Um Novo Final
37 Capítulo 37
Notas iniciais
Armando nem sequer pôde fechar os olhos, tamanha era a velocidade com que sentia as expectativas correndo pelas suas veias. Revezava entre as dimensões, às vezes confundindo a nitidez de suas expectativas com a realidade. E assim a noite passou arranhando as janelas e incomodando-o...
Betty também não estava muito diferente. Virava e virava na cama, como seus pensamentos viravam na sua cabeça. E sentia o coração grande, batendo em cócegas o tempo todo. Ia ser muito difícil esconder toda estas ânsias no dia seguinte. Queria poder engolir isso com sua própria ansiedade, mas soluçava sempre e tudo voltava como estava...
****
O telefone tocou bem cedinho, despertando-a de um sono bastante leve. Betty sabia que não poderia ser ninguém além de Armando, e não pôde deixar de sorrir.
— Eu te acordei, mi amor? — Armando disse, tão logo ela atendeu.
— Mais ou menos... Mas creio que se você não me ligasse, provavelmente eu te ligaria.
— Eu nem sequer consegui pregar o olho... Precisava falar com você. Sinto-me um pouco ridículo, mas queria ter certeza de que vamos nos encontrar daqui a pouco para viajar.
Betty sorriu, entendia perfeitamente como Armando se sentia. Ela acreditava menos ainda que tudo aquilo estava acontecendo de verdade, e que ela viajaria com ele em poucas horas.
— Se eu estivesse aí te beliscava para você ter certeza de que não é um sonho... — ela lhe respondeu.
Armando até respirou com dificuldade, diante daquele comentário:
— Não sabe o que eu daria para te ter aqui comigo, mi amor... De verdade...
— Não se preocupe, mi amor. Logo, logo estaremos juntos... Que pena, mas eu tenho que desligar. Ainda tenho que preparar algumas coisas que ficou de ontem...
— Ok, ok. E, por favor, não se atrase. Cada minuto é precioso, você sabe disso.
Betty sorriu com todo o corpo:
— Claro que sei! Não atrasarei, prometo! Um beijo, mi vida, te amo!
— E eu te amo mais ainda! Um beijo!
Betty desligou e se trocou rapidamente, para arrumar o resto da sua bagagem de mão. Não poderia esquecer nada, porque na viagem tudo teria que ser perfeito! Queria aproveitar todos os segundos, pegá-los na parede e não deixar nenhum enrolar em si mesmo e desaparecer. Três dias inteiros com o Armando, isso parecia mesmo um sonho... Sentia-se tão leve que o ar à sua volta parecia água.
Quando desceu para tomar seu café da manhã, Seu Hermes e D. Júlia já estavam à mesa:
— Bom dia, pai, bom dia, mãe!
— Bom dia, filhinha, dormiu bem? — Dona Julia cumprimentou.
Seu Hermes deitou o jornal na mesa:
— Me parece, Júlia, que a senhorita Pinzón dormiu demasiado bem esta noite. Isso se nota pelo semblante...
Betty sorriu envergonhada. Já falhara na sua primeira tentativa de controlar-se. Sentou-se somente, com a cabeça baixa, enquanto D. Júlia lhe servia o café.
— Ai, Hermes, deixa de ser rabugento, homem! — D. Julia disse. — Claro que ela deve estar feliz, imagina. Seu trabalho como presidente da Ecomoda sendo reconhecido até em outro país. Eu estou muito orgulhosa!
— Obrigada, mamãe. É realmente uma honra pra mim ver a Ecomoda se expandindo e tudo dando certo.
Seu Hermes voltou a levantar o jornal, mas não sem antes olhar Betty e D. Júlia com o canto do olho desconfiado:
— Deus queira, Júlia, que a felicidade dela seja por isso mesmo, porque há de se convir que o diabo é porco, o diabo é porco.
Dona Júlia suspirou elevando a cabeça e olhando para o céu:
— Ai, homem de Deus... E se apresse, porque agorinha já temos que partir. Você sabe que para os voos internacionais é necessário estar mais cedo.
— Eu sei, Júlia, eu sei! Mas estou esperando o Nicolas, quando ele chegar a gente vai!
Betty sorriu timidamente. Ela sabia que isso ia doer em Armando, mesmo que fosse esse o preço para ela ir...
****
Armando foi para o aeroporto assim que se trocou. Sabia que ia chegar demasiado cedo, mas era muito melhor que aguentar as paredes da sua casa gemendo e lhe perseguindo. Quando chegou nem sequer havia começado o check-in, assim que ele se dirigiu ao Juan Valdez café¹ e tentou afogar sua ansiedade num capuchino com amaretto. Impossível. Seria melhor somente o licor...
Depois disso, ficou dando voltas pelo Eldorado², carregando sua pequena mala que já lhe pesava como o inferno, sempre olhando a tela com o itinerário de voos que parecia que nunca mudava...
Parou em frente à capela. Isso de vir mais cedo tampouco estava dando certo...
****
Nicolas seguiu a trilha do cheiro do café que Dona Julia havia preparado e, como sempre, chegou na hora certa. Veio com uma pequena mala que fez Betty se sentir um pouco exagerada com sua mala e mais uma bagagem de mão. Mas havia tantas situações que poderiam passar que ela tinha que estar preparada para todas... Tudo tinha que ser perfeito...
Nicolas cumprimentou Seu Hermes que lhe resmungou qualquer coisa de volta e cumprimentou D. Júlia que já estava na cozinha se preparando para lhe servir tudo. Sentou-se:
— E aí, Betty! Preparada para a viagem?
— Tudo bem, Nicolas? Te vejo bastante animado — Betty respondeu.
Nicolas não parava de se remexer na cadeira, pegando uma coisa de cada que estava servida sobre a mesa:
— Pois, sim, claro, Betty. Imagina, me encontrar com a Alejandra de novo, isso é quase um privilégio... — E soltou sua risada característica.
Betty imediatamente parou de comer. Sentiu seu estômago revolver e recusar todo o café da manhã. Respirou fundo. Por um momento se havia esquecido completamente da presença de Alejandra, como se ela e o Armando fossem viajar para um mundo paralelo. Ainda que Nicolas estivesse certo, tal certeza era áspera numa dose pequena e insuportável.
— Você está bem, Betty? — Nicolas perguntou.
— Sim, é que mordi a minha língua.
— Ui, isso dói.
E Nicolas voltou a tomar seu café da manhã como se fosse a última refeição da sua vida.
Quando todos estavam prontos, seu Hermes arrancou com o carro que, milagrosamente, pegou de primeira. O coração de Betty tragava cada quilômetro como se dependesse disso para viver. Pior de tudo era controlar-se para que a pupila não dilatasse, para que a respiração não acompanhasse a aceleração do carro... Mas brevemente estaria com Armando, e os dois estariam na Venezuela, e ela poderia ver com os próprios olhos como iria ser com Alejandra. Ainda que ela não fosse de ferro, e se recusasse a pensar em qualquer coisa ruim, queria presenciar a verdade com a sua própria alma.
Mas não queria estar errada, ah, isso, não...
Apesar da grande distância de sua casa até o aeroporto, o trânsito estava muito bom e eles puderam chegar relativamente rápido.
Quando chegaram, Armando já os esperava na entrada do aeroporto. Cumprimentou Betty abraçando-a profundamente, já que nem havia visto os outros antes dela, e depois se dirigiu a Dona Júlia e a Seu Hermes que tinha o semblante como uma tempestade:
— Bom dia, doutor...
— Bom dia, Seu Hermes.
— Pois, aqui te deixo entregue minha filha e o Nicolas. Espero que todos voltem inteiros dessa viagem, sem nada faltando, ou sobrando, o que é pior.
Júlia arregalou os olhos:
— Hermes!
— Deixa eu continuar, Júlia! Como o senhor me havia prometido que seria uma viagem de negócios, estou te dando o maior voto de confiança de todos que um pai poderia dar, e espero de todo o meu coração que o senhor não me decepcione...
Betty estava vermelha. Era impossível que isso ia suceder toda vez que seu pai fosse falar com o Armando...
— Pode deixar, Seu Hermes, serei digno da sua confiança — Armando disse.
— Que bom, porque o diabo é porco, Seu Armando, por isso tapa e destapa, e isso é muito perigoso...
Armando fingiu que entendera cada palavra:
— Pode ficar tranquilo, Seu Hermes, além disso, tem o Nicolas para defendê-la de qualquer coisa...
Seu Hermes assentiu com a cabeça:
— Exatamente! Perfeito... Fico feliz que o senhor tenha entendido a lógica da coisa...
Dirigiu-se à Betty:
— Pois, então, minha filha, boa viagem. Que tudo corra bem e que você possa ter o reconhecimento que merece na Venezuela.
Abraçaram-se.
— E, você, Sr. Mora, o senhor já sabe suas incumbências...
Nicolas levantou a mão em conformidade.
Dona Julia se aproximou e deu a benção para todos, fazendo o sinal da cruz:
— Que tudo corra bem, filhinha. Liga pra gente quando você chegar.
— Pode ficar tranquila, mamãe.
— Eu vou cuidar bem dela, D. Júlia — Armando disse, segurando os ombros de Betty.
— Disso não tenho dúvidas! Bem, até a volta, então!
Armando pegou Betty pela mão e os três entraram.
Fizeram o check-in e se dirigiram para a sala de espera. Armando se sentia em paz, como se tivesse chegado ao final do caminho, como se aqueles ditados de plantar e colher finalmente fizessem sentido. Pegou a mão de Betty e beijou-a. Nicolas brigava com uma máquina de biscoitos.
— Três dias de paz com meu corpo e minha alma. Nem posso crer, Betty.
Betty deitou a cabeça no ombro dele:
— De verdade que nem eu... Nunca pensei que meu pai fosse estar de acordo com isso... Mas, que bom... Isso mostra que ele gosta muito mais de você que eu e a minha mãe pensamos.
Armando ergueu as sobrancelhas em uma suave surpresa. Não tinha levado as coisas por esse lado. Sempre pensou em batalhas e estratégias e trincheiras alegóricas que não teve tempo de pensar que isso não foi uma conquista senão uma consequência. Beijou a têmpora de Betty:
— Isso me parece melhor que guerrear com ele e pensar que ganhei.
— Sim, muito melhor.
Pouco tempo depois o voo deles foi anunciado. E Nicolas perdeu para a máquina de biscoitos que engoliu sua moeda e não lhe deu nada em troca.
O voo em si foi bastante rápido, mais rápido até do que Armando queria, ainda que se sentisse contente com o fato de que essa horinha prólogo dos próximos 3 dias era leve, leve. Essa era a sensação de finalmente fazer as pazes com o relógio. E seriam, definitivamente, 3 dias de trégua com o tempo. Beijou o cabelo de Betty que tinha a cabeça deitada sobre seu ombro.
Betty tinha os olhos fechados, mas não dormia. Não pôde abandonar a imagem de Alejandra. Ela os iria buscar no aeroporto em Caracas, e que poderia passar depois daí? Alejandra era tudo o que ela não era, a começar pela graciosidade natural que possuía, a segurança de si mesma e das coisas que fazia. E o principal: não tinha um pai louco com ideias ultrapassadas e que pensava que a filha era uma criança de 5 anos. Ah... Era tão fácil apaixonar-se por alguém como ela. Tão fácil que o próprio Armando, com todas as coisas que lhe passou, teve o vislumbre de ter algo com ela. E agora que não havia mais nenhuma confusão?Agora que tudo estava normal e estável... Odiou tudo isso, sua família, seu caminho, sua personalidade... Até que seus pensamentos foram abalados pelo avião se preparando para decolar.
Nicolas requisitou seus lanches à aeromoça pelo menos umas 10 vezes durante o vôo. Tinha aí as duas coisas que mais lhe agradava: Comida e uma mulher bonita que o servia.
Quando o avião pousou e os passageiros começaram a descer, Nicolas foi o primeiro a levantar-se para tentar pegar o telefone da aeromoça. Betty, todavia, ficou um tempo sentada na poltrona. Não se sentia suficientemente forte para se levantar e ir ao encontro de Alejandra. Já não via nada que não fosse isso, queria poder colocar o Armando na bolsa e sair despercebida. Armando olhou-a, de pé, pegando a bagagem de mão dela:
— Está tudo bem, Betty?
Betty baixou a cabeça, passou a mão pelos cabelos, e levantou-a mostrando a Armando um sorriso ensaiado:
— Sim, só estou um pouco enjoada por causa da aterrissagem.
— Ah, então descemos logo para que você possa respirar ar puro... Ou o mais próximo disso...
Puxou Betty pela mão e não pôde deixar de sentir um peso estranho:
— Que passa, Betty?
Betty se encolheu:
— Não, nada. Já te disse, enjoo. Agorinha passa. Vamos.
Tomou fôlego para impulsionar seu corpo para frente. De todas as maneiras, era melhor que ela estivesse perto do Armando para que ele se lembrasse de que ela também estava aí, ainda que o ar quase tenha escapado dos seus pulmões, quando, ao sair da imigração e deparou-se com a figura de Alejandra e com Armando soltando-se dela para ir cumprimentar a amiga. Encolheu-se detrás de Nicolas em um movimento não planejado. E Nicolas tampouco reparou nesse fato que estava no meio da sua ansiedade esperando o momento em que Armando lhe apresentaria Alejandra.
Armando, por mais que não estivesse pensando em nada a respeito dessa viagem que não fosse ter três dias de paz com Betty, longe da nuvem negra de Seu Hermes, ficou muito feliz com o fato de poder rever sua amiga Alejandra. Ele mesmo se surpreendia ao ver como a presença dela lhe trazia uma calma acolhedora em meio à loucura que era o ritmo desarmonioso dos seus pensamentos. Correu em sua direção para abraçá-la, com uma necessidade muito grande de trazer essa calma que ela emanava para dentro de si.
— Alejandra! Que prazer ver você de novo! — ele exclamou, abraçando-a apertado.
Alejandra esboçou um sorriso. Uma onda feita de lembranças e ideias veio junto com esse abraço, onda para a qual ela não estava tão preparada quanto pensava. Correspondeu o abraço:
— Eu é que tenho que te dizer isso! E que bom que você esteja nos visitando!
Em seguida viu Betty escondida detrás do tipo que deveria ser o vice-presidente financeiro. A visão dela ainda lhe doía, mesmo que soubesse que se tratava de uma excelente pessoa... A excelente pessoa que havia cativado definitivamente a Armando... Avançou em sua direção, ignorando Nicolas que se preparava para dar-lhe o mesmo tipo de abraço que havia dado Armando.
— E, Betty! Que prazer ter você conosco nesse evento tão importante!
Betty abraçou-a fugidia, desenhando na boca um sorriso esquelético:
— Oi, Alejandra, eu que agradeço o convite...
— Bom, e como estão vocês? Cansados? Bem? Querem ir ao hotel e ficar por aí ou querem fazer algo mais?
Armando e Betty se entreolharam, ela implorando a ele que ficassem em casa, ele implorando a ela que fizessem algo na companhia de Alejandra.
— Eu gostaria muitíssimo de conhecer a cidade se for você que vai mostrá-la! — Nicolas foi o "voto de minerva" nessa tensão.
Alejandra olhou-o com as sobrancelhas levantadas. Esboçou um sorriso. Por um momento havia apagado do ambiente a aura tão desajeitada que ele emanava.
— Ah, mi amor, você tem que conhecer Caracas! — Armando disse a Betty. — É uma cidade belíssima! E não terá guia melhor do que Alejandra!
— O que me diz, Betty? — Alejandra disse.
— Eu gostaria muito, mas confesso que me sinto um pouco mal, a viagem não me fez tão bem... — Betty realmente não estava com ganas de continuar aquele encontro.
— Ai, Betty, sinto muito... Então, melhor, deixamos para amanhã! Prometo tirar um tempo durante a organização do coquetel para que eu possa te mostrar um pouco da minha cidade! — Alejandra disse.
— Obrigada, Alejandra. — Betty agradeceu.
Nicolas levantou o dedo para reiterar sua vontade de conhecer Caracas, mas Alejandra o interrompeu:
— Então, vamos para o hotel? Há um carro nos esperando.
Armando abraçou Betty e a sentiu demasiado pequena. Olhou-a e ela fitava o chão enquanto agarrava sua camisa na altura da sua cintura. Apertou-a contra si:
— Não se sente melhor, mi amor?
Betty olhou-o e sorriu:
— Já me sinto um pouco melhor, obrigada.
— A melhor parte é que quando chegarmos ao hotel posso cuidar de você pessoalmente, até me certificar de que esteja realmente bem — ele disse, beijando sua têmpora.
Ela agarrou a camisa dele com mais força. Alejandra andava de cabeça baixa na mesma linha que Nicolas, protegendo seus ouvidos como podia.
Chegaram ao hotel e Alejandra se encarregou de fazer o check-in enquanto Armando levava Betty para o quarto para acomodá-la. Trancou a porta do quarto e Betty se desabou na cama, como se fosse o lugar mais seguro do mundo. Armando foi até ela, tirando-lhe os sapatos:
— Espero que possa descansar um pouco, mi amor... — disse em seguida acomodando-lhe um travesseiro debaixo da sua cabeça, e abraçando-a.
Betty enlaçou seu braço, e Armando se deitou, trazendo-a para seu peito:
— Ui, sim, mi amor, se a gente ficar assim, em quinze minutos estarei ótima — ela disse com voz arrastada.
— Só quinze minutos? Não, temos 3 dias só pra gente. Não quero desperdiçar nenhum minuto.
Beijaram-se longamente. Armando se levantou, fazendo menção de sair:
— E aonde você vai? — ela perguntou.
— Eu? Vou ali embaixo, já volto.
— Fazer o quê? — Betty não estava satisfeita com a resposta dele.
— Ah... Vou me despedir de Alejandra, agradecê-la por ter nos acomodado tão bem — Armando disse, desajeitadamente.
Betty se virou na cama, o brilho arrastado dos seus olhos se apagou por completo:
— Serio mesmo que você tem que fazer isso? — ela disse, de costas para ele.
Armando franziu o cenho:
— Perdão?
— Te acompanho? — Ela se virou para ele outra vez.
— Claro que não, mi amor — Armando pronunciou essas palavras com mais ênfase do que gostaria. — Subi correndo pra te acomodar e me certificar de que você estaria bem... Mas seria de mau gosto não agradecer a Alejandra por ter nos trazido até aqui...
— Ah... Ok... Bom, agradeça-a por mim também — a voz de Betty saiu trêmula.
— Claro.
Beijou-a mais uma vez:
— Em dez minutos volto.
— Dez minutos?!
Armando olhou-a com os olhos semicerrados e com um meio sorriso:
— Betty, eu sinto certa aura de ciúme pairando sobre você. Lembre-se de que sei reconhecer isso de longe.
Betty se virou mais uma vez na cama, fugindo das suas vistas:
— Não seja tão convencido, Dr. Mendoza. O senhor bem sabe que não sou de fazer cena... Inclusive, demore o tempo que quiser. Falando a verdade, deveria tirar a tarde para conhecer Caracas com ela. Aproveita e chama o Nicolas.
Armando riu alto e deitou-se com ela de novo, trazendo-a para si pela cintura:
— Ah, mi amor...
Armando deitou-se ao lado, abraçando-a forte:
— Primeiro: dez minutos é maneira de falar. Segundo: eu já conheço Caracas, a ideia é mostrá-la a você. Terceiro: prefiro ver o diabo encarnado a sair com o Nicolas, a senhorita bem sabe.
— O que sei é que você e ele se tornaram bons amigos, se bem me lembro... — ela disse, virando o rosto para ele.
Armando arqueou as sobrancelhas:
— Sim, mas... Não.
Levantou-se em um pulo e saiu sem dizer nada. Betty se virou de bruços escondendo o rosto no travesseiro. A última coisa que ela queria era que Armando percebesse que ela estava preocupada com Alejandra.
Alejandra entregou as chaves a Nicolas, dizendo que ele poderia ir para seu quarto. Tentava ser educada para com ele, contudo sentia que isso lhe subia difícil na garganta. E o mais impressionante era que ele não fazia nada que pudesse merecer isso. Era o que a intrigava.
— Ah, muito obrigado, Alejandra — Nicolas disse, balançando estupidamente as chaves.
— De nada... Nicolas, certo?
— Sim, senhora.
Ela sorriu:
— De nada, espero que você passe um excelente tempo com a gente.
— Ah, pois, sim, claro! E espero que possamos tomar café alguma hora, e que você possa me contar sobre a cidade.
Ela sorriu desconsertada.
— Claro, marcarmos isso com Armando e Betty.
Ele balançou a cabeça nervosamente:
— Sim, claro, com Betty e o Dr. Mendoza...
Nesse instante a porta do elevador se abriu e daí saiu Armando. Ela não viu mais nada, foi quase correndo até ele, tentando inutilmente controlar os próprios passos e compassos:
— E Betty? Tudo bem com ela? — Alejandra tentou disfarçar sua ansiedade.
— Sim, sim, isso foi mais como cansaço da viagem...
— Ah, me alegro... E o que vai fazer agora?
— Cuidar da Betty... É o que tenho em mente.
Ela balançou a cabeça numa afirmativa:
— Sim, você tem razão... É só que... estava pensando em te convidar para um café, mas é melhor quando a Betty estiver com a gente...
Ele sorriu:
— Bom, e eu estava pensando em uma maneira de agradecer sua atenção para com a gente e você me deu uma ótima ideia. Há algum lugar aqui perto onde podemos ir?
Ela sorriu abaixando a cabeça, tentando esconder sua reação:
— Ah, sim, aqui mesmo na cafeteria do hotel.
— Perfeito.
Ela devolveu-lhe um sorriso tímido e saíram passando por Nicolas que ficou olhando-os virar à esquerda e desaparecer para, em seguida, se dirigir ao apartamento de Betty. Bateu à porta e a escutou bater os pés rapidamente para atendê-lo:
— Uau, Betty, isso tudo era saudade de mim?
Assim que ela se deu conta de que era Nicolas, voltou entediada para a cama. Ele foi atrás dela, olhando o que tinha no frigobar para comer.
— Pensei que era o Armando, desculpa.
Nicolas pegou uma barra de chocolate:
— Tranquila, mas o Dr. Mendoza não vem agora, ele foi tomar café com a Alejandra. Impressionante como ela me deu o fora no mesmo tipo de convite para aceitar o dele...
Betty parou de escutar depois da primeira frase. Virou-se de bruços outra vez, mas se levantou logo em seguida buscando o telefone celular. Nicolas continuou falando, sem olhar para ela:
— ...mas ela ficou muito tempo conversando comigo no lobby... Talvez eu tenha alguma chance... Posso pedir... Betty, está tudo bem?
— Sim, sim... Só um minuto que vou ligar pro Armando, pra saber onde ele está.
— Mas eu acabei de te falar que ele está aqui na cafeteria do hotel.
— Você não falou isso.
— Bom, não importa. Mas você acha que eu tenho uma chance com a Alejandra?
— Tomara, Nicolas, torço muito para que sim.
Ele sorriu desajeitadamente:
— Certo! Vou para o meu quarto, ver o que tem lá. Posso pegar coisas do frigobar, certo? Não vou ter que pagar no meu bolso, verdade?
— Fique à vontade e não se preocupe, Nicolas.
Ele saiu.
Betty discou o número do celular de Armando, mas apagou antes que desse o primeiro toque... Sentou-se na cama. Precisava convidá-la para tomar café só pra agradecer? Um obrigado não era suficiente? Discou de novo, mas desistiu antes mesmo de apertar o botão ligar. Ela não era como as outras mulheres que Armando havia tido. Ele mesmo disse que reconhecia essas coisas de longe, ela não poderia atuar dessa mesma maneira, ser como todas as outras. Colocou o telefone de volta na mesa. Esperaria os dez minutos que ele havia proposto. Depois veria o que podia fazer.
Armando se sentia muito em paz consigo. Não tinha ideia do bem que essa viagem podia lhe fazer, nem em como havia sentido falta da companhia de Alejandra. De fato, ela era a única amiga que ele havia tido, e não se deu conta até aquele momento do efeito que ela tinha sobre ele, e de como ele precisava desse efeito.
Os dois fizeram seus respectivos pedidos e Armando olhou-a sorrindo, assim que entregaram os cardápios.
— Então, no fim, tudo saiu bem com você... — Alejandra disse.
Ele encostou-se à cadeira, relaxando as costas:
— Depois de tudo, sim. E eu estou muito contente com tudo, com o rumo que as coisas tomaram... A empresa, a marca Ecomoda, eu... Meu modo de ver a vida...
— Verdade. Eu noto você muito menos preocupado, com menos fendas na voz...
— É... Agora minhas preocupações são muito ridículas, e isso me deixa feliz, quando paro e olho pra trás para comparar... Preocupação com quando meu sogro vai me deixar em paz, quando poderei estar sozinho com a Betty, quando terei que voltar à sua casa de novo...
Alejandra sorriu triste:
— Vejo vocês dois muito apaixonados.
O garçom chegou e entregou os pedidos dos dois. Armando sorveu um gole de café:
— A Betty é a mulher da minha vida. Não houve uma antes e não haverá uma depois. Eu tenho notado que muito poucas pessoas têm a oportunidade de encontrar um amor verdadeiro, e muito menos pessoas ainda têm a oportunidade de terminar bem com esses amores. Sou duplamente sortudo... Ainda mais depois de tudo por que a gente passou...
Alejandra baixou a cabeça. Essas palavras afiadas lançadas tão docemente causavam o dobro de dor:
— Eu acompanhei um bom pedaço da história.
— Sim, e eu sou absolutamente grato por isso. Você me salvou. Não sei o que teria acontecido se não tivéssemos nos conhecido... Nem quero pensar. Agorinha, quando você nos recebeu no aeroporto e eu te abracei, senti uma paz muito grande. Você tem o poder de frear toda minha loucura. Não tinha me dado conta disso, mas sempre foi assim e eu aprecio demais esse efeito... Eu disse à Betty que desceria para te agradecer por ter se preocupado tanto com a gente, mas eu tenho muito mais coisas para agradecer além disso...
Uma lágrima correu pelo rosto de Alejandra, escondida logo em seguida, sem dar o tempo de saber se seu gosto era doce ou amargo:
— Não tem que agradecer nada, Armando. Eu é que fico muito feliz por fazer parte da sua vida.
Ele pegou sua mão por cima da mesa e a apertou:
— Espero que possamos sempre ser amigos...
— Assim será porque nós dois queremos assim.
Nesse momento o telefone de Armando tocou. Ele pediu desculpas, olhou o número e era Betty. Levantou, pedindo licença, e se virou de costas para atender:
— Oi, mi amor! Aconteceu alguma coisa?... Ah! Estou aqui na cafeteria do hotel com a Alejandra... Desculpa, acabei demorando mais que o esperado... Você não quer vir se encontrar com a gente? Você está melhor? Ah, mi amor... Então, ok, já subo... Um beijo!
Quando virou de novo, Alejandra já não estava lá.
Notas finais
2 Eldorado: aeroporto internacional Eldorado.
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