Notas iniciais
Parecia que eu tinha abandonado a fic, mas eu nunca vou abandonar essa história. A vida não está sendo fácil, gente linda, mas vamos como vamos! Espero que gostem, obrigada, Sheila, por sempre me lembrar de atualizar. Vocês são as melhores leitoras do mundo ♥ Eu continuo não dando conta de responder comentário, mas do fundo do meu coração, amo muito vocês, me perdoem por isso =(

Betty não sabia sequer nomear aquela situação estranha que estava vivendo com a família de Armando. Eles pararam em restaurante para almoçar antes de irem ao aeroporto e o nome de Camila foi esquecido, como se ela não mais existisse. No entanto, parecia muito normal a atenção que os avós davam ao neto, como se ele tivesse brotado do nada e parado ali no colo de ambos. Estava bonito de ver, porque, bem verdade, os sogros pareciam dois blocos de gelo e nunca os havia visto tão solícitos e carinhosos. Mas todo o resto ignorado engasgou Betty a ponto de ela perder o apetite. A única coisa que tinha vontade era de gritar na cara de Roberto e Margarita sobre o que estava acontecendo. Realmente, nessas horas dava razão de Armando ser uma pessoa confusa e neurótica às vezes, porque aquele tipo de criação não era para nada saudável para um ser humano. Agradeceu pelos pais que tinha. Don Hermes podia ter os defeitos que tivesse, mas tinha ensinando-a a encarar de frente as coisas da vida com dignidade... Suspirou. Estava tão ansiosa que estava perdendo o foco.

— Beatriz, — Doña Margarita disse — eu sugiro que esse fim de semana arrumemos a lista dos convidados. Fiz várias reservas e já falei com muitas pessoas, porém preciso confirmar tudo isso e só seremos capazes de ser precisas com a lista de convidados.

— Sim, Doña Margarita, prometo que nós faremos isso esse fim de semana mesmo.

— Muito bom. Não se esqueça de que tenho uma lista de amigos e pessoas que devem ser convidadas. Vou pedir a secretária do Roberto para lhe enviar amanhã mesmo.

— Tudo bem...

E a conversa morreu aí, não se tocou mais no tema e a atenção voltou a recair-se em Miguel Ângelo. Vez ou outra eles falavam de Paris, comparavam a comida do restaurante com algo que haviam comigo certa vez em certo lugar, e mais nada.

Mal terminaram de almoçar e Armando deixou-os no aeroporto. Despediram-se no estacionamento mesmo e separaram-se ali, porque estavam bem na hora do embarque e não queriam atrasar o casal para o trabalho. Recomendaram muitíssimo que cuidassem de Miguel Ângelo e Betty quase deixou escapar que o menino tinha mãe.

De volta ao carro, ela massageou as têmporas. Ainda se sentia incômoda com tudo. Queria comentar com Armando sobre essa situação toda, mas nem sabia por onde começar:

— Temos que voltar pra Ecomoda — disse apenas.

— Vamos deixar Miguelito em casa com Camila e fazemos isso.

No entanto, ao chegarem a casa, onde estava a irmã?

— O que a gente faz, leva ele pra Ecomoda? — Armando perguntou, encarando o menino que tinha se sentado no sofá e olhava o nada.

— Eu não sei, Armando...

— Bom, pra falar a verdade, eu já enchi tanto a paciência de Aura Maria com levar aquele menino dela pra Ecomoda que nem sei se tenho cara de leva-lo pra lá... E depois também não quero abrir precedente para esse tipo de atitude.

— E convenhamos que não é um ambiente muito divertido para uma criança, verdade?

— É... Vamos esperar Camila voltar, então. Você tem alguma reunião marcada para hoje?

— O que eu tenho marcado, posso desmarcar sem prejudicar qualquer coisa. Farei isso agora.

— Aproveita e avisa também que eu também vou atrasar, por favor. E fala pra Sandra não marcar nada para hoje, porque só deus sabe quando minha irmã vai aparecer.

Esse era outro assunto sobre o qual ela queria muito falar com Armando também...

Depois de fazer as ligações que tinha de fazer, Betty retornou à sala. Armando estava em pé de frente para o menino, encarando-o como se ele fosse um bicho estranho. Não pôde evitar que em sua cabeça pulasse algo de futuro e visse sem querer que talvez Armando precisasse de muito treino para ser um bom pai.

Ela se sentou no sofá de frente para Miguel Ângelo.

— O que você quer fazer, Miguelito?

Ele ficou encarando-a um tempo, apático. Até que disse:

— Eu quero minha mãe.

E cruzou os braços, olhando para baixo, as sobrancelhas contraídas.

Betty e Armando se olharam.

— Você quer que eu ligue para uma agência de empregos e chame uma babá?

Betty suspirou e sorriu:

— Não, mi amor. Se ele já está desconfortável conosco por sermos desconhecidos, imagina com uma babá.

— Então, o que eu faço? — Ele cochichou, tão incomodado quanto o menino.

— Podemos tentar distraí-lo com alguma brincadeira ou algo... O que você gostava que faziam com você quando criança?

Armando coçou a testa. Que lembranças de infância tinha? Não havia se esquecido da sua infância à toa. Seu tempo e de sua irmã era completamente preenchido com atividades d todos os tipos que ele simplesmente não se lembrava de ter sido criança um dia.

— Bom, tentemos alguma coisa.

Então Betty ajudou-o a passar quase a tarde toda fazendo caretas, contando histórias, colocando filmes e desenhos para passar na televisão, tentando fazer graça... E o mais engraçado e irônico disso tudo que estava mais fazendo efeito no próprio Armando que no menino. E seu noivo, depois de um determinado momento se soltou e, de um jeito totalmente desengonçado, tentava chamar a atenção do menino sem sucesso. E aí a fome bateu e ela foi para a cozinha tentar preparar alguma sobremesa, porque crianças gostavam de doce. Armando seguiu dançando e tentando chamar a atenção dele, e, envolvido com aquilo, se esforçou tanto que não viu Betty detrás de si e bateu com toda força na bandeja que ela trazia com leite e bolo de cobertura improvisada de chantilly.

A bandeja virou totalmente sobre ele, sujando-o por completo. Foi com a surpresa que veio a gargalhada do menino. O casal se olhou, um semi-sorriso cúmplice de quem arquitetava algo e, passando o dedo no chantilly que estava na sua própria camisa, Armando avançou para o menino sujando-o todo também. Primeiro sujou-lhe o rosto de leve e depois encheu-o de cócegas. Betty apenas observou a cena, enternecida. Armando parecia mais moleque que o menino e estava se divertindo muito mais que ele. E pela primeira se entregava totalmente a uma situação cotidiana, tranquilo e relaxado. Ela mesmo pensou que não viveria para ver isso.

Então, os dois pararam e Armando disse a ele baixinho:

— Tia Betty parece muito limpinha, você não acha?

Miguelito concordou, então os dois saltaram sobre ela, sujando-a também.

Foi essa cena com que Camila se deparou quando chegou ao apartamento, e decidiu entrar na brincadeira também porque esquecer do mundo era tudo de que precisava naquele dia.

******

Camila e Daniel fizeram o caminho para o restaurante em silêncio. Da parte dela, queria perguntar-lhe muitas coisas. Porém... tudo o que tinha dele era aquele encontro raquítico capaz de agonizar a qualquer momento. Conhecia Daniel o suficiente para saber que não precisaria de muito para que ele se colocasse numa posição defensiva e acabasse com aquilo tudo. Em seis anos, somente ali haviam retomado o contato... Até quando aguentaria fingir que esse tempo todo não passara?

Daniel mirava-a de soslaio, sentindo que cometia um crime. Podia estar em qualquer lugar com qualquer mulher que quisesse, no entanto, estava ali, tentando abrir uma fenda no tempo e no espaço, e, claro, era um caminho impossível por mais que Camila lhe parecesse muito mais bonita e segura com a maturidade. Via-a e via também aquele dia no aeroporto, o menino aparecendo como uma pústula detrás de si, gradativo e assustador... um câncer. E odiava-a por isso, ainda mais naquele momento porque ela era a guia para essa fenda absurda, de onde saíam essas esperanças que ele abominava. No entanto sabia que era só parar de segui-la, tirar o celular do bolso e dizer que o estavam convocando, ou olhar o relógio e dizer que seu tempo disponível se havia acabado... Mas, não. Seguia-a: e mais feliz que resignado, mais leve que rancoroso... Deus!, como podia ser tão estúpido!

Quando pararam, e a realidade se redesenhou diante de si, pôde ver o lugar onde costumavam ir: correntes envolviam a porta e o letreiro descascado já abrigava alguns musgos e ervas. Terminou sorrindo frente a isso, triste como nunca, porque o lugar se parecia consigo.

Contudo, ao olhar Camila, seus sentimentos mudaram. Não soube entender: ela estava em choque e isso o deixou furioso. O que queria, no final das contas?

— Não dá pra ir embora e depois voltar, pensando que tudo vai estar esperando por você — disse, por fim, o que estava engasgado todo esse tempo.

Talvez ela devesse haver-lhe estapeado. Não precisava de alguém mais para lembrá-la de seus erros, ela os vivia todos os dias, tinha tirado suas lições e convivia com isso. Tanto que jamais haveria voltado se Armando não tivesse pedido com tanto afinco. Daniel também que não pensasse que estava ali por ele; sabia, desde quando recebeu a notícia de sua gravidez, que jamais estariam um para o outro.

Que fosse. Era melhor que esse lugar estivesse mesmo fechado e fechasse dali pra sempre qualquer possibilidade. Tomou impulso para sair dali e deixar Daniel sozinho, mas sentiu um baque: Daniel lhe agarrara o braço.

— E tudo o que você pode fazer é perpetuar o ciclo? Sair correndo como se fosse embora de novo?

— O que você quer que eu faça, Daniel?

— O que eu quero é muito simples: que você tome uma decisão e pare de importunar.

Encararam-se um tempo em busca das palavras que escapavam ao instante. Daniel ainda segurava seu braço e aquela proximidade sussurrava coisas que nenhum dos dois queria ouvir, por quererem muito ouvir...

— Eu nunca poderia ser o que você gostaria que eu fosse... — ela disse, constatando o seu maior medo da vida inteira. — Talvez agora menos, porque existe uma pessoa na minha vida a quem estou atada para sempre...

Ela ainda teve tempo de ver suas pupilas dele dilatarem-se, antes de Daniel largar seu braço e virar-lhe as coisas, indo embora dali.

Notas finais
Espero que tenham gostado, próximo capítulo tem a treta da lista de convidados, porque, afinal de contas, o que fazer com pessoas como o Calderón e o Michel? hehehehehe