Um Novo Final
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Até a hora do almoço Betty não tinha mais visto Armando. Esteve ocupada em redigir outra carta para enviar aos acionistas e executivos, depois voltou a ocupar-se com seus afazeres. Seus pensamentos, porém, toda hora se dirigiam a ele...
Armando se encontrava perdido entre as palavras que tinha que escrever para sua carta e as imagens coladas em seu pensamento, um grande mural com inúmeras fotos de Betty, de todos os jeitos possíveis; e em todas ela era linda como uma manhã de primavera... Sacodiu a cabeça, as fotos voaram e ele viu diante de si a tela do computador. Metralhou as letras no espaço em branco, imprimiu as folhas e se dirigiu ao escritório de Betty, como se a ouvisse chamando-o.
Entrou na sala animado e Betty o recebou com largo sorriso.
– Vim trazer-lhe minha carta desistindo de minha renúncia – ele disse, lhe estendendo o papel.
– Certo. E aqui tem a minha carta, doutor – Ela lhe passou sua carta.
Ele arqueou a sobrancelha, mas sorriu em seguida:
– Betty! Doutor, não!
– Desculpa! Vai ser difícil me acostumar... – Sorriu.
– Vim também convidar minha presidente para almoçar.
– Está bem, Senhor Vice-Presidente! Eu aceito, mas com uma condição.
– Qual seria?
– Que eu escolha o lugar.
– Claro, Beatriz! Como quiser!
Eles saíram juntos da presidência, conversando bem próximos um do outro, amarrados por um barbante invisível e passaram pelo quartel, que já estava reunido para almoçar.
– Betty, já vamos almoçar. Não vem conosco? — Aura Maria perguntou.
– Não, Aura Maria, eu vou almoçar com Seu Armando.
Ela disse, tímida, mas todas perceberam seus olhos brilhando como já viram antes...
– Ah! – Aura Maria encarou-os maliciosa, enquanto as outras deram risinhos contidos.
Todos estavam esperando o elevador. Quando ele chegou, Inesita segurou as meninas do quartel que já iam entrando:
– Esperem, meninas! Deixem os doutores descerem primeiro.
Betty e Armando sorriram um para o outro e entraram no elevador. Betty acenou em despedida para as meninas e as portas do elevador se fecharam.
Eles saíram no carro de Armando:
– Para onde vamos, Betty?
– Para o centro dou... Armando – rindo
– Para o centro? Mas para qual restaurante?
Ele disse um pouco ansioso voltando-se rapidamente para ela e Betty sorriu diante da sua expressão, ao mesmo tempo em que adiantava em pensaamento tudo o que ela programara para o almoço.
– Apenas dirija para o centro, quando estivermos próximos eu lhe direi onde é.
Ele suspirou:
– Está bem! Seu desejo é uma ordem, senhora presidente!
Armando dirigia incomodado. Não era por nada, mas o irritava conduzir às escuras, ainda que sua irritabilidade tivesse algo de bom, por se tratar de uma surpresa que Betty planejara. Entretanto, não podia evitar aquele sentimento, aquela insegurança arrepiando a pele.
Ao chegarem ao centro da cidade, Betty indicou a Armando o lugar onde queria ir.
– É aqui, doutor. Pode estacionar.
Armando estacionou e olhou ao redor. Ele viu alguns prédios e uma grande praça arborizada. Olhou em volta de novo, para ver se algo não lhe escapou das vistas. Contraiu o cenho:
– Mas, Betty, não estou vendo nenhum restaurante por aqui.
Ela não pôde evitar sorrir da expressão dele. Percebeu que Armando ficava desnorteado quando não estava no controle das situações.
– E não tem nenhum mesmo.
– E onde vamos almoçar?
– Acompanhe-me.
Eles desceram do carro.
– Prepare-se, doutor Mendoza, vou levá-lo para comer o melhor cachorro quente da cidade de Bogotá!
– O quê!?!?!
Armando julgou ter ligado as palavras de forma errada. Ou escutou alguém falar alguma coisa e pensou que fosse Betty. De todos os planos que ela poderia ter feito, esse certamente não estava sequer presente na sua lista de possibilidades. Olhou para ela esperando que ela dissesse algo e ele pudesse confirmar que escutara uma coisa absurda.
– Está vendo aquela barraquinha ali – Betty apontou para uma barraquinha rodeada de pessoas no meio da praça – eu e Nicolas sempre comíamos aqui quando estávamos na faculdade e quando vínhamos procurar emprego, distribuir currículos. Não há cachorro quente melhor em toda a cidade. Aliás, em todo o país. Não vê como está cheio de gente?
Armando não escutara errado. Ele olhou a barraquinha com uma sobrancelha arqueada, não parecia muito convencido. Olhou para Betty com o objetivo propôr um passeio mais romântico, todavia ela estava tão feliz que ele desistiu, nem questionou. Sorriu simplesmente. Há quanto tempo não passava por aquele lugar? Viu um passeio de sua época de menino fotografado pela sua lembrança, mas o porta-retrato estava muito amarelo e empoeirado, só conseguia distinguir vultos.
Eles se aproximaram da barraca e, depois de esperarem alguns minutos — estava mesmo cheio de gente — Betty pediu dois cachorros-quentes “especiales” e dois refrigerantes. Eles esperaram alguns minutos. Os lanches ficaram prontos, Armando pagou e eles foram sentar-se em um dos bancos da praça. Betty se divertiu com a falta de jeito de Armando tentando comer o cachorro-quente e segurar o refrigerante ao mesmo tempo. Ela não se conteve e riu diante da cena: aquele homem todo elegante de terno e gravata, acostumado aos mais requintados restaurantes, todo atrapalhado para comer um simples hot dog.
Armando sentia falta de uma mesa, de uma cadeira, de pratos e talheres e guardanapos de pano. Mas, que diabo, se era humanamente impossível alguém comer aquilo numa praça, como podia haver tanta gente?
– Nunca comeu um cachorro-quente, doutor?
– Claro que sim! – ele exclamou indignado – mas faz muito tempo. E não é doutor, Betty! É só Armando!
Betty ajudou-o a afastar o guardanapo que envolvia o lanche de maneira que ele pudesse mordê-lo. Isso sem parar de rir dele.
– Tome cuidado! Não vá deixar cair catchup.
O aviso foi tarde demais. Ele já havia sujado a camisa imaculadamente branca.
Armando olhou para a camisa, irritado:
– Só agora você me diz?
Betty, àquela altura, ria às gargalhadas. E Armando esqueceu-se da camisa quando percebeu-a rir assim tão descontraída em sua companhia e terminou rindo também.
Eles continuaram a refeição conversando sobre amenidades e rindo muito das dificuldades de Armando com o cachorro-quente. Quando eles terminam de comer, Betty percebeu que ele tinha as mãos e os lábios sujos de maionese e catchup, além da camisa, é claro. Instintivamente, sem pensar no que estava fazendo Betty estendeu a mão para limpar os lábios dele. Ela passou os dedos em sua boca e sentiu que ele ficou tenso, com a respiração acelerada. Armando ficou imóvel olhando fixamente para os lábios dela. A tensão aumentou entre os dois: o que era um simples gesto se transformou-se numa carícia. Tudo desapareceu ao redor deles... Ela continuou passando os dedos nos lábios dele, os gestos mais lentos, e depois os levou à sua própria boca, como se quisesse sentir o sabor dos lábios dele. Armando fechou os olhos para conter a vontade de beijá-la. Betty, despertando do transe, se levantou e disse:
– Venha. Há uma torneira aqui onde você pode lavar as mãos.
E caminhou em direção a um bebedouro público que ficava próximo à barraca de cachorro-quente.
Armando ficou decepcionado com o fim daquele momento. Seu rosto estava ardendo e todo seu corpo gritou pelo de Betty, bem colado ao seu.
– Lavar as mãos? Acho que vou ter que tomar um banho depois desse cachorro quente!
Realmente precisava de um banho. De água fria.
****
Ele lavou as mãos e os dois caminharam para o carro. Quando entraram, Betty disse:
– Não foi o melhor cachorro-quente que o senh..., digo, que você comeu em toda sua vida?
Armando olhou-a maliciosamente:
– Sem dúvida, Betty!
Ela enrubesceu e sorriu.
Eles retornaram à Ecomoda. Armando estava satisfeito com o passeio e até já conseguia rir da sua falta de jeito. Mas nada nunca pagaria ver Betty tão natural e espontânea como a vira. Ai, Deus, queria pegá-la pela cintura e grudar-se a ela. Até quando resistiria? Respirou fundo, voltando o filme do passeio na cabeça.
Quando chegaram, antes que ela descesse do carro, ele lhe disse:
– Obrigado, Betty!
– Por quê?
– Por me lembrar o quanto é bom comer um simples cachorro-quente sentado num banco de uma praça. Precisamos fazer isso mais vezes, é um lugar muito agradável.
– Sim. Mas da próxima não podemos esquecer-nos de levar um babador! – ela disse olhando para a mancha laranjada na camisa dele.
Ela saiu do carro rindo enquanto Armando fez cara de ofendido.
– Muito engraçado, Betty!
Mas não se contém e ri junto com ela.
– O senhor ainda tem aquele “kit de emergência” lá na Ecomoda, doutor. Está no mesmo lugar de sempre. Eu não o retirei de lá.
– Qual kit? – Ele não tinha a mínima idéia sobre o que ela falava.
– Aquela maleta com roupas limpas e outras coisinhas para o caso de alguma “eventualidade”...
Armando ficou desconcertado, pois a maleta, ou kit, era para o caso de ele precisar trocar-se quando não fosse possível passar em casa depois de uma de suas “aventuras”. Mas não sabia que Betty tinha conhecimento disso.
– Sim, vai ser útil agora – respondeu sem graça – mas, Betty, eu nem me lembrava mais dessa maleta...
Ele percebeu que ela ainda se lembrava de detalhes que remetiam a coisas que deveria ser esquecidas. Ela conseguiria se esquecer desse Armando? Suspirou decepcionado.
– Eu sei, Seu Ar... Armando! Estava apenas brincando – apesar de ela sorrir, ele percebeu uma melancolia no seu olhar como uma agulha a espetar-lhe a pele.
– Mas não quero que você pense mais nessas coisas. Esse Armando não existe mais.
Se ele dissesse isso para si repetidas vezes, talvez aquele outro desaparecesse.
– Está bem! Está bem! — ela disse tentando animá-lo, mas sabia que tinha pisado em terreno delicado.
Eles subiram e Armando foi buscar a tal da maleta para trocar de camisa, desanimado.
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