Notas iniciais
Editado em: 02/05/2013

Armando franziu as sobrancelhas e, em seguida, suspirou. Ficou olhando para o espaço vazio onde estava a amiga. Entendia sem entender o que passara... Talvez fossem só as neuroses de sempre. Chamou o garçom para dizer para incluir na fatura do seu quarto e se dirigiu pra lá.

Neste ínterim, Betty aproveitou para ligar para sua família e avisar que estava tudo bem. Ainda não sabia que táticas o pai usaria para saber se ela estava ou não com Armando, e teria que pensá-lo logo para não haver inconvenientes. D. Julia atendeu ao telefone:

— Olá, minha filhinha, como foi a viagem?

Betty suspirou. Queria compartilhar as suas inseguranças com relação ao que estava acontecendo, mas tinha medo que seus medos fossem materializados se lhe escapasse pela boca...

— Tudo bem, mamãe, chegamos bem rápido e já estamos instalados. Só liguei mesmo para dizer que está tudo bem, avise ao meu pai para ele ficar tranquilo.

Nesse mesmo momento ela escutou uns sons estranhos no telefone e a voz de seu pai ressoou em anúncios de tempestade:

— Olá, minha filha, onde você está?

— Oi, pai, já estamos no hotel.

— Isso eu já sei, Betty! Quero nome, endereço, telefone... Telefone do seu quarto, do quarto do Nicolas e do quarto do Dr. Mendoza!

Betty revirou os olhos. Ainda que soubesse que tudo isto era típico do seu pai, não podia deixar de se sentir estúpida, pensando no que Armando realmente imaginava de todas as atitudes do Seu Hermes para com ela.

— Papai! E pra que tudo isso?! O senhor já não tem o Nicolas aqui me vigiando?

— É, está certo... Pedirei esses dados para ele, então. Fala pra ele me ligar! E cuidado, minha filha! Não vou nem falar, a senhorita já sabe!

Nesse momento Armando entrou no quarto. Ia para abraçá-la, mas ela fez uns gestos de que estava com o pai no telefone. Ele ficou imóvel, como se Seu Hermes pudesse escutar-lhe a respiração.

— Tudo bem, pai, pedirei para que ele te ligue. Agora tenho que desligar, fica com Deus.

— Você também, minha filha.

Desligou, deixando escapar um suspiro. Armando sentou-se ao seu lado e beijou-lhe o rosto:

— Sentiu minha falta, mi amor?

Betty encarou-o com os olhos semicerrados. Não queria falar nada que pudesse mostrar sua insegurança, ainda que se escutou dizendo:

— Me parece que você é que não sentiu a minha. Tão bem acompanhado como estava...

Armando riu. Beijou-lhe a têmpora:

Mi amor! Eu pedi que você descesse, você disse que não.

— Não queria atrapalhar a conversa...

— Como se eu precisasse dizer que você não atrapalha nada nunca.

Abraçou-a dando-lhe beijinhos na orelha. Betty sorriu, quase com os pensamentos correndo a frente da realidade, mas lembrou-se da ligação do seu pai, tinha que comentar com ele para que pudessem arrumar uma maneira de ajeitar tudo, antes que ela pudesse falar com o Nicolas:

— Espera, Armando! Estamos com outro problema...

— Que passa? — Ele levantou as sobrancelhas.

— Ai, desculpa, desculpa de verdade...

Armando beijou de leve seus lábios:

— Betty! Que isso, você está sempre pedindo desculpas por tudo e você sabe que não tem que fazer isso... Diga-me o que está acontecendo, sim?

— Meu pai quer que o Nicolas ligue pra ele para dar o telefone dos nossos quartos. Do meu, do dele... E do seu — ela disse, escondendo o rosto entre as mãos.

Armando sorriu triunfante:

— Pois desta vez, mi amor, nem seu pai foi páreo para mim. Já ajeitei tudo na recepção, enquanto voltava do café com a Alejandra. Todas as nossas ligações passarão pela recepção e serão direcionadas aos seus respectivos quartos, previamente anunciadas a quem se direciona. Ou seja, se seu pai liga querendo falar comigo, o recepcionista vai avisar primeiro que a ligação é pra mim. E com você, a mesma coisa. Que tal?

Betty sorriu, aliviada. Beijou-lhe de leve nos lábios.:

— Ainda me surpreendo com as suas idéias, Dr. Mendoza.

— Bom mesmo, mi doctora, bom mesmo...

Ela se virou e se beijaram. Armando deitou-a na cama, deitando-se por cima dela e intensificando o beijo. Ela, por um momento, deixou-se transportar pelas expectativas que sussurravam aquelas sensações, mas em seguida afastou-o com as mãos. Armando tentou resistir à realidade que ela insistia em colocar entre os dois, mas parou, lembrando que ela havia dito não estar se sentindo bem e sentiu-se estúpido por pensar no que estava pensando, sem se preocupar por seu estado de saúde. Sentou-se na beirada da cama:

— Ah, mi amor, me desculpa! Você nem está se sentido bem, e eu...

Betty envolveu seu pescoço detrás dele e deu-lhe um beijo no rosto:

— Não, Armando! Eu já estou bem, e daria tudo para que se cumprissem as promessas dos seus beijos. Mas nos comprometemos com um itinerário, se lembra? Isso nos foi mandado por e-mail. Alejandra não te confirmou nada enquanto tomavam café?

Armando se lembrou da cena em que atendia ao telefone e ela se desvanecia no ar, como uma decisão não tomada. Abriu a boca para dizer isto, entretanto, era melhor preservar Alejandra e as inseguranças de Betty:

— Acho que ela se esqueceu, ela teve que sair às pressas por algum compromisso...

Betty olhou-o com as sobrancelhas erguidas, sentia a força do vazio das suas reticências, ainda que não quisesse identificar do que se tratasse. Suspirou. Era melhor continuar com a lista de tarefas do dia que fizera questão de memorizar:

— Bom... Tecnicamente temos um almoço com ela e com os empresários que confeccionarão os acessórios para os pontos de vendas, tanto de Caracas quanto de Bogotá... Em seguida ela ficou de mostrar os pontos de vendas e os estoques. E eu acho que deveríamos verificar como vão os preparativos da inauguração amanhã, tenho estado preocupada com o andamento deste evento...

Armando sorriu diante da exatidão do passos dela e da sua preocupação para com a empresa... Todas aquelas ideias lhe traziam sentimentos de muito tempo, que agora já pareciam bem mais longe e pequenos, como se vistos da janela do avião que eles tomaram para Caracas... Não pôde deixar de perguntar, muito mais por curiosidade que por qualquer outra coisa:

— Preocupada?

Ela assentiu com a cabeça:

— Sim, preocupada... Estamos confiando 100% na Alejandra... Não duvido da capacidade dela, mas não sabemos se ela tem passado por alguma dificuldade, ou se está inovando em algum aspecto... Na verdade, eu sei que é preocupação boba, mas me sentiria melhor se pudéssemos averiguar se está tudo bem...

Armando virou-se, beijando-lhe de leve nos lábios. Nesse momento o telefone do quarto tocou. Ficaram os dois se olhando por uns segundos, decidindo quem atendia, silenciosamente. O telefone quase gritava o nome de Seu Hermes e soava assustador para ambos, ainda que eles soubessem que a voz do outro lado era a do recepcionista, controlando a chamada entrante. Armando, por fim, num estalo, pegou o aparelho:

— Alô?

— Boa tarde, Doutor. Chamada de Alejandra Zing para o senhor ou sua senhora.

Armando ergueu as sobrancelhas, satisfeito. Sua senhora lhe soou seguro e certeiro:

— Obrigado, pode passar...

Armando tapou a parte de baixo do aparelho com a mão, dizendo para Betty que se tratava de Alejandra. Betty se colocou ao lado dele, com o ouvido discretamente perto do telefone para tentar ouvir a conversa.

— Alô?... Oi, Alejandra! Pode falar... Ah, fica tranquila, eu sei que seu dia hoje está absolutamente cheio... Sim, Betty estava acabando de falar disso comigo... Ah, ok, Maute Grill... Pode deixar... Passa-me o endereço, por favor...

Fez um gesto pedindo a Betty que lhe arrumasse caneta e papel, anotando um endereço.

— Não, está tudo bem, não se preocupe... Às duas... É aqui perto?... Perfeito, perfeito... Um beijo.

Ele encarou Betty para comentar da ligação. Betty, no entanto, olhava-o quase imperceptivelmente indignada:

— Um beijo, Armando?

Armando piscou duas vezes, desajeitado. Nem reparou no que dissera:

— Quê?

Betty cruzou os braços:

— Nada... Acho que é só que eu nunca tinha visto o senhor se despedir de uma amiga antes...

Armando passou a mão pelos cabelos, enquanto buscava uma resposta para este ato impensado. Em seguida passou o braço por sobre os ombros de Betty:

— Você nem poderia haver escutado, porque eu nunca tive uma amiga antes, que não fosse você... Ah, mi amor, foi maneira de dizer. Sinto muito se isto te afetou, nem foi de propósito, eu nem tinha reparado.

Betty sabia disso e era o que mais doía. E sabia também dessa solidão dele desde que brigara com Mário... Não tinha resposta pra isso e sabia que era ridículo ficar tão indignada, ainda que tais pensamentos não conseguissem pisar na sua insegurança com relação a Alejandra.

Armando começou a beijar-lhe o pescoço:

— Mas não fica brava comigo — ele disse entre um beijo e outro. — Ou senão, deixa pra ficar brava quando cheguemos a Bogotá... Mas aqui, não, por favor...

Ele apoiou o queixo no ombro dela, olhando-a com um semblante abandonado e brincalhão, fazendo-a sorrir, rendida:

— Ok, Dr Mendoza, pensarei, então, num castigo adequado ao senhor enquanto não voltamos...

Beijaram-se longamente. Armando, em seguida, levantou-se, afrouxando a gravata:

— Bom, mas agora é melhor nos prepararmos para esse almoço do qual você falou. Alejandra ligou para dizer que não viria pela gente, mas que mandaria um carro e nos encontramos no restaurante. Temos não mais que 40 minutos para nos arrumar. Eu vou tomar um banho — ele disse, lançando um olhar malicioso em direção a Betty. — Não gostaria de me acompanhar, Dra Pinzón?

Betty sorriu diante da tentação daquele convite. Todas as suas células fizeram menção de levantar-se e ir até ele. Quase não conseguiu agarrá-las e voltá-las em si mesma. Contudo, tinha que escutar a razão, naquele momento.

— Ay, Armando... Se eu entro aí com você não saímos em 40 minutos...

Armando, que já estava dentro do banheiro, voltou com o cenho contraído, no seu típico aspecto abandonado:

— Não seja cruel, Betty! Confie em mim que não perderemos a hora.

Betty levantou-se, mas virou-se logo em seguida, em direção às suas malas:

— Na verdade, Armando, eu vou deixar pra tomar banho quando eu voltar. Se eu molhar meu cabelo, me demoro no mínimo uma hora pra secá-lo, assim que prefiro não arriscar porque se trata de um almoço muito importante.

Armando suspirou:

— Tudo bem, doutora, a senhora venceu... Tomarei banho aqui sozinho nesse banheiro enorme e a gente se vê em 20 minutos se eu não me perder — ele disse desabotoando a camisa.

Betty foi até ele, que já estava sem a camisa, e beijou-o. Armando ainda disse:

— E então, quando a senhorita voltar, me faça o mesmo convite para ver como se responde a ele.

Betty sorriu:

— Está combinado!

Armando entrou para o banho e Betty se pôs a arrumar. Antes, porém, perscrutou entre as coisas dele um terno que ele poderia colocar, para adiantar-lhe o serviço. Em seguida, ligou para Nicolas, avisando do compromisso, e preparou alguns portfólios da empresa que sempre trazia consigo, por se acaso passasse algo.

Quando Armando saiu e viu o terno em cima da cama, olhou-a agradecido. Era bastante acolhedora a situação de estar sendo cuidado por alguém.

Ele se trocou enquanto ela terminava de retocar a maquiagem, sentada em frente à penteadeira, observando-o pelo espelho. Armando sentia a força do seu olhar rondando seu corpo e se sentia elogiado com isso. Betty, assim que terminou de fazer a maquiagem, se levantou e ajudou-o com a gravata. Ele a puxou a para si, beijando-lhe o pescoço e sentindo seu perfume:

— Se o compromisso não fosse tão importante, eu inventaria uma desculpa e cancelaria esse almoço.

Betty sorriu da consciência dele diante dos fatos. Embaraçou-se ainda mais no abraço:

— Eu também, Armando, mas temos que ser profissionais. Somos uma empresa grande e séria, assim que temos que nos comportar... Mas fico feliz que você tenha mais consciência disso.

Armando beijou-lhe os cabelos:

— Sim... Quem diria...

Betty olhou-o:

— Nada disso, mi vice-presidente. Era mais do que óbvio...

Nicolas chegou logo em seguida e um minuto depois soou o interfone, anunciando que o carro mandado por Alejandra já os esperava. Armando terminou de se arrumar rapidamente e saíram.

No caminho, Betty mexia e remexia nos papéis que havia levado, na tentativa de distraí-la da figura de Alejandra que dançava em sua cabeça. Brigava consigo mesma, dizendo que era uma preocupação ridícula e que Armando teve a oportunidade de ficar com Alejandra em seu momento e não quis, mas logo respondia de volta que Alejandra era uma mulher muito especial e que Armando tinha, sim, certos sentimentos por ela, e que sentimentos muitas vezes evoluem em determinadas circunstâncias. E as circunstâncias entre ela e Armando não eram, talvez, o que se poderia chamar de satisfatórias, com seu pai o tempo todo controlando os passos deles, obrigando Armando retroceder num tempo em que ele nem sequer havia vivido...

Armando a observava e o som das folhas se tornavam cada vez mais estridentes com o silêncio dos olhos de Betty focado em outro mundo onde ele não parecia estar. Não sabia sabendo o motivo daquilo... Ou talvez fossem as neuroses de sempre. Coçou a cabeça e passou o braço pelos ombros de Betty, trazendo-a para si, querendo que ela saísse de onde estava e voltasse para junto dele, o que pareceu ser exitoso, vendo-a deitar a cabeça em seu ombro e respirar fundo:

— Que passa, mi amor? Tenho a mais absoluta segurança de que você sabe de cor tudo o que está nesses documentos...

— Não, nada. É que... É que fico com medo de ser pega de surpresa em algumas situações — ela disse e não era, de fato, nenhuma mentira.

Armando beijou-lhe a testa:

— Como se você fosse páreo para alguém, minha espertinha.

Betty sorriu para suas inseguranças não sair pelos seus poros. E não mexeu mais em nada.

Nicolas olhava a cidade em volta. Ao que parecia, era o único que estava em Caracas.

Quando chegaram ao Maute Grill, Alejandra foi recebê-los. Betty ainda se impressionava a respeito de como sua presença a deixava tão pequena, sem sê-la... Alejandra se portava muito bem com ela, e ela nem sequer podia perscrutar um lado mau, não era capaz de sentir nada ruim a seu respeito... E a admiração era diretamente proporcional à sua insegurança... Apertou o braço de Armando com força e ele a encarou surpreso. Alejandra cumprimentou primeiro a Betty, com um beijo no rosto, e em seguida a Armando, com um aperto de mão, da mesma maneira que a Nicolas. Armando aceitou o aperto de mão dela, desajeitadamente. Depois do café na manhã não sabia, sem motivos ainda que cheio de medos, como reagir.

Alejandra indicou a mesa onde estavam todos os executivos e apresentou-os ao trio colombiano. Eles se sentaram, fizeram os seus pedidos a um garçom mal-humorado e, enquanto estes não chegavam, discutiram as políticas de vendas dos acessórios em ambos os países. Betty e Nicolas, tirando de suas respectivas pastas um mar de papéis, desbancaram duas vezes os executivos presentes, em relação a algumas cifras, obrigando-os a revisarem certos aspectos nas suas concessões e fazendo Armando sorrir orgulhoso. Já tinha certo tempo que os dois não saíam para este tipo de almoço, e foi inevitável pensar em todas as ocasiões em que levara sua arma secreta para os almoços de negócios... Neste exato momento encontrou-se com o Armando de antes dentro da sua cabeça, olhando para estes eventos, e lamentou muito pelo fato de o outro conhecer a Betty partida, o computador humano. Se fosse capaz, estapeava o companheiro-ele-mesmo e pedia para que prestasse atenção no que tinha diante de si. Mas a imagem se esfumaçou com o som do tilintar dos pratos e talheres. Olhou Betty que esperava o garçom por seu prato na mesa e tocou seu ombro dizendo em seu ouvido:

— Eu te amo, mi Betty.

Betty sorriu, olhando-o de volta. Colocou a mão em seu rosto e teve uma profunda vontade de beijá-lo, ainda que não o tivesse feito por estar na presença dos executivos.

—Eu também, mi amor, eu também — ela disse baixinho.

Armando observava também a Nicolas que parecia crescer nestas situações, acompanhado da sua gangue numérica. Não era amigo de Betty à toa, e tinha tanto tino para os negócios como a amiga. E pensar que estava desperdiçado no mercado de trabalho por feio. Havia muito mais no mundo que o próprio mundo conhecia.

Alejandra, de olhos baixos, acompanhava todos estes movimentos. A cada instante seu Armando e o Armando que tinha diante dos seus olhos se tornavam cada vez mais próximos. E o queria cada vez mais por isso. E sabia que ele teria que amar muito a Beatriz para isso... E aceitava-o, enquanto sonhava com ele ao seu lado nas outras dimensões para onde bailam os átomos... Contudo, doía. E se ela fosse suficientemente... Qualquer coisa...

Terminado o almoço, eles se despediram dos executivos e se dirigiram aos pontos de vendas na área da Sabana Grande, nos centros comerciais El Recreo e Tolón, que também se encontravam muito perto do local onde era o restaurante. Alejandra lhes contou sobre algo do que viam no trajeto, dizendo que ali, no leste, era onde se encontrava o centro de atividades comerciais da cidade.

Armando beijou o rosto de Betty:

— E nós estamos situados numa excelente área, mi amor, onde está a maior parte das atividades culturais e da vida noturna de Caracas. Tomara que tenhamos tempo de ver tudo o que eu vi nos três dias em que estive aqui da vez passada.

Betty sorriu pesadamente. Torcia para que ele não incluísse Alejandra nestes planos.

— Sim, Betty, — Alejandra disse. — Espero poder mostrar alguma coisa da minha cidade e, mais do que isto, espero que você possa voltar pra Bogotá com uma boa imagem dos venezuelanos.

Betty sorriu de novo com as sobrancelhas erguidas. A julgar pelo atendimento no restaurante e pela negociação com os executivos, seria um desafio para Alejandra fazer com que ela tivesse uma boa imagem do país.

— Eu estou muito ansioso para conhecer tudo — Nicolas se intrometeu na conversa. — Estive muito tempo pesquisando sobre Caracas e tenho que ver se tem tudo o que oferece esses sites!

Betty sorriu. Quando ele se referia a tudo, sabia que era referente a toda gastronomia venezuelana:

— Você vai ser o maior desafio à resistência de Alejandra, Nicolas. Não tenha dúvida disso...

Alejandra sorriu, sem entender, de fato. Ele já era um desafio à sua resistência, e ela continuava sua investigação silenciosa acerca desta figura tão particular.

Enfim chegaram ao El Tolón. Por mais perto que tenha sido do restaurante, o tráfego caótico de Caracas impediu que o trajeto tivesse sido feito em pouco tempo.

No Shopping, passaram por detrás de uma grande lona com as informações das datas de inauguração das lojas e entraram. Betty ficou admirada com o que viu: era praticamente uma réplica do ponto colombiano. Armando felicitou a Alejandra pelo trabalho, passando-lhe o braço pelo ombro rapidamente e perpassando um punhal nas costas de Betty. Foi mais que um segundo, mas sua espinha continuou ardendo o resto do trajeto.

— Alejandra, simplesmente, superou as nossas expectativas — Armando estava maravilhado.

Alejandra sorriu, orgulhosa de si mesma:

— Que bom que o resultado lhes agradou. Mas obviamente o trabalho não é todo meu, senão que Marcela Valência esteve supervisionando tudo, dos Estados Unidos. Tomei a liberdade de contatá-la em Palm Beach e também estive lá. Notei que vocês prezam muito a estandardização dos pontos, e Marcela me explicou que o conceito é fazer o cliente se sentir em casa onde quer que esteja, assim que decidi manter o conceito. O outro ponto é praticamente idêntico, salvo algumas disposições de móveis e cores. Eu também gostei muito do resultado.

O nome de Marcela Valência pegou ambos de surpresa. Não tinham nenhuma notícia dela desde que se fora, senão as cifras do manejo do armazém e dos pontos de vendas em Miami. E para Betty seu nome vinha difícil até mesmo no pensamento, brincando de roda com muitas lembranças turvas. Admirava muito dona Marcela e não conseguia culpá-la de nada do que passou, entendia o tamanho do amor dela por Armando. Em ocasiões diferentes poderiam haver se tornado boas companheiras de trabalho e até boas amigas... Em outra vida, talvez, em outra vida...

Armando olhou mais uma vez em volta e realmente não soube como não percebeu o dedo de Marcela ali. Lamentava muito tudo o que passou, mas estava contente por havê-la libertado e dar-lhe a oportunidade de ser feliz. Sentiu um ruído fosco no peito, feito de livros empoeirados folheados cuidadosamente. Ainda que não conseguisse ler nada do que estava escrito, sabia que era primordial mantê-los na sua estante da alma. Abraçou a Betty, como que dizendo que estava ali, e Betty contornou-lhe a cintura, como se realmente quisesse saber que ele estava ali.

— Eu estou realmente impressionado, Alejandra. Se falar com Marcela de novo, manda-lhe minhas felicitações... Creio que nem sequer precisamos ver o outro ponto de vendas, para mim está mais do que suficiente — Armando disse.

— Sim, estou totalmente de acordo. Está tudo perfeito! — Betty estava mais calma.

— E o evento será ali mesmo no hotel onde vocês estão, no Tamanaco. Vocês gostariam de ir ver o salão de festas e a agenda pra amanhã? — Alejandra perguntou.

Betty sorriu aliviada em não ter que propor isso e invadir o espaço de Alejandra:

— Seria uma ótima ideia!

Voltaram ao hotel que Betty pôde observar, com mais prudência, o quão luxuoso era. Às vezes nem acreditava que por uma reviravolta do destino ela e Nicolas frequentavam aquele mundo das revistas que parecia sempre fugir deles, ainda que o mundo das revistas não interessasse tanto. Estava orgulhosa de finalmente estar ali legitimamente e na companhia de pessoas tão importantes, especialmente de Nicolas, que esteve com ela em absolutamente todos os momentos de sua vida. Observava-o olhar tudo maravilhado, como uma criança, e isso a deixava tranquila, como se estivesse fazendo a coisa certa.

Alejandra quebrou aquele transe, quando começou a falar do evento:

— Bom, amanhã à noite faremos o coquetel de inauguração; também faremos um desfile para mostrar as roupas que serão vendidas; apresentaremos os assessores de moda das lojas, eles mesmo vão narrar os desfiles, e em seguida vão interagir com as pessoas, creio que é uma boa ideia. Mostraremos uns vídeos sobre os pontos de vendas e o conceito de Ecomoda, aproveitando estes três telões que temos no salão e depois eu gostaria que vocês fizessem uma apresentação, falando exatamente da história e da solidez da empresa na Colômbia. O que vocês acham?

— Me parece muito bem — Armando disse, muito tranquilo.

Betty assentiu nervosa. Detestava essas apresentações.

Alejandra em seguida mostrou o menu e mais alguns detalhes de iluminação e sonoplastia, nada que fosse muito interessante. Discutiu também a lista de convidados, que incluía muitos empresários colombianos que possuíam ligações com Ecomoda; o menu, com várias especiarias da culinária venezuelana, entre outras coisas.

Saíram tarde do salão de festa do hotel, muito depois de Nicolas que foi aproveitar o jantar no Le Cabaría, perto da piscina.

Alejandra saiu fugidia do hotel, o que incomodou mais Armando, ainda que ele mesmo não soubesse o que queria e o que buscava. Eram outros tempos... Mas por que um mundo excluía o outro tão cabalmente?

Ao chegarem ao quarto, Betty se lembrou do que o pai pedira e ligou imediatamente para Nicolas, pedindo que ele ligasse para seu Her,es lhe dissesse os números dos quartos dos três, incluindo o número de onde Armando supostamente estaria. Desligou o telefone e deitou-se ao lado de Armando, que havia desabado na cama assim que chegou.

— Estou morta de cansaço, nem chegamos e tivemos esse dia tão movimentado...

Armando virou-se apoiando-se nos cotovelos:

— E o pior foi aqueles executivos hoje! Tentando passar a gente pra trás, pelo amor de Deus! Alejandra pode ser muito correta e tudo o mais, mas esses venezuelanos...

— Ah, mi amor, latino-americano é latino-americano, você sabe...

— É, mas eu não sei... Esse mau-humor venezuelano me incomoda demasiado... Você viu a recepção no restaurante? O garçom?

— Eu também fiquei incomodado, não nego... Mas, Betty, não vamos falar de negócios...

Beijou-a.

— Sim, Armando, você tem razão...

Ele voltou a deitar-se na cama e Betty deitou a cabeça em seu peito:

— Devemos mesmo aproveitar estes momentos que temos juntinhos. Apesar de tudo, estou muito contente de estar aqui com você... Acho que finalmente terei a oportunidade de preencher uma lacuna da nossa vida... Vou poder viver o que você viveu, me aproximar mais da sua dor... Saber em que momento você recuperou a serenidade e voltou tão transformado...

Betty levantou a cabeça para olhar-lhe nos olhos, contudo ele havia dormido. Ela sorriu diante das próprias palavras, tirou cuidadosamente os óculos dele e levantou-se, indo para o banho:

— Gostaria de acompanhar-me, Dr. Mendoza? — sussurrou, na porta, entrando para o banheiro logo em seguida.

Quando ela saiu do banho, viu que Armando ainda dormia. Não quis interromper aquele sono que parecia tão bom, assim que ela se enrolou no roupão e finalmente pôde olhar calmamente o lugar em que estava hospedada. O quarto era extremamente grande e luxuoso com os tons creme e café dando-lhe um ar de acolhedor. Descobriu ao lado uma pequena sala com um sofá e uma mesa de trabalho. E ali mesmo, piscando para ela, estavam todas as luzes da cidade, através de uma ampla porta de vidro que dava acesso a uma sacada. Sem pensar duas vezes, abriu-a para admirar a vista. E Caracas, mascarada de noite e pintada de luzes, era realmente uma cidade bonita. Uma pista larga cortava a cidade de onde ela via, e havia muitos, muitos edifícios. Cada luz era um mundo desconhecido e ela se sentiu pequena ali, uma luz mais...

Nesse momento sentiu o braço de Armando em volta de sua cintura, que abraçava-a por trás e beijava-lhe o pescoço. Betty virou-se e beijou-o, inebriada de um não sei o quê, que dava voltas em sua cabeça com as luzes da cidade em volta, atraindo-a para ele como seu ponto de equilíbrio. Armando intensificou o beijo, apertando-a ainda mais contra si, tateando a extensão das suas costas, buscando caminhos entre promessas e saudades, até que pegou-a no colo e levou-a direto para a cama.