Notas iniciais
Editado em: 29/04/2013

Chegaram ao Le Noir. Armando abriu a porta para Betty, ajudou-a a descer e a acompanhou, oferecendo-lhe o braço. Betty aceitou tudo, mas evitando olhá-lo diretamente.

Foi nesse momento que ela caiu em si e lembrou-se de que iriam encontrar os pais de Armando. Sentiu-se um grão de areia frente ao oceano armado em onda à sua frente. Deve ter se encolhido nesse momento porque sentiu Armando tocando sua mão e dizendo:

— Vai dar tudo certo.

Ela olhou-o para agradecer, mas ele estava olhando pra frente, a expressão rígida, procurando a mesa onde seus pais os esperavam.

Armando bem que queria envolvê-la em seus braços e dizer pra ela não se preocupar com aquele encontro. Todavia, Betty parecia uma estátua de mármore ao seu lado... Tinha medo de tocá-la e senti-la esfarelar-se entre seus dedos... Como as coisas poderiam se dar daquela maneira?

O maître os levou até a mesa onde estava o casal Mendoza que se levantou para recebê-los. Betty sentia o rosto latejando e se sentia efusiva demais no seu nervosismo. Sorria, demasiado. Armando mal via os pais à sua frente. Chegava-lhe ao cérebro imagens amargas difíceis de discernir. E via somente o gelo na expressão de Betty que lhe ardia os olhos e o congelava por dentro. Era uma situação descabida que o fazia se sentir alheio à própria vida. Viu sua mão tocar o ombro de Betty, quando se sentaram. Sussurrou ao seu ouvido:

— Betty, precisamos conversar...

Era exatamente a frase que ela não queria ouvir. Sua estrutura de papel estremeceu ante àquele sussurro. Teve de se esforçar muito para se manter no controle e evitar que seus olhos se enchessem de lágrimas. Assentiu com a cabeça, nervosamente, sem olhar pra ele.

D. Margarita observou o clima tenso entre os dois, diante do que não conseguiu esconder um esboço de sorriso. Talvez aquele capricho do filho durasse menos do que previra, ainda que não fosse menos do que tinha que durar.

— E como está tudo? — Seu Roberto se dirigiu à Betty. Tinha a expressão simpática.

— Mui... Muito bem, Seu Roberto — ela engasgou consigo mesma. — O senhor sabe, a empresa é tradicional e muito reconhecida. Passamos por um momento difícil, mas, em um futuro breve, será apenas uma cicatriz da qual a Ecomoda terá orgulho em falar sobre.

Seu Roberto sorriu ternamente. É verdade que nutria grande admiração pela inteligência dela e por sua capacidade de manejar os números e os negócios. Todavia, além disso, também nutria grande empatia e estava feliz com a escolha do filho, apesar de todos os pesares...:

— É verdade que a empresa tem um bom nome e tem uma historia, mas não seja modesta ao esconder a sua competência... Todavia, vamos descontrair um pouco e evitar falar de negócios. Quando perguntei se estava tudo bem, me referia à vocês — Seu Roberto disse.

Betty sorriu e abaixou a cabeça, tímida. Não sabia o que dizer.

Essa atitude cortou o coração de Armando que fechou a cara:

— É claro que estamos bem, está tudo bem – ele disse mais para si que para sua família, e precisava muito daquela afirmação.

O casal Mendoza se entreolhou e o silêncio caiu pesado em cima da mesa, zombando especialmente de Armando que se sentia estúpido.

E Betty se sentia desesperadamente sozinha. Tinha vontade de escorrer para debaixo da mesa cada vez que sentia o olhar de D. Margarita, e o sentia muitas vezes. Armando estava longe demais para escutá-la gritando por ajuda.

— E vocês, como estão? — Armando tentou desviar o foco da conversa pensando que talvez desviasse aquela tempestade.

— Bem, muito bem, nos divertindo agora que temos tempo. Aproveitando que estamos aqui na Colômbia, antes de voltar para Londres, passaremos uns dias em Cartagena , Santa Marta e San Andres — Seu Roberto comentou.

— Sim, Londres é sempre muito fria, é bom aproveitar o sol um pouquinho — D. Margarida disse.


— E Cartagena é realmente um ótimo lugar para isso... — Betty conversou com as suas lembranças.


Armando odiou aquele comentário. Agora ela martirizava-o com isso. Tinha absoluta certeza de que o fazia propositalmente, falava de Cartagena como uma indireta para falar naquele francês imbecil. Endireitou-se na cadeira, o desprezo colado nos olhos. Era só questão de uma linha ou duas de conversa até o nome daquele maldito aparecer.

— Sim, é verdade — Seu Roberto concordou. — Eu e Margarida temos ótimas lembranças de lá. Acho que foram nossas melhores viagens...

Dona Margarida sorriu:

— Ah, Roberto, eu gostei mais de quando viajamos para as ilhas gregas.

Roberto devolveu-lhe o sorriso:

— Você sempre diz isso, mas nunca te vi mais feliz do que naquelas praias.

— Talvez seja porque você goste muito de lá...

— Disso não há dúvida, Deus foi mais generoso conosco ao nos dar um lugar como Cartagena... Não concorda, Beatriz?

— Concordo plenamente, Seu Roberto — ela respondeu. — Mas sou suspeita para falar, Cartagena partiu minha vida em duas...

— Um belo cenário para boas lembranças... — Seu Roberto disse.

— Ah, sim, sim, boas lembranças, bons amigos... Inclusive conhecemos uma atriz brasileira, Taís Araújo, eu, D. Catalina e Michel. Era uma moça muito divertida e sempre foi muito simpática comigo. Aliás, todos foram muito simpáticos comigo.

Armando ergueu as sobrancelhas em desdém:

— Principalmente o francês... — não pôde evitá-lo.

Betty olhou-o de sobrancelhas contraídas. Ia falar algo a respeito, porque não suportava aquela atitude de Armando, mas Seu Roberto falou antes e ela agradeceu por isso.

— Francês? Está falando de Michel Boînet?

Dona Margarida estranhou a atitude do filho. Estava com ciúmes.

Betty e Armando ergueram as sobrancelhas.

— Sim, ele mesmo — Betty confirmou. — O senhor o conhece?

— Só de vista. Seu restaurante, em Cartagena, é muito famoso, e comemos lá da última vez. Comida estava excelente, ele é realmente muito bom.

Betty sorriu orgulhosa do amigo:

— Sim, ele gosta muito do que faz...

— E ficamos surpresos — Seu Roberto continuou — porque é um rapaz muito humilde. Pedimos para cumprimentá-lo e, quando o maître o chamou, ele mandou a equipe toda dele, e só depois veio. Nos disse que ele mesmo fazia muito pouco e que sua equipe, sim, fazia muita coisa. Foi uma atitude muito bonita.

— Sim, é verdade... — D. Margarita concordou.

— E caracteriza a atitude de um excelente líder. Seguramente, seus companheiros o seguiriam até o inferno. Eu o seguiria.

Betty assentiu, então os Mendoza conheciam Michel... Mas também, como não... Ela olhou na direção de Armando que tentava se esconder atrás da mesa, com a expressão dura. Via-o remexer os olhos, balançar a cabeça, morder o canto da boca... Ela sabia que falar em Michel o incomodaria, mas para ela era impossível dissociar a imagem da cidade da imagem de seu amigo tão querido. E era, sim, muito bom mencioná-lo, lembrá-lo, ainda que nunca mais tenham se visto, apenas tenham se falado uma vez por telefone, desde o episódio do Almirante Padilha...

Armando simplesmente não acreditava... Até os próprios pais conheciam aquele estúpido? Coçou a testa, nervoso. E Betty, para que mencioná-lo agora? Para dizer que se ele fosse para à Venezuela, ela já tinha quem cuidasse dela? Que era um homem muito bonito, muito humilde, muito bom etc etc...? Que só possuía qualidades? Exatamente o que ele não era?!

Nesse momento os pedidos chegaram e, quando Armando pegou os talheres, Betty viu o corte mal tratado na sua mão. Assustou-se. Tudo perdeu a importância. Somente via aquele machucado que estava horrível e estranhava que Armando não lhe desse a devida atenção. Disse saltando de si mesma:

– Armando, que aconteceu com a sua mão?! — Betty tomou-a.

Armando esquecera-se do corte. Doía-lhe muito mais as interrogações fincadas em sua mente. Ele levantou as sobrancelhas, olhando para a mão, sem se mexer, apenas se deliciando com aquele pequeno toque, ainda que viesse da pena dela para com ele:

– Me cortei com o abridor de cartas, creio...

– Mas está muito feio! Temos que cuidar disso... — Betty voltou a dizer.

– Não, não se preocupe Betty, não é nada de mais...

Mas Betty já encostava a ponta do lenço na taça de água e limpava o machucado, em seguida procurando um band-aid dentro de sua bolsa. Os dois recortados do cenário e colados entre as estrelas.

Seu Roberto mirava os dois, com expressão satisfeita. Ficou preocupado no início, quando os dois chegaram, distantes, mal se falando... Todavia, quando percebeu que Armando estava com ciúmes de Michel – o que era impossível não notar — e os viu compartilhando aquele momento, descansou. Eles realmente se gostavam, não havia dúvida, e Armando estava salvo... Margarida, por outro lado, se sentia quebrar por dentro. Era impossível que fosse seu filho ali. Armando não agia daquele jeito, não se importava com as mulheres com quem saía... E naquele instante, ele e... ela... tão perto... Havia perdido, simplesmente.

Quando Betty terminou, Armando olhou a própria mão, acariciando o curativo:

– Muito obrigado, Betty – ele sorriu envolvido, levantando a mão para acariciar seu rosto, num reflexo, mas parando no início do caminho.

Betty percebeu, lhe sorriu e, em pensamento, colocou sua mão por cima da que estaria em sua face:

– Não podia deixar daquele jeito, podia infeccionar.

E ela percebeu que não poderia deixá-lo sozinho, em nada.

E ele percebeu que não poderia fazer nada sem ela.

Mas ninguém disse nada, só conversavam com os próprios pensamentos, imersos, cada um nas próprias conclusões, na própria frustração e, ainda, na própria satisfação.

Terminaram de comer, falaram de amenidades. Betty falou muito pouco, limitava-se a responder o que lhe perguntavam. Julgava que o casal, sobretudo Dona Margarida, fazia muito esforço para tratá-la bem. Era um pouco desgastante entrar no mesmo espetáculo e se esforçar para se sentir agradável, todavia, estava lá, e, apesar de tudo, era menos do que ela pensava, o que fazia dos atos de Armando para com a sua família muito maiores.

Levantaram-se e se despediram. Os Mendoza ficaram olhando o casal sair.

– Parece que eles estão brigados... — Margarida disse mais para si que para Roberto.

– Sim, é verdade, mas é certeza de que eles se gostam...

Margarida não acreditava que a expressão do marido era de contentamento.


****



Armando parou em frente à porta do carro, sem abri-la:


— Betty, será que podemos conversar agora? – disse, acariciando o curativo, olhando para a própria mão, as cenas do por vir explodindo na sua mente e latejando o pequeno corte infinito...

Betty olhou no relógio e não viu nada. As palavras não-ditas por Armando lhe doíam na garganta e não ela estava preparada para aquilo:

— Desculpa, Armando, desculpa mesmo. Podemos conversar depois do expediente?Estou esperando várias ligações importantes para essa tarde, não posso me dar ao luxo de não atendê-las.

Armando respirou fundo, esfregando os olhos. Ela o estava evitando! E isso era muito mal.

— Pode ser, sim, não quero incomodá-la — ele disse mal-humorado.

Entraram no carro e, com o silêncio sussurrando possibilidades medonhas no ouvido de cada um, foram direto para a empresa, onde todos perceberam o clima estranho entre os dois que balbuciaram uma despedida e saíram cada um para sua sala.

Assim que Betty abriu a porta, Seu Hermes saiu de seu escritório, ávido por noticias:

— E como foi lá, minha filha? — ele disse, se sentando à mesa em frente à Betty.

— Foi tudo bem, papai, os Mendoza são pessoas muito educadas e realmente muito requintadas.

— E o que eles disseram quando você falou pra eles irem lá em casa antes de voltarem pra Londres?

– Quê?! — Com o peso que sentia de um tudo que não concebia bem o que era, definitivamente não sabia como lembraria de ter coragem de convidar os Mendoza para a própria casa.

– Não acredito, Beatriz Pinzón, que a senhorita não os convidou para ir à nossa casa!

– Ahn... não? — E ainda bem que não porque nem sabia se continuaria sendo a namorada de Armando.

— Mas, como não, Betty?! Ficou louca?! Eles vão achar que você não tem família, que é uma dessas "da vida" que esses executivos acham pra se divertir e depois descartam.

Betty suspirou, pesada:

— Papai, eles já te conhecem, e o senhor já fez propaganda suficiente da família para que eles não pensem isso.

— Mas eles não conhecem o ambiente em que você vive, e isso é uma coisa obrigatória!

— Está certo, papai, na próxima oportunidade eu os convido.

— E que seja antes de voltarem!

— Certo. Depois é que não tem jeito mesmo...

Seu Hermes fez uma careta e voltou para sua sala. Betty debruçou-se sobre a mesa, esperando que o dia fosse realmente cheio de modo que ela se esquecesse de quem era e de modo que ela não pensasse que teria que ouvir de Armando que a situação estava insustentável e que ele precisava de um tempo. Menos ainda que ele daria esse tempo na Venezuela. Não! Morreria se essas palavras se materializassem na voz dele.

Armando nem quis se sentar, nem quis ver os recados de Sandra sobre sua mesa, pediu para que ninguém o incomodasse e, simplesmente, pegou uma garrafa de uísque e se deitou no sofá. Era assim que esperaria o dia passar. Ou não passar.


****



Foi muito difícil para os dois não se verem naquela tarde. Vez ou outra um e outro ensaiava sair, mas as inquietações eram mais densas que as portas de seus respectivos escritórios e os impediam. Então voltavam, partidos.


No final do expediente, Armando se ajeitou e foi até a sala de Betty. Ensaiara mil vezes o que tinha que dizer com a garrafa de uísque: dizer que não ia, que sentia muito pelas coisas que dissera, que estava mais longe de deixar de ser o sempre estúpido que era, mas que iria tentar mais arduamente. Ela não merecia nada daquilo que falara. Tomou o último gole e se dirigiu para a presidência.

Betty reviu em sua mente todos os acontecimentos de um passado não muito distante. Era de uma aspereza dolorida se lembrar de como era bonito ver Armando e Alejandra juntos, de como ele conseguia se portar tão bem perto dela, e do quanto ela era linda, elegante e tinha vivido coisas que ela nunca viveria. Alguma coisa superior que não existia, e por isso era superior, pisava-lhe a garganta e doía tanto que sufocava, e sufocava tanto que doía mais ainda. Era inútil tentar barrar as lágrimas que explodiam em seus olhos, tanto que nem se importava mais se seu pai ia aparecer e se deparar com ela daquele jeito.

Ficaria totalmente sem saída se não aceitasse esse convite de ir para a Venezuela. E, claro, a parte de que quase se esquecera: queria demais ir...

Armando bateu na porta e abriu-a:

– Vamos?

Os olhos de ambos vacilantes, as vozes baixas e sem tom de nada...

Seu Hermes saiu correndo da sua sala, quebrando o clima:

— Vamos, vamos!

Entraram os três no carro, e mais um percurso em companhia do sarcástico silêncio...

– Que foi com vocês dois? — Até Seu Hermes percebeu alguma coisa estranha.

Armando contraiu o cenho, mas não disse nada, tinha o pretexto de estar conduzindo.

– Como assim, papai?

– Estão muito caladinhos pro meu gosto, sem sorrisinhos e sem telepatia...

Betty sorriu:

– Sem telepatia... Só o senhor mesmo, papai...

– Hum, eu sei de tudo, de tudo...

Betty assentiu como quem não se importava, e a pergunta ficou mesmo sem resposta. Na verdade, não havia resposta... Ambos não queriam que houvesse uma resposta...

Quando desceram, Seu Hermes foi direto pra dentro e, quando Betty foi entrar, Armando segurou seu braço. Doía-lhe todos os seus músculos naquele momento, e não suportava mais o fel transbordando em seu corpo:

— Betty, eu não estou aguentando mais essa situação, precisamos conversar!

Betty olhou para a mão de Armando, que a apertava forte como que querendo compartilhar com ela uma dor para a qual não estava preparada. Fechou a porta e encarou-o com os olhos cheios de lágrimas:

— Eu vou.

Armando franziu as sobrancelhas em completa surpresa. Não sabia o que estava esperando, todavia, não era definitivamente aquilo:

– Perdão? — ele disse, soltando-a, como se houvesse sido despregado do mundo.

As lágrimas escorreram dos olhos de Betty e ela se aninhou no peito dele:

— Eu disse que eu vou pa ra Venezuela, mi amor. Você tem razão sobre tudo, eu quero ver você bem, por isso eu vou...

Armando abraçou-a como que num impulso. Estava no meio do caminho entre a culpa por ela estar daquela maneira e a felicidade por ela ter aceitado o convite. Apertou-a contra si. Precisava saber que ela estava ali perto, por todo o dia que não esteve.

E, sentindo-a, quebradiça, em seus braços, lhe assolou a mesma culpa de sempre, aterrorizante como uma primeira vez. Isso o fez perder o ar por um segundo. Ah, como era desgraçado, intolerante e imaturo... Aninhou a cabeça dela em seu peito:

— Eu não tenho razão sobre nada do que eu disse, mi vida, você não merecia aquilo, desculpa, eu não pude evitar... Mas me perdoa, pela última vez, me perdoa. Não quero mais ver você sofrendo e me evitando como hoje...

Betty respirou fundo. Mirou-o com um abismo em cada olho:

— Eu não estava te evitando, só não sabia como chegar até você.

Armando segurou o rosto dela entre as mãos. Era dolorido demais se deparar com aquele olhar:

— Pode me perdoar, mi vida? Te peço isso pela última vez. Pode esquecer aquele episódio estúpido pelo qual passamos e as coisas voltarem a ser como eram? Eu não aguentaria isso por mais outro dia.

— E você pode me perdoar por nunca enfrentar o meu pai por você?

Armando silenciou-a com um beijo. Aquele comportamento dela era o que doía mais nele. Ela tinha que gritar, pedir coisas absurdas, não lhe pedir desculpas.

— Você não tem que me pedir perdão, mi Betty. – Sorriu. — Nem eu enfrento Seu Hermes...

Betty sorriu assentindo. Nesse momento D. Julia abriu a porta:

— Vamos entrar, meus filhos: Hermes está que não se aguenta lá dentro e eu não consigo segurá-lo mais.

Armando, que tomou a mão de Betty, levou-a para dentro.Enquanto ele se sentava no sofá, Betty passou correndo e foi com a mãe até a cozinha.

— O que houve entre vocês dois? Não me parecem bem. Você estava chorando, minha filha...


Dona Julia ajudou Betty a se recompor:


– Ainda bem que você veio direto pra cá. Se seu pai a vê assim e desconfia que é por Armando, coloca-o para fora a pontapés...

— Foi um mal entendido, mamãe, passou. Mas eu e Armando ainda precisamos conversar. A senhora não tem ideia da gravidade da situação em que estou metida.

Dona Júlia arregalou os olhos e colocou a mão no ventre da filha:

– Betty...

Betty riu, surpresa com a atitude da mãe:

– Não, mãe! Não, por Deus. Eu e Armando nem temos nos encontrado desde que meu pai descobriu tudo. Não é isso. Mas é grave igual.

Dona Júlia sentou-se. Era melhor que estivesse sentada:

– Então conta, minha filha... Deixa eu saber o que de tão grave é...

Betty sentou-se de frente para a mãe:

— Imagina que será inaugurada uma loja na Venezuela e fomos convidados. É imprescindível a nossa presença. E quem nos convidou foi Alejandra.

– Aquela que estava com Armando no dia do desfile das suas amigas?

Betty assentiu.

– Ai, Deus Santo... — D. Julia fez o sinal da cruz.

— Eu não suportaria deixá-lo só com Alejandra, mamãe. Além do mais, eu sou a representante da empresa, tenho que estar lá.

– Seu pai ainda não sabe disso...

– Não faz ideia, Alejandra conversou com Armando por telefone. Mas a gente vai ter que dar um jeito, eu já aceitei o convite. É por isso que eu preciso conversar com o Armando hoje. Tem como distrair o papai um pouquinho?

– Você já aceitou?! E se seu pai não deixar?!

– SE ele não deixar, mãe? Ele NÃO vai deixar. Mas se eu não aceitasse esse convite, seria o fim do nosso romance e, ai, mãe, eu não saberia viver sem ele, a senhora sabe...

Dona Júlia sorriu:

– Acho que você está exagerando, Betty. Não creio que Armando a deixasse por esse motivo. De qualquer forma, vamos ver o que eu posso fazer para distrair seu pai...

Dona Julia pegou o café dentro de uma lata e escondeu-o debaixo da pia. Betty foi para a sala e sentou-se ao lado de Armando no sofá. Dois minutos depois, D. Julia apareceu na sala.

— Cadê o café, Julia? Sabe que eu não fico sem café essa hora — Seu Hermes resmungou.

— Ai, Hermes, é isso que eu vim te falar: acabou e eu não vi.


— Mas eu não comprei esses dias?


— Mas já acabou. Você toma café o tempo inteiro. Por que não sai pra comprar?

— E aonde eu vou achar mercado aberto a essa hora?

— Na 57 com 7a tem um Carulla¹, papai.

— Mas se esqueceu de que meu carro está na oficina? E a essa hora é perigoso sair à pé...

Armando se remexeu no sofá:

— Não seja por isso que o senhor vai ficar sem seu café, Seu Hermes. Vá no meu carro.

Seu Hermes levantou as sobrancelhas, completamente tentado pelo diabo de quem reclamava tanto:

— No seu carro?

— Sim, por que não? Confio plenamente no seu cuidado.

Armando entregou-lhe as chaves. Se ele tivesse tanto cuidado com o carro como tinha com a filha, realmente não havia com o que se preocupar.

Seu Hermes olhou o carro lá fora, olhou as chaves e estalou a língua:

– Então, eu vou. Juízo vocês, hein! Não demoro.

Saiu emocionado. Dona Julia correu para a janela e quando viu que ele arrancou com o carro, tirou o avental, colocando na beirada da cadeira:

— Meninos, qualquer coisa estou lá em cima.

— Ok, mamãe.

Quando D. Júlia sumiu da vista dos dois, Armando levantou-se e puxou Betty, abraçando-a forte, como se ela fosse o abrigo longe dos furacões:

— Te amo, mi vida, te amo tanto... Hoje foi um dia muito estranho... Parece que tem uma eternidade que não a vejo, que não a sinto... Fiquei com tanto medo de você me deixar que tinha medo de ir até a sua sala, de me dirigir a você... Mas tinha que te pedir perdão por tudo, estava me sufocando.

Betty acariciou o rosto dele com a ponta dos dedos:


— Mas agora passou, vamos esquecer isso...


— Sim...

Armando beijou-a intensamente, acendendo todas as brasas apagadas durante o dia pelas inquietações. Começou a percorrer seu corpo por cima da blusa enquanto imaginava sua pele com todos os detalhes de que se recordava... E fazia tanto tempo... Muito tempo de um tempo que nunca era suficiente.

Sua respiração se tornou errática e seu coração acelerou-se. Sua mente se tornou errática e seus instintos aceleram. Sua vida tornou-se errática e... Tudo o que sabia era que tinha muita urgência de sua Betty.

— Vamos pro seu quarto — os instintos dele falaram mais alto, ofegantes, enquanto ele deslizava as mãos pelas costas dela.

Betty quase disse sim, embriagada de presença dele e da necessidade de tê-lo colado a si. Mas abaixou a cabeça e sorriu, um sorriso pálido, doído:

Mi amor, precisamos conversar... Foi pra isso que meu pai saiu. Precisamos falar sobre a viagem.

Armando suspirou, tentando deitar fora toda a loucura dentro de si e beijou-lhe a testa. Todavia, de verdade, a última coisa que queria era conversar.

Voltaram a sentar-se no sofá.

– Será que seu pai não demora mesmo? — Armando perguntou.

Betty sorriu:

– Se bem conheço meu pai, ele vai demorar um pouquinho hoje...

– Então ainda tenho esperanças... — Armando disse, malicioso, beijando-a.

Betty sorriu: ele não tinha conserto. Armando recostou-se no sofá e deitou a cabeça, olhando para o teto:

— Bom, mi amor, sobre a viagem, diga que a franquia da Venezuela é vital para a empresa, que será uma visita profissional e que você está intimada a ir, afinal, a senhorita é a representante legal da Ecomoda.

– Sim, vamos ver... E quantos dias vamos ficar, onde, em quais eventos iremos?...

— Bom, a viagem vai durar, creio, 1 mês...

— 1 mês ? — Betty olhou-o, assustada.

Armando riu:

— Brincadeira, mi amor, brincadeira... Bem que eu queria que essa viagem durasse um mês inteiro, pra ver se eu saciava toda essa vontade de estar contigo. Mas serão apenas três dias. No primeiro a gente chega, se distrai um pouco, no segundo vamos ao coquetel de inauguração. Acho que depois do coquetel, Alejandra disse que reuniria alguns amigos na casa dela...

— Hum, agora entendi porque o senhor está tão animado em ir...

– EEUU??? Não, Betty, por favor, estou animado em ir COM VOCÊ.

— Brincadeira, mi amor, brincadeira... — Ela o imitou.

Armando sorriu:

— Certo. No 3o dia a gente tira pra eu te mostrar a cidade que é linda, e depois voltamos. Muito pouco tempo, mas melhor que nada.

Roubou-lhe um beijo rápido. Betty riu.

— Será que Seu Hermes não vai querer ir? — Armando de repente teve medo.

— Meu pai? Não. Ele tem medo de avião.

Armando sorriu: Que alívio.

Mas vai mandar o Nicolas, no lugar dele — Betty pensou, mas não diria, um problema de cada vez a ser resolvido.

Beijaram-se. Armando trouxe Betty para cima de si, apertando-a contra seu peito, querendo senti-la com a intensidade acumulada durante todo o dia em que ficaram sem se ver:

– Betty... Eu te amo tanto, eu te quero tanto... — ele gemia ofegante, enquanto enfiava as mãos por dentro da blusa de Betty e lhe acariciava os seios sobre o sutiã. Ela se abandonou nele e não quis mais nada.

– Eu também, mi amor... Eu também... — Betty mal conseguia articular as palavras.

Armando pegou a mão dela e a levou entre suas pernas. Betty encarou-o, a testa encostada na testa dele:

Mi amor, meu pai pode chegar a qualquer momento...

Armando, sustentando seu olhar, colocou a própria mão sobre a dela e pôs-se a fazer os movimentos que o agradava, buscando os lábios de Betty:

– Não quero pensar nisso, Betty... Só quero sentir você... E que você me sinta...

O cérebro de Armando ardia e incendiava todos os seus pensamentos. Betty se sentiu profundamente unida a ele naquele instante. Entendia-o... e quis lhe mostrar isso desabotoando-lhe a calça e começando a acariciá-lo, beijando-lhe para silenciá-lo e silenciar-se quando ele subiu sua saia e começou a fazer a mesma coisa com ela.

– Vamos pra algum outro lugar, Betty... — Armando quase lhe suplicava, mal conseguindo se segurar.

Betty olhou-o, acariciando seu rosto, se buscando perdida nele. Levantou-se e o levou para a cozinha, o lugar mais escondido daquele piso, já que não o poderia levar para o seu quarto. Armando beijou Betty intensamente, percorreu seu pescoço com a língua, abriu-lhe alguns botões da blusa e beijando cada parte, enquanto acariciava-lhe em seu ponto mais íntimo. Betty deslizava as mãos por todo seu corpo, demorando-se em suas partes mais sensíveis. E ele rapidamente tirou uma camisinha de dentro da carteira e deu-lhe a ela, que a colocou nele. Armando, então, sentou-a na mesa, beijando-lhe os lábios, sentindo todo o seu corpo na pontas dos dedos, e terminaram o que começaram na sala, semi-vestidos, entre gemidos e necessidades abafadas, até o mundo à volta de ambos contrair no seu inicio e expandir ao infinito.

Armando recostou a cabeça entre os seios de Betty, depois de beijar-lhe o pescoço. Betty riu:


– Armando, você é um louco... — ela passou os braços por sobre os ombros dele e aninhando-o em si.


Armando ergueu a cabeça, com uma expressão esgotada:

– Acho que eu vou dar meu carro de presente para o seu pai, se isso nos permitir outros momentos como este...

Betty riu novamente:

– É melhor você se recompor, mi vida, agora ele pode realmente chegar a qualquer momento...

Armando deu um último beijo em Betty e correu para o banheiro. Betty ajeitou-se, ajeitou a saia, tentando desfazer os amassados, e voltou para a sala. Exatamente nesse momento, ela viu o carro de Armando parando na porta de sua casa e seu pai saindo e tocando a campainha. Dona Júlia desceu correndo para abri-la.

— Está aqui, mulher! Capricha nesse café!

Seu Hermes sentou-se na sua poltrona:

– Onde está o Dr?

– No banheiro... — Betty respondeu.

Seu Hermes contraiu as sobrancelhas.

– Que foi, Hermes? — D. Julia perguntou.

– Você estava aqui o tempo inteiro... — Seu Hermes inquiriu.

– Mas,claro! — D. Julia respondeu.

– Hum...

– E como foi com o carro, papai? — era melhor mudar de assunto logo.

Seu Hermes sacudiu as chaves, animado:

– É um carro mais do que excelente! As ruas parecem tapetes, nem se sente acelerar... Uma maravilha!

– Ah, que bom. E cuidou bem dele?

– Claro que sim, minha filha! Olha com quem a senhorita está falando...

Armando saiu do banheiro completamente recomposto. Sentou-se ao lado de Betty evitando olhá-la para não se denunciarem. Tomou a mão dela entre as suas:

– Gostou do carro, Seu Hermes?

– Muitíssimo, muitíssimo, Dr. Um excelente carro, estava falando com Betty agora sobre isso.

– Ah, fico feliz que tenha gostado, também gosto muito dele.

Seu Hermes assentiu.

– Mas, quando o senhor quiser, não faça cerimônia, ele estará à sua disposição — Armando continuou.

Seu Hermes agradeceu animado. E Armando realmente queria que Seu Hermes quisesse muito o carro, em todos os momentos possíveis...

Dona Julia arrumou tudo rapidinho. Armando se serviu e, quando Seu Hermes disse que já ia subir, ele se levantou, se despediu de todos e saiu acompanhado por Betty. Fecharam a porta e ele abraçou-a, finalmente podendo olhá-la diretamente nos olhos. Permaneceram abraçados longamente.

– Até amanhã, mi vida. Que tenha uma boa noite e esteja bem — ele disse.

– E você também.

Mas nenhum dos dois se separava.

– E obrigado por hoje, Betty. Foi um dia tão longo... Mas que acabou tão bem... — Ele esboçou um sorriso malicioso.

– Sim, é verdade – Betty assentiu ruborizada.

Armando endireitou-se e puxou o rosto dela para um beijo:

– Até amanhã, mi vida. Te amo...

– Até amanhã. Também te amo.

Beijaram-se longamente, até que Armando saiu num impulso porque não conseguiria sair de outra forma.


Entrou no carro sorrindo. Não estava completamente satisfeito, mas, pelo menos, estava saciado por um momento.


Betty subiu e deitou-se, feliz. Deslizou a mão pelo próprio corpo enquanto sentia Armando em si. E foi enrolada no próprio corpo que adormeceu.

Notas finais
1 Carulla é uma rede de supermercados 24hs.