Um Novo Final
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Armando e Betty estavam voltando do almoço com Catalina. Ele dirigia enquanto ela permanecia calada, pensativa, olhando pela janela com os olhos vazios. Esse mesmo vazio percorreu a pele de Armando por dentro fazendo-o se arrepiar.
— Em que você está pensando, Betty? Não gosto quando você fica assim, calada.
Ela virou o rosto em sua direção e sorriu, o brilho terno de volta aos olhos.
— Em você – respondeu docemente.
Armando olhou-a rapidamente com as sobrancelhas franzidas, erguendo-as no mesmo instante.
— Pensando em como sou um idiota e quase estraguei seu almoço com Catalina, não é?
— Entre outras coisas – ela não pôde deixar de esboçar um sorriso.
— Que outras coisas, Betty?
— Eu não sabia que você estava magoado com Dona Catalina.
Armando se remexeu no banco. O cenário à sua frente deu uma ligeira esfarelada, fruto de uma sacudidela nas suas inseguranças. Falara tanto no almoço, tentando desembaraçar os nós de angústia no peito simplesmente para perceber que tudo parecia absurdamente ridículo depois de verbalizado.
— Eu não tinha o direito de estar, eu sei. Catalina não fez nada de errado. Eu só estava muito magoado, me sentindo traído.
Mas ainda não era isso que ainda cortava o coração de Betty:
— Estou pensando também em outra coisa que você disse — ela continuou olhando para ele com a cabeça encostada no banco do carro.
Armando respirou fundo. Aquele assunto estava gritando-lhe aos ouvidos, um grito áspero que golpeava sua cabeça com algo feito de estupidez.
— Eu disse muitas bobagens, Betty. Não vale a pena ficar pensando nisso — ele deu de ombros tentando parecer natural e disfarçar seu incômodo.
— Não são bobagens, não. Você disse o que sentia. E você disse que ninguém se importa com os seus sentimentos...
Armando sentiu que uma lágrima escorria na voz de Betty. Não queria magoá-la com o que dissera, contudo não poderia mentir sobre uma coisa tão grave...
— Sim, é verdade. Pelo menos é como me sinto.
— Estou pensando em como você deve ter se sentido sozinho... – ela quase tossiu.
Essas palavras comoveram Armando, que estacionou o carro. Seu coração era um ímã louco a atrair sentimentos de cargas opostas sem distinção. Ele pigarreou como que tentando livrá-lo de tantas peças sobressalentes, mas foi um esforço inútil.
— Betty, você não imagina a confusão de sentimentos que levo aqui dentro. Às vezes sinto que o que fiz não tem perdão, que sou um ser desprezível, que eu estaria melhor morto. Mas uma parte de mim luta desesperadamente para esquecer isso, para viver e ser feliz, a despeito dessa outra parte acha que eu não tenho esse direito. Sinto, na maior parte do tempo, que não a mereço. Ao mesmo tempo, sinto que só vou encontrar a paz fazendo você feliz, que essa é minha redenção. E então eu me angustio ainda mais porque não sei se posso fazê-la feliz realmente. Tendo a me questionar se você não estaria melhor se tivesse aceitado a proposta de Michel...
Aquelas palavras chegaram ao ouvido de Betty ditas em um idioma novo, em construções que ela não acreditava que existiam. Segurou o rosto dele entre suas mãos e disse entre um sorriso frágil:
— Armando, eu jamais seria feliz longe de você, acredite em mim, se eu tivesse aceitado a proposta de Michel, ou tivesse tomado qualquer outro caminho que me levasse para longe de você, eu seria uma pessoa incompleta porque deixaria meu coração e minha alma contigo.
Mas o coração de Armando ainda atraía mais peças :
— E sabe o que é o pior de tudo, Beatriz? – Ele colocou as mãos sobre as mãos dela retirando-as de seu rosto e segurando-as – Eu poderia dizer a você que eu mudaria tudo se eu pudesse voltar atrás, que eu amaldiçoo esse plano que tramei com Calderon. Mas não é verdade, porque se não fosse esse plano eu não teria descoberto você, não teria me apaixonado e continuaria a viver de maneira vazia e fútil como eu vivia antes...
O sorriso cristalizado se liquefez em duas lágrimas que lhe chegaram doces no canto da boca. Betty, então, o envolveu pelo pescoço e o beijou, impedindo que ele continuasse a falar. Não queria mais pensar no que passou. O passado era só um quebra cabeça mal montado cujas peças ela soprava para longe. E que o resto desaparecesse.
— Eu te amo, Armando, e sei que você me ama. Nada mais me importa. — com aquelas palavras, o coração de Armando, pesado, enfim mudou de carga e descansou, sem contrários.
****
O restante da tarde não foi fácil para Armando e Betty. Aquilo tudo, de alguma maneira, os aproximou mais ainda, e a distância obrigatória do trabalho passou a incomodar mais e mais. Porém, mesmo assim, ele não deixou de ir à sala dela a cada oportunidade. Para alívio dos dois, Seu Hermes não voltara para a empresa após o almoço, o que deu a eles um pouco mais de tranquilidade.
Chegando à hora de ir embora, Armando a procurou mais uma vez, vestido por dentro com uma capa de um verde desbotado, mas ainda verde.
— Acho que hoje não temos um plano para passarmos um tempinho juntos, não é, Betty? — ele disse com aquela carinha de cachorrinho abandonado.
As pregas vocais de Betty se contraíram diante daquela visão e se recusaram a trabalhar, fazendo com que ela respirasse fundo antes de dizer.
— Hoje não, Armando...
Armando suspirou frustrado, caiu a capa que já não era mais verde, não sem antes levar visões e cores e sensações.
— Você já está de saída? — Ele simplesmente não faz questão de disfarçar o que acabara de ocorrer.
— Sim. Já estou indo. — Betty não teve coragem de mirá-lo. Sabia que bastava um relance para mudar totalmente de opinião. Mas ela não podia passar com ele esse tempo que ele queria.
Ela terminou de guardar alguns papéis e de desligar o computador e os dois saíram, juntos. Algum espírito de uma sensação contida se libertou, não se sabe de quem, e tentou de varias peripécias para amarrá-los com cordões de pensamentos de ordens diversas. Armando não resistiu e se enrola em todos eles. Betty, porém, desvencilhou-se de todos, apresentando a barreira da figura de seu pai.
Como sempre, se despediram com um beijo, antes que cada um entrasse em seu carro. Ele a seguiu até sua casa, porém daquela vez, ela não parou um quarteirão antes, para decepção de Armando. Ele esperou que ela entrasse em casa. Ela acenou e jogou um beijo antes de fechar a porta. Armando sorriu: lembranças claras espocaram da sua alma. Fazia tanto tempo que ela não fazia isso... Ele ficou por instantes ali, olhando para a casa e, conformado-se, vai embora.
Chegou a casa e sentiu o corpo finalmente reagir ao dia intenso. Sentiu a alma dormir um sono desconfortável sem lugar decente dentro do corpo, sentiu as energias baterem em si como em um travesseiro mal colocado.
Toma um banho bem relaxante e se jogou na cama. Não teve ânimo para mais nada. Começou a procurar algo interessante para ver na TV, mas não conseguiu se concentrar. Então o telefone tocou e ele atendeu entediado. Mas logo abriu um sorriso ao ouvir a voz de Betty.
— Senti saudades! — ela disse, rindo.
— Eu também, mi amor! – o que era uma grande verdade.
— É que faz muito tempo que não nos vemos... – Betty ainda estava rindo.
— Sim, tempo demais para mim! – ele sorriu também.
— O que você está fazendo?
— Estou deitado em minha cama, procurando algo interessante para ver na TV. E você?
— Estou deitada na minha cama conversando com você – risos.
— Sim? E como você está vestida? – pergunta em um tom neutro, quase em um reflexo.
— O quê?
— Quero fazer um quadro mental de você, Betty. O que você está usando?
— Um pijaminha super-sexy – ela riu, olhando para seu corpo e para o velho pijama que estava vestindo.
— Tenho certeza de que está linda!
— É que você não conhece meu “pijaminha sexy” – riu outra vez.
E eles continuam a conversar sobre amenidades durante mais uns minutos, como se ninassem suas sensações depois da confusão daquele dia.
Armando se sentiu mais tranquilo depois daquele telefonema e, com um sorriso no rosto, se pôs a imaginar como seria o quarto de Betty e seu “pijama sexy”.
A noite foi passando e Armando não conseguia dormir. Cansado de rolar na cama de um lado para outro resolveu dar uma volta de carro pela cidade. Admirou as luzes que viu, os cenários por onde passou, ainda que não soubesse exatamente se o que via está dentro ou fora dele mesmo. O carro então parou como que sozinho em um determinado lugar, e quando ele se deu conta estava em frente à casa de Betty. Ele estacionou e ficou ali olhando para a casa, para as janelas, imaginando qual delas seria a janela do quarto de Betty. Qual delas seria a janela para a libertação de todos os limites, para o rompimento do limiar entre o real e o irreal-de-coisas-boas... Ele encostou a cabeça no banco do carro e, perdido em seus pensamentos, acabou adormecendo.
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