Um Novo Final
29 Capítulo 29
Notas iniciais
Seu Hermes e Betty chegaram em casa ao final do que pareceu uma viagem longuíssima. Por mais que tudo parecesse resolvido, Betty podia ver a mágoa em cada marca de expressão de seu pai. Não se atreveu a tentar uma conversação, não suportaria o gelo dos olhos direcionado diretamente para ela.
Ao entrarem em casa, Seu Hermes logo chamou Dona Júlia que apareceu apressada, vinda da cozinha, enxugando as mãos em um guardanapo, alarmada pelo tom da voz do marido:
– Que foi, Hermes? Que aconteceu?
Pela expressão de Betty, percebeu que foi algo muito grave e que sua intuição não falhara.
– Júlia, eu tinha razão! Sabia que algo errado estava acontecendo. Eu não digo sempre? O diabo é porco!
– Ai, Hermes, não me assuste! O que aconteceu?
– O que aconteceu?! Aconteceu que peguei sua filha se agarrando com aquele descarado do Doutor Mendoza no escritório da Presidência!
Dona Júlia levou as duas mãos à boca, assustada. O cenário em volta pesa diante dos seus olhos fazendo-a piscar várias vezes:
– E o que você fez, homem? – Em seguida, dirigiu-se à Betty – Minha filha, Seu Armando está bem?
Betty balança a cabeça positivamente. Não queria dizer nada para não comprometer Dona Júlia.
– Como assim se Seu Armando está bem? Estou lhe dizendo que ele estava agarrando nossa filha e você está preocupada com aquele descarado?
Seu Hermes põe as mãos na cintura:
– Júlia Solano, a senhora já sabia desse... desse relacionamento desses dois?
Betty abaixou ainda mais a cabeça enquanto Dona Júlia enrolava as mãos no avental. Permaneceram caladas por um tempo, nenhuma das duas conseguiu formular frases aceitáveis em suas mentes.
Seu Hermes puxou uma cadeira, sentando-se:
– Não precisa perder seu tempo inventando desculpas, já vi que sabe...
Apoiou a testa na mão, profundamente desolado. Dona Júlia balançou a cabeça. Betty não se moveu.
– Ai, Hermes, todos percebiam que os dois estavam apaixonados a mãe de Betty disse apenas.
Seu Hermes virou a cabeça em sua direção:
– A senhora também me enganou! Todos me enganaram! Todos sabiam de tudo menos eu!
– Isso é culpa de sua teimosia, Hermes. Se você não fosse tão severo com a nossa filha, se entendesse que Betty cresceu, que é uma mulher, que tem todo o direito de se apaixonar e ter um namorado, ninguém andaria escondendo coisas de você.
– Mas eles começaram este relacionamento enquanto o doutorzinho ainda era noivo daquela senhora executiva, a Marcela Valência. E ainda por cima andaram fazendo negócios escusos, Júlia. Enganaram a todos na empresa. Como você quer que eu me sinta?
– Hermes, sei que estes dois erraram e eles também sabem. Sofreram muito por isso. Mas agora estão tentando fazer as coisas corretamente. Dê-lhes uma chance.
– Que outra alternativa me resta, Júlia? Que mais eu posso fazer? Mas não vou me esquecer disso, não, e, sinceramente, vai demorar demais... Reze para que só demore demais, para eu voltar a confiar em você. E digo o mesmo para a senhorita, Beatriz.
Betty sente o soco no estômago. Teve ânsias de vômito. O desgosto era evidente nos olhos dele, seus ombros estavam arqueados e sua expressão envelhecida voltara.
– O doutorzinho vem aqui hoje, Júlia, para falar conosco.
Dona Júlia ficou imensamente feliz ao ouvir estas palavras e se pôs a correr de um lado para outro, como uma louca, para arrumar tudo para a chegada de seu futuro genro.
Faltando poucos minutos para as 20 h 00, Armando estacionou seu carro em frente a casa de Betty. Seu coração batia acelerado e sua boca estava seca e amarga. Sentiu-se como um adolescente que ia pedir permissão aos pais da sua amada para namorá-la. Olhou em volta e o ambiente estava preto e branco. Teve que passar a mão pelos cabelos para ter certeza de que não possuía um topete ou usava cartola, olhou bem para a gravata para certificar-se de que não era borboleta e olhou mais uma vez à sua volta para perceber que sua vida nesse momento não era um roteiro de um filme dos anos 50. Não podia negar que aquela situação toda o deixa muito contrariado, mas ele sabia que tinha de passar por tudo isso se quisesse ter um futuro com Betty. E, por ela, ele faria qualquer coisa, ainda que, nem em seus sonhos mais absurdos, pensasse uma coisa como aquela.
Suspirou resignado. Pegou os 2 buquês de flores que havia comprado e saiu do carro, disposto a enfrentar mais uma batalha em nome de seu amor. Se sente estranhamente fortalecido, porque ela estaria ao seu lado, sua Betty... E logo ele a veria, logo estaria com ela outra vez, abraçando seu sorriso... Dançando em seu perfume... E novamente um brilho de juventude cintilou em seus olhos. Não pôde deixar de rir de si mesmo e da situação em que se encontrava. Logo ele, que tinha fama de ser um dos maiores conquistadores de Bogotá! Um homem que se julgava moderno e sofisticado... Se os seus amigos (ou aqueles que outrora julgara seus amigos) soubessem, se divertiriam muito à sua custa. No entanto, já não se importava com isso. Só queria ser feliz ao lado de Betty. E para isso precisava passar pela barreira que se constituía Seu Hermes. Tocou a campainha, nervoso, e alguns segundos depois a própria Betty lhe abriu a porta.
Betty pulava em cima dos ponteiros do relógio da parede. Tudo a sua volta parecia sufocante, o relógio parecia estar parado e a única coisa que poderia salvá-la era a campainha que soava silenciosa na sua mente. Esfregava as mãos uma na outra, olhava para todos os lados, sempre parando o olhar na porta. E, no mesmo instante em que ouviu a campainha, saiu correndo, antecipando-se a seus pais.
Betty atendeu à porta. Os dois se miram, perdidos na alma um do outro, por um tempo. Finalmente Armando rompeu o silêncio:
– Boa noite, mi amor! – ele disse e lhe dirigiu um sorriso doce enquanto lhe entregava um dos buquês de flores que trazia, com vinte rosas vermelhas colombianas.
– Boa noite, Armando. – Ela reepondeu sorrindo ao receber as flores. – Obrigada. São lindas!
Sabia que estava sendo observada pelo seu pai, mas não resistiu e lhe deu um beijo rápido nos lábios.
Como eles permaneciam em pé na porta, olhando-se como que em transe, Seu Hermes se aproximou:
– Boa Noite, Dr.! Entre, por favor – O pai de Betty fez um gesto com as mãos para que Armando passasse para dentro da sala.
– Boa Noite, Seu Hermes! – Armando cumprimentou-o, relutante em desviar os olhos de Betty.
Ela estava tão linda! Vestida informalmente, com uma graciosa saia jeans e camiseta. Praticamente sem maquiagem, usando somente um batom nos lábios e trazia os cabelos presos em um rabo de cavalo. Parecia uma menina.
– Boa Noite, Seu Armando! – Dona Julia o cumprimentou sorridente, a expressão contrastando com a de Seu Hermes – Bem vindo a nossa casa! Sinta-se à vontade!
– Muito Obrigado, D. Júlia! Trouxe-lhe uma pequena lembrança – E lhe entregou o outro buquê composto de um mix de flores amarelas.
Dona Júlia agradeceu encantada com a gentileza do genro. Todos se sentam, Betty e Armando lado a lado no sofá maior, Seu Hermes em uma cadeira à direita deles e Dona Júlia em uma poltrona à esquerda.
O clima era tenso e o silêncio pesado. Armando sentia que sentara em um sofá de pedra. Remexia-se toda hora, tentando achar uma posição confortável. Betty parecia estar envolvida em uma redoma de vidro à prova de som, ou era sua mente que estava assim? Não conseguia inventar um assunto para conversar com ela, nem com ninguém. Tudo em que conseguia pensar era que Seu Hermes não iria facilitar nada pra ele.
Betty sentia entrar em cada poro de seu corpo o desconforto de Armando e aquilo queimava-lhe a pele. Queria poder abraçá-lo, beijá-lo e pedir que relaxasse, mas ela mesma não conseguia fazê-lo diante da presença de seu pai, vigilante. Também não sabia sobre o que poderiam conversar. E se deixassem escapar alguma coisa que denunciasse tudo por que já passaram? Pegou na mão dele, como que para mostrar que estava a seu lado. Armando apertou-a, precisava mesmo saber que ela estava ali.
Dona Júlia, tentando amenizar o clima, disse:
– Aceita um uísque, Seu Armando? – Ela pegou a garrafa que se encontrava sobre a mesa de centro e colocou um pouco num copo.
– Muito obrigado, Dona Júlia! – Ele sorriu enquanto pega o copo que ela lhe oferecia.
Ele precisava mesmo de um trago. Depois de tomar um gole, começou a falar:
– Bem... Seu Hermes, Dona Júlia...Venho aqui hoje para pedir aos senhores que me aceitem em sua casa como namorado de Beatriz. Eu amo muito a filha de vocês e ela também me ama. – Olhou para Betty que lhe sorriu, apoiando-o. – Quero estabelecer um compromisso sério com ela – foi direto ao ponto, já que era a única coisa que tinha para dizer.
Betty sentiu-se incomodada pelo fato de Armando estar sendo obrigado a passar por tudo aquilo. Mas admirou muito sua determinação e a dignidade com que enfrentava aquela situação constrangedora.
Seu Hermes esfregou as mãos nas pernas da calça. Não podia negar que surpreendera-se com a determinação dele em ir até lá e fazer o que tinha que fazer. Estava satisfeito pelo fato de Armando estar determinado a se adaptar às regras que ele tinha imposto. Mas também sabia que no começo tudo era desafiante...
– Muito bem, Doutor Mendoza, me alegro que queira um compromisso sério com minha filha. Mas devo alertar-lhe que nesta casa temos regras muito bem definidas. Minha filha é uma moça de família educada nos mais rígidos padrões de moral e decência. Não vou permitir esses namoros moderninhos que estão em uso hoje em dia... Se o senhor quer namorar minha filha, terá que concordar com as regras desta casa.
– Claro que sim, Seu Hermes – E ele tinha escolha?
– Como já lhe disse, o senhor virá ver minha filha aqui em casa, com a minha presença e de minha esposa. E terá que pedir permissão a mim para sair com ela, e é claro que eu só permitirei que a leve a lugares adequados e com hora para chegar...
Armando mirava-o com as sobrancelhas erguidas, disfarçando sua surpresa diante de todos àqueles absurdos que ouvia. Insistia em olhar no relógio para ter certeza de que estava na data certa, e não preso às histórias contadas pelo seu avô. Ele pensava que não conseguiria corresponder às expectativas de Seu Hermes, mas era só olhar para o lado e ver a figura de Betty que não conseguia mais pensar em não conseguir. Todavia carregava um espectro de esperança de que poderia fazer Seu Hermes confiar nele e as coisas melhorariam com o tempo.
– Como o senhor quiser, Seu Hermes — disse, apegado a esses pensamentos.
– Então, é isso. Você tem a minha permissão para frequentar a minha casa e se encontrar com a minha filha.
Dona Julia sorriu:
– Ah, que bom! Fico muito feliz! Bem-vindo à família, Seu Armando! Vou buscar alguns quitutes que preparei. Venha, Hermes.
– Venha para onde, mulher?
– Ai, Hermes, me ajudar com as bandejas! Anda, venha, venha!
Contrariado, Seu Hermes levantou e a acompanhou. Assim que os dois saíram, Armando respirou fundo, afundando no sofá:
– Meu Deus, nem acredito que consegui.
Betty permanecia rígida ao lado dele, constrangida demais por aquela situação.
– Que foi, mi amor? Fiz alguma coisa que não deveria? – Armando voltou a dizer, levando a mão dela até seus lábios.
Betty fez o mesmo gesto:
– Não, você fez tudo certo. Certo até demais, Armando... Nem acredito que estou te fazendo passar por isso... Me perdoa, mas meu pai... – ela abaixou o olhar, envergonhada.
Armando levantou seu queixo fazendo-a olhar para ele:
– Eu já disse que você vale muito a pena, mi Betty, e volto a dizer: Eu te amo, e você vale todo o esforço. Não se martirize por isso, afinal, conseguimos! Temos que comemorar! Somos oficialmente namorados, não preciso esconder você de ninguém e isso me deixa profundamente aliviado.
– Obrigado pelas palavras, mi vida. Mas as coisas só começaram... Não posso negar que tenho medo de você não aguentar por muito tempo...
– Pois eu vou te surpreender.
Armando puxou seu rosto para si, mas ela se reteve:
– Não, Armando, meu pai pode aparecer.
Ele respirou fundo, deixando-a, e nesse momento Seu Hermes e Dona Júlia voltaram com duas bandejas cheias de quitutes. Armando sorriu diante da quantidade de coisas e da variedade. Dona Julia parecia muito determinada a agradar.
Comeram, conversaram sobre o andamento da empresa, sobre os acontecimentos do dia, até que Armando percebeu a insistência de Seu Hermes em olhar o relógio. Era hora de ir embora e era melhor que ele fosse, antes que Seu Hermes o expulsasse de casa. Levantou-se, relutante em sair do lado de Betty apesar de tudo, se despediu de todos, agradeceu pela noite, pela companhia e Betty o acompanhou até a porta:
– Passo amanhã pra te buscar para irmos juntos à Ecomoda às... 7 h 30, pode ser? Posso fazer isso, não posso?
Betty sorriu:
– Pode, pode sim.
– Então está combinado, mi amor.
Beijaram-se de leve e ele saiu.
Por mais que ele estivesse aliviado por ter saído vivo da casa de Betty, não pôde evitar sair com o coração apertado de lá. Sozinho, no carro, não precisava mentir para si: aquilo seria torturante... Encontrar-se com ela na sua casa, na presença de sua família, sem poder tocá-la direito, sem tê-la, inteira para si... Passa uma das mãos pelo cabelo enquanto dirige... Contudo, simplesmente não tinha escolha... Desistir de Betty? Só louco, ou morto. A simples menção dessa possibilidade era um buraco negro a engolir o sol. Mas até onde iria, são, se já no primeiro encontro sentia a situação a amargar-lhe o raciocínio?
Chegou a casa, tomou um banho e foi direto para a cama. Sentia uma necessidade enorme dela a seu lado. Revirou na cama várias vezes e, como não conseguiu dormir, pegou o celular e disca o número de Betty.
Betty fechou a porta profundamente envergonhada de toda àquela situação. Sabia que seria dessa maneira até seu pai confiar em Armando, mas as coisas melhorariam com o tempo, se eles se comportassem bem. Voltou para dentro e ajudou sua mãe a pegar as bandejas e os copos e levar para a cozinha.
– Papai já subiu? — ela perguntou à sua mãe.
Dona Julia assentiu:
– E então, minha filha, está tudo bem?
– Sim, mamãe... Armando parece mesmo disposto a passar por isso comigo, me deixa mais aliviada, mas...
– Mas...?
– Ah, não sei até quando vi durar... Tenho medo de que ele acabe desistindo...
Dona Julia sorriu. Acreditava em Armando, sobretudo no amor dos dois:
– Eu não acho que ele vai desistir, não, minha filha... Ele te ama, Betty!Basta ver a maneira como olha pra você... Além do mais, essa birra do Hermes é só no começo, vai dar tudo certo.
Betty sorriu, mais aliviada com as palavras de Dona Julia. Beijou sua bochecha:
– Obrigada, mamãe!
– De nada, filhinha. Agora deixe que eu acabe as coisas por aqui, você está tão cansadinha, é melhor ir dormir.
– Vou tentar pelo menos... Boa noite, mãe.
Subiu para seu quarto, tomou um longo banho, vestiu seu pijama e se deitou, no entanto, era impossível dormir. O dia fora muito agitado e ela ainda sentia essa agitação no sangue. Pensava em tudo por que ainda teria de passar, todas as situações chatas... E todos seus pensamentos terminavam em Armando. Para ela até que não pareciam tão absurdas todas aquelas coisas, afinal, era seu pai e estava acostumada com seu jeito, mas Armando... Ele tinha um estilo de vida muito diferente, estava acostumado com mulheres muito diferentes...
Nesse momento o telefone tocou, assustando-a. Ela olhou o número e sorriu, ainda envergonhada:
– Olá, mi vida — Betty respodeu.
– Olá, mi amor. Te acordei?
– Não, ainda estou acordada, não se preocupe.
– Eu não conseguiria dormir antes de escutar sua voz. Não pudemos conversar direito hoje...
– Eu sei, me desculpa, por favor...
Betty escutou Armando sorrir do outro lado:
– Mas, mi vida, a culpa não foi sua! Você me pediu desculpas demais hoje e não consegui descobrir ainda onde você teve culpa...
– Eu sei que você não está acostumado com esse tipo de coisa, Armando, e deve ser muito difícil para você...
– Betty, a gente passou por coisa demais pra não aguentar essa... Eu estou disposto, não se preocupe comigo. Eu só liguei pra dizer que te amo, mi vida.
Betty sorriu enternecida:
– Você sabe que eu também te amo, muito.
– Então agora vê se dorme e não se preocupe com nada, ok?
– Tudo bem, e digo o mesmo para você.
– Mas meu problema é outro... É não ter você aqui na minha cama... Só isso...
– Ai, Armando...
– Mas não se preocupe, escutar sua voz já me fez muito bem... Um beijo, mi amor. Amanhã passo aí pra gente ir junto pra Ecomoda.
– Estarei esperando. Um beijo para você também.
Desligaram o telefone.
Armando se sentiu mais aliviado em falar com ela. Sabia que tinha dito uma porção de mentiras, mas se dissesse aquilo tudo que disse em voz alta podia acreditar que era de verdade. Diabo! Precisava acreditar que era de verdade! Betty também estava sofrendo e ele precisava ser o porto-seguro dela... Mas e seu porto-seguro?... Não. Precisava respirar fundo e controlar essa necessidade que ele tinha de tê-la. Abraçou-se com o travesseiro que ainda continha seu cheiro... Adormeceu.
As palavras de Armando foram como um cobertor para a alma de Betty. Depois de sua ligação pôde finalmente descansar. Estava muito feliz por sua determinação e sabia que se conseguissem passar por aquilo tudo juntos, teria uma grande prova do amor.
No dia seguinte, Armando acordou bem mais cedo para se preparar e ter tempo de passar na casa de Betty. Estava animado, pensando que poderia passar um tempo a sós com ela, mesmo que fosse dentro do carro e por poucos minutos. Vestiu seu terno, perfumou-se, tomou seu desjejum e saiu.
Betty acordou, arrumou-se rapidamente e desceu para tomar seu café. Mal acabara, Armando buzinou e ela foi se levantando da mesa. Seu Hermes olhou-a de esguelha:
– Aonde a senhorita pensa que vai, mocinha?
– Vou com Armando para a empresa, papai – ela achou melhor dizer no último minuto para não ter problemas com pedir permissão.
– Ah que bom, assim não preciso ter o trabalho de tirar o carro da garagem. Julia! Traga minha maleta!
Betty respirou fundo se debruçando sobre a mesa:
– Algum problema, Betty?
– Não, papai – com as sobrancelhas erguidas, resignada.
– Então vamos!
Os dois se levantaram e saíram.
Armando, quando viu Seu Hermes acompanhando Betty, deita a cabeça no volante e todos os seus planos escorreram molhando o tapete do carro. E quando Seu Hermes abriu a porta da frente e sentou-se ao seu lado, ele não pôde evitar rir daquilo. Era protagonista de uma tragicomédia surrealista e esqueceram de avisar-lhe.
– Algum problema, Dr Mendoza? — Seu Hermes perguntou, ajeitando a maleta.
Armando ainda estava rindo:
– Não, Seu Hermes. Como está o senhor?
– Ah, bem, muito bem.
Ele então desceu correndo para abrir a porta para Betty. Aproveitou para abraçar-lhe e dar um beijo de leve nos lábios.
– Olá, mi vida — Betty cumprimentou-o.
– Olá, mi amor, Passou bem a noite?
– Sim, e você?
– Bem também.
Seu Hermes abriu a porta:
– Podemos ir, Dr.? Não podemos nos atrasar.
Betty entrou e Armando arrancou com o carro. Os três fizeram o percurso em silêncio.
Chegaram à Ecomoda, e Armando desceu para abrir a porta para Betty. Wilson olhou-os, achando engraçado Seu Hermes sair da porta da frente. Cumprimentou Betty e Seu Hermes seriamente, mas não conseguiu disfarçar a cara de deboche ao cumprimentar Armando que olhou-o de soslaio:
– Calado, Wilson, calado.
– Mas eu não disse nada, Seu Armando... — Wilson ainda estava abafando a risada.
Armando se despediu de Betty, sem jeito, com um selinho nos lábios e correu para sua sala. Betty e o pai cumprimentaram as meninas e entraram na presidência.
– Três meses e eles largam! — Berta exclamou.
– Credo, Berta! Tudo por que esses dois passaram e você diz isso agora que eles estão bem!? — Sandra contestou.
– Mas, minha filha, você acha que Seu Armando é homem de ficar namorando debaixo das vistas de familiares assim? — Berta respondeu.
– Mas escapadas existem para isso, né... — Aura Maria disse.
Berta começou a rir:
– Mas eles vão ter que ser muito criativos para escapar das asas de Seu Hermes, mas muito mesmo.
– Ah, mas não há jeito que o desespero não dê, minha filha, pode estar certa disso — Aura Maria falou.
– Aura Maria tem razão... — Sophia concordou.
– Só sei que quero acompanhar tudo de camarote! — Berta voltou a dizer.
Elas riram e voltaram ao trabalho.
No decorrer do dia Armando foi várias vezes à sala de Betty com algum pretexto de trabalho, mas as coisas já não eram como antes. Assim que Seu Hermes escutava o barulho da porta, saía da sua sala e ficava junto com os dois. No fim do dia sua cabeça já estava explodindo porque não sabia mais o que fazer para ficar a sós com Betty.
Betty, por sua vez, se sentia menor cada vez que Armando entrava na presidência e Seu Hermes saía de sua sala. Cada vez era uma pontada no seu peito e, no fim da tarde, ela se sentia sem sangue nas veias. Mas não podia deixar de admirar-se com a persistência e o bom humor de Armando e se apegou nisso com todas as suas forças...
No final do expediente, Armando deixou os dois em casa. Seu Hermes saiu na frente e Betty propositalmente ficou para trás. Armando a abraçou:
– Betty, eu preciso muito de você hoje... – ele deixou escapar sua urgência por não caber mais em si.
Aquilo cortou o coração dela:
– Eu também preciso muito de você... Mas hoje é impossível... – disse bem próximo ao seu ouvido.
Armando respirou fundo e tentou parecer forte:
– Não, eu sei, eu sei, desculpa...
Se separam e Betty acariciou o rosto dele com um nó nas suas artéria:
– Mas eu prometo que a gente vai dar um jeito.
– Ei, vocês dois! — Seu Hermes chamou. — Querem fazer o favor de entrar?! Muito feio essa agarração no portão de casa! Não canso de falar que o diabo é porco?!
Eles olharam na direção de Seu Hermes, e ele estava na porta, com a mão na cintura:
– Vamos entrar... — Betty convidou.
Armando olhou para a porta e Seu Hermes ainda estava lá. Riu de novo. Estaria de bom grado com Betty no inferno se fosse necessário, por que não poderia aguentar estar sentado num sofá seguro dentro de casa? Ainda que fosse só sentado com várias restrições, estaria desfrutando da presença de Betty e nada poderia ser tão inebriante quanto isso... Pegou na mão dela e eles entraram.
Dona Júlia os recebeu na porta juntamente com um cheiro acolhedor de café recém passado. Há muito que Armando não sentia esse cheiro de família.
– Olá, Seu Armando! — D. Julia o cumprimentou.
– Olá, Dona Júlia, pode me chamar apenas de Armando, por favor.
– Venha, entre, acabei de passar um cafezinho. Sente-se aqui.
Mais uma vez naquele sofá, ao lado de Betty, sem poder fazer nada. Armando sentou-se, pegou a xícara de café e comeu uns biscoitinhos.
– Mas, me contem, foi tudo bem hoje? — D. Julia perguntou.
Armando encarou-a com o olhar parado durante algum tempo, sem entender o que ela realmente queria saber:
– Sim... — respondeu.
– Desde quando te interessa os assuntos da empresa, Julia?
– Mas eu não estou perguntando da empresa, Hermes! Estou perguntando dos dois.
– Júlia, Júlia... Até parece que você não sabe que o diabo é porco... Para de ficar estimulando coisas...
Betty fechou os olhos pensando que poderia sumir junto com seu campo de visão. Armando prestava atenção na conversa de sobrancelhas erguidas.
– Estimulando que coisas, Hermes? — D. Julia voltou a perguntar.
– Coisas, Julia, coisas... Agora me serve mais um pouco de café.
Ela o serviu e em seguida se virou para Armando:
– Aceita mais, Se... Armando?
Armando sorriu pousando a xícara na mesinha:
– Não, Dona Júlia, muito obrigado, estava tudo muito bom.
– Ah, mas comeu tão pouquinho... Vou deixar os biscoitos na mesinha, se quiser comer mais...
– Muito obrigado mesmo, Dona Júlia, mas estou satisfeito...
– Pode guardar as coisas, mamãe, para a senhora dormir mais cedo – Betty disse para sua mãe, com o olhar para tirar Seu Hermes da sala.
– Já que ninguém quer mais nada, então... Hermes, me ajuda aqui na cozinha.
– Meu Deus! Mas pra quê?! Espera as visitas saírem para guardar tudo!
– Hermes, não seja tão mal-educado na frente do Armando, venha!
Seu Hermes respirou fundo, profundamente contrariado, e levantou pegando duas bandejas.
Armando dedicou seu melhor sorriso a Betty:
– Dois segundos a sós que seja contigo e meu dia já vale a pena.
Beijou-a de leve nos lábios, com medo de Seu Hermes voltar:
– Mas, mais à frente teremos mais tempo, mi amor, assim que conquistarmos meu pai as coisas vão melhorar...
– Sim – ele beijou-lhe o rosto – prometo me comportar bem para que ele confie em mim, afinal, a senhorita não poderia estar em melhores mãos que não fossem as minhas...
Betty sorriu, deitou a cabeça no seu ombro:
– Tão bom te ter aqui na minha casa...
– Espero que possa continuar dizendo isso depois das minhas infinitas visitas conforme o tempo for passando...
– É lógico que eu vou dizer isso... E vou achar cada vez melhor sempre que vir sua figura parada na porta.
Seu Hermes voltou e os dois pararam de conversar na mesma hora:
– Podem continuar o assunto, não se incomodem com a minha presença.
Mas já era um pouco tarde, a própria voz de Armando encerrara o espetáculo e saíra do palco.
Ficaram um tempo calados, os três na sala, um silêncio poroso entupindo a garganta de Armando e de Betty. Até que Seu Hermes bocejou e Armando se levantou num impulso:
– Nossa, olha a hora, tenho que ir.
Dona Julia voltou da cozinha tão logo escutou ele dizer que ia embora:
– Mas, já???
– Estou um tanto cansado, para ser sincero.
Cansado de tanta coisa, não pôde deixar de pensar. Ainda assim, deixar Betty era muito difícil, mais quando se deparava com a bruma que se apossava dela quando dizia que era hora de ir. Ver aqueles olhos enevoados era muito mais doído do que passar por tudo o que ele estava passando.
– Ai, pobrezinho, nota-se — D. Julia era toda cuidadosa —. Mas espera um pouquinho, já venho. Não vai embora.
Betty envolveu suas mãos na dele.
– O que ela vai fazer? — ele perguntou.
– Ah, provavelmente ela vai fazer alguma coisa para você levar, não se preocupe.
Armando contraiu o cenho:
– Perdão?
– Você disse que estava cansado e ela ficou preocupada.
Armando ergueu as sobrancelhas, comovido. Não sabia qual fora a última vez que alguém havia tido essa preocupação para com ele. Não podia negar que era reconfortante.
– Nossa, não esperava isso...
– Minha mãe gosta muito de você, Armando, já deveria saber disso – ela disse, sorrindo.
– Não, eu sei disso, mas...
– Então, é natural que ela se preocupe com você.
Nesse momento Dona Júlia voltou com uma trouxinha:
– Aqui, S... Armando. Fiz uma agua de panela¹ para você, aqui nessa garrafinha e coloquei uns panes de yuca² aqui também. A água de panela vai ajudá-lo a dormir e animá-lo um pouquinho.
Armando levantou-se e aceitou a trouxinha com uma expressão agradecida:
– Dona Júlia, não precisava...
– Ah, precisava, sim. O senhor...
– Não, me trate por “você”. Impossível a senhora me fazer um agrado tão bonito e me chamar de senhor.
Dona Júlia sorriu:
– Então, você vive só e não tem ninguém para cuidar de você, pobrezinho. Mas agora pode contar comigo.
– Muito obrigado, Dona Júlia, de verdade – Armando estava realmente emocionado com a atitude de D. Júlia — Agora eu vou mesmo.
– Te acompanho até a porta.
– Mais uma vez, muito obrigado por tudo, Dona Júlia. Seu Hermes, boa noite — Armando se despediu, fazendo um gesto com a cabeça.
– Até a próxima visita, Dr. Mendoza.
– Até amanhã, Seu Hermes, eu passo de manhã para levá-los até à empresa.
– Ah, muito bom, muito bom... E não se demorem lá fora.
– Meu Deus, Hermes, deixe os dois quietos! — D. Julia interveio.
– Julia, Julia, o diabo é porco...
– Bom, então, até amanhã — Armando se despediu outra vez.
– Até amanhã — Seu Hermes respondeu.
– Tenha uma boa noite! — Dona Júlia estava encantada com o futuro genro. Armando já a havia conquistado, tal e qual fizera com a filha.
Betty e Armando saíram. Assim que ela encostou a porta, ele abraçou-a bem apertado. Em seguida segurou seu rosto e beijou-a demoradamente, sem se importar se Seu Hermes podia estar observando ou não. Precisava tanto de pelo menos um beijo dela que enlouqueceria se saísse dali sem ele.
Betty soltou-se dele sorrindo:
– Armando...
– Me desculpa, mi amor, porém mais um dia sem pelo menos um beijo seu e eu ia bater o carro num poste.
Betty surpreendeu-se:
– Como assim? Ficou louco?!
– Exatamente, por pura loucura...
Betty dessa vez não sorriu:
– Não diga essas coisas nem de brincadeira, você sabe que eu não gosto...
– Desculpa, mi vida, desculpa... — Armando olhou na direção da casa e não viu indícios de ninguém os observando. Puxou Betty para si e deu-lhe mais outro beijo, dessa vez mais rápido.
– Eu não quero ir embora... – sussurrou abraçado a ela, mergulhado completamente no seu perfume.
– Nem eu queria que você fosse... – ela também sussurrou com o rosto encostado em seu peito.
Mas ele percebeu o vulto de Seu Hermes aparecer na janela e se separou dela:
– Seu pai já apareceu na janela... É melhor eu ir... Até amanhã, mi vida, te amo.
Betty acariciou seu rosto:
– Também te amo, Armando, muito. Por favor, não se esqueça disso.
Armando segurou a mão dela e a beijou. Saiu sem olhar para trás com medo de olhar e voltar correndo para seus braços.
Dessa vez, antes de dormir teve de se enfiar debaixo do chuveiro, gelado. Permaneceu ali muito tempo para ver se acordava desse sonho estranho e, se desse sorte, Betty esperaria por ele deitada na sua cama. Porém, ele saiu do banho e o quarto tinha o mesmo embaçado de sempre. O jeito era contentar-se com a presença dela naquela agua de panela preparada por Dona Júlia e nos panecitos de yuca que trouxera.
Notas finais
2 pan de yuca = pão semelhante aos pães de queijo, feitos à base de polvilho azedo.
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