Um Novo Final
57 Capítulo 57
Notas iniciais
— Vou levar esse menino pra tomar um banho e depois a gente conversa — disse Camila enquanto carregava Miguelito para o banheiro.
— Pois devíamos fazer o mesmo, o que te parece, Beatriz? — Armando disse, malicioso.
Betty sorriu quase sem querer: não cansava de pensar que havia tempos que ela e Armando não ficavam a sós. E ali, além das circunstâncias normais do casamento atropelando a ambos, tinha também a vida maluca da família de Armando... Sorriu de novo, mas outro sorriso: Armando esteve tão envolvido com sua família um tempo, provando que poderia ser um namorado e noivo... Agora era vez a dela de entrar na vida dele de uma vez por todas e entender a história dele também.
— O que foi, Betty? — Claro que ele percebeu sua mudança de semblante.
— Nada... Estava aqui pensando... primeiro pensei que o convite me pareceu ótimo, depois fiquei sem graça porque sua irmã está aí, e agora o convite me soou ótimo outra vez.
Ele sorriu e pegou-a pela mão:
— Então, vamos logo, antes que a senhorita mude de ideia.
Despiram-se e entraram no chuveiro. Assim que a água jorrou sobre a cabeça de ambos, Armando puxou Betty para si e beijou-a enquanto passeava com as mãos sobre seu corpo, detendo-se conforme sentia sua respiração acelerar e escutava-a gemer baixinho. Betty tentava fazer-lhe o mesmo, mas às vezes se perdia em suas próprias sensações. Ele já a conhecia muito bem, e sabia onde e como ela gostava acariciada. Ela encostou-se na parede fria, buscando um ponto de apoio enquanto ele a penetrava com o médio e roçava o polegar em seu clitóris. E Armando se excitava mais vendo-a gemer e passar a língua pelos lábios. Voltou a beijá-la e lamber os próprios dedos, sussurrando quando se separaram:
— Vou pegar um preservativo aqui na gaveta...
Betty não o deixou ir, colou-se a ele e sussurrou de volta:
— Está tudo bem...
— Segura? — ele perguntou passando a língua de leve nos lábios dela.
Ela assentiu. Felizmente, essa foi umas das vezes que coincidiu de que não houvesse qualquer possibilidade de ela engravidar. Ele, então, virou-a de costas, pressionando-a contra a parede e penetrou-lhe, primeiro devagar e depois cada vez mais rápido e com mais ganas conforme ia perdendo o controle de si mesmo, diluído ao momento e ao corpo de Betty, onde queria estar para sempre.
****
Camila nem soube como deu banho em Miguel Ângelo e colocou um filme para que ele pudesse ver no quarto. Estava com a alma longe, revivendo o dia com o Daniel. Pra que tentar forçar uma porta fechada, uma porta que sequer esteve aberta um dia? Afagou o cabelo do filho que tinha os olhos presos no filme enquanto assistia dentro da sua própria cabeça Daniel lanchando com ela naquele mesmo lugar impossível, contando suas aventuras com uma e outra e outra e outra, rindo dessas mulheres, entre sádico e desgostoso com a sua própria situação:
— Certeza que todas elas têm um leque de qualidades que você faz questão de não ver — ela comentava enquanto mexia o chocolate quente que tinha em frente de si.
— Nenhuma delas é você.
Camila se via levantando o olhar e encarando-o, esperando que ele falasse sério, ou que ele não o fizesse em absoluto, e tudo o que tinha diante de si era aquela suspensão, aquela incertidumbre, aquela neblina...
— Você não...
— não devia dizer essas coisas? — Ele tomou a mão dela e passou o dedo pela aliança disfarçada de anel.
Camila tentou puxar a mão, mas ele segurou-a mais forte mantendo-a ali:
— Eu digo o que tem que ser dito.
— Sim... Inclusive que preferia que eu me afastasse.
— Amor não é e nunca foi tudo. Um dia você vai entender isso, vai ver que eu estou certo.
E ainda que ele estivesse completamente errado, ele estava totalmente certo...
Assustou-se com batidas na porta. Era Armando e Betty:
— Cariño, vou levar Betty em casa. A gente se fala quando eu voltar, ok?
— Ok, e não pensa que o senhor vai escapar de escutar umas poucas e boas — ela disse se levantando e indo se despedir de Betty.
Ele suspirou e sorriu enquanto ela abraçava Beatriz:
— Vamos esclarecer tudo. Já volto.
— Até logo, Beatriz. Peça desculpas ao seu pai para mim. Vamos remarcar tudo, quer dizer, eu não sei mais de nada... De todos os modos, nem sei o que dizer por ter te arrastado pra esse caos que a nossa família. Armando deve ter tentado esconder, mas chega um ponto que não dá mais.
Camila disse isso divertida, mas Betty entendia o peso das suas palavras:
— Está tudo bem, e claro que vamos conversar. Procure descansar e nos falamos com mais calma em breve.
— Eu espero que sim. Boa noite, Beatriz.
— Boa noite.
***
No carro, Betty não se segurou. Desde que Camila chegara que queria perguntar a Armando sobre ela:
— Por que o Daniel Valência estava esperando a Camila no aeroporto?
Armando torceu os lábios e respirou fundo:
— Nunca entendi esses dois — disse, por fim. — Eles sempre foram amigos, mas não no bom sentido, sabe? Não sei que graça minha irmã viu no Daniel, mas, ela o idolatrava e meus pais faziam muito gosto de ver os dois juntos, só que o Daniel, você sabe como ele é... aquela... coisa maldita. Alguma coisa passou entre eles, eu não sei o que é, ela nunca me disse, porque eu e ele nunca nos demos bem. Mas alguma coisa passou, e ela ficou bem magoada. E depois eu apresentei o Jean-Pierre para ela e o resto é história...
— Ah, você apresentou o ex-marido dela pra ela...
— Ele não era meu amigo. Nos conhecemos em Londres, ele era boa companhia, e, você sabe, era francês e bonitão e artista e as mulheres grudavam... Numas férias ele veio comigo porque queria conhecer mais sobre o Botero... Acho que o Daniel de certo modo nunca me perdoou por isso. Se antes ele me desprezava, mas me tolerava, por causa da Marcela, depois que a Camila se casou e foi embora, senti que ele passou a me odiar... Não que eu me importasse, mas por isso sempre achei que tinha algo entre os dois que nenhum contava.
— Faz sentido... Mas quem diria que alguém fosse capaz de desestabilizar o Daniel...
Armando deu de ombros, não queria continuar aquela conversa. De certo modo, se sentia responsável pela quebra da família. Claro que não tinha culpa, ele sabia disso, mas existia uma distância enorme entre saber e sentir... E, no fundo, tinha-o feito mesmo para afastar o Daniel de Camila, que parecia minar as forças da irmã cada vez mais. Não queria que ela chegasse ao ponto de casar com Jean-Pierre, mas que saísse, se divertisse, pensasse em outras coisas e outras pessoas...
Armando deixou Betty em casa. Antes, porém, entrou, cumprimentou os sogros. Falou do almoço que tivera com os pais e da proposta deles de almoçar com a família Pinzón o mais rapidamente possível, na próxima vinda a Bogotá, de preferência. Don Hermes quase bufou de orgulho por isso, e disse que estava passando da hora de um almoço em família assim. Contou histórias do noivado dele com Doña Julia, da importância do fato de duas famílias virarem uma só e também disse que estava cheio de ideias para o casamento e que queria falar com Doña Margarita e com Camila o mais rapidamente possível. Lembrando-se disso, perguntou:
— E o que aconteceu hoje de manhã? Sua irmã não se dá bem com os pais?
Armando engasgou com o café que Doña Julia lhe havia trazido. Só faltava contar sobre o caos que era sua família e o sogro voltar atrás:
— Não... Quer dizer, sim, sim... Eu ainda não a vi, mas ela me ligou e disse que tinha esquecido a carteira num café ali próximo e foi buscar. E ali não só estavam seus documentos, como estava a permissão de viagem do Miguel Ângelo e como isso é muito difícil e ela não tem uma boa relação com ex-marido, ela ficou bem apreensiva.
Don Hermes franziu a sobrancelha:
— E por que ela se divorciou?
— Ela descobriu que o marido estava tendo um caso -- disse Armando, já imaginando o motivo das perguntas.
— Se o homem vai buscar fora de casa, é porque algo não está indo bem dentro de casa...
Essa colocação chegou atravessada aos ouvidos de Armando que já ia responder à altura. Falar dele, ok, mas falar da irmã e sem saber o que estava acontecendo já era demais. No entanto, ele foi interrompido por Betty que colocou a mão em seu ombro e disse que ele precisava ir.
— É verdade, eu preciso saber como está a minha irmã e se tudo foi bem no final.
Despediu-se rapidamente dos sogros e Betty o acompanhou até a porta.
— Odeio te deixar, mi amor, mas obrigado pelo dia de hoje, e por me impedir de acabar com o nosso futuro casamento.
Betty lhe deu um selinho:
— Eu percebi, e não se preocupe, somos um time, lembra-se — Ela riu de sua forma característica.
Armando tocou-lhe o queixo, como fazia quando ela era sua secretária e o tirava de todos os apuros:
— Claro que sim, mi picarona.
Mas dessa vez puxou-o de volta para si e deu-lhe outro selinho:
— E mi amor — outro selinho — e mi vida — e um beijo prolongado que terminou quando as luzes da varanda se apagaram.
— O eterno sinal... — Betty disse.
Armando sorriu, despediu-se dela e finalmente se foi.
***
Daniel tomava um drinque em um bar. Deveria estar se preparando, porque foi designado para a comissão que ajudaria o ministro da agricultura a receber uma comitiva norte-americana para ver a questão da exportação das rosas para o próximo São Valentim. Se tudo desse certo, a estimativa era que a Colômbia conseguisse exportar pelo menos 120 mil toneladas de flores para os Estados Unidos. E para ele, era uma oportunidade de expandir sua rede de contatos, mais além de mostrar serviço, uma vez que o ministro da agricultura pediu pessoalmente ao ministro da fazenda que ele fosse cedido nessa comissão que, na realidade, se assemelhava mais a uma task force para conquistar o mercado norte-americano de uma vez por todas em cima da Holanda...
No entanto, tudo em que conseguia pensar era em Camila. E o fazia com todo seu corpo, porque sentia seu sexo latejando cada vez que pensava que devia tê-la tomado para si e feito amor com ela em qualquer canto onde fosse possível. E lembrava de quando fizeram amor pela primeira vez no ateliê que ela tinha, depois de ela ter pedido que ele posasse para ela, a ideia mais absurda e mais maravilhosa que ela tinha tido. Claro que a pintura não vingou, porque esse foi só um pretexto para ele tirar a roupa e ela avançar sobre ele tão logo o visse à sua inteira disposição. E, de fato, eram raros os momentos em que ele realmente estava...
Quando uma mulher se sentou na cadeira ao lado, flertando consigo, Daniel sequer a viu para medir se sua aparência era digna de alguém como ele. Disse algumas poucas palavras, como de praxe, e logo tratou de tirá-la dali. Parou o carro em um canto escuro da cidade e fez sexo com ela ali mesmo, porque simplesmente não podia esperar chegar a um motel ou coisa que o valesse.
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