Um Novo Final
45 Capítulo 45
Notas iniciais
Quando Alejandra chegou ao hotel, de maneira a levar Betty, Armando e Nícolas ao passeio turístico que prometera quando eles chegaram, encontrou apenas com um recado na recepção de que o Sr. Mendoza e a senhorita Pinzón Solano haviam saído cedo e não disseram para onde. Verdade seja dita, ela não soube dizer até onde isso era ruim ou era bom, tendo em conta a última conversa dos dois, aquele dia, no shopping. De todos os modos, não conseguiu evitar a abertura de um buraco bem no meio da garganta, entre o que devia e o que sentia... Tomou o rumo da cafeteria. Não era de beber, por isso mesmo um café amaretto¹ não lhe faria mal algum... E que fosse bem caprichado no licor, por gentileza.
O local estaria vazio se não fosse aquela presença desajeitada de Nícolas Mora. Ele, sentando torto, os braços descansando no balcão, era a própria imagem do desamparo. Antes que ela pudesse pensar no que fazer, ele virou-se e sorriu-lhe, sacudindo as mãos em uma tentativa de aceno. Era sua obrigação, sem dúvidas, garantir o bem estar de seus convidados. Foi até ele.
— A Betty e o cabeção nos deixaram plantados mesmo... — ele suspirou misturando os huevos pericos² no prato em frente de si.
— Parece que sim — Alejandra sorriu, talvez com mais ternura do que acreditava ser capaz de sentir por ele. — E seria uma pena que você desperdiçasse seu último dia em Caracas tomando um café tão bogotano.
Nicolas gesticulou em resignação:
— Bom, é o que me resta, verdade? — No fundo, ele sabia bem o que queria. Tampouco estava ali naquela cafeteria vazia, exatamente naquele lugar cuja vista da entrada era tão nítida, por acaso. Esperou por esse último dia mais que (por) todos os outros, a possibilidade de estar ao lado de alguém tão refinado nas maneiras e delicado no tom de voz como Alejandra era mais que um afago, mesmo que não fosse direcionado a ele mesmo... Não importava, nunca importava... Nicolas precisava com minúcia a dimensão de si mesmo, e, talvez por isso, a vontade de ser mais lhe fosse mais forte que qualquer outra coisa, custasse o que custasse.
E quando Alejandra lhe propôs que devessem seguir com o que ela tinha programado para aquele dia, sua surpresa fingida foi mais que verdadeira, afinal, suas esperanças tinham tomado forma apenas uma vez na figura de Patrícia Fernandez. Mesmo que ela tivesse se desvanecido completamente bem mais cedo que devia, tinha valido muito a pena, ah, se tinha... Claro que com Alejandra não seria nada daquilo, mas a imaginação era dele e podia desenhar o que quisesse, Nícolas não se importava.
***
Betty tinha consciência de aquele não era o passeio mais turístico por Caracas, no entanto, o bom-humor de Armando, aliado à sua vontade e disposição em lhe mostrar os lugares importantes para ele, em lhe contar um pouco dos seus sentimentos naquela viagem de outrora, fazia daquele tour muito mais importante para a história de ambos. Desde o começo, era isso que ela precisava conhecer. Talvez fosse a última barreira entre ela e Armando, finalmente... Transposta de uma maneira suave e, melhor ainda, definitiva.
Houve um momento em que ela nem conseguiu escutar as palavras que ele proferia. Apenas via sua pele refletir diferente a luz cotidiana, mas que, em lugar de lhe revelar uma pessoa nova, apenas mostrava com mais nitidez aquilo que ela sempre soube.
— Betty, você me ouviu? — Armando voltou-se-lhe, desviando o olhar da paisagem verde que passava embaixo do teleférico do parque El Ávila³.
— Perdão, eu...
— Estou te aborrecendo com isso tudo, verdade? — pela primeira vez naquele dia, seu semblante parecia preocupado.
Betty sorriu, lhe acariciando o rosto, tentando desfazer aqueles sinuosidades:
— Claro que não, mi amor, muito pelo contrário... De repente me perdi aqui, diante de toda essa paisagem, e diante de você mesmo... Não parece que alguma coisa está diferente, depois de todo esse passeio?
Armando ergueu as sobrancelhas, tentando adivinhar se Betty se referia a algum mau presságio:
— Eu disse alguma coisa errada?
— Não, mi amor, não foi nada errado, foi algo muito certo. Estou muito feliz por você poder compartilhar isso tudo comigo.
Armando tomou-lhe a mão e beijou-a:
— Eu sabia que te traria aqui algum dia... Sabe, o parque El Ávila é considerado o pulmão de Caracas... E não só é isso, El Ávila é uma montanha que cruza toda a cidade e sempre indica o norte, como los cerros em Bogotá nos diz onde é o oriente... Enfim, é uma pena não podermos explorá-lo como se deveria, mas, de todos os modos, esse lugar me ajudou a respirar um pouco e conseguir organizar meus pensamentos. É um labirinto lá embaixo, um grande labirinto verde... As pessoas vão para se distanciar da cidade e esquecer os problemas, fazer exercícios...
— Alejandra que te trouxe aqui?
— Não... Por incrível que pareça, vim só. Alejandra não poderia fazer isso por mim, ninguém poderia...
— E como foi essa organização de pensamentos, Armando? Você decidiu me deixar ir, deixar as coisas acontecerem?
Armando sorriu, voltando a olhar para a janela do teleférico, ainda que buscasse o passado em meio às copas das árvores:
— Não sei o que significa “te deixar ir”, mi amor. Nunca soube... Eu só entendi que precisava ser o homem que você merecia ter ao seu lado. Queria que você visse que eu podia ser útil, competente, que eu podia, inclusive, ser um homem de verdade, não aquele monstro que... — Ele sacudiu a cabeça, invadido por súbita melancolia, mas não teve coragem de encarar Betty. Pousou de novo o olhar na paisagem. — Eu queria te conquistar, propriamente, daquela vez... Queria merecer aquilo que tinha perdido e me fora tão importante.
— Armando, olha pra mim — a voz de Betty vacilou um pouco, mas ela tomou coragem e tomou-lhe o queixo, fazendo seu olhar se encontrar com o dela.
— Não era pra eu estar te fazendo chorar nesse momento — Armando coçou a testa, tentando desfazer aquele clima, tentando desfazer-se daquele toque que lhe feria o rosto. Não era para as coisas terem tomado aquele rumo, não naquele dia.
— A gente chora de felicidade também, você sabe... — Betty acariciou-lhe o rosto e colou sua testa na dele. — Eu... eu sinto muito pelo que te fiz passar, eu não sabia de nada...
— Não faça isso, Betty... — Armando não podia aguentar aquelas palavras. Ela não podia pedir-lhe desculpas por ter-lhe sido leal, por tê-lo amado com todas as suas forças, por ter entregado sua alma a ele da maneira abnegada como fizera, e ele deitar tudo fora, como se nada significasse...
— Era a última coisa que faltava nisso tudo, Armando, você não vê? Ambos erramos, aí é que está... Você me fez sofrer, eu busquei vingança e depois tive tanto medo que mal podia me suportar... Mas eu também te fiz sofrer, Armando, mesmo sem querer... Eu também te fiz perder o norte, perder o juízo... E eu sinto muito por isso, eu juro que sinto...
— Colhi o que plantei, apenas...
— Desde o almoço com a Dona Catalina, naquele dia, não pude deixar de pensar nisso... De início entendi que você havia sofrido, mas não tive a dimensão disso como tenho agora. E não tive essa consciência absurda que tenho nesse exato momento. Você não merecia colher nada do que você colheu. Ambos não merecíamos, na verdade. Mas isso não importa agora, importa que, assim como te perdoei, você me perdoe...
— Nunca te culpei nada, mi amor, muito pelo contrário...
— Você não vê? É exatamente quando você acha que merece ter passado por tudo o que passou que você me culpa, Armando. É isso que você precisa deixar ir. É por isso que eu digo sinto muito...
E mais uma vez, naquele lugar, o norte despontou de todos os sentimentos desencontrados que Armando tinha no peito. Duas lágrimas acariciaram sua face limpando sua visão de uma vez por todas. Ele, em resposta àquilo que era impossível colocar em palavras, simplesmente colou os lábios nos lábios de Betty, e ambos selaram definitivamente aquele passado onde ele devia estar.
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