Um Novo Final
13 Capítulo 13
Notas iniciais
– Armando, mi amor. Por favor! Não podemos!
Betty sussurrou entre os lábios de Armando, tentando interromper o beijo que estava se tornando cada vez mais intenso. Ela sentia a excitação correndo na pele dele e na sua. Sabia que, se não parassem naquele momento, não iam mais conseguir se controlar.
Armando era todo sensações. Nada passava pela sua cabeça senão luzes de tons diversos girando descompassadamente como vaga-lumes.
— Te quero, Betty! Preciso de você, mi amor, mi vida! — Ele continuava a acariciá-la e beijá-la.
— Por favor, Armando! Agora não!
Com certo esforço Betty conseguiu soltar-se dele que ficou olhando para ela triste, os vaga-lumes coloridos sendo engolidos pela noite, enquanto ela arrumava a própria roupa.
— Por que você sempre se afasta de mim? Eu pensei que você me quisesse tanto quanto eu a quero...
Betty foi até ele e passou a mão em seu rosto, achando uma graça aquela carinha que ele fez.
— Você sabe que eu te quero muito também, mas precisamos nos controlar — ela disse como se estivesse dirigindo a uma criança.
— Por causa do seu pai? — Armando segurou a mão dela e começou a dar pequenos beijinhos em sua palma.
— Não é só por causa do meu pai. Estamos na empresa, em horário de trabalho, Armando.
Ele respirou fundo. Sabia que ela tinha razão, mas, Deus!, quando teria aquela mulher completamente para si?! Estava começando a ficar enciumado da empresa...
— Está bem! Você tem razão! — disse, ainda com expressão triste — Mas é que eu tenho uma necessidade enorme de tê-la em meus braços!
Betty abaixou a cabeça, levantando-a logo em seguida e olhando diretamente na alma de Armando.
— Eu também, Armando, você sabe...
— Às vezes eu tenho a sensação de que eu te amo muito mais do que você a mim...
Betty ergueu as sobrancelhas, viu o vulto de Armando escorrer e sumir nos cantos das paredes. Não entendia por que ele se mostrava tão inseguro com relação aos seus sentimentos.
— Não seja bobo! Eu te amo demais!
— Ah, mi Betty!
E a abraçou outra vez.
— Hora de trabalhar, doutor! — ela sentenciou, tentando se soltar, rindo.
— Sim, eu sei... — ele suspirou — Mas já vou avisando que não pretendo ficar o dia todo longe de você!
— Acho bom!
Ele a puxou para um último beijo, dessa vez mais rápido; E, relutante, se dirigiu a seu escritório. Já próximo da porta, virou-se e disse, com esperança no olhar:
— Poderíamos trabalhar juntos. Eu poderia ir para sua sala, levo meu notebook...
Betty riu, divertida.
— E nós iríamos trabalhar muito, não?
— Bem... Acho que não... — e sorriu.
Ele fez menção de ir a seu escritório, todavia não sem antes lançar-lhe um último olhar. Betty voltou à sua mesa sorrindo. Ela entendia perfeitamente o que ele estava sentindo, porque acontecera o mesmo com ela quando se apaixonara por ele. Não via a hora de amanhecer para estar ao lado de seu príncipe encantado. E ainda continuava sentindo, no entanto, já mais acostumada ao sentimento, conseguia controlar-se melhor.
Armando entrou em sua sala e olhou desanimado para sua mesa cheia de trabalho. Ele, Betty e Nicolas, além do trabalho que seus postos exigiam, estavam tendo que dividir entre si as tarefas que eram de Mário Calderón e Marcela. Mas era muito difícil para ele concentrar-se em outra coisa que não fosse em Betty. No entanto era preciso. Dedicou-se então ao trabalho, ainda que de vez em quando lhe ocorresse uma ideia para seu “questionário” e ele a anotasse com um risinho maroto para não esquecer.
Assim a manhã foi passando. Armando foi ao escritório de Betty inúmeras vezes, com qualquer desculpa, até mesmo para resolver coisas que poderiam ser resolvidas com um simples telefonema. Mas ela não se importava, ficava feliz em vê-lo. Seu Hermes, contudo, já começava estranhar o fato de que, quase todas às vezes em que ia ao escritório da filha, encontrava Armando por lá...
— Esse homem não consegue fazer nada sem você, Betty? — ele perguntou à filha numa dessas. — Não me espanta que quase tenha perdido a empresa...
Betty ficava apreensiva pensando em como iria reagir seu pai quando soubesse do relacionamento entre ela e Armando. Tentava parecer natural e sorria ao pai, dizendo qualquer coisa inaudível, como se não importasse. Porém Seu Hermes, caminhando de volta para sua sala, não se sentia convencido, ainda mais porque sabia o quão porco o diabo era...
****
O telefone tocou e Aura Maria anunciou que Dona Catalina Angel queria falar com ela. Catalina a convidou para almoçar porque não puderam conversar direito depois que Michel foi embora. Betty aceitou o convite, feliz, mas em seguida se lembrou de que Armando iria ficar triste se não fosse almoçar com ela.
— Dona Catalina, será que Armando pode nos acompanhar? — ela perguntou meio sem graça.
— Agora já não é mais Seu Armando, Betty? — Catalina brincou com a amiga. — Eu pretendia conversar com você justamente sobre isso... Mas agora já sei porque você não aceitou a proposta de Michel... Armando conseguiu convencê-la a ficar, não foi?
— Sim...
— Está bem, Betty! Armando pode ir conosco se ele quiser.
— Ah! Com certeza ele vai querer, Dona Catalina!
— Então, como fazemos? Eu ia passar para buscá-la, mas se Armando vai também é melhor nos encontrarmos lá, não é?
Elas combinaram o local e a hora e quando Catalina desligou o telefone, Betty resolveu ir contar para Armando que eles já tinham planos para o almoço.
Ela bateu suavemente na porta e entrou. Armando levantou os olhos e não estava mais em sua sala, estava em qualquer ambiente envolto em brumas de sonho... Era impressionante o efeito que Betty produzia nele.
— A que devo a honra dessa visita, Senhora Presidente? — ele lhe fez uma ligeira mesura, brindando-a com seu mais lindo sorriso.
— Vim lhe dizer que temos um compromisso para o almoço hoje.
— Compromisso? Outro almoço de negócios, Beatriz? — ele contraiu as sobrancelhas, desconfiado.
— Não. Temos um almoço com Dona Catalina.
Um arrepio percorreu a espinha de Armando, por motivos tão diversos que ele mesmo não sabia como definir. A única coisa que ele sabia era que tinha assuntos pendentes com Catalina...
— Temos?
— Eu e você.
— Catalina me convidou também? – seu aspecto desconfiado ainda se mantinha, talvez mais evidente que antes.
— Bem... Convidou a mim e eu perguntei se você não poderia ir também.
Ele se levantou, sorrindo, foi até ela e a abraçou. Achou linda sua atitude, uma declaração como a que ela fizera quando disse que o amava demais.
— Quer dizer que você não quis ir almoçar sem mim?
Betty riu abraçada a ele.
— E ia adiantar? Você ia dar um jeito de aparecer lá mesmo...
Armando riu também:
— Ia mesmo... Principalmente porque preciso muito falar com Catalina...
— Sobre o que, Armando? — Betty estava curiosa.
— Nada de mais. Algumas coisinhas que preciso perguntar a ela... — seu tom misterioso não passou despercebido.
Armando aproximou os lábios dos dela para beijá-la, mas ela se afastou dizendo:
— Vou dizer ao meu pai que vamos almoçar com Dona Catalina.
— Betty, não seja tão cruel! – disse, puxando-a de volta pelo braço.
Ela se deixou beijar, mas fugiu antes que Armando começasse a intensificar o beijo.
— Não, Betty! – protestou – Você está brincando comigo! Você vai me pagar!
Ela saiu rindo do escritório.
Na hora do almoço, Betty telefonou para Armando dizendo que já estava na hora de irem. Eles se encontram no corredor.
— Seu Hermes já foi? — Armando perguntou olhando para os lados, buscando-o.
— Sim.
— E as secretárias?
— Também!
— E Nicolas?
— Foi com meu pai.
— Que tal ligarmos para Catalina, cancelarmos o almoço e ficarmos aqui, só nós dois? — propôs, lançando-lhe um olhar cheio de segundas intenções.
— Nada disso! — ela foi caminhando decidida em direção ao elevador.
Armando seguiu-a, e quando o elevador se fechou, ele a abraçou e a beijou. Dessa vez ela não resistiu.
O elevador chegou ao térreo e eles ainda estavam se beijando. Somente depois de ouvirem Wilson pigarreando é que eles perceberam que o elevador estava parado e saíram, rindo, deixando Wilson pensativo: “Esse Seu Armando não tem jeito! Foi só Betty ficar bonita e ele já atacou!”.
Eles chegaram ao restaurante que Catalina escolheu. Era um lugar elegante, mas não tão sofisticado quanto o Le Noir.
Armando e Betty entraram e logo avistaram Catalina, que acenou para eles.
— Olá, meus amigos! Como estão? Olá, Betty! — ela cumprimentou-a dando-lhe beijinhos no rosto – Vejo que você está muito bem!
— Olá, Dona Catalina! Sim, estou muito bem! – Betty a cumprimentou sorrindo.
— Como vai, Armando?
— Bem, Catalina! Agora estou bem... – ele lhe estendeu a mão, porém não se mostrou muito amigável com ela, olhando-a de um jeito estranho.
Betty e Catalina perceberam e se entreolharam.
— Sentem-se! — Catalina convidou.
Eles se sentaram e Armando continuou olhando para Catalina com cara de poucos amigos. Betty sentiu o clima pesado e, ainda com a esperança de que fosse uma impressão de sua parte, tentou dissolver o clima que pesava:
— Que lugar interessante, Dona Catalina! Eu não conhecia – Betty disse, olhando ao redor.
— Sim. Foi aberto há alguns meses. A comida é ótima e o ambiente agradável. Pertence a um amigo meu.
— Ah! Pertence a um amigo seu – Armando disse, balançando a cabeça e batendo os dedos na mesa — E conte-me, Catalina, você planejava apresentar esse amigo a Betty também?
Betty olhou-o, surpresa. Teve um vislumbre daquele Armando que bateu no Nicolas, o mesmo Armando que tentara agarrá-la à força. Encolheu-se na cadeira, segura de que havia algo estranho e que ela não estava imaginando nada.
— Se ele estiver por aqui é claro que vou apresentá-lo a Betty e a você também, lógico — Catalina respondeu tranquila, pois já percebera porque Armando estava se comportando daquela forma com ela.
— Claro! E esse seu amigo deve ser solteiro também, não? E de qual parte da Europa ele seria?
— Por que você não chega onde está querendo chegar, Armando? Diga-me tudo o que você tem para dizer... — Catalina disse, calmamente.
Armando não desviou o olhar dela, contudo o olhar que ele lhe lançava era um quadro de um menino solitário rodeado por um negro sem fim:
— Você torceu muito para que Betty aceitasse a proposta de Michel, não foi, Catalina? Você também achava que ele era o melhor para ela, não?
— Armando! O que é isso? — Betty quase gritou.
Ela não acreditava no que estava escutando. Eram palavras de chumbo que afundavam o chão por onde caíam. Não fazia ideia daqueles sentimentos que Armando guardava, sentimentos da mesma matéria que suas palavras tão doídas.
Catalina interrompeu seus pensamentos:
— Sim, eu achava. E qualquer um que conhecesse a história de vocês dois também acharia, Armando.
Ele amassava o guardanapo de pano:
— Eu pensei que você fosse minha amiga, mas você queria afastar Betty de mim, Catalina... — ele a acusa em tom baixo e triste e Catalina pode ver a dor em seus olhos.
— Armando, me considero sua amiga, sim, e pretendo continuar sendo, a menos que você não o queira mais. No entanto, preciso lhe dizer que o que você fez com Betty foi algo inominável. Eu fiquei chocada quando soube de tudo. E eu não tinha como saber que você a amava, que tinha se apaixonado por ela em meio a todo aquele plano sórdido!
— Esse é o problema de todo mundo, Catalina... Rotularam-me de o canalha da história e ponto final — ele fez um gesto com as mãos, como que desistindo de argumentar.
— Armando, e o que você queria que eu pensasse? — Catalina tentava argumentar com ele usando a razão.
— Armando, por Deus! – Betty estava à beira das lágrimas.
— É natural, não? É natural que nessa historia todo mundo se colocasse do lado de Betty.
As palavras, misturadas às sensações, dançavam na cabeça de Armando numa ciranda frenética, causando-lhe enjoo e uma dor de cabeça terrível. Mas ele não queria parar de falar, não podia, e, por isso, vomitou todas as sensações indigestas e todas as palavras desconexas na tentativa de voltar a respirar tranquilamente de novo.
— Sim. É natural! – Ele desordenou os talheres da mesa. — Sabe o que é mais irônico nessa história toda? A única que se preocupou comigo foi Marcela... A única a perceber que eu havia me apaixonado por Betty e que estava sofrendo por algo mais além da empresa...
Catalina interrompeu-o, porque sabia que aquelas palavras eram afiadas demais para que Betty as suportasse:
— Armando, eu sinto muito se algo que eu fiz o magoou, mas eu fiz o que eu achava melhor para Betty. E não me arrependo. É claro que se eu soubesse que você a amava teria sido diferente...
Betty mantinha a cabeça baixa, na tentativa de conter as lágrimas. As palavras dele a afetaram, porque realmente Marcela fora a única a compreendê-lo enquanto ela estivera ocupada demais pensando em seus próprios sentimentos e sentindo-se vítima.
Ela tocou as mãos de Armando acalmando-as e ele embaraçou seus dedos nos dedos dela:
— Eu amo Beatriz, Catalina! Muito! Muito mais do que qualquer Michel poderia amá-la jamais! Eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo... Mas não acredito que ninguém possa dar a ela um amor maior que o meu! – ele falava com Catalina, mas olhava diretamente para Betty.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas e Betty já não conteve as dela, porque não conseguia conter o turbilhão de culpa misturado a pontos de interrogações impossíveis que brotaram em sua mente e se multiplicaram numa rapidez incalculável.
Catalina sorriu. Entendeu a situação e sabia que não era capaz de se sentir magoada com aquilo.
— Tranquilo, Armando! Eu não quero afastar Betty de você. Eu sei o quanto ela o ama e agora sei que você a ama. E também sei que ela só poderá ser feliz ao seu lado.
Armando fechou os olhos, respirou fundo e tentou raciocinar com clareza:
— Desculpe, Catalina! Eu sei que você só queria o melhor para ela. Sei que você não tinha como saber que eu a amava. Mas quando penso que eu quase a perdi... Não consigo pensar direito.
— Eu entendo, Armando — Catalina disse sorrindo.
— Eu fiquei muito magoado com você quando soube que a tinha levado para Cartagena, que a tinha levado para longe de mim, que tinha sido você quem havia lhe apresentado o maldito francês... Claro, você não conhecia a minha versão da história. Só conhecia a de Betty...
Ele continuou segurando a mão de Betty e abaixou a cabeça enquanto dizia:
— Desculpem-me, eu não deveria ter vindo. Acho que devo ir e deixar vocês duas conversarem — Ele tentou se levantar, mas Betty o deteve.
— Não! Você vai ficar aqui comigo.
— Fique Armando, por favor! — Catalina pediu. — Não quero mágoas entre nós. Confesso que tive vontade de esganá-lo quando Betty me contou a história toda, mas você tem razão. Eu só sabia a versão dela. Eu também não sei se eu seria capaz de perdoar algo assim, mas Betty é uma pessoa especial e se ela pôde perdoá-lo, então eu também posso. No fim, tudo que eu quero é a felicidade de todo mundo.
Catalina lhe estendeu a mão para confirmar que não tinha mágoas dele e que continuou sua amiga. Armando aceitou a mão que ela lhe estendeu e a segurou firmemente.
— Você tem razão em tudo, Catalina. Mas eu peço a você o mesmo que pedi à mãe de Betty e a ela própria: que me dê uma chance para que eu possa demonstrar o quanto mudei, o quanto a amo e mostrar mereço seu amor e seu perdão.
Catalina sorriu para ele que devolveu o sorriso e, por fim, ela disse:
— Claro, Armando!Agora chega de lágrimas e lamentações! – ela deu dois tapinhas nas mãos dele que seguravam as mão de Betty sobre a mesa.
— Sim, chega... – Betty disse em tom de súplica.
Armando virou-se para Betty:
— Não queria fazê-la chorar, Betty! – Ele tentou enxugar suas lágrimas embaixo dos óculos.
— Eu estou bem. Está tudo bem agora. Vamos almoçar que estou com fome.
— Eu também! — Catalina comentou, divertida.
— Claro que sim.
Ele chamou o garçom, eles fizeram o pedido, seguindo os conselhos de Catalina que já conhecia a comida do local. E em clima de alívio, o almoço transcorreu sem mais problemas, com Catalina e Betty contando suas aventuras em Cartagena, sobre como foi a chegada e a companhia da Taís Araújo que ajudou muito a Betty. Contou também sobre o último dia da Taís em Cartagena em que a levaram a passear de chiva¹, e festejaram muito com música alta e todos dançando! Betty sorria muito enquanto comentava sobre essas situações e escutava Catalina. Armando, por sua vez escutou, atento, a cada detalhe, muito interessado em saber o que sua Betty fizera enquanto esteve longe dele. Tinha plena consciência de que Betty estava passando por um momento horrível na sua vida naquela época e que merecia alguma coisa que a tirasse daquela tristeza. Sabia que Cartagena fora importante na sua vida, todavia era impossível se proteger de todas as agulhadas que recebia ao ouvi-la falar de momentos tão importantes nos quais ele não estivera presente, e nos quais ela só pensara em esquecê-lo. Seu coração escutava tudo encolhido em um canto escuro no seu peito. Ele deveria se sentir feliz por ela ter superado tanta coisa, mas por que era tão difícil convencer-se disso?
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