Um Novo Final
46 Capítulo 46
Notas iniciais
No avião, Armando mantinha-se acordado, enquanto Betty descansava a cabeça em seu ombro. Ele não queria dormir. Aquele eram os últimos momentos em que passariam juntinhos. Ele já sabia que apenas três dias com Betty jamais seriam suficientes, mas não pensava que seria mais difícil ainda separar-se dela depois de tudo o que viveram, depois daquele passeio em El Ávila que tornaram ambos mais próximos ainda um do outro...
Betty tampouco queria ter cochilado como terminou fazendo, mas os últimos três dias haviam-na atingido com tal intensidade, fazendo com que ela gangorrasse entre a paz e o desespero, que seu corpo simplesmente não suportou os golpes...
Nicolas estava feliz. A viagem para ele tinha sido ótima. Só queria ter tido mais tempo para conhecer mais a Alejandra. O dia que tiveram, ela mostrando-lhe os pontos turísticos da cidade, fora leve e divertido. Ele não sentiu que precisava impressioná-la, ainda que algumas vezes o tivesse tentado, e ela era sempre gentil em suas maneiras... Tirou uma foto de ambos do paletó: ela substituiria com sucesso o lugar ocupado pela foto anterior.
***
A viagem não foi rápida, todavia, para os três, durou apenas poucos minutos. Antes que pudessem se dar conta, já estavam na saída do aeroporto, Dona Júlia e Don Hermes acenando para eles, recebendo-os com um abraço e o olhar agudo do pai de Betty sobre si, buscando qualquer diferença na filha que Armando pudesse ter provocado...
Armando quase pediu para acompanhá-los até a casa de Betty, mas deixou estar. Se não aproveitasse aquele momento para se separar dela, era capaz de sequestrá-la e não deixar que ela retornasse. Abraçou-a, beijou-lhe de leve os lábios e disse que a amava.
— Descanse, mi amor — ela respondeu-lhe de volta.
— Se eu conseguir, Betty...
Ela acariciou-lhe o rosto.
— Amanhã eu passarei na sua casa, quero falar com seu pai sobre nosso noivado.
— Ele vai gostar, tenho certeza...
Iam se beijar de novo, mas deram-se com Don Hermes, encarando-os:
— Vocês dois não acham que já ficaram juntos tempo demais pra ficar de agarramento aqui no aeroporto? Vamos para casa! A Ecomoda está uma bagunça! Sua secretária, doutor, agorinha mesmo levou um tombo, teve um jeito na coluna e terá de ficar afastada por pelo menos um mês. Estamos em um momento crucial nas nossas relações com a Venezuela, sem contar seus noegócios com Porto Rico, Dr. Mendoza, e simplesmente não sabemos o que fazer... Mas hoje o expediente já acabou e amanhã veremos... Por agora, vamos descansar e nos preparar para isso.
— Mas ela está bem, papai?
— Sim, sim, nós a levamos para um hospital, e ela já está em casa. Agora vamos, verdade?
— Sim, senhor, Don Hermes.
Enquanto as mãos dos dois se separavam, Armando sentia seu coração saindo do corpo.
***
No dia seguinte, repetindo o ritual de todos os dias, Armando passou pela casa de Betty de modo a levá-la e a Don Hermes para a empresa. Mesmo que ele tivesse chegado mais cedo, para contar as novidades, o café nesse dia foi tomado rapidamente, e ele nem teve a oportunidade de que gostaria para comentar do noivado. Precisavam estar na Ecomoda. Por mais que ele entendesse aquele contexto, não podia evitar a frustração, deixando-o estranhamente ansioso, mais do que ele podia controlar.
De fato, a empresa estava uma bagunça, e mais movimentada que de costume. Freddy estava na recepção, recebendo uma série de telefonemas e direcionando-os como podia. Todos resultado do fechamento do contrato com a Venezuela. Lojas, distribuidoras, fornecedoras, vários empresários de vários ramos se contactando com a Ecomoda. Os telefones da vice-presidência executiva, cargo de Armando, eram repassados para Mariana que, saída da recepção para assumir temporariamente o cargo de Sandra, perguntava a todo o momento às meninas o que fazer, desestabilizando o serviço principalmente de Aura Maria, que era o mais importante no momento.
Apenas a desordem do lugar já era suficiente para deixar Armando com os nervos à flor da pele. Por mais que Betty tentasse acalmá-lo, ao cruzar a porta de entrada, suas vistas embaçaram e a única coisa em que pensava era em colocar ordem em tudo, fosse como fosse. No entanto, sua maneira de fazê-lo, gritando com os funcionários e mostrando-lhes todas falhas, só tornaram o cenário muito pior. Até mesmo as meninas, que estavam loucas de vontade de correr atrás de Betty para saberem de todos os detalhes da viagem, controlaram-se diante da ira do vice-presidente.
Ao se despedirem, foram cada um para sua respectiva sala. Não demorou muito, todavia, para que Armando fosse à presidência bradando que não poderia continuar sendo assessorado por Mariana que não sabia de "absolutamente nada!" do que estava fazendo.
— E se colocarmos a Mariana para me ajudar e Aura Maria passa para a vice-presidência?
Ele passou as mãos nos cabelos, cruzando-as na nuca:
— Não adiantaria de nada, só desvestiríamos um santo para vestir outro... O certo era que Aura Maria cuidasse também da vice-presidencia — ele levantou a voz, para que ela escutasse do lado de fora — mas a lentidão dela não lhe permite!!!
Betty levantou-se, descruzando as mãos dele e passando-lhe uma bolinha, sua "mola de estresse":
— Armando, Aura Maria já está fazendo muito. Ela está, inclusive, atendendo umas demandas da recepção que Freddy não é capaz de atender. Não vamos cobrar mais dela do que já está estamos cobrando. Falei com o pessoal do RH e eles estão nesse momento selecionando uma secretária que dê conta do serviço. Não se preocupe.
— Maldita hora pra aquela girafa resolver cair! Que cruz! Betty, precisamos ser impecáveis nessas negociações. A Ecomoda precisa disso mais do que de qualquer outra coisa. Treinar uma secretária nesse momento me soa simplesmente inviável!
— Não temos muita escolha, Armando... A única coisa que posso te prometer é que arrumaremos alguém que consiga trabalhar contigo.
Ele não pôde evitar se lembrar do momento em que contratou Betty como sua secretária e esboçou um meio sorriso:
— Alguém assim, como uma segunda Beatriz? — Ele colou-se a ela, para beijá-la.
— Alguém como a Imperatriz, o senhor quer dizer — ela respondeu, lembrando-se de como ele a chamava no início.
— Ah, Betty, não seja má, assim que eu vi que você era de confiança, comecei a chamá-la pelo nome certo.
— Não começou mesmo, doutor.
Eles se aproximaram mais, quase colando os lábios um nos do outro, quando sons de batida na porta os interromperam, fazendo com que Armando quase caísse pra trás de susto, com a realidade lhe socando a cara:
– Que cruz, meu deus! — Jogou a bolinha em qualquer canto da sala.
A porta se abriu Aura Maria apareceu, perguntando se poderia falar em particular com a Betty. Armando cerrou as vistas, respirou fundo e saiu pisando forte da sala.
Assim ele saiu, a secretária correu e se sentou na cadeira em frente à mesa da presidente, sacudindo as mãos:
— Ay, Betty, estamos muito loucas de curiosidade de saber como foi sua viagem...
Betty sorriu, agradecida pelo esforço das meninas em trabalhar, mesmo diante da vontade delas de cruzar a presidência e sugar tudo o que poderiam dela.
— Prometo contar tudo assim que resolvermos essa coisa do afastamento da Sandra, Aura Maria, até lá, precisamos manter o Armando menos estresssado possível.
— Sim, Betty, hoje ele está parecendo aquele chefe tirano de quando você entrou na Ecomoda, lembra-se?
Betty sorriu. O passado naquele momento parecia retornar com força:
— Sim, sim. Ele sempre fica assim quando as coisas saem do controle dele. Ele parece uma extensão da empresa. Mas, diga-me em que posso te ajudar.
— Então, você disse ao RH que precisava ser uma pessoa com o perfil para, acima de tudo, lidar com o Armando, verdade? Além de conhecer o funcionamento da Ecomoda. Pois Sofia ligou para uma pessoa que já trabalhou aqui antes, e ela está disponível, só não sei se você vai gostar, por isso eu quis vir aqui antes e falar dela longe do Seu Armando, para não ter problemas.
— Vocês não estão falando da Patrícia Fernandez, verdade? — Betty riu da sua maneira característica.
— Ay, Betty, claro que não! — Aura Maria bateu três vezes na mesa, para afastar o azar. — Aquela lá só tornaria tudo pior, nem se ela tivesse feito seis décadas de administração na San Marino — imitou-a — seria capaz de ajudar nesse momento.
— Então que pessoa é essa. Se ela já trabalhou aqui, é realmente uma boa candidata, se tiver o perfil adequado.
— Perfil adequado ela tem, Betty, por isso Sofia pensou nela...
— Mas... — Betty sabia que deveria ter um porém, por Aura Maria hesitar tanto.
— Então, ela é uma pessoa maravilhosa, Betty, além de muito trabalhadora e muito inteligente. O currículo dela é como o seu, assim, cheio de especializações e qualificações. A gente falou dela pra você uma vez, é a Mireya.
Mireya... Como esquecer esse nome? Parecia ser ontem o momento em que as meninas falaram dela, da história dela com o Armando e de como ela se demitira por se apaixonar pelo chefe. Betty quem veio substitui-la na época, e foi alertada veememente pelo quartel para não se apaixonar pelo "chefe", como se ela já não estivesse perdida de amores por ele...
Um arrepio cruzou-lhe o corpo de fora a fora. Mireya era ela, seu próprio reflexo do passado. E agora ela, como "noiva" de Armando, não era a própria Dona Marcela? Aquela pontinha de ciúme que sentia colocou-a mais perto ainda da outra, e a sombra desse papel assustou-a tanto que ela se ouviu dizendo:
— Pelo que eu me lembro do que vocês disseram dela, Aura Maria, pareceu-me ser uma excelente pessoa. Se ela estiver disposta a voltar, temporariamente, claro, não vejo por que não.
Aura Maria bateu palminhas de felicidade, saltando da cadeira:
— Perfeito, Betty! Sabia que você não seria como a Dona Marcela, que teria vontade de empalhá-la! Vou falar com o RH pra entrar em contato com ela a seu pedido.
Beatriz escutou apenas a frase "você não seria como Dona Marcela". Era, de fato, o que ela menos queria ser, pois ser como a outra seria assinar o atestado de óbito do seu relacionamento com o Armando.
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