Um Novo Final
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Quando o relógio gritou que era hora de trabalhar, Armando já estava acordado. Olhou-o enquanto ele esperneava no criado mudo e demorou ainda para desligá-lo. Estava moído. Não queria sair da cama. Tivera uma péssima noite de sono com Seu Hermes a vigiá-lo de dentro do armário e de debaixo da cama... Sorriu do que não poderia chamar de própria desgraça porque era muito engraçado... Não acreditava que um homem da idade dele de repente se visse assustado com um velho pai de uma namorada... Mas não podia negar que Seu Hermes chegava a lhe causar calafrios cada vez que pousava sem contornos por cima das coisas para onde olhava. Mas era só um velho... Todavia um velho a quem teria que respeitar se quisesse que Betty ainda o amasse... Betty... Se não saísse da cama como queria, iria passar um dia inteiro sem vê-la... Se não a visse, não respirasse sua presença, não degustasse seu perfume, seria muito torturante... Levantou-se, tomou um banho rápido para compensar o tempo em que ficou na cama e, depois de tudo pronto, tomou uma xícara de café e saiu para a casa de Betty. Lá chegando, buzinou somente, mas quem saiu foi Dona Júlia:
– Olá, ... Armando, como está, meu filho?
– Bem, muito bem, Dona Júlia. Mais uma vez obrigado pela agua de panela de ontem, me fez muito bem.
– De nada — D. Julia disse, sorridente — Vamos entrar, tomar um cafezinho, Betty e Hemes ainda demoram um pouco.
– Bom para mim, então, que poderei ter mais uma oportunidade de tomar seu café.
Dona Júlia sorriu encabulada:
– Ah, Armando, nem é tanto assim...
Ele desceu do carro:
– Claro que é! Se a senhora vivesse num passado muito longínquo seria uma feiticeira poderosa contra os maus espíritos.
Ela se assustou com o comentário dele. Fez o sinal da cruz:
– Ai, Seu Armando, Deus me livre e guarde...
Armando sorri e deu o braço a ela.
– Mas foi um elogio, Dona Julia. Vamos?
Ela o segurou e entraram.
Armando viu Betty e Seu Hermes sentados à mesa. Betty quando o viu, levantou-se rapidamente para recebê-lo.
****
Betty acabara de descer quando a buzina do carro de Armando tocou lá fora. Isso já bastou para seu coração acelerar e ela se sentir maior. Eram sensações que nunca passavam. Ela foi em direção à porta para recebê-lo, mas Dona Julia adiantou-se e pediu para que a filha se sentasse porque ela o receberia. Sentou-se, mas não conseguiu comer nada, com uma pressão boa no peito que a atrapalhava, pressão essa que só cessou quando viu Armando entrar pela porta, com toda a manhã no sorriso:
– Bom dia, Armando!
Armando pegou suas mãos e as levou aos lábios. Se pudesse, trazia-a para dentro de si, amarrando sua alma na dele.
– Bom dia, Betty, como está? Dormiu bem?
– Sim, e você?
Armando suspirou:
– Bem também, Betty... Na verdade, não, faltou você lá – Se pensasse bem alto talvez ela escutasse.
– Olá, Dr Mendoza! – Seu Hermes o cumprimentou. – Sente-se, sente-se, senão Betty não come e nos atrasaremos!
Armando tentou segurar o sorriso, sem sucesso. Todas aquelas situações descobriam-se daquela forma para ele, com uma comicidade tão aguda que ofuscava qualquer outro sentimento que ele pudesse vir a ter, tanto que, fora a urgência de Betty que apertava suas vísceras, ele não se sentia tão incomodado.
– Bom dia, Seu Hermes...
Betty o segurou pela mão:
– Sente-se aqui, mi amor, do meu lado.
Armando puxou a cadeira para que ela se sentasse,e, assim que ele se sentou, Dona Julia veio com uma xícara de café fumegante e umas arepas fresquinhas. Toda a situação cheirava a um passado não vivido.
– Obrigado, Dona Julia – Armando agradeceu.
Serviu-se e se deliciou. De repente, ali, não se sentiu mais inteiro nem despegado de tudo. É como se fosse um braço ou uma perna grudado naquele tronco de mesa. Seu Hermes, enquanto comia, lia o jornal e praticamente conversava com as frases com as quais se deparava. Dona Julia logo se juntou a eles e sempre perguntava se estava tudo bem, se as coisas estavam do agrado. Seu Hermes obviamente reclamou que o café estava doce, que os buñuelos estavam sem sal, que estava faltando isso ou aquilo, Betty entrou no meio do assunto, dizendo que o pai estava falando da boca pra fora, e em momento nenhum ventou gelado, ou pairou névoa, ou silêncio. Ele abaixou a cabeça e sorriu, agradecido.
Betty percebeu e colocou sua mão sobre a dele.
– Que foi, mi amor?
– Nada, nada, não – ele disse, beijando a têmpora dela, em seguida.
Seu Hermes tirou o jornal de frente do rosto e encarou-os com olhos felinos. Armando quase sentiu que cometera um crime.
– Vamos? – Seu Hermes propôs, olhando o relógio.
– Sim – Armando disse, limpando os lábios. – Dona Julia, mais uma vez, obrigado por tudo.
– De nada, meu filho, te esperamos hoje à noite?
– Sem falta!
Dona Julia sorriu e Betty encostou-se no peito dele, grata pela sua persistência. Armando estava se portando de uma forma que ela nunca pensou que ele conseguiria, e era uma surpresa tranquilizante para ela.
Foram os três para a Ecomoda.
Freddy estava na porta com Wilson quando os três chegaram. Não pôde acreditar que vira Seu Hermes descendo do banco da frente. Começou a rir, agarrado a Wilson:
– Ah, bela vida que não se cansa de me surpreender! Quando penso que já vi de tudo, meus lindos olhos se deparam com uma cena dessas.
Armando passou pelos dois:
– Bom dia! – disse, sério.
– Bom dia! – Betty e Seu Hermes disseram, juntos.
– Bom dia, Seu Hermes, Dra Betty – Wilson e Freddy responderam ao cumprimento.
Betty e Seu Hermes entraram.
– Dr? – Freddy chamou.
Armando, que estava entrando, voltou, receoso: podia esperar qualquer coisa vinda de Freddy.
– O quê? – ele perguntou em um aspecto entendiado.
– Me responda uma coisa...
Armando esperou calado, o mesmo semblante contrariado, o que ele tinha para dizer.
– Tudo tranquilo no seu novo serviço de táxi?
Armando cerrou as vistas, fuzilando Freddy com o olhar e entrou sem dizer nada.
Freddy e Wilson caíram na gargalhada do lado de fora.
Armando cumprimentou Mariana que disse que Betty e Seu Hermes já subiram. Suspirou. Subiu sozinho e foi direto para sua sala.
Durante a manhã não foi tanto à sala de Betty. Dispensou todos os minutos que tinha pensando em uma maneira de burlar o monitoramento de Seu Hermes. Mas nada lhe parecia convincente. Precisaria ser bastante criativo. Quando se cansava de pensar, trabalhava um pouco, mas logo sua mente pegava um atalho estranho e ele voltava a pensar no assunto. Até que um desses atalhos deu em algum lugar. Ocorreu-lhe uma ideia. Ligou na produção e pediu para que chamassem Betty lá devido a um problema que ocorrera. O supervisor obviamente não entendeu, mas Armando disse para ele fazer e não perguntar. E disse para esvaziarem a supervisão, só por um intervalo pequeno de tempo. Dito isso, esperou na sua sala. Pediu Aura Maria para ligar para ele assim que Betty saísse, mas não foi necessário porque depois de alguns minutos o telefone tocou.
– Armando Mendoza.
– Dr Mendoza, preciso dos fechamentos que o senhor pegou ontem com Betty – era seu Hermes,
– Levo em um minuto, Seu Hermes.
E em um minuto ele apareceu lá, a adrenalina jorrada nas veias, as pupilas ligeiramente dilatadas.
– Aqui – estendeu os papéis a Seu Hermes.
Olhou em volta esforçando-se para ser verossímil:
– Onde está Betty?
Seu Hermes, ainda que não desviasse os olhos dos papéis que Armando lhe entregara, ergueu as sobrancelhas. Betty não estava com ele. Disfarçou:
– Pra te falar a verdade, não sei, deve ter ido falar com Nicolas.
– Ah, sim, quando ela voltar, diga-lhe que daqui meia hora passo para levá-la para almoçar – suas mãos suavam.
– Sim, em meia hora estaremos prontos.
Armando sorriu, esperou um elefante listrado brotar do chão, ou as pinturas saírem de dentro dos quadros...
– Qualquer coisa, estarei em minha sala conversando com a franquia de Porto Rico – Armando voltou a dizer.
– Certo, certo.
Saiu. "Que cruz, meu Deus!"
Assim que ele saiu da sala de Seu Hermes, Aura Maria lhe disse que Betty já havia saído. Desceu para a produção, assoviando.
As meninas do quartel trocaram olhares sugestivos, mas não disseram nada.
Betty desceu para averiguar o "problema" de que lhe falaram. Parecia algo grave, uma vez que o supervisor responsável não queria lhe informar por telefone. Andou por todo o lugar perguntando aos empregados se eles sabiam de alguma coisa, mas o andamento estava normal e ninguém sabia lhe informar sobre nada errado. Foi até à supervisão para ver se achava o rapaz que ligou para ela, mas o que viu foi a figura de Armando, sentado, só.
Sorriu. Entendeu tudo. Sentiu fogos de artifícios explodir em si.
Para Armando, não tinha preço a visão de Betty parando na porta, seu semblante preocupado desvanecendo-se naquele sorriso de mar calmo e convidativo.
– Foi daqui que veio uma ligação reportando um problema? – Betty disse encostada na porta, andando, em seguida, na direção dele.
Armando se levantou, fechou as cortinas da sala e passou a tranca na porta:
– Sim, e é um problema gravíssimo, doutora, devo dizer.
Foi até ela e abraçou-a, seu corpo em chamas, sua cabeça embaçada por toda a fumaça. Betty deixou-se levar porque precisava tanto do toque dele como ele do dela, e era tão seguro abandonar-se nele...
Beijaram-se longamente, avidamente, como se há muito não se vissem.
Armando deslizou as mãos por todo seu corpo, o desejo transbordando nos seus dedos, derramando-se dos seus lábios. Começou a desabotoar os botões de sua blusa quando o toque ansioso de suas mãos frias a trouxe de volta para a realidade. Ela se separou dele que ainda tentou ir de encontro a ela.
– Que foi, mi vida... – ele disse meio rouco, bêbado de toda aquela urgência.
– Não, Armando, assim, não... – Ela diz voltando a abotoar a blusa.
Armando tomou um gole de realidade e respirou fundo. Abraçou-a:
– Desculpa, mi vida, desculpa...
Betty encostou a cabeça em seu peito:
– Eu te entendo, Armando, é sério... Eu também preciso de você, mas, você sabe, aqui é arriscado, meu pai pode descobrir e aparecer...Falar nisso, como você conseguiu que ele não viesse atrás de mim ou de você?
Armando se separou dela e sorriu, sentou-se num sofá que ficava no canto da sala:
– Eu sabia que assim que você descesse ele ia me ligar, então esperei ele certificar-se de que eu estava em minha sala e que isso era mesmo um problema na produção.
Betty estava séria. Armando não conhecia a teimosia do pai dela como ela conhecia.
– Mas então é melhor você ir, porque ele vai ligar de novo.
Armando sorriu, superior:
– Tirei o telefone do gancho, ele vai pensar que estou na minha sala fazendo ligações, pelo menos por um tempo... Então, sente-se aqui do meu lado. Deixa eu aproveitar esses minutinhos que consegui a sós com você.
Betty sorriu aliviada:
– Promete que vai se comportar?
– Como um perfeito cavalheiro.
Betty sentou-se ao lado dele e beijaram-se mais uma vez, docemente.
– Perfeito cavalheiro você é em todos os momentos, mi amor. E tem sido mais ainda passando por tudo isso comigo – Betty disse.
– Mas, Beatriz, passo e passo de novo! Por um lado tem sido desafiador. Passei a manhã inteira pensando nisso...
Betty sorriu:
– Por isso foi só duas vezes à minha sala? – Havia uma nota leve de tristeza na voz dela.
– Foi, você ficou chateada? – Ele percebeu e não pôde disfarçar uma ligeira surpresa.
– Agora sabendo que foi por isso, não.
Armando colou de novo seus lábios aos dela. Acariciou seus seios sobre a blusa e Betty, um reflexo, colou seu corpo no dele ansiando por seu toque. Armando enlaçou-a trazendo-a para cima dele, mas mais uma vez ela fugiu de suas mãos.
– Desculpa, desculpa... Mas... Você vai acabar me matando – Armando disse rapidamente a última frase.
Betty sorriu se recompondo e ajoelhando-se no sofá:
– Você que vai acabar me matando! Acha que só você precisa de mim?
Armando segurou-a pelos ombros deitando-a no sofá. Colocou-se por cima dela e beijou-a mais uma vez:
– A gente tem que inventar alguma coisa rápido!
Provocou cócegas nela fazendo-a se remexer e rir:
– Sim, mais uns poucos encontros e meu pai vai começar a ficar mais a vontade, ele já está, não percebeu? Não nos acompanha até a porta e faz as coisas que a minha mãe pede.
– Sim, eu percebi. Mais alguns poucos encontros... Certo.
– Agora é melhor você ir. Senão ele vai começar a desconfiar.
– Ok... Ah, eu disse a ele que ia te pegar pra almoçar e devo te dizer que ele se auto-convidou para ir também.
Betty escondeu o rosto nas mãos:
– Ai, meu Deus, que vergonha!
– Vai ser divertido, mi amor.
– No Lenoir?
– Tem algum outro lugar em mente?
– Faremos assim, deixe que ele escolha.
– Por mim...
Ele ainda permanecia deitado em cima dela. Betty riu:
– Então vai, Armando!
Ele beijou-a longamente de novo. Saiu de cima dela:
– Vai primeiro, Betty, eu não estou... Hã... Apresentável.
Betty olhou-o e sorriu. Levantou-se. Beijou-o de leve nos lábios e saiu.
Seu Hermes ligou para o escritório de Armando duas vezes para certificar-se de que ele realmente estava fazendo o que tinha falado. Como o telefone só dava sinal de ocupado, ele julgou que ele estava mesmo falando no telefone. Continuou com seu trabalho.
Pouco tempo depois Betty retornou. Assim que ouviu a porta se abrir, Seu Hermes saiu imediatamente da sala e se pôs a examiná-la minuciosamente. Ela se esforçou muito para não deixar transbordar o sorriso de sua alma nem o brilho dos seus olhos. Evitou olhar diretamente para o pai.
– Que houve na produção? – ele perguntou, como ela reagiria.
– Discussão entre funcionários, papai... O supervisor disse que ia demitir as duas, e então elas aprontaram um escândalo maior ainda e ele ficou sem saber o que fazer.
– Hum... Isso é trabalho do Gutiérrez...
– É, eu sei, e disse isso a eles, mas disseram que não o encontraram...
– Parece que ninguém trabalha na empresa, você que tem fazer tudo! – Seu Hermes, concluiu, voltando para sua sala.
Betty sentou-se na sua cadeira e não pôde mais controlar o sorriso lhe pesando nos lábios nem a recordação daqueles momentos que arrebataram-lhe a mente. E seu pai não desconfiara...
Seu Hermes voltou de novo, pegando-a de surpresa, fazendo com que ela se assustasse. Recompôs-se:
– Sim, papai?
– Você está bem, Betty?
– Sim, estava pensando nas duas mulheres brigando na produção.
– Ah... Pois então, esqueci de avisar, Dr Mendoza deve passar aqui a qualquer hora para nos levar para almoçar.
– Ah, é?
– Sim, ele tinha dito daqui meia hora, mas isso já tem mais de meia hora. Liguei no escritório dele, mas o telefone está ocupado...
– Hum... Bom, vamos esperar, eu estou pronta, é só irmos quando ele vier.
– Eu estou quase acabando uns balancetes. Se ele chegar fala pra esperar um pouco.
Betty sorriu:
– Não se preocupe, papai.
Armando saiu da sala da supervisão como que saciado. Compensava passar por tudo para ter Betty envolta em seus braços e para sentir o calor dos seus beijos. E tudo era pequeno demais perto disso, tanto que era sublimado por todo o amor que tinha por ela. Todavia era uma felicidade difícil porque quanto mais perto dela estava, mais sentia necessidade de ficar, e controlar-se para não avançar nela e engoli-la com a alma era muito torturante.
Passou por sua sala, recolocou o telefone no gancho e rapidamente se dirigiu à sala de Betty. Bateu na porta e entrou. Seu Hermes saiu da sala abrindo bem a porta:
– Um minuto, Dr Mendoza, estou acabando de finalizar umas contas. – Voltou para dentro.
Armando sentou-se na cadeira de frente para Betty:
– Não se preocupe, Seu Hermes, demore o tempo que precisar – disse sem desviar os olhos de Betty.
Levantou-se silenciosamente e curvou-se para dar-lhe um beijo de leve. Sentou-se de novo na cadeira, cruzou os braços sobre a mesa e ficou olhando-a. Depois do quinto segundo Betty não conseguiu mais resistir e se derreteu em sorrisos:
– Que foi?
– Você é daquele tipo de mulher que fica mais bonita conforme a gente olha...
Betty só sorria.
– E sempre foi assim, meu amor, sempre... Desde... – Armando continuou o raciocínio.
Betty arregalou os olhos. E se ele falasse de algum momento íntimo com seu Hermes tão perto? Ele percebeu e tomou um gole de ar:
– ...Sempre...
Os dois ficaram calados, se olhando, sem saber o que dizer devido à proximidade de Seu Hermes, até que Armando, olhando para a mesa de Betty, viu umas canetas e uns papéis em branco jogados. Tirou uma folha e escreveu:
– (Foi maravilhoso hoje, não vejo a hora de repetir).
Betty pegou o papel, leu e abriu um largo sorriso. Também escreveu:
– (Que graça, mi amor, também acho o mesmo...)
Armando pegou o papel e leu:
– (Vou pensar em alguma coisa, mas se tiver alguma ideia, me comunica).
– (Claro!) – Betty não parara de sorrir.
– ( Você está linda com esse terno azul marinho hoje, muito sexy... Está vestindo o quê por baixo?)
Entregou a ela com um olhar malicioso. Betty leu o papel e riu. Nesse momento Seu Hermes saiu da sala e ela amassou a folha, num impulso.
– Vamos? – Seu Hermes propôs.
– Sim – Armando disse, se levantando.
Betty pegou sua bolsa e os três saíram.
– Pra onde vamos, Seu Hermes? – Armando perguntou, já no carro.
Seu Hermes se remexeu no banco, surpreso com a pergunta de Armando, mas ligeiramente satisfeito pela consulta feita. Coçou a cabeça pensando no lugar em que poderiam ir até que algo lhe veio em mente:
– Vamos a “La biferia”!
Armando ergueu uma sobrancelha. Betty achou que o nome soou familiar.
– Sim! Fica na 69 com a 5a, vai guiando, eu te mostro!
– E o que é? – Betty perguntou.
– É uma casa de carne onde serve o melhor churrasco de Bogotá! – Seu Hermes disse animado.
Armando quase engasgou com o susto que engoliu torto. Betty quis derreter e evaporar.
Chegaram ao local indicado e quase não conseguiram uma mesa devido ao movimento intenso. Um tango altíssimo colaborava para aumentar o caos, correndo no meio dos garçons que trabalhavam quase correndo para não demorarem com os pedidos.
Seu Hermes estalou a língua:
– Eu disse que aqui era bom! Olha o tanto de gente! E olha as músicas boas! Foi aqui que eu pedi Júlia em casamento!
Betty se lembrou das histórias de sua mãe lhe contando sobre como o pedido de casamento de seu pai foi imprevisto e improvável, exatamente como ele.
Armando olhou em volta, profundamente assustado:
– E o lugar foi sempre assim, movimentado?
– Sempre, Dr Mendoza, sempre! Vamos pedir! Não podemos nos atrasar.
Armando sentia o estômago tonto, a cabeça cheia e as vistas nauseadas. O cheiro do lugar, as pessoas que estavam sempre entrando e saindo, a música alta... Parecia um daqueles buracos em que levava Betty quando não queria que ninguém os visse.
Depois de uns 10 minutos acenando, o garçom foi até Seu Hermes. Anotou o pedido dos três e saiu.
Quando os pedidos chegaram, depois de relativa demora, Armando percebeu que Seu Hermes realmente tinha razão. Era tudo muito bom. Mas o ambiente não o inspirava a comer mais que o necessário para não falarem que ele estava fazendo uma desfeita. Foi o primeiro a terminar.
Seu Hermes não ficou quieto um minuto sequer, se desenrolou em histórias de sua época de jovem e deu de aulas a respeito de como conquistar uma mulher. Conforme ele dizia, Armando sentia seus ouvidos estalarem, tamanhos absurdos ele julgava escutar. Mas de uma coisa não tinha dúvidas, com ele deu certo, afinal, ele reconhecia que Dona Júlia era uma boa esposa. Todavia não queria que Betty se convertesse em uma dona de casa, ainda mais porque a atenção dela ele queria toda para ele...
Terminaram de comer e voltaram para a empresa.
Armando ainda apareceu na sala de Betty mais algumas vezes, mas para discutir assuntos da empresa. De vez em quando trocaram alguns bilhetes, longe das vistas de Seu Hermes, e o dia passou ligeiro.
No final do expediente, como estava se tornando um hábito, Armando passou pela sala de Betty para levá-la e a Seu Hermes para casa.
Seu Hermes mudara completamente depois do almoço, seu semblante de aço desaparecera.
– Muito bom nosso almoço de hoje, não, Dr Mendoza? Temos que repetir – Disse rindo caracteristicamente.
Para ver seu semblante como se encontrava naquele momento, realmente valia a pena repetir.
– Claro, Seu Hermes – Armando respondeu.
Seu Hermes em seguida se pôs a cantarolar algumas músicas que tocaram no restaurante:
– Vou te dar alguns cds de boa música, Dr Mendoza, nossas viagens estão muito silenciosas...
Armando assentiu receoso. Olhou pelo retrovisor e se deparou com uma Betty sorridente e orgulhosa. Derreteu-se diante daquele sorriso. Por um sorriso dela valia a pena até os doze trabalhos. E Hera era só uma ciumenta com criatividade.
Chegaram. Armando entrou de mãos dadas com ela. Dona Julia os esperava com aquele café coado em nostalgia. Armando a cumprimentou.
E mais uma vez era chegada a hora de encarar aquele sofá. Sentou-se no mesmo lugar, nem um centímetro a mais ou a menos. Dessa vez Seu Hermes trouxe uma garrafa de uísque para a mesa e serviu Armando:
– Nada de café hoje, Dr. Hoje, vamos beber como homens.
Armando pegou o copo e tomou um gole.
– Júlia, hoje fomos a “La biferia”. Está quase igual à nossa época, Júlia, o dia de hoje me trouxe muitas lembranças...
– Ai, Hermes, mas não chateie Armando com as suas histórias.
– Não me interrompa enquanto falo, mulher! – Se serviu de mais outro gole e voltou a encher o copo de Armando – Me lembrei do dia em que estávamos lá, Júlia, você, jovem, linda, seus pais do lado, e eu pensando no quanto todo mundo ia comer.
Dona Júlia abaixou a cabeça:
– Só você mesmo, Hermes, pra se lembrar de uma coisa dessas...
Tomou mais outra dose:
– E você não se lembra...
– Ah, não claramente, isso já tem muito tempo...
– Pois eu ainda sou daquela geração de homens românticos, cavalheiros e não me esqueço dessas coisas... Ninguém sabia que eu ia pedi-la em casamento, e tinha contratado os mariachis para entrar bem na hora em que eu fizesse o pedido.
– Disso eu me lembro, Hermes, e o pessoal da banda do restaurante depois foi reclamar contigo que os mariachis estavam atrapalhando o som deles.
Seu Hermes se virou vagarosamente em direção a ela com um olhar entediado:
– Você só se lembra dessas partes, Julia?!
Dona Julia deu de ombros. Seu Hermes continuou:
– E eu me lembro de que depois que os mariachis foram embora e você disse sim, todo mundo no restaurante bateu palmas... Ah, foi muito bonito.
Armando procurava a beleza nesse pandemônio. Betty tentava entender o que realmente se passou. Seu Hermes não parava de falar:
– Ainda me lembro o tango que tocou naquele dia, quando saímos de lá. Vou lá colocá-lo.
Betty arregalou os olhos para a mãe que se sentiu na obrigação de dizer algo:
– Depois, Hermes, sente-se um pouco, sim? Desde que chegou só ficou de pé e andou e falou.
– Mas eu quero ir lá colocar o tango, Júlia!
– Daqui a pouco, sente-se, sente-se – disse tirando seu paletó.
– É verdade, eu estou muito cansado, vou me sentar aqui um pouquinho e fazer companhia ao Dr Mendoza e depois vou dormir.
Dito isso, sentou-se e continuou falando da sua vida, das suas irmãs, do sempre tão presente Tio Lázaro e, depois, do nada, se levantou e disse que era hora de irem dormir. Armando levantou-se, com dificuldade em separar-se de Betty.
– Bom, é hora de ir-me também. Obrigado pela recepção e até amanhã.
– Até amanhã, Dr Mendoza – Seu Hermes disse e subiu.
Armando não acreditou que ele realmente tinha subido. Despediu-se de Dona Julia e Betty acompanhou-o até à porta. Passaram e ela fechou-a atrás de si. Armando enlaçou-a pela cintura, por trás, beijando-lhe o pescoço:
– Não posso acreditar que seu pai não esperou que eu fosse embora para subir.
– Mas você o agradou muito hoje, indo naquele restaurante.
– Eu tenho que admitir que apesar do caos, a comida é boa.
– Só que, de longe, não são os lugares com os quais você está acostumado. Desculpa por te fazer cair nessas loucuras do meu pai.
– Não se preocupe, mi amor... Sinto você muito culpada em relação a tudo e não tem que ser assim...
– Mas eu sinto seu constrangimento, Armando, percebo seu desânimo... E sei que ele é justo...
Armando segurou-a pelos ombros:
– Acontece que é muito difícil não ter você, ainda mais depois daquela noite maravilhosa que passamos juntos... Mas eu já disse que estar aqui com você compensa qualquer coisa.
Betty enlaçou o pescoço dele:
– Prometo que vou pensar em alguma coisa para te compensar.
– Eu tenho muitas coisas em mente...Só me falta tempo e espaço...
Betty sorriu. Abraçou-o:
– Te amo muito, Armando, muito mesmo. Obrigada...
Armando tomou o rosto de Betty entre as mãos:
– Também te amo muito, mi vida...
A luz do quarto de Seu Hermes acendeu, assim como o constrangimento de Armando:
– Agora preciso ir, mi amor.
Betty olhou pra cima, resignada:
– Sim... Amanhã nos vemos...
Armando beijou-a longamente. Saiu. Voltou. Beijou-a. Saiu. Voltou e beijou-a de novo. Betty se desmanchava em sorrisos. Finalmente ele saiu e entrou no carro. Betty acenou pela última vez e foi para dentro.
Armando chegou em casa ardendo, a urgência em ter Betty para si corria por todo lado ateando fogo por onde passava. Ele tinha que se controlar, mas sua sanidade estava prestes a ser queimada junto com todo o resto. Foi direto para o banho e deitou-se em sua cama logo em seguida. Pensando em uma maneira de passar mais um tempo com ela no dia seguinte, adormeceu.
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