Um Novo Final
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Quatorze dias que passaram arranhando as costas de Armando ao mesmo tempo em que lhe fazia cócegas no peito. No dia seguinte, finalmente, ele e Betty voariam para três dias de paraíso, com as horas a acariciar-lhes o cabelo, dizendo para não se preocuparem. Planejara os lugares que iria mostrar a ela, contaria as lembranças, juntaria os quadros, porque queria que Betty soubesse de tudo o que se passou com ele na Venezuela. Todavia, ainda tinha um inconveniente: Betty não havia falado com o pai. Adiava isso sempre com uma desculpa diferente, mas assegurou-o de que iria de toda a maneira, era um compromisso que tinha feito e não falharia.
Para Betty, cada dia que passava levava um pedaço de si, arrancado num caminho de um furacão. A possibilidade de enfrentar o pai era como cortar-lhe uma perna. E a negativa dele seria instantânea. Antecipou todos os discursos que poderia fazer, vendo a face de seu pai na sua, no espelho, e de todas as situações saíam ambos magoados, como se fossem mesmo uma só pessoa. Mas naquele dia chegava o fim do prazo. E tinha que escolher as palavras certas porque iria dizê-las somente uma vez.
Armando bateu à porta da sala da presidência e abriu-a:
— Interrompo?
Betty sorriu,vendo todos os fantasmas de angústia correndo e escorrendo por entre os cantos do escritório. Vê-lo era sempre um alivio:
— Não, claro, que não.
Seu Hermes já nem saía mais de sua sala. O genro já começava a ser como um móvel da casa.
Armando puxou Betty para um canto estratégico da sala e deu-lhe um beijo. Já não temia tanto o sogro. Betty retribuiu, mas interrompeu-o logo:
— Armando...! — ela disse baixinho, entre um largo sorriso.
Armando roubou-lhe outro beijo:
— Acho que agora eu consigo trabalhar pelos... — Fez supostas contas na mente. — Próximos dez minutos? Pode ser...
Betty sorriu sentando-se e convidando-o a sentar-se. Ele segurou as mãos dela sobre a mesa:
— Já conversou com seu pai?
— Não, mas vou fazer isso no almoço, mi amor, já combinamos de almoçar em casa hoje. Eu vou precisar muito da minha mãe nessa hora...
— Ok, ok... E não quer mesmo que eu vá?
— Não, isso só vai complicar as coisas. Mas...
— Mas?
— É bom que deixe o seu celular ligado, eu posso precisar de um apoio moral a qualquer momento.
— Deixarei, mi Betty.
Seu Hermes saiu da sala esfregando as mãos. Se deu com a presença de Armando:
— Vamos almoçar lá em casa, Dr?
— Hoje, não, Seu Hermes, já tenho compromisso. Mas deixo vocês em casa e vou.
Betty assentiu com a cabeça. Saíram os três.
****
Depois de deixar Betty e Seu Hermes, Armando voltou para a Ecomoda. Seu único compromisso era com a própria ansiedade. Sentou-se, pediu comida e assim que desligou o telefone tirou seu celular do bolso, colocando-o de lado, com o visor voltado para si. A comida chegou rápido e ele comeu com o telefone lhe fazendo companhia, observado-o, enigmático.
****
Enquanto Seu Hermes ia ao banheiro para lavar as mãos, de modo a se preparar para almoçar, Betty foi para a cozinha, onde estava sua mãe:
— Tudo bem, minha filha?
— Sim, mamãe... — Betty encostou-se na pia, suspirou — ou não... Não sei... É hoje que eu tenho que falar com meu pai. É agora.
— Ai, sim, minha filha, Deus que nos ajude. Esses dias eu o venho preparando, mas seu pai é difícil, você sabe como é...
Betty acenou com a cabeça:
— Mas eu tenho que ir, mamãe. Nao só pelo Armando, mas por mim também.
— Vai dar tudo certo, vamos ter fé.
— Sim...
Seu Hermes desceu as escadas assoviado um de seus tangos.
— Pelo menos, ao que tudo indica, ele está de bom humor — D. Julia concluiu.
— Tomara...
Seu Hermes sentou-se à mesa:
— Júlia! Pode trazer minha comida!
Betty ajudou a mãe a servir Seu Hermes e a trazer as coisas. Ambas sentaram-se logo em seguida. Betty desamassou a folha de papel que escrevera em sua mente para não esquecer as falas:
— Papai, o senhor ficou sabendo que a franquia da Venezuela vai ser inaugurada depois de amanhã?
Seu Hermes não desviava os olhos da comida:
— É mesmo? Vai ser bom pra empresa.
— É... E eles convidaram todo o corpo executivo da empresa...
— Engraçado, não recebi nenhum convite.
Betty assustou-se, já estava se denunciando:
— É porque foi feito o convite por telefone, papai, foi a Alejandra Zing quem ligou. O senhor se lembra dela?
— Sim, sim, a venezuelana, me lembro...
— Então, ela me disse que estavam todos convidados, só temos que avisar quantos vamos para que ela possa fazer as reservas. Nós poderíamos ir, pegaríamos um avião amanhã...
— Nós?
Seu Hermes se imaginou subindo num avião e todo o vento do lado de fora passou zumbindo no seu ouvido. O avião inventado decolou e pouco depois caiu, o que o fez tremer involuntariamente:
— Não, Betty, está muito em cima da hora. Se ela tivesse falado antes poderíamos ir de carro. Mas em cima da hora assim, não. Não dá tempo de arrumar nada, assim...
— Viajar de carro até a Venezuela? Isso me soa muito estranho...
— Eu não vejo nada de mais...
— Você quer ser sequestrado pela guerrilha, Hermes, como pode dizer uma coisa dessas?! — D. Julia quase gritou.
— Mas, pai, a questão não é essa. Ocorre que Alejandra me disse que fazia questão da minha presença lá. Seria um descaso se a presidente da empresa não comparecesse.
Seu Hermes olhou-a de esguelha, aquela conversa da filha estava começando a misturar-se com a comida que tinha no prato:
— E quem mais além da senhorita iria?... O Dr. Mendoza, suponho.
Betty tentou parecer natural. Havia chegado o momento crítico:
— Sim, pai, ele é o vice-presidente executivo e proprietário da empresa. Seria igualmente uma desfeita se ele não fosse.
— Somente vocês dois?
— Não, eu acabei de dizer: todo o corpo executivo da empresa está convidado.
Seu Hermes tinha a expressão desconfiada. Coçou o queixo, olhou para a filha:
– A senhorita já sabe minha resposta, não sabe?
E o pior de tudo era sua própria filha querer fazê-lo de idiota!
Betty abaixou a cabeça, mas levantou-a logo em seguida. Chegava ao segundo momento crítico previsto:
— Papai, entenda que eu e Armando somos os dois executivos mais importantes da empresa...
Seu Hermes soltou os talheres no prato, fazendo ruído:
— Ah, que coisa mais bonita! Betty, minha filha, serão quantas horas de festa? Três, quatro? E o resto da noite, o resto do dia? Acha que o Dr Mendoza vai ficar quieto em um quarto individual de hotel?
— Papai, não estou pensando em passar uma lua-de-mel com Armando — uma grande, porém necessária mentira. — Nossa visita é uma questão profissional.
— Questão profissional, vocês dois longe das minhas vistas?! O diabo é porco, Betty!
— E a sua resposta é não.
— Não é só um "não": é um “não” absoluto!
Betty respirou fundo, iria proferir as palavras mais difíceis da vida dela:
— Papai, a questão vai muito além dessa de Armando ir ou não ir atrás de mim depois da festa. É uma questão de representar uma grande empresa no exterior...
— Continua sendo "não" minha resposta para você, mocinha. Deixe que o Dr. Mendoza vá sozinho, ele não é o proprietário?
— E eu sou a presidente! Papai, por Deus, eu preciso estar lá!
— Pois vai ficar para uma próxima vez, quando eu puder acompanhá-la na condição de pai de moça decente.
O sangue ferveu na cabeça de Betty:
— Papai!!!! Eu já tenho 26 anos, por favor! Pára com isso de me acompanhar em tudo que é lugar! Moça decente, moça decente!, o senhor não sabe falar outra coisa! Eu sei que cometi erros, mas isso não fez de mim a mais promíscua de todas, como as vezes o senhor da a entender...
— E eu te ensinei a se virar assim contra seu pai?! Ficou louca?
— Não, muito pelo contrário! Estou completamente lúcida! E chega disso! A questão é que é necessária a minha presença lá e é muito duro ter que dizer isso, mas quando comecei essa conversa, não estava te pedindo permissão para ir, senão te comunicando que eu vou, como uma mulher executiva da minha idade faria!
Seu Hermes despencou-se, voltando a sentar-se na cadeira, perplexo com aquela atitude tão disparatada da filha. As palavras todas sumiram da mente dele, deixando muito espaço para as reticências que pulavam e latejavam em dor de cabeça:
— Depois de tudo o que eu fiz por você, é assim que você me retribui, senhorita?
Os olhos de Betty se encheram de lágrimas:
— Eu não queria que fosse assim, papai...
Seu Hermes se inflou de novo, não poderia deixar que a filha percebesse que o afetara. Levantou-se:
— Pois eu vou dizer as minhas ultimas palavras, Beatriz Pinzón: A senhorita pode até ir, mas não volta.
— Hermes!!! Como pode dizer uma coisa dessas?! — D. Julia não poderia mais ficar calada diante de um disparate desses.
— Pois digo e repito! Se ela for, Júlia, não volta!
— E eu, Hermes, te digo que para onde minha filha for eu vou! Que coisa mais absurda de se dizer para uma filha...
— Pois vão as duas, e vão logo — ele disse se levantando. — De preferência não estejam aqui quando eu descer de novo!
Subiu as escadas e bateu a porta do seu quarto.
As lágrimas que vacilavam a vista de Betty se sentiram à vontade pra cair... Ela cobriu o rosto com as mãos. Dona Julia sentou-se ao seu lado e pôs-se a afagar-lhe o cabelo:
— Não fique assim, Betty. Seu pai ainda não tem noção plena de que você não precisa mais dele pra se manter ou pra sobreviver. As coisas vão se ajeitar, vai ver. Ele reagiu até melhor do que eu esperava...
Betty encostou-se em Dona Júlia:
— Ai, mamãe... Não queria que as coisas fossem assim. Queria que a gente conversasse e chegasse a um consenso...
— Mas entenda seu pai, minha filha... É realmente difícil para ele ver você se aproximar de Armando e se afastar dele. Pai é pai. Entenda isso...
— Está certo. — Limpou as lágrimas. — Mas eu ainda volto pra casa hoje depois do expediente?
— Mas é claro, filha. Claro! Deixe que eu me dou com Hermes a partir de agora... Termina de almoçar, eu vou chamar um táxi para você voltar.
— Obrigada, mãe...
Betty almoçou e, quando o táxi chegou, ela se foi. Só pensava em ver Armando. Nele o céu parava de trovejar e a terra parava de tremer.
****
Armando rodava o telefone em cima da mesa, quando bateram na porta. Foi correndo abri-la e era Sandra, dizendo que havia uma chamada de Alejandra. Ele, de pronto, não quis atender, Betty poderia ligar, a cada momento, mais a qualquer momento. Mas pediu a Sandra para que passasse a ligação.
— Armando, como está? — Alejandra disse.
— Muito bem, Alejandra, — sua voz era mais sorridente e arrastada do que ele mesmo queria que fosse — e como andam os preparativos para a inauguração?
— Muito bem, estamos correndo muito, mas tudo está saindo muito bem... Posso esperar você e Betty amanhã?
– Sim, claro, claro! Iremos.
– Ah, me alegra muito, será um prazer recebê-los.
– E nos alegra muito ir, seguramente.
Alejandra sorriu:
– A que horas os espero?
– Hum... Na verdade, não sei...
Nesse momento Betty bateu na porta e a abriu. Tinha a expressão pesada e Armando deu um salto da cadeira.
– Mas vou voltar a ligação para Sandra que ela pode te passar esses dados... Um abraço grande e nos vemos amanhã — sua voz secou totalmente, beirando ao tom impessoal.
Antes que Alejandra pudesse responder à despedida, Armando passou a ligação à Sandra e foi em direção à Betty.
Abraçou-a. Betty mergulhou nele na tentativa de esquecer de tudo. Ficaram em silêncio. E era só disso de que ela precisava, havia muito barulho dentro de si...
Permaneceram abraçados por um largo momento, até que ela se separou dele e ambos sentaram-se no sofá.Betty encostou a cabeça no ombro dele.
– E como foi? — Armando sentia que se não começasse a conversa, ela não diria nada e ele morreria sufocado de ansiedade se não soubesse logo.
– Foi mal, muito mal...
– Mal?
– Sim, meu pai chegou a dizer que se eu fosse eu não precisava voltar...
Armando ergueu as sobrancelhas:
– Mas isso não significa que você não tem pra onde ir, podemos viver juntos, o que, pra, mim, não seria nada mal...
Betty sorriu, mas se dissesse isso ao pai, seria realmente o fim: e fim.
– Muito obrigada, Armando. Mas, não, imagina...
– Que pelo menos você saiba, qualquer coisa...
– Sim, muito obrigada – ela disse sorrindo e aninhando-se mais nele.
– Mas, e o resultado da conversa... Pode dizer que eu aguento...
– Resultado da conversa?
– Sim, você vai ou não vai?
Betty ergueu a cabeça olhando-o. Ele realmente estava apreensivo, ela acariciou seu rosto, tentado desfazer aquele aspecto ansioso:
– Armando, todas as vezes em que falamos sobre isso, o que eu sempre dizia?
– Pra eu não me preocupar?
– Sim, porque eu iria.
– Sim.
– Porque era um compromisso que eu tinha contigo.
– Isso...
– E porque eu queria muito ir...
Armando sorriu. Sua pergunta havia sido respondida, ele voltou a abraçar Betty, apertando-a forte contra si.
– Que notícia boa, Betty, que notícia boa... — Beijou-lhe o cabelo. — Serão três dias maravilhosos, e isso é uma promessa.
– Mas você não tinha que pensar que eu não ia...
– Mesmo com seu pai dizendo para não voltar?
– Sim, eu sou presidente de uma empresa, posso me manter sozinha...
Armando encolheu-se no sofá:
– Hum. Eu pensei que você ia dizer que poderia ir para minha casa...
Betty sorriu diante do olhar abandonado dele e beijou-lhe o rosto:
– Assim, não, mi amor, meu pai não suportaria mais isso, você sabe...
Ele contraiu o rosto de modo que não deixasse seus pensamentos escaparem, mas foi uma vã tentativa:
— De verdade, Betty, não sei por que 'assim, não'. Pensa, não estaríamos fazendo nada de errado. Somos um casal que se ama e essas coisas passam.
Betty olhou-o, seria. Ele falava como se não a conhecesse nem conhecesse a família dela:
— Ai, mi amor, que pena. Eu te entendo, sério. Mas para minha família isso seria a pior coisa que eu poderia fazer e eu jamais os decepcionaria a esse ponto...
— Eu também te entendo. Só estou dizendo que, principalmente no nosso caso, seria perfeitamente aceitável... Como uma espécie de ordem natural das coisas...
Betty se perguntava se ele estava compreendendo o que ela dizia:
— Morar junto antes de nos casarmos jamais seria a ordem natural das coisas... Fomos criados de maneiras muito diferentes, Armando.
— Você não tem que me lembrar disso...
— Desculpa...
Ele julgava que Betty estava dramatizando excessivamente a situação, todavia, engoliu a vontade de convencê-la. Não discutiria, não daquela vez. Queria mostrar que estava sendo digno das chances que sempre pedira e não ia despontá-la de novo. Envolveu-a em seus braços:
— Mas a senhorita sabe que, qualquer coisa, minha casa está de portas abertas para te receber, o que para mim não seria de modo algum um sacrifício. Muito pelo contrario,sacrifício é ficar longe de você.
Betty sorriu, beijou-o de leve:
— Muito obrigada, mi amor, mas um dia de cada vez... E a ultima coisa que eu quero é chatear MAIS o meu pai...
Armando sorriu, mas contraiu as sobrancelhas por outra coisa, se havia dado conta de uma incompatibilidade de dados:
— Espera: se você está aqui, onde está o seu Hermes?
— Não veio, ficou em casa.
Armando ergueu as sobrancelhas, malicioso:
— E agora que a doutora me põe à par de uma noticia importante como essa? — disse deitando em cima dela e mobilizando-a no sofá.
Betty começou a rir:
— Mas ele sempre pode chegar a qualquer momento, não duvide disso...
— Mas um minuto sem ele, é um minuto a mais de vida que eu tenho — ele disse enquanto desabotoava os dois últimos botões da blusa de Betty, em seguida beijando seu ventre.
Ela riu, mas logo foi entorpecida pelas carícias de Armando que se tornavam mais intensas, primeiro passando a língua por seu umbigo, depois subindo e desabotoando um a um os botões da sua blusa, enquanto desenhava com as mãos os contornos dos seios de seus, ainda cobertos. E Betty era tudo menos ela, tentava se juntar em meio a todas as sensações que Armando lhe provocava. Guiou-o para seus lábios com a suas mãos e se beijaram, já embriagados um do outro.
Betty deslizou as mãos pelo dorso de Armando enquanto imaginava-o, de olhos fechados. Desceu os lábios para seu pescoço e abriu-lhe a camisa. Abraçou-o, sentindo-o latejante em seus braços...
— Aqui, doutor, o que o... — Sandra entrou intempestivamente no escritório.
Armando caiu do sofá:
— Ai, doutor, que pena, que pena, me desculpa — Sandra murmurou, colocando a mão na frente dos olhos e saindo toda desengonçada.
Assim que a porta se fechou Betty começou a rir.
Armando ainda estava tonto, no meio do caminho entre tudo o que passara com Betty há segundos e a realidade gelada estampada na presença inconveniente de Sandra.
Sentado, no chão, passou a mão pelo rosto:
— Maldita seja!!!
Betty enlaçou seu pescoço e beijou-lhe o rosto:
— Mas estamos nos descuidando. Nem trancamos a porta.
Armando se levantou de uma vez, trancou a porta e voltou:
— Então vamos continuar de onde paramos — ele disse se deitando novamente sobre ela.
Betty riu e ambos escutaram o telefone. Armando respirou fundo para controlar a vontade de jogá-lo na parede.
— É melhor que atenda, mi amor, pode ser importante — Betty disse.
— Sim, o pior de tudo é que realmente estou esperando ligações importantes.
Foi até sua mesa e atendeu. Deu sinal para que Sandra passasse a chamada.
Betty se ajeitou e, jogando-lhe um beijo de longe, saiu. Mal sabia ela que isso lhe chegava frio como um punhal.
Ela foi para sua sala. Sorriu ao se lembrar da atitude de Armando ao dizer que precisava atender ao telefonema. Realmente estava mudando, estabelecendo suas prioridades e cuidando da empresa da sua família. Cada dia mais longe do Armando egoísta que queria o cargo de presidente por vaidade.
Sentou-se e discou o número de sua casa.
— Alô. Mamãe?
— Está melhor,minha filha? — D. Julia disse.
— Sim, cheguei, eu e Armando conversamos e estou melhor.
— Ai, que bom, isso me tranquiliza.
— E papai?
— Não saiu do quarto até agora... Mas, deixa ele lá. Ele precisa mesmo de um tempo sozinho para refletir sobre o que disse e sobre o que vai fazer.
Betty suspirou.
— Mas não se preocupe que vai dar tudo certo — D. Julia animou-a;
— Tomara, mamãe, tomara...
— Trabalha tranquila que, quando você chegar, vai ver que tudo estará resolvido. Eu conheço seu pai e, ademais, ele te ama, Betty.
Os olhos de Betty ficaram marejados. Ela sabia que tudo que o pai fazia era para protegê-la de situações como as passadas com Miguel e se sentia tão mal em enfrentá-lo...
— Sim, mamãe, qualquer coisa, me chama, sim?
— Sim, claro, mas não se preocupe com essas coisas. Fica com Deus.
— Amém.
D. Julia desligou o telefone e olhou em direção ao quarto onde Hermes estava trancado. Por mais de uma vez pensou em ir e falar com ele, estava mais que na hora de fazê-lo. Todavia, como se sentisse a vontade de Hermes de não ver ninguém desde onde ela se encontrava repelindo-a, permanecia sem se mover e depois simplesmente voltava para a cozinha.
Seu Hermes volteava pelo quarto como as coisas volteavam na sua cabeça. Ainda estava com a surpresa em ver sua filha desafiando-o chutando suas vísceras de cima abaixo. E dessa vez não teria volta, ela iria mesmo, com aquele doutor com o diabo nas mãos e na mente. E ele não podia permitir isso. Sua filha tinha que permanecer pura até o altar, como tinha que ser uma moça decente. E ele sabia que ela era decente. E sabia que Betty era inexperiente à beira da ingenuidade. Não podia deixar que terceiros se aproveitassem, ainda mais quando o terceiro em questão já havia se aproveitado de uma forma distinta... E sua mente dava voltas sobre si mesma sem deixar que ele visualizasse uma solução... Betty havia dito claramente que todo o corpo executivo da empresa havia sido convidado. Ele poderia ir. Mas pensar em avião lhe embrulhava as vistas. Não, ele não. As secretárias, talvez? Mas todas eram loucas e de reputação duvidosa, também elas não poderiam ser... Teria que ser alguém com quem pudesse sempre estar em contato e nesse momento visualizou a figura de Nicolas, quase como um holograma em sua frente. Sim! Que fosse! Dessa maneira, ele manteria sua palavra, sua autoridade sobre a filha e poderia ficar mais sossegado, afinal, Nicolas era amigo de Betty e não ia deixar de modo algum que alguém se aproveitasse dela.
Abriu a porta ruidosamente, assustando D. Júlia que estava na metade do caminho até o quarto.
– Júlia, arruma meu casaco que eu vou trabalhar. Já tenho a solução do nosso problema!
D. Julia levantou as sobrancelhas, o problema era unicamente dele:
– E em que você está pensando, Hermes? – ela disse enquanto descia e pegava o casaco dele sobre a cadeira.
– Se Betty disse que todo corpo executivo da empresa poderia ir, então o Nicolas pode ir também!
Dona Júlia respirou aliviada. Era realmente uma boa solução. Entregou-lhe o casaco e ele saiu apressadamente.
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