Um Outro Lado da Meia-Noite
4 Dia de gata
Não sei como descrever o que aconteceu, não houve arrepios, vento movendo as coisas, não houve brilho nem luzes piscando, não senti nada. Um segundo eu me olhava no espelho contando o tempo em forma humana no segundo seguinte eu estava ali, uma gata em pêlos, patas e cauda.
Pisquei algumas vezes seguidas para aceitar o que via, eu era uma gata domestica um animal de estimação. Naquele momento eu tentei ver o lado bom da minha nova forma física; eu tinha corpo longo com pernas de comprimento médio e patinhas peludas, pelagem abundante, fina, longa e emaranhada de coloração entre fumaça e cinza escuro, uma cauda que mais parecia um espanador, olhos âmbar, excelente olfato, uma audição mais apurada e vibrissas que eu nem sabia para que serviam, tentei imaginar o que mais tinha de divertido em ser um gato – me arrependi de pensar demais – gatos são bons caçadores de pássaros, roedores, insetos e a imagem de um gato devorando um rato ficou por horas na minha cabeça.
Balancei aquelas informações de minha mente, eu era humana, apesar do meu corpo dizer outra coisa, só por que parecia um bicho não precisava agir como tal. Tentei pensar em mais coisas que um gato tinha de interessante, eles faziam sua higiene lambendo sua pelagem o que faziam regurgitar bolas de pêlos – informação inútil. Pensei mais um pouco e me lembrei das dezenas de gatos que eram assassinados ou maltratados diariamente devido ao fato das pessoas os associarem á rituais demoníacos e as bruxas, nada mais que eu tentasse me lembrar sobre gatos e seus hábitos me ajudaram á não ficar louca. Tinha mesmo que ser um gato? Não podia ser um peixinho dourado ou uma baleia azul?
Diante de minhas descobertas nem um pouco atrativas sobre minha nova realidade eu fui procurar alguém para conversar, nesse caso Magnolia. Ela estava ainda dormindo, céus eram quase três da tarde e ela dormindo? Pulei em sua cama e a chamei. Ela despertou me procurando e resmungou irritada:
– Mort? Não gosto dessa brincadeira
– Não estou escondida – disse
Magnólia me olhou pasmada, parecia querer gritar, desmaiar, sair correndo e me fazer milhares de perguntas ao mesmo tempo. Eu achei engraçado e quando ela me ouviu rindo reagiu se sentando com a mão entre os seios e respirando profundamente.
– Você fala – disse depois de vários minutos
Com tantas coisas para ela notar em mim naquele momento a única coisa que ela percebeu foi que eu falava – embora nem eu tivesse me lembrado que gatos não falam. Concordei perguntando se ela nunca tinha visto um gato falando, maldade minha. Aquilo a deixou irritada e se virou acusadora para mim dizendo que eu não devia brincar com isso, minha maldição era coisa seria.
– Não pode sair por ai falando pelos cotovelos, o que vão dizer se virem um gato falante?
– Provavelmente irão gritar, me perseguir e usar como prova para a existência do demônio antes de me queimarem viva – respondi automaticamente
Primeiro ela me lançou um olhar furioso seguido de uma expressão de horror.
– Deus do céu, isso é horrível Mort. O que faremos?
Eu teria dado de ombros se soubesse como fazer isso, mas senti minha cauda se mover de um lado para o outro antes de me colocar em pé e ir para a porta.
– O que os gatos fazem? – perguntei
– Miam, incomodam as pessoas, caçam ratos e derrubam pêlos por todos os lugares.
Não conheço as expressões que um gato pode demonstrar, mas eu lancei o olhar mais assassino que poderia ter usado em forma humana para mostrar minha raiva pelo comentário de Magnolia. Desci os degraus desajeitadamente, ainda tinha que aprender a controlar as reações de meu novo corpo, mas faria isso depois. Eu precisava fazer uma coisa que a conversa com Meg não conseguiu aliviar, eu precisava extravasar minha ira.
Segui o caminho do poço e me embrenhei entre na mata seguindo a trilha que levava ao riacho que passava por ali. Levei mais tempo para chegar que o previsto, o caminho visto á menos de trinta centímetros do chão é bem diferente que o visto de minha altura normal, parei varias vezes para ter certeza que estava indo na direção certa e quando finalmente cheguei ao riacho eu gritei, xinguei, falei coisas sem sentidos e arranhei varias arvores tentando inutilmente deixar as lagrimas que eu sentia caírem, mas não chorei.
Voltei para casa quando fiquei cansada, mais cansada que jamais fiquei. Magnólia fazia o jantar, me deitei na mesa e logo adormeci, mais uma coisa sobre gatos que eu descobriria mais tarde, dormir demais não é preguiça é necessidade.
– Mort – abri os olhos sem olhar para Meg – Saia da mesa.
Desci e me embolei no chão, nem mesmo dormir seria fácil pelo visto. Ao menos era uma gata e o chão parecia tão confortável. Não vi quando Narciso chegou e ele provavelmente não me notou deitada debaixo da mesa ouvi eles coversarem banalidades do dia a dia por um tempo me equilibrando entre uma soneca e outra, sai debaixo da mesa e subi na cadeira. Nunca me esquecerei dos olhos arregalados e o engasgo de Narciso quando eu disse que sentia fome. Levaram divertidos segundos para ele recuperar-se do choque em ver a irmã naquela forma. Tive um jantar bem desagradável sendo observada por Narciso e Magnolia o tempo todo como se eu fosse um objeto de estudos.
– Como se sente? – me perguntou Narciso horas depois quando eu já estava em meu quarto.
Eu nem mesmo havia o notado entrar já que me distraia olhando as estrelas e imaginando o que as freiras estavam fazendo naquele momento, orando provavelmente.
– Meio... diferente – respondi
Narciso se encostou na janela olhando para o céu estrelado e deu um sorriso – uma coisa rara.
– Lembro quando você mudou para este quarto. Praticamente me ameaçou.
Exagero dele, me lembro apenas de ter apontado o dedo e o feito levitar por um tempo perguntando se uma princesa o beijaria para ele retornar a ser humano. Por fim ele cedeu e deixou que eu ficasse com o antigo quarto de Morgana já que Verbena não o ocupava mais.
– Acha que um dia voltarei ao normal?
Minha pergunta pairou no ar por muito tempo, Narciso afagou minha cabeça e aquilo quase me fez dormir – mais uma compreensão sobre gatos, afagos são muito tranquilizadores. Quando ele estava retornando para seu quarto disse:
– Você é uma boa pessoa Mort, tudo vai ficar bem.
Eu tentei acreditar nele, mas estaria mentindo á mim mesma se o fizesse. Era uma maldição, quando foi que conseguiram quebrar uma maldição? E se me viesse com essa de amor verdadeiro eu juro que arrancaria o coração da pessoa com minhas garras e comeria. Tentei ficar acordada e entre uma pestana e outra eu me vi mudar de gata á humana. Quando vi meu corpo humano ali na minha frente eu gritei de alegria, me vesti e fui acordar meus irmãos. Magnólia se irritou por ser acordada e Narciso me pediu para não fazer isso todos os dias que eu despertasse e me visse humana.
As quatro da manhã quando consegui pegar no sono eu me decidi, ia ajudar Magnólia a se livrar do noivo. Tudo bem eu não acreditar em amor verdadeiro, mas se ela acredita eu ia deixa-la descobrir do modo mais doloroso que amor não existe, que era uma coisa que inventaram para distrair as pessoas, ia deixa-la quebrar seu coração varias vezes até aceitar que amor é coisa de conto de fadas. E eu para todos os efeitos ainda sou uma bruxa.
Fale com o autor