Um Novo Final
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Armando chegou ao seu apartamento, sufocando com o ar azul-escuro do ambiente. As imagens lhe chegavam ásperas e tudo o que tinha definido eram as lembranças recentes de seu encontro com Betty... Ah, Betty, Betty... Vagueou pelos cômodos, se serviu um copo de uísque, e logo a lembrança dela se projetou para fora, inundando o vazio com seu perfume, com o seu espectro. Assim, inebriado, se deitou e a presença de Betty em seu corpo se fez tão forte que ele ainda pôde sentir sua mão sob a dele, deslizando pelo seu corpo, acariciando seu sexo. Sentiu a respiração dela sincronizada com a sua, os gemidos sobrepostos ao seu, até que tudo se contraiu em um nó de sentimentos e anseios e vontades para explodir logo em seguida desfazendo-se em um tapete de claridade sem fim... E ela pousou-se sobre ele calmamente, voltando para dentro de si enquanto ele normalizava sua respiração e tinha condições de dormir...
Betty dormiu embalada pelas lembranças dos beijos e das carícias de Armando. Sentia-se muito leve, ainda que seu corpo se sentisse fragmentado, como se lhe faltasse um órgão. Surpreendia-se ao se ver tão sem ideia da dimensão da sua necessidade de Armando ainda que soubesse que ele era tudo na vida dela... Todavia era uma necessidade confortável, pois tinha plena certeza de que naquele momento os pensamentos dele estavam irradiados para si...
Despertou-se tranquila no dia seguinte, mas sua tranquilidade durou cerca de minutos: assim que se lembrou de que havia prometido ir almoçar com Dona Margarida e Seu Roberto não pôde deixar de se sentir nervosa. Sabia que os pais de Armando haviam sonhado com um casamento entre ele e Marcela desde que estes eram pequenos e estiveram muito perto de ver seu sonho se realizar. Tinha muito medo de não ser aceita pelo casal Mendoza, porque além de não pertencer ao mesmo círculo social, talvez eles a culpassem pelo fim do relacionamento entre seu filho e a herdeira dos Valencia. Não podia deixar de se sentir envergonhada por haver se envolvido com Armando quando ele ainda estava comprometido, mesmo sabendo que Armando já não amava a noiva, que ele mantinha o compromisso apenas pela empresa. Ela havia traído todos os valores e princípios que seus pais haviam lhe ensinado em nome daquele amor...
Arrumou-se com esmero, pois o almoço seria no clube e ela queria causar boa impressão, ou pelo menos não se sentir destoante do ambiente.
Durante o café da manhã, Dona Júlia percebeu o nervosismo da filha. Sabia que seria difícil para Betty adaptar-se ao mundo do seu namorado, mas ela confiava que tudo acabaria bem, porque sabia que Betty o amava muito e sabia também que Armando amava muito sua filha. Ela só esperava que esse sentimento fosse forte o suficiente para aparar as arestas deste relacionamento entre pessoas tão diferentes. Disse à Betty que se mirasse no exemplo de Armando, fazendo tantos sacrifícios para adaptar-se às exigências de Hermes... Depois da conversa com a mãe, Betty sentiu-se um pouco mais tranquila e pensou que ela tem razão. Se Armando está fazendo tanto por mim, eu também posso. Não devo me acovardar agora. Com esse pensamento ela saiu de casa, sempre acompanhada de seu pai, e sentiu-se renovada ao receber um sorriso maravilhoso de Armando, que tinha a capacidade de iluminar seu dia.
Chegando à empresa, os três se despediram e seguiram cada um para sua sala. Armando foi para vice-presidência maquinando um plano para tirar Betty de sua sala nem que fosse por 30 segundos. Somente queria lhe dar um beijo e dizer que estava com ela não importasse o que acontecesse. Passou por Sandra que estava ao telefone e entrou na sua sala, fechando a porta. Mal se sentou e escutou o telefone tocar. Era Sandra:
– Seu Armando, Alejandra, da Venezuela, posso passar?
Armando sentiu um estalo na garganta quando escutou esse nome. Alejandra?! Desde que eles conversaram e Armando disse estar apaixonado por Betty que os dois não se falavam. Teve uma súbita curiosidade sobre o que poderia ser, todavia tinha medo de pegar o telefone e Betty não gostar.
Sacudiu a cabeça de leve. Que ridículo: Alejandra era uma amiga, e Betty não era Marcela:
– Claro, Sandra! Pode passar!
Betty, entrou, sentou-se e tentou se jogar no mar de papéis que tinha à sua frente. Todavia, só conseguia pensar nesse almoço, em como os pais de Armando iriam reagir, em como iriam recebê-la... Para Armando poderia parecer bobagem, mas para ela era muito importante a aprovação do casal. Seria muito dolorido estar com Armando sem a benção dos futuros sogros, seria como continuar assumindo o papel da “outra”.
Estava perdida nesses pensamentos, quando Armando entrou em sua sala, os olhos brilhando, como há muito não o via.
Seu Hermes saiu da sua sala imediatamente para ver quem havia entrado:
– Dr Mendoza.
– Seu Hermes, preciso que revise o orçamento dos materiais para a próxima coleção, por favor.
– Dê-me aqui, já assino.
Assim que Seu Hermes entrou em sua sala novamente, Armando correu e deixou um bilhete na mesa de Betty que o pegou sorrindo.
– (Encontre-me na sala do Nicolas em dez minutos. Ótimas notícias. Te amo. Armando.)
Betty acenou positivamente e Seu Hermes saiu da sua sala:
– Aqui está, Dr Mendoza, totalmente de acordo com o planejado.
Armando balançou a cabeça em afirmativo:
– Obrigado, Seu Hermes. Até o almoço, mi vida.
– Tchau, mi amor.
Armando saiu da sala e a recepção estava deserta. Contraiu o cenho, balançou a cabeça e foi para a sala do Nicolas. Este, quando o viu, ergueu as sobrancelhas:
– Que passa, Dr Mendoza?
– Nicolas, você pode sumir por uns dez minutos e me deixar a sós com Betty?
– Posso, claro, claro.
– Mas não fique andando por aí, senão Seu Hermes pode vê-lo. Por que não vai lanchar alguma coisa?
– Posso?
– Tem a minha permissão e a de Betty, pode ir.
Nicolas não se atreveu a contestar. Um lanche lhe faria muito bem. Levantou-se e saiu, tomando cuidado para que ninguém o visse.
Betty pegou uns papéis e disse que ia discutir uns relatórios com Nicolas. Saiu.
Trancou a porta quando entrou na sala. Armando esperava-a, sentado no sofá, com um olhar de abraço apertado. Suas pupilas dançavam. Betty colocou os documentos que segurava na mesa de Nicolas e se sentou ao lado dele que já se colocou por cima dela, beijando-a, deitando-a no sofá.
– Você me parece animado – Betty disse acariciando o rosto dele.
Armando beijou-a mais uma vez, embriagando-se com seu gosto e tentando esquecer aquelas paredes pelas quais estava cercado. Tentava se manter o mais tranquilo possível, mas não podia negar que estava sendo tudo muito mais complicado do que o que ele previra. Quando Betty lhe dizia que a partir do momento em que seu pai soubesse de tudo as coisas iriam ficar difíceis, ele não imaginara que fossem tanto... Como era torturante estar ao lado dela e não poder fazer o que seu coração pedia e seu corpo desejava... Por isso aproveitou aqueles minutos fabricados a fio de ouro que recebera e apertou-a bem forte contra si, querendo projetá-la fielmente para dentro dele, ou querendo projetar-se nela, para não se sentir mais tão partido em si mesmo, um vidro trincado, tão somente...
Betty percebeu a neblina que se apossara do rosto de Armando. Há alguns dias ela o vinha percebendo isso e sentiu medo. Temia que ele não aguentasse a pressão de seu pai e toda aquela situação que, para ele, devia ser ridícula. Sentiu-se culpada. Beatriz Pinzon Solano, você já é uma mulher adulta, independente. Por que aceita isso?
Quando Armando percebeu o olhar torturado de Betty como a lhe pedir desculpas, sentou-se no sofá, trazendo-a para seu colo e tentou dissipar a tensão ao dizer:
– Tenho novidades, mi amor! – seu tom alegre.
– Sim? Quais? – Betty perguntou, sorrindo, acariciando o rosto dele.
– Alejandra me ligou.
O sorriso de Betty se desvaneceu e ela saiu do colo dele. Se desenterrasse alguma palavra dos escombros que se tornara sua mente, ela a diria. Armando percebeu a noite súbita no escritório. Tratou logo de justificar:
– A franquia da Venezuela será inaugurada daqui a 15 dias. E ela nos convidou para participarmos do coquetel de inauguração.
Armando se mostrou muito entusiasmado com esse convite.
– “Nos” convidou, ou convidou “você”? — Betty disse, magoada.
– "Nos" convidou, Betty, a todos os executivos da Ecomoda. Ela enviou os convites formais por correio, mas me ligou para reforçar. Ela faz questão de que estejamos presente.
– Com certeza! – Betty disse, irônica. – Ela deve estar com muita vontade de “me” ver, não, Armando?
– Pois ela me disse que ficaria muito contente e honrada com sua presença.
– Ela ficaria muito contente é se eu não fosse e você aparecesse lá sozinho, isso, sim! — Betty proferiu essas palavras e riu, sua risada inconfundível, tentando disfarçar o pavor que tinha do porvir.
– O que é isso, Betty?
– Armando... Posso ser inexperiente, mas não sou boba, nem cega...
– Não sei o que você quer dizer com isso...
– Não mesmo?
– Veja, ela me afirmou que o convite é para todos os executivos de Ecomoda e que faz questão da sua presença. Só me pediu que avisássemos com certa antecedência quantos de nós iremos para que ela possa providenciar as reservas no hotel. Você sabe que essa franquia é uma das mais importantes que temos, não? Penso que deveríamos prestigiar a inauguração.
– Hum... Está com saudade da Alejandra, Armando? – Para onde Betty olhasse, via apenas a figura perturbadora daquela mulher por quem não conseguia sentir absolutamente nenhum ódio, o que tornava as coisas piores ainda.
– Betty! Eu falo sério.
– Eu sei, eu sei. Realmente a empresa para a qual Alejandra trabalha é uma importante parceira nossa. Mas você sabe que temos muito trabalho por aqui. Estamos desfalcados de executivos. E além disso eu não gosto dessas coisas, Armando.
– Eu sei que temos muito trabalho, mas seriam apenas três dias, Betty.
– Você pode ir se quiser. Aliás, acho que você deve ir, afinal você é o responsável pela área das franquias. Mas eu ficarei aqui.
– Mas, Betty... – ele abaixou o tom de voz para que não denunciasse a presença dos dois ali – Eu pensei que seria uma excelente oportunidade para estarmos sós... É uma viagem de trabalho, seu pai não poderia falar nada...
Betty finalmente entende o entusiasmo de Armando com aquele convite:
– Ai, Armando! Você ainda não entendeu? Meu pai jamais aprovaria que eu viajasse com você sozinha – ela disse mortificada.
Armando quase perdeu a calma diante daquele comentário. Levantou-se, andou pela sala e encostou na porta trancada. Na sua cabeça um furacão varria tudo o que estava perto e todas as coisas se confundiram àquele vento violento, sem começo nem fim. Olha para Betty e o silêncio cobriu não somente seus lábios, mas seus olhos e seu tato, na tentativa de impedir a raiva que esmurrava seu peito. E não havia nada... Ele sacodiu a cabeça tentando espantar tudo isso e, como não conseguiu, abriu a porta e saiu.
Betty olhou-o sair numa uma visão embaçada. Assim como suas vistas, a tristeza que sentiu por debaixo da pele era monocromática.
Ela nunca teve medo como agora...
Abriu a porta para ir atrás dele, mas as meninas do quartel, que pareciam ter chegado exatamente naquele momento, a impediram:
– Betty, Betty!!! Precisamos te contar uma coisa! — Aura Maria disse, agitada.
Mas as vozes das meninas estavam baixas demais perto dela mesma gritando dentro de si para si:
– Depois, meninas, depois...
– Mas é sobre a venezuelana... — Sophia confessou.
– Ah, se for isso eu já sei...
– Ai, pobre Betty, deve mesmo saber, você não me parece bem... — Sandra reparou.
– Eu estou bem, só quero ficar só — ela disse caminhando para sua sala, mas parou em frente à porta.
****
Armando bateu forte a porta, querendo arrancá-la dali. Tinha todas as veias envenenadas de raiva, e a necessidade de dizer o indizível explodiu no lugar errado, fazendo com ele passasse o braço por sobre a mesa varrendo todos os objetos para o chão. Estava sufocado asfixiado as palavras arrebatando em forma de impulso empatando em sua garganta impedindo-o de raciocinar. Começou a chutar a mesa repetidas vezes, querendo que doesse para que ele se sentisse humano novamente, mas a raiva envolvia-o cegando-o protegendo-o. Jogou-se na cadeira, sacudiu os objetos que não tinham ido para o chão, e quando se cortou com o abridor de cartas, caiu em si, desajeitado, enorme, pesado. Debruçou-se sobre a mesa. Que raio de vida era essa! Ele era Armando Mendoza, ele poderia ter a mulher que ele quisesse, na hora e do jeito que quisesse. Ele poderia levar a vida que quisesse e ir pra onde quisesse sem ter que dar a menor satisfação. Havia tanta mulher no mundo, por que ele teve que se apaixonar justo pela mais complicada?!
Passou a mão pelo cabelo, puxando-o, socou a mesa e, nesse momento tão inapropriado, entrou Betty. A raiva asfixiou o Armando num quarto de sua mente e sua voz pedindo socorro era inaudível. O sangue que manchava a mesa era negro e viscoso, mas Betty não o viu por estar com os olhos cobertos com um véu denso de lágrimas.
Armando se levantou na hora.
– Armando, nós temos... — ela murmurou.
Mal sabia ela que o Armando estava morrendo...:
– ... Que conversar?! Não, Betty, não temos, se eu escutar de novo que você não vai tomar nenhuma atitude na sua vida porque o seu pai não deixa, eu juro que não serei responsável por mim! – ele disse ofegante, num tom elevado.
– Eu só gostaria que você me entendesse...
Betty não conseguia conter as lágrimas que Armando não enxergava. Ele arregalou os olhos. Estava ligeiramente vermelho:
– Te entender??? TE ENTENDER, BETTY?!? E A MIM?! POIS ME ENTENDA AGORA VOCÊ!!! Olha pra mim, OLHA PRA MIM! Betty, eu não aguento mais! Eu tenho feito a minha parte, eu tenho sido perfeito! PRA TE AGRADAR! Eu tenho saído completamente fora do meu mundo POR VOCÊ!!! E VOCÊ NÃO PODE FAZER NADA POR MIM, NUNCA! Eu tenho vontade de arrebentar o primeiro que eu vejo sempre que você cita o nome do seu pai. VOCÊ NÃO CONSEGUE DAR UM PASSO SEM ELE!!! Olha pra você, é presidente de uma empresa, é uma mulher completamente independente. POR QUE, BETTY, POR QUÊ?! Eu estou ficando louco! Louco e totalmente sem chão, eu não sei mais o que eu faço!!! Eu faço tudo para estar contigo, não trabalho mais, não durmo mais!!! E eu não aguento mais! Você não faz nada, não se esforça, parece que nem quer estar comigo. EU PODERIA ESTAR COM QUALQUER MULHER, MAS ESCOLHI VOCÊ, E EU NÃO SEI...
Deu dois passos para o lado e tropeçou na cadeira. Pegou-a e a atira longe, assustando Betty.
Ela não entendia como ele podia estar tão cego, e aquelas palavras machucaram-na demasiadamente. Da mesma forma que ele não trabalhava e não dormia, ela também, da mesma forma que ele estava sem chão, ela igualmente...
Não conseguiu segurar um soluço que veio com a vontade de dizer uma montanha de coisas para ele, mas não adiantaria dizer nada naquele momento:
– Se você se sentir melhor me magoando, talvez essa conversa tenha servido pra alguma coisa — ela disse simplesmente e virou-se, saindo do escritório dele.
Aquelas palavras foram a flecha diretamente no calcanhar de Aquiles. Armando caiu. O telefone tocou e ele o chutou para longe. Arrastou a cadeira de volta e se sentou. Se debruçou mais uma vez.
– E agora? — disse para si mesmo, o escritório totalmente revirado.
O pequeno corte na sua mão ardia infinitamente. Ele duvida se era mesmo o corte.
Betty correu para o banheiro da recepção. Não pôde entrar pra sua sala transtornada como estava.
Seu Hermes escutou o barulho de coisas se estilhaçando, depois escutou a voz de Armando, sem saber discernir o que dizia, todavia, com a plena certeza de que estava brigando com alguém. Betty não estava em seu escritório e ele, com uma desconfiança aguda, saiu. Encontrou as meninas encolhidas olhando para a vice-presidência:
– O que foi essa barulhada? — perguntou.
– É Seu Armando, Seu Hermes — Aura Maria disse.
– E Betty? — Seu Hermes quis saber.
– Saiu da sala de Nicolas e se enfiou no banheiro — Aura Maria voltou a responder.
– Ah... E será que o doutor Mendoza está bem? Eu deveria ir falar com ele? — Seu Hermes ponderou.
– É melhor, não, Seu Hermes... — Sandra disse.
– Acredite se quiser, é normal isso na empresa, em pouco tempo o senhor se acostuma — Berta comentou.
– Berta?! — Sandra ralhou a amiga. Isso era coisa que se dizia para o sogro?
– Humpf, verdade seja dita. Ficou desse jeito depois que recebeu um telefonema da Venezuela. Alguma coisa que deu errado... — Berta não podia controlar a língua.
Seu Hermes ergueu as sobrancelhas:
– Pois eu digo uma coisa importante às senhoritas: O diabo é porco.
Voltou para sua sala.
– E ele diz lá outra coisa? — Sophia observou.
Todas riram e voltaram a trabalhar.
Betty trancou-se no banheiro e tudo o que tinha para dizer escorreu de seus olhos manchando de leve a blusa. Chegara ao limite e a única coisa que passava pela sua cabeça era a possibilidade de Armando deixá-la. Doía demais isso, e doía saber que ele tinha razão, motivo pelo qual suas palavras machucaram tanto. Fora tão difícil chegar aonde chegaram, para terminar daquele jeito tão estranho. De repente tudo pareceu muito sem sentido, e ela odiou a providência divina por não existir, naquele momento ela tinha certeza de que nada existia...
Armando continuava debruçado conversando sozinho, se mastigando a si próprio e sentindo um gosto repulsivo da sua figura. Como se não bastasse todo o histórico de idiotices que cometera em relação à Betty, agora havia mais essa linha a acrescentar. E ele odiava o modo como ela não gritava com ele, não partia pra cima dele, não lhe esbofeteava... Como se Betty fosse como todas as outras... Idiota!... Sua culpa sempre era infinitamente grande quando era com ela... Na verdade, desconhecia isso antes de conhecê-la... Imbecil!... Se ela for esperta vai te deixar agora, porque não merece as coisas que você faz... E se ela o deixasse, ainda que você o merecesse... Não tinha oxigênio suficiente no seu cérebro para continuar esse pensamento...
O telefone tocou de novo, tirando-o do transe. Procurou-o entre os objetos jogados no chão e o atendeu:
– Armando Mendoza.
– Armando, meu filho, você está bem? Sandra me disse que não estava em condições de me atender antes — era Dona Margarida.
– Sim, estou bem, mamãe, foi uma bobagem.
– Entendo... Estou te ligando pra confirmar o almoço de hoje.
Armando fechou os olhos:
– Confirmado, encontraremos vocês no Le Noir.
– Certo. Fica com Deus, meu filho.
Desligaram. Armando discou o ramal da presidência, mas um arrepio percorreu-lhe a espinha ao pensar em escutar a voz gelada de Betty, dizendo coisas que ele não queria ouvir, como escutara em sua sala há pouco. Desligou. Ligou para Sandra:
– Sandra, comunique-se com Beatriz e lhe diga que dentro de uma hora vou buscá-la para almoçarmos.
– Sim, senhor — a secretária respondeu.
Ele desligou o telefone, procurou um copo e a garrafa de uísque. Seu melhor amigo nessas situações.
****
— Betty! — Sandra chamou por ela ao vê-la saindo do banheiro.
– Sim?
– Betty, Seu Armando disse que daqui uma hora mais ou menos te busca para o almoço.
– Quê??? — Betty não podia acreditar, ainda tinha o bendito almoço... se sentiu um grão de areia na praia...
– Aconteceu alguma coisa entre vocês? — Sandra perguntou, algo constrangida.
– Por quê? — Betty tentou parecer desinteressada.
– Seu Armando quebrando tudo, você saindo da sala dele pálida... Foi a ligação da venezuelana, não foi, Betty? — Sandra não podia deixar de perguntar.
Betty piscou duas vezes, assustada com a lanterna que acendera frente aos seus olhos. Aquela briga horrível perto dessa inauguração da franquia da Venezuela:
– Não foi nada, Sandra. Avise-o que o estarei esperando — Betty disse, caminhando para sua sala.
Entrou e sentou-se, tentando colocar as ideias no lugar. A conclusão veio-lhe doída. Deixando-o ir só, simplesmente estava deixando-o ir junto da pessoa para quem mais tinha medo de perder Armando.
Esse intervalo de hora passou de forma dolorida tanto para Armando quando para Betty. Ele não pensava em outra coisa senão no que diria para pedir desculpas. Ela não merecia aquilo, não era culpa dela, por que sua raiva não sabia disso? Diante de tudo por que ela já havia passado, era perfeitamente compreensível que Seu Hermes a prendesse tanto. Mas seus sentidos eram surdos a todas as explicações... E seus sentidos eram seu guia invariavelmente... Maldito, maldito, maldito!
Betty sempre tinha que sair às pressas para o banheiro porque não conseguia conter a vontade de chorar que rasgava seu peito e ardia em seus olhos. Chorava por Armando, e por ela, e por ser quem era, e pelas coisas que aconteceram no passado, e pelo pai maluco que tinha, e... De repente não sabia por que chorava, mas a vontade era igual. Depois respirava fundo e voltava como se nada tivesse acontecido. E tinha vontade de chorar por isso também...
Chegada a hora, Armando se preparou meticulosamente para ir até sala dela. Não poderia errar em nada, não dessa vez.
Quando a porta da sala da presidência se abriu, Betty, por mais que já o esperasse, levou um susto.
– Vamos? — ele disse, distante.
Ela assentiu somente, estava gelada de medo.
Fizeram o percurso em silêncio: ela tinha medo de dizer alguma coisa e ele voltar a explodir, ele empregava toda sua força de vontade na tentativa de adivinhar o que ela estava pensando, e não sobrava espaço para pensar em nada a dizer. A verdade é que, em situações de tensão, Betty era uma verdadeira incógnita para ele, no mais intenso sentido da expressão. Lembrava-se de que Marcela partia para cima, ameaçava-o, incitava-o até que ele perdesse a paciência, mas sempre dizia tudo o que se passava na cabeça dela. Betty era um universo fora do sistema, uma exceção à regra de tudo o que conhecia... Então por que teimava em compará-la com Marcela? Respirou fundo: verdade seja dita, Marcela foi o único arremedo de relação estável que tivera na vida. Como ele ainda se atrevia a dizer que era tão experiente quando o assunto era mulher?
E Betty continuava calada.
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