Magnolia ficaram cheio de lagrimas e retornou a mexer no lençol, então uma mancha rosada chamou minha atenção, um ponto no pulso dela onde o lençol alvo cobria estava ficando de um tom rubro perturbador, puxei o braço dela ao tempo em que ela tentava fugir de minhas mãos.
– Me solte Morticia – pediu ela chorosa.
Desenrolei o tecido em volta do pulso notando os pequenos cortes que ela estivera tentando fazer, gritei á puxando pelo braço e descendo as escadas. Eu queria a ver se matando, mas não daquele jeito. Mandei a se calar varias vezes enquanto ela protestava e tentava se segurar em qualquer coisa para me obrigar a parar. Descemos até a cozinha onde lavei o pulso dela em uma bacia e peguei cinzas no nosso fogão cobrindo o ferimento, ela se contorceu e esbravejou ameaças. Depois que a soltei deixei que ficasse encolhida no canto se lamentando pela sua vida.
Eu tinha planos únicos e magníficos de tortura, mas agora não sabia o que pensar. Magnólia estava ficando louca em tentar se matar, avaliei minhas opções e a melhor seria não fazer nada, Narciso era nosso irmão e o responsável por nós na falta de nossos pais, então ele resolveria aquilo de seu modo.
Narciso veio para o almoço, parecia estar com receio de algo enquanto me olhava analítico do outro lado da mesa, eu o olhava sorrindo tentando o deixar confortável, mas nem mesmo eu estava, sabia que ele temia pelo que me aconteceria quando as 14 horas chegassem e minha forma humana desse lugar á um felino. Mas naquele momento eu estava preocupada com outro assunto que estava afundada em sua cadeira encarando o prato sem nem mesmo tentar comer.
– Tenho uma coisa para te falar irmão – comecei sabendo o quanto ele detesta assuntos mórbidos durante as refeições – Hoje de manhã...
Olhei para Meg que estava vermelha e tinha os olhos marejados, segurei a faca em minha mão imaginando o que aconteceria se eu deixasse as coisas como estavam, talvez antes do por do sol ela já estivesse morta tamanha era sua angustia. Mas eu ainda era uma boa pessoa, ainda me importava com os outros mais que comigo mesmo. Narciso me olhou questionador esperando que eu continuasse. Fui direta ao assunto.
– Magnolia tentou se matar.
Ouvi-a arfar e evitei olhar para ela, Narciso deixou o talher cair e balbuciou um palavrão, me virei para ele tentando não parecer malvada ou cruel.
– Olhe o pulso dela, foi logo depois que você saiu. Fui ao seu quarto para... para perturba-la um pouco quando notei o sangue.
Meu irmão olhou o pulso dela, desfazendo a atadura que prendia o pulso. Por um instante Narciso me pareceu chocado, depois começou a fazer varias perguntas e se virou para mim irritado.
– Por que não mandou me chamar? Ela podia ter morrido.
Lógico que podia, e teria morrido se eu não interferisse. Mas isso não seria relevante, Narciso assim como Margarida tem medo do que pode acontecer a nossa família devido a magia, por mais generoso e compreensivo que tente ser, ele é como os outros. Teme o que não entende.
– Se eu fosse te chamar ela teria perdido muito sangue ou feito alguma besteira, fiz o melhor que pude, mas não sou curandeira nem médica.
Ele me olhou como se avaliasse a situação e se virou para Magnolia perguntando com suavidade:
– Por que fez isso meu bem?
Ela fungou começando a chorar, não contive o impulso de revirar os olhos, aquilo era irritante.
– Eu só... não... queria me... me casar... eu
Não resisti e mandei-a controlar o choro, Narciso me olhou irritado depois voltou a atenção á chorona que suspirou antes de começar a falar mais calma:
– Eu não queria me casar com o Edwin, na verdade não quero me casar sem amor. Eu quero conhecer alguém eu ame e que me faça feliz. Pensei que se fosse outra pessoa eu poderia ter a chance de me apaixonar de verdade antes de me casar.
– E tinha que ser eu? Com mais de mil mulheres em nossa cidade e você tinha que escolher uma que morava em um convento?
Registrei o olhar indignado de Narciso e ignorei, preferia encarar os olhos verdes de Meg que estavam bem mais assustados que ameaçadores.
– Você é dona de seu nariz como a Verbena vive dizendo – Meg desviou os olhos dos meus fitando seu pulso – Sempre consegue o que quer e não tem medo.
Eu quase ri, mas sabia que Narciso ia me expulsar da cozinha se eu fizesse isso. Imaginei o que Margarida faria e pela primeira vez agradeci perder meu tempo ouvindo seus sermões quando era criança. Limpei a garganta desejando não falhar ou rir.
– Não queira ser como eu Meg. Olhe para mim, me tranquei entre freiras para não me casar por que o único homem que pediu minha mãe estava desesperado para se manter vivo, Henry não se casaria comigo se ele não tivesse sido pego na cama de uma mulher casada, ele só queria abafar um escândalo e me achou perfeita para isso por eu ser uma tolinha iludida do interior.
Fiz uma pausa para que ela analisasse meu lado e absorvesse minhas palavras, na verdade fora Leonel quem me alertara e eu lancei um feitiço em Henry para que ele fosse sincero, por um mês ele não conseguia enganar nem uma formiga. Narciso acreditou que eu estava histérica por ter sido enganada e que um repouso em um lugar sacro seria o melhor para minha sanidade, assim escapei de um casamento fajuto e de qualquer homem me ver como alguém com quem ele pudesse passar a dividir sua cama.
– Você sabe se cuidar sozinha, sabe sobreviver – disse Meg
Dei um breve sorriso que suponho tenha sido melancólico e disse da forma mais dramática que consegui:
– Grande coisa, saber enfiar flechas em animais inofensivos, conhecer bolotas comestíveis, subir em arvores, machucar as pessoas, montar á cavalos, me embrenhar pela mata como se fosse um moleque deixando todos preocupados. Grande coisa eu saber ficar perdida no meio de uma multidão.
Um sorriso brotou nos lábios de Narciso ao me olhar, eu tentei ignorar para que não risse, Meg estava sem palavras e ficou me olhando por um desconfortável tempo, eu não ia conseguir evitar os risos por mais tempo. Quando ela abriu a boca eu a silenciei com mais palavras que fariam sentido na mente dela:
– Tudo o que eu aprendi foi ser um inconveniente, eu daria minha liberdade para ser você – cruzei os dedos debaixo da mesa pela mentira deslavada.
– Ser como eu? – perguntou ela confusa sempre confusa.
– Sim Meg, Você é incrível, é linda, prendada, inteligente. E eu? O que eu sei? Nada, não sei cozinhar, não sei costurar, não sei cuidar de uma casa, mal consigo cuidar de meus sobrinhos, sou uma catástrofe até mesmo nas escolhas de minhas roupas, não consigo falar como uma dama, sou desajeitada.
Meg se levantou e me abraçou pedindo desculpas, tentei não sorrir, mas foi impossível. Pelo menos ela não percebeu.
Após nosso almoço, fui com Narciso pegar água no poço.
– Quase me convenceu que queria ser como a Meg – disse ele me pegando de surpresa.
Eu sabia que ele não havia acreditado naquela minha mentirada, mas não esperava que ele fosse comentar sobre aquilo.
– Acha que não vale a pena ser como ela? – perguntei tentando soar ofendida.
– Acho sim, mas de todas as pessoas no mundo a única que não espero ser como ela é você. Mas de qualquer modo agradeço por tê-la feito se sentir melhor.
Dei um sorriso, acho que o mais sincero que me lembro desde o dia em que meu noivado fora desmanchado.
– Ela é minha irmã também Narciso, não se esqueça disso: posso ser diferente de vocês, mas vocês são minha família e a família vem antes de tudo.
De volta em casa me cerifiquei que Meg estava bem, ela dormia. Não havia motivos para querer ser como ela, embora fosse prendada e bela, eu sempre gostei de ser como sou, na verdade aquela era a primeira vez que eu pensava na possibilidade de ser diferente. Sempre gostei dos meus cabelos enrolados, volumosos e pretos que estavam sempre trançados por minha impaciência em escovar todos os dias, meus olhos castanhos escuros o bastante para acharem que eram pretos, meus lábios finos, nariz curto, curvo e fino, pele pálida por ficar enclausurada no covento com roupas grandes e largas que não permitia o contato com o sol, meu corpo magro, pequeno e mal desenvolvido que me permitia me passar por uma adolescente e o que eu mais gostava em meu corpo, minhas mãos de dedos longos e finos com unhas grandes. Eu era feliz sendo eu.
Dei uma ultima olhada em Meg e voltei para meu quarto e aguardei logo seriam duas da tarde, hora de ver a magia acontecer...
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