Abri os olhos me sentindo tão bem. Anormalmente bem, como se tudo tivesse sido um pesadelo. Me sentei na cama macia e olhei para os lados, havia uma flor de cristal azul na mesinha ao lado da cama e um bilhete com enormes letras.

VOLTAREI LOGO. SEJA PACIENTE, TEMOS MUITO QUE CONVERSAR – G.

G? Quem era G? Pergunta mais importante. Onde é que eu estava? Levantei e andei por aquele majestoso quarto de paredes brancas e cortinas pretas que abri deixando a luz do dia iluminar o espaço, apaguei a vela de chama lilás e tentei abrir a porta que obviamente estava trancada. Pregado á porta havia outro bilhete naquelas mesmas letras, dizendo:

NÃO SE EXALTE TENTANDO SAIR. SAIBA QUE NÃO É MINHA PRISIONEIRA. APENAS NÃO QUERO QUE SE PERCA – G.

Tubo bem, eu não ia me desesperar, mas isso não significa que não tentei abrir a janela ou usar alguns feitiços ou abrir as outras portas, uma era de um quarto de roupas que me deixou abismada, eu nunca havia visto tantas roupas juntas, todas penduradas em cabides e todas masculinas e todas pretas ou marrons ou azul-escuros, e sapatos tão brilhantes que pareciam recém-saídos do sapateiro. Quantos homens dividiam aquele quarto? Não resisti á tentação de verificar os tamanhos e conclui que devia ser todos de uma mesma pessoa. Quem em sã consciência precisa de tanta roupa assim? Não pude deixar de pensar em Margarida e Magnólia que achavam que dois vestidos á mais era sempre necessário. Voltei a me sentar na cama e fiquei esperando até que alguém viesse me informar onde eu estava, depois de tanto tempo sendo prisioneira, se aprende que gritar e chorar não é útil.

Verbena havia feito um bonequinho de trapos para mim, ela estava usando magia de representação e conexão. Isso era ruim, uma bruxa das trevas já faz coisas perigosas demais sem precisar apelar para vodu e que tipo de monstro usa vodu para ferir outra pessoa? Uma arte tão complexa não devia ser usada de modo tão leviano. O que mais minha irmã estava fazendo? Agora a certeza de que ela não estava sendo influenciada por forças externas não deixava espaço para a esperança de salvá-la, teria que encontrar um jeito de parar Verbena antes que ela fizesse algo realmente ruim. Então me dei conta que Andreas não estava comigo naquele quarto desconhecido, ele havia sido levado pelos guardas de Verbena. Para onde? O que ela faria com o menino? Minhas preocupações apenas aumentavam. As horas se arrastaram até que alguém viesse me ver, inesperadamente quem entrou naquele quarto foi George. As duas imagens que eu tinha dele se misturavam de modo complicado, pirata antipático fazendo muitas perguntas ao mesmo tempo em que era o mestre do conselho me fitando com simpatia. Ruim, ruim, ruim...

— Olá, Estranho – o cumprimentei avaliando sua expressão.

— Majestade – ele fez uma profunda reverencia, tocando um joelho no chão.

Certo, por essa eu não esperava.

— Qual seu plano? – questionei – Me torturar? Tentar ganhar minha confiança para depois fazer algo estúpido? Se oferecer para me ajudar a parar Verbena? Quer pelamor das bruxas ficar em pé?

George se levantou e ficou parado reto, com as mãos atrás das costas e me olhando com alguma superioridade quase intimidante.

— Meu plano – disse em voz baixa e vibrante, os lábios se repuxaram ligeiramente numa sugestão de sorriso, ainda era tão bonito, se concentre Mort— Eu não tenho plano nenhum, mandei que a trouxessem para meus aposentos para que pudéssemos conversar privadamente.

Desviei o olhar para meus pés, é difícil olhar nos olhos dele por muito tempo sem querer reagir de um modo agressivo considerando toda minha situação. Esperei que a vontade de gritar passasse para que pudesse olhar novamente para ele, disse:

— Conversemos, então.

Ele não era mais um amigo, nem era alguém que eu poderia dizer que conhecia, aquele na minha frente não era nem o conselheiro-mor da Ordem dos Magos, era um estranho apenas. Um estranho que parecia exausto.

— Quero que você me mate – ele disse com tanta calma e naturalidade que ri – Não é uma brincadeira, Majestade, preciso que me mate.

— Não irei matá-lo, como ousa pedir que eu faça isso? Perdeu a pouca lucidez que restava?

— Estou muito lúcido, tão quanto eu era antes que me amaldiçoasse, só quero que me liberte.

— Eu nunca o amaldiçoei – falei horrorizada

— Sim, ainda que não tivesse consciência do que fazia, o fez. Convivo com essa coisa dentro de mim desde que me deixou anos atrás, e a escuridão me corrompeu de tal modo que só consegui um pouco de alivio quando a encontrei novamente. Por que eu soube que só você pode me libertar disso.

Ou o mundo enlouqueceu de vez ou eu quem ficou louca.

— Eu não vou matar ninguém, me perdoe por ter feito seja lá o que pensa que eu fiz com você, mas não hei de matá-lo apenas por que quer que eu mate.

— Você não está entendendo, Majestade, isso não é um pedido. Irá me matar quer queira quer não. Você me transformou em um ser perverso e incapaz de nutrir qualquer afeto, tem noção de quanto mal causei nos últimos anos? Matei inocentes, mandei queimar pessoas acusadas falsamente de bruxaria, dei permissão para que fadas destruíssem centenas de vidas, derramei muito sangue alegando proteção á bruxos que nunca estiveram em perigo. Você criou um monstro e você deve destruí-lo.

O tom dele era tão vazia de emoções, mas algo no movimento das sombras que nos cercava estava me deixando aflita, como se elas lamentassem por alguma coisa, tentei compreendê-las e senti calafrios quando percebi que as sombras estavam feridas, pediam por ajuda. Ajuda da sua rainha. Eu.

— Posso tirar a escuridão de você e limpar suas lembranças, mas não me peça para matá-lo. Demorei tanto para te achar e eu não quero ter que feri-lo mais do que já feri.

— Vai me ferir se me deixar vivo, acha que pode fazer que todos aqueles cuja dor foi causada por mim vai esquecer? Acha que me livrar das sombras vai me fazer feliz? Não sou digno de viver.

— Então mate-se você mesmo – falei cruzando os braços.

— Já tentei – ele murmurou e meus braços caíram assim como meu queixo – Inúmeras vezes e de inúmeros modos, mas parece que a Morte se recusa a me aceitar. Um dia, quando eu navegava sem destino certo, eu era um criminoso procurado e perigoso, mas era uma pessoa de verdade, agora sou apenas um fantoche da escuridão que faz de mim o que bem quer. Por favor, eu imploro que me livre desse pesadelo que é viver.

Fica difícil negar um pedido quando uma pessoa sem sentimentos soa tão profundamente triste e destruído. Senti lágrimas correndo pelo meu rosto, quentes, meus olhos estavam turvos por causa da repentina choradeira. George ficou quieto de cabeça baixa enquanto eu me encolhia na sua cama e chorava. Doía ter que fazer o que ele queria, mas eu tinha que ajudá-lo, tinha destruído a vida dele quando o conheci, agora tinha que fazer alguma coisa. Pelo amor dos deuses, eu nunca fiz nada contra ele. Foi ele quem resolveu gostar de uma bruxa estranha que conheceu em uma ilha de sereias, foi ele quem me beijou deixando que a escuridão entrasse em seu ser, foi ele quem não lutou contra as trevas e se deixou corromper. Por que eu tinha que ajudá-lo agora? Ele quem escolheu o lado errado, eu nada tinha haver com aquilo. Mas fui eu quem o mudou, eu aceitei ser rainha das sombras quando anunciei em voz alta quem era, tinha que ajudar um ser das trevas que me pedia ajuda. Eu me odeio. Recuperei o controle, me levantei e fiquei parada diante dele, ainda indecisa. Os olhos dele não eram como eu lembrava, não transmitia calor ou segurança ou qualquer coisa que se aproximasse de um sentimento normal, eram olhos frios e cruéis, um profundo tom de turquesa que causava arrepios e não de um jeito bom.

— Vai doer – avisei.

— Tudo bem.

Segurei o rosto tão bonito e inexpressivo entre as mãos, não contive as lágrimas que voltaram a turvar minha visão, não queria fazer aquilo, mas não estava conseguindo parar. Tinha mil maneiras de fazer aquilo, escolhi a que seria mais lenta, a que daria para ele uma chance de mudar de ideia e se agarrar a vida, infelizmente era também um dos meios mais dolorosos de matar alguém, lentamente. Toquei seus lábios com os meus sentindo o frio percorrer meu corpo enquanto tirava dele a vida. O contato não durou mais que dois segundos, mas fora o bastante para derrubá-lo, me agachei ao seu lado para verificar, ele ainda estava vivo e ao abrir os olhos eles brilhavam prateado como eu me lembrava, vivos e observadores. Sentei no chão e coloquei sua cabeça sobre meu colo, ele ainda estava consciente.

— Você vai ficar bem – falei – Vou curá-lo, sei como fazer isso.

— Não – sua voz vibrante estava distante e fraca, quase um murmurar – Deixe-me partir.

— È irracional querer morrer, você pode ir para longe viver uma vida comum. Não precisa nem ter contato com magia se quiser. Eu posso limpar sua mente e você pode se recriar...

— Mentira – ele sorveu uma grande quantidade de ar para continuar falando – Seria uma vida falsa – uma tossida que manchou seus dentes de sangue – Devo morrer... eu...

— Pare de falar, está sentindo dor. Vou acabar logo com isso.

Espalmei minhas mãos em seu peito, ia parar o coração dele de uma vez, mas ele me impediu.

— Eu quero sentir... A dor... Faz anos... Que eu nada sinto... É um pouco de dor... Comparado com tantas que... Eu causei.

Resolvi apelar.

— Não é justo isso, eu terei que viver com o fato de que te fiz tanto mal, pelo menos agora me deixe confortá-lo. Por favor, Capitão.

— Já não vai demorar mais... É tão mais forte que sua irmã... Verbena... Achei que ela pudesse me salvar... Acabei a trazendo para as sombras... Perdoe-me por isso.

— Ela escolheu seu caminho muito antes que você tivesse conhecimento de minha existência, Capitão, você não teve absolutamente nada haver com o que ela fez com si mesma.

Ele sorriu, e vi o reflexo do homem que eu conheci á muitos anos, sem vestígio algum do mal que lhe causei.

— É um anjo, minha rainha. Um lindo anjo.

— Está ofendendo os anjos, Capitão. E achei que fosse comparável com uma pantera – baixe a voz em confidência – Sou meio gato, sabia?

— Um gato das sombras para o mundo. Um anjo das trevas para mim...

Ele ia dizer mais alguma coisa, mas tossiu e se contraiu como se tivesse com cãibras pelo corpo todo. Fez tanto esforço para não gritar que lágrimas correram pelo seu rosto avermelhado e contorcido de dor. Ele podia ter escolhido como morrer, mas fui eu quem decidiu seu fim. Aproximei meu rosto do dele e o enfeiticei:

— Por terra e sonhos nos conecto...

De repente eu estava sentada sobre um barriu no convés de um navio, havia vozes falando no ritmo do mar abaixo de nós e uma brisa salgada soprava do leste. Olhei para os lados, dando ordens aos gritos para uma tripulação da qual eu apenas ouvia vozes e risos e passos apressados, estava George, trajava calças pretas folgadas e um colete também preto sem botões de modo que todo o peitoril definido estava á mostra. Ele abriu um sorriso quando olhou para mim e veio em minha direção me estendendo a mão que eu segurei deixando que ele me guiasse. Assim que meus pés tocaram as tabuas ásperas percebi que estava descalça, olhei e vi que usava uma combinação de saia marrom e camisa masculina branca e com mangas que podiam caber duas de mim. Aquele sonho não era criação minha, e sim dele.

— Estamos indo para onde? – perguntei

— Para o polo norte, dizem que é o lugar mais frio do mundo.

— Quanto tempo até chegarmos lá?

— Quem liga? O que importa mesmo é a viagem e não o destino. Á menos que queira se ver logo livre da companhia.

— Por mim podemos dar mil voltas em torno do mundo antes de chegarmos ao norte, no momento estou feliz por estar aqui.

— Me alegra que tenha aceitado vir comigo, Majestade, a viagem não me proporcionaria o mesmo prazer se tivesse apenas a tripulação por companhia.

— Saiba que fico muito mais feliz por ter me convidado. Seria um desperdício de aventura se tivesse que espera-lo por tanto tempo.

Ele me abraçou pela cintura ficando atrás de mim, olhei para o por do sol que estava na direção errada e suspirei, sonho ou não, aquela era uma visão magnífica. Os tons róseos do ocaso refletido no mar de águas calmas e o sol desaparecendo no horizonte. Ficamos em silencio contemplando aquele espetáculo até que os sons desapareceram, depois o céu ficou escuro e ao olhar ao redor compreendi que ele estava partindo, o abracei enquanto sentia tudo sumindo ao redor e ouvi-o:

— Eu te amo – senti um toque suave nos lábios e ao abrir os olhos...

O ultimo beijo. Ele estava morto, ao menos pude dar á ele um pouco de paz depois de tanto tormento que lhe causei. Fiquei ali por mais um tempo, tentando me recuperar de tudo antes de seguir em frente. Sabia que o que viria depois que saísse dali seria o confronto com Verbena. Infelizmente sabia que não podia adiar por mais tempo. Estava na hora da rainha das trevas conhecer o verdadeiro poder das sombras.

— Adeus meu caro desconhecido – falei á George – Que a Morte lhe seja mais gentil que a Vida.