Notas iniciais
Olá, minhas lindas!

Então, estava esperando a Lu me dar uma autorização para postar o cap, mas eu vou postar assim mesmo, tipo, provavelmente ela vai achar ruim, provavelmente ela vai me mandar tirar o cap do ar (e se ela pedir eu realmente terei de fazê-lo), mas eu acho ruim vocês quererem um cap novo e eu não postar nada. Enfim, me desculpem qualquer coisa.

Espero que gostem da leitura.

Betty estava retornando do salão de festas, quando viu, de soslaio, Armando cruzando a recepção do hotel junto com Alejandra. Ele a guiava com a mão nas costas dela, nuas, justamente na abertura do decote da blusa verde petróleo que usava. A primeira reação de Betty foi esconder-se, quase como que fugindo da própria visão que lhe parecia tão áspera. Por que Armando mentiu? Suas pernas se dobraram diante de todas as interrogações que apareciam... Desde o aeroporto que ela vira o quanto Alejandra ainda exercia um grande poder sobre ele... Ali ela conseguiu confirmar tudo aquilo, Armando parecia tão calmo ao seu lado, sorrindo-lhe tão ternamente... Com ela própria, no entanto, ele sempre estava atordoado, neurótico e preocupado... Mas, não iria deixar as coisas daquela maneira. Tão logo gritou espantando todas aquelas interrogações, simplesmente cruzou a recepção, mirando a saída. Pôde ver Armando entrando com Alejandra em um carro preto, provavelmente o dela. Não hesitou e, tomada por algo que desconhecia, acenou para o primeiro táxi que se aproximou e ordenou ao motorista que seguisse o carro adiante.


***


– E para onde vamos? — Alejandra perguntou-lhe mal conseguindo disfarçar o contentamento.

– Hmmm, vamos para El Tolón – Armando respondeu, colocando sua mão sobre as mãos dela e sorrindo-lhe largamente.

Alejandra, então, deu a ordem ao motorista e seguiram para lá. Ela olhava a mão de Armando por cima das suas insistentemente, quase querendo tirar daquele toque o motivo pelo qual ele a chamara. Sabia que não seria para nada de mais, mas não conseguia evitar pensar que talvez houvesse acontecido algo entre ele e Betty e que... Não, era melhor não esperar nada, mesmo que na sua imaginação tudo parecesse inofensivo.

– O que foi, Alejandra, por que está tão calada?

Ela virou o rosto na sua direção, sorrindo, tímida:

– Oh, nada, nada... Na verdade, estou pensando o que poderia ter te levado a me chamar tão repentinamente. Não é nada com as lojas, não é?

– Não, claro que não! Na verdade, eu estava querendo passar mais tempo contigo. Recuperar os velhos tempos. O que te parece?

Alejandra voltou a sorrir, mas não disse nada. Aquela frase podia significar tanta coisa que não ousou descobrir o que Armando queria dizer.


***


Betty sabia que Armando a amava, claro, não era idiota. Porém, por que ele não podia ser com ela tal e qual era com Alejandra? Por que não conseguia trazer à tona seu melhor lado, o que lhe parecia tão fácil à outra? Queria entrar na vida de ambos, espioná-los, saber de cada palavra que trocavam, visualizar as nuances da aura de cada um em contato com a do outro... Queria ser Alejandra, que era tudo o que ela própria nunca conseguiria ser...

Não soube o quanto andou imersa naquele labirinto criado por si mesma a partir de tantos maus pensamentos, mas, quando notou que o carro parou em meio a um engarrafamento, deu-se conta do quão ridícula estava se portando. Ela não era Marcela Valência. Tampouco queria ser Marcela Valência. Passou a mão pelos cabelos, se desfazendo de todo aquele lampejo de loucura e revirou sua bolsa, os dedos trêmulos, buscando um dinheiro que entregou ao taxista, saltando do carro no mesmo minuto. O taxista gritou-lhe algo que ela não entendeu e, pensando que tratasse ser algo sobre o dinheiro, ela gritou-lhe que ficasse com o troco.


***


Ao cruzar a av. Rio de Janeiro, no entanto, o motorista propôs outro caminho, para evitar os engarrafamentos, virando à esquerda logo em seguida. Foi uma virada quase súbita, que jogou Armando ligeiramente para cima de Alejandra, fazendo com que ele a abraçasse para protegê-la do seu próprio peso. Ele se recompôs, pedindo desculpas, um tanto desconcertado, e Alejandra aceitou-as, murmurando qualquer coisa. Em seguida ele começou a rir, abraçou-a por conta própria e disse, sorrindo ainda:

– Não quero essas distâncias entre nós, Alejandra. Nem parece que fomos tão amigos, tão próximos, que compartilhamos tantas coisas. Eu realmente quis vir à Venezuela para te ver, porque estava com saudade...

Alejandra sorriu, olhando-o nos olhos, ainda envolvida por seus braços.

– Eu também estava com saudades, Armando... — a frase escapou por entre seus lábios.

– Então, conte-me absolutamente tudo o que aconteceu depois que nos separamos... — Armando ajeitou-se na cadeira, sem desfazer o contato visual com ela.

A partir daí a conversa entre os dois fluiu naturalmente e eles discutiram sobre vários assuntos até o carro estacionar em frente ao El Tolón.


***


Betty correu para a calçada e olhou a rua com aquela fileira interminável de carros, com as buzinas descoordenadas soando de segundo em segundo tal como em Bogotá. Caracas possuía hábitos muito parecidos aos da sua cidade natal. Claro, antes de serem Venezuela e Colômbia, ambos os países, juntamente com o Equador, conformavam a Gran Colombia... Mas ela passou a odiar os venezuelanos porque Alejandra a intimidava, e só isso era suficiente para buscar, em todos, todos os defeitos e se sobressair de tudo aquilo.

Olhou em volta, mas não conseguiu avistar o carro de Armando e Alejandra. Foi aí que se deu conta de que sequer sabia onde estava. Simplesmente via uma larga rua à sua frente, muitas árvores e uma zona que parecia residencial... Começou a caminhar sem rumo, ela realmente precisava de ar. Prometeu-se que assim que essa sensação de asfixia a deixasse, ela procuraria outro táxi e retornaria ao hotel. Lá conversaria com Armando sobre essa mentira dele...

Não andou muito, no entanto, e sentiu que estava sendo seguida. O coração galopou dentro do peito, e ela se arrependeu imediatamente por ter descido do carro. Apressou o passo. Escutou de novo as palavras do taxista dentro da sua cabeça. Os passos atrás de si apressaram também... Não desce aqui que é perigoso! O impacto das palavras foi acompanhado de um braço em volta do seu pescoço que a puxou para um beco “não grita, sua vadia, e não reage, isso é um assalto” um deles disse, Betty não sabia qual. Seu cérebro desligou-se em um clique e ela mecanicamente passou tudo o que tinha nas mãos. “Vamos, vamos, vamos!” um deles disse e Betty sentiu com repulsa que o outro cheirava-lhe os cabelos e passava a mão pelas suas coxas “essa aqui é bem mamacita, bem que podíamos aproveitar”... Ele apertou um dos seios dela e uma lágrima escorreu do rosto de Betty. Ela não tinha forças para reagir ou gritar, sentia o corpo totalmente imobilizado pelo terror que a cena e as possibilidades adiantadas lhe causavam amontoadas diante de seus olhos. Subitamente uma pedra caiu perto de si e “caralho, vamos embora, vão nos pegar!!!”, e então eles a empurraram com força “fica aí no chão, sua vagabunda e não olha pra cá!” e saíram correndo. Betty bateu na parede com força e foi ao chão. Segundos depois um casal foi em direção a ela e ajudou-a se levantar, falando coisas ininteligíveis, discando qualquer número. Ela se sentia voltar aos poucos, mas tudo o que lhe nascia era uma ânsia de chorar, misturada a uma impotência e uma falta absurda de Armando. Piscou os olhos com força, quase lutando contra aquela letargia. Queria ligar para ele, precisava escutar sua voz... Quando olhou para o casal que ainda estava ao seu lado e fez menção pedir o telefone emprestado, a polícia chegou para fazer o boletim de ocorrência.


***


Ao chegar ao El Tolón, Armando parou em uma cafeteria, Ara Mix. Disse que antes de iniciar a caminhada, um dulcezito cairia muito bem. Eles se sentaram, fizeram o pedido e, quando o garçom saiu, Armando estendeu as mãos, pegando as mãos de Alejandra e sorrindo-lhe outra vez:

– Estou muito feliz por estar na Venezuela, por estar aqui contigo!

Ela não conseguia deixar de sorrir nem de se deliciar com aquela presença, contrariando toda a serenidade que ela, com ele, esforçava tanto para demonstrar:

– Mas, me conta, Armando, finalmente, por estamos aqui?

– Eu quero que você me ajude em uma coisa — ele disse, animado.

– Em quê?

– Eu quero pedir a Betty em casamento, preciso comprar-lhe um anel.

Alejandra, quase em um reflexo, contraiu-se e desembaraçou suas mãos das mãos dele. Armando percebeu e contraiu o cenho em um aspecto desconcertado. Deu-se conta naquele instante do quão estúpido estava se portando, querendo coisas que não convinham:

– Oh, Alejandra, eu... Desculpa-me, eu não desconfiava...

Alejandra sorriu, ainda tentando digerir aquela notícia de maneira a pensar claramente. Sabia, porém, que havia chegado exatamente ao lugar em que não queria chegar de jeito nenhum:

– Será que não, Armando? Você disse à Betty que estava vindo se encontrar comigo?

Ele coçou a testa, desconcertado. Alejandra continuou:

– Quando te liguei e te fiz o convite para vir a Caracas, pensei que estava pronta para te ver de novo e pensei que poderíamos retomar nossa amizade do ponto em que abrimos aquele parêntese, em Bogotá... Creio que estava enganada... Você não é mais aquele Armando machucado que encontrei, aquele Armando magoado, acuado. Eu também não te vejo com aqueles olhos desinteressados com que te via antes, e qualquer pequena atitude sua para mim significa muita coisa.

Armando tirou os óculos, colocando-o sobre a mesa:

– Sinto muito, Alejandra... Acho que quis mais que tudo um recorte de tempo e espaço, aquele recorte... Não podemos ter tudo, não é?

Alejandra sorriu:

– Acho que ninguém pode, não é?

– Não... Eu.. realmente sinto muito...

– Não se preocupe.

Alejandra levantou-se, pegando sua bolsa. Armando se levantou seguindo-a, ainda um pouco atordoado pela atitude e pelo que ela significava, mas nesse momento seu celular tocou. Alejandra saiu enquanto ele via no visor que se tratava de um número desconhecido. Ao atender, escutou o fio de voz de Betty, contando o que lhe tinha acontecido. Armando não viu mais nada, jogou o dinheiro dos doces na mesa, sem ao menos o garçom ter entregado os pedidos, saiu correndo em direção à saída e entrou no primeiro táxi que parou.

– Toca para a delegacia – ele ordenou.

Notas finais
Bom, espero que tenham gostado, suas lindezas, desculpem-me a demora, mas vamos lá =)