Notas iniciais
Editado em: 28/02/2013

Alguns minutos depois que Betty chegou a seu escritório, todo o quartel apareceu, entrando timidamente na presidência, querendo falar com ela. Amontoaram-se na sala, bem juntas, os olhares tremendo de curiosidade sobre o que aconteceu entre Betty e Armando, já que não tiveram oportunidade de conversar depois da noticia sobre a conversa que Betty teve com Dona Marcela. Betty sentiu-as arrancando seus pensamentos com as unhas e terminou suspirando, sabia que elas não iam descansar até que dissesse alguma coisa. Então pediu que se sentassem e elas foram se separando à medida que se acomodam para ouvir o que Betty tinha a dizer.

– Ai, Betty! Como foi? Vocês se acertaram? Conta, amiga! – Aurma Maria disse enquanto sacodia as mãos.

Betty ficou uns segundos em silêncio e os olhares do quartel palpitaram mais rapidamente.

– Sim, Aura Maria. Nós conversamos e nos acertamos. Quer dizer, estamos nos acertando.

Aura Maria se sacodiu na cadeira e olhou para as outras.

– Ai! Então agora vocês são namorados! — Sandra exclamou.

– Quem diria que a Betty ia fisgar Seu Armando! — era a vez de Berta se manifestar.

Todas concordaram e riram. Betty balançou a cabeça numa negativa.

– Bem... Estamos nos acertando. Mas ainda não somos “namorados”.

Todas agitaram o ar com seus ruídos de espanto:

– Como assim, Betty? — Mariana perguntou.

– Conte logo! — Berta mal podia esperar pelas fofocas.

– Aquele canalha tá te esnobando? Eu sabia! — ofia exclamou.

– Quietas! Deixem Betty falar! — Inesita tentava controlar as meninas.

Elas se calaram e se voltaram para Betty, os olhos quase saltando das órbitas, à espera de uma explicação. Betty achou aquilo divertido, apesar de se sentir um pouco desconfortável. Sempre soube que as meninas eram exageradas, mas ainda assim era surpresa quando tudo aquilo vinha por causa dela.

– Calma, meninas! Eu e Seu Armando decidimos começar nossa relação do zero. Se é que isso é possível... Começaremos como amigos nos conheceremos melhor e depois veremos...

Sofia contraiu as sobrancelhas:

– Se conhecerem melhor? Mas vocês já se “conhecem”! E muito bem! — Todas se olharam.

– Sofia! — Inesita repreendeu aquela atitude.

– Desculpe, Betty! – Sofia faz um gesto com a mão ao mesmo tempo em que tentava fugir dos olhares desaprovadores das demais meninas.

– Mas só amigos mesmo? Sem beijinhos nem... – Aura Maria disse, fazendo Inesita pigarreia – Que coisa mais sem graça!

– Só amigos por enquanto, Aura Maria — Betty sentenciou.

– Ai, Betty! Aura Maria tem razão. Que coisa mais sem graça! — Sandra suspirou.

– Um bombom daquele apaixonado por você e você nem pode aproveitar para dar uns beijinhos! Ah Betty! Que boba! — Aura Maria disse, mas se calou diante do olhar bravo de Inesita.

Betty sorriu. A colocação de Aura Maria lhe chegava engraçada aos ouvidos, mas ela não podia negar a veracidade daquela frase que se tornava o caminho para a recordação do lanche na praça, do momento em que ajudava Armando se limpar, de como era tênue aquele véu de amizade que os separavam... Nem ela mesma sabia se seria capaz de se manter atrás daquela cortina, mas precisava tentar.

– Betty sabe o que faz, meninas! E ela tem razão. Essa história dos dois começou errado. Agora eles têm que recomeçar do jeito certo — Inesita disse.

– Que seja! De qualquer maneira estamos muito felizes porque você vai ficar, amiga! — Aura Maria exclamou.

– Sim, Betty! — Era a vez de Sandra — E, pra ficar melhor, a oxigenada foi embora com a Dona Marcela!

– Não podia ser mais perfeito! — Mariana bateu palminhas de felicidade.

Todas riram, mas Betty mantinha a expressão séria. Sentiu uma espetada no peito quando se lembrava de Dona Marcela... No fim das contas, ela só amava demais, e Betty sabia que a lógica do coração era incompatível com o mundo real.

– Ai, meninas, — Betty terminou desabafando — me sinto tão culpada em relação à Dona Marcela. Eu não agi corretamente com ela. E não me sinto bem em saber que ela deixou a empresa assim... por minha causa.

– Quanto a isso não se culpe, Betty — Inesita consolou-a. — Eu sei que você não agiu certo com ela ao se envolver com seu noivo. Mas o relacionamento dos dois já não ia bem desde muito antes de você aparecer.

– Eu sei, Inesita! Mas se não fosse por mim e por toda a história que vocês conhecem, ela agora estaria casada com seu Armando.

– Casada, sim. Mas feliz, duvido! — Berta disse.

– Berta tem razão, minha filha — Inesita sentenciou.

– Eu sei disso — Betty respondeu. — Mas não posso deixar de me sentir culpada. É por isso que preciso de um tempo em minha relação com Armando. Preciso afastar todos esses fantasmas, essas culpas, todas as dúvidas.

– Nós entendemos, Betty — Mariana disse. — Mas se você tem alguma dúvida com relação ao que Seu Armando sente por você, pode ficar tranqüila. É que você não viu o estado em que ele ficou quando pensou que você ia embora com Michel.

– É verdade, — Berta concordou — nunca vi ninguém tão desesperado.

– Desesperado? — Sofia complementou — Ele estava enlouquecido! Quase nos matou!

– É, Betty, esse homem está louco por você! — Aura Maria disse.

Betty sorriu e não conseguiu esconder o brilho de sua face.

– Então, precisamos comemorar! – Aura Maria propôs, se levantando.

– Comemorar o que? — Sandra interrogou.

– Ai, boba! — Aura Maria voltou a dizer. — Comemorar a decisão de Betty de ficar na Ecomoda!

Todas emitiram gritinhos, expressando seus contentamentos em ter a amiga ali, para sempre.

– Vamos, Betty! — Aura maria pediu — Vamos sair por aí, a algum lugar bem agradável e comemorar.

– Hum... Não sei, meninas... — Betty não estava muito animada.

– Por que não? — Mariana perguntou.

– Mas tem que ser um lugar mais tranqüilo dessa vez, Aura Maria — Betty confessou.

– Sim. Nada daqueles antros onde você costuma nos levar... — Inesita estava satisfeita com o que Betty dissera.

– Senão meu gordinho me mata! — Berta disse.

– Está bem! — Aura Maria cedeu. — Eu conheço um lugar bem bacana e bem mais tranqüilo. Podemos ir até lá.

- Certo! — Bettty aceitou, finalmente — Mas não posso ficar até muito tarde porque amanhã preciso estar aqui bem cedo. Tenho muito trabalho.

Elas combinam de se encontrar depois do expediente para sair. Depois disso voltaram aos seus postos de trabalho e Betty se sentou na sua cadeira rodeada pelo silêncio.

O quartel saiu e entrou Nicolas, como um vulto por detrás de um vidro. Betty sabia bem o porquê.

– Nicolas, você tem que reagir! Existem mais mulheres no mundo, você sabe, não?

– Para mim, não, Betty!

– Não diga isso, Nicolas! Você vai superar isso. E vai encontrar alguém que o ame de verdade.

Nada era suficiente para colorir seu semblante outra vez.

– Não creio...! Veja, eu vim trazer-lhe os papéis que você havia me pedido.

– Obrigada, Nicolas. E ânimo, sim? Não gosto de vê-lo desse jeito.

Nicolas foi saindo e encontrou com Armando que vinha entrando, com todas as linhas da expressão desenhadas de uma cor alegre, contrastando totalmente com Nicolas. Nicolas o cumprimentou e saiu, cabisbaixo.

Armando olhou interrogativo para Betty.

– Está sofrendo porque Patrícia foi embora — ela esclareceu.

– Pobre, Nicolas!

Betty arqueou as sobrancelhas: viu todos os seus avisos para Nicolas, como placas numa rodovia onde ele insistia em se manter...

– Pobre, Nicolas?! É um trouxa! Eu o adverti mil vezes para que não se envolvesse com essa mulher.

– Mas o coração não é racional, Betty...

E ele sabia do peso daquela sentença. Misturada a ela tinha sua maldição e salvação. Encarou Betty com um olhar de passado, e Betty só pôde concordar, já que o seu coração era o mais irracional de todos, capaz de amar loucamente aquele homem apesar de tudo o que ele lhe fizera. A expressão dela começou a escurecer e Armando percebeu o rumo dos seus pensamentos. Mudou de assunto:

– Gostaria de convidá-la para jantar comigo. Também quero surpreendê-la — disse lançando-lhe um sorriso de sol que deixou Betty sem respiração.

Sua boca já se prepara para responder um “sim” convencido e convincente, quando se lembrou do convite de suas amigas feito primeiro:

– Que pena dout... Armando! Eu já me comprometi com as meninas de sairmos. Elas querem comemorar o fato de eu ter resolvido ficar na Ecomoda.

Armando olhou para ela, manhoso.

– Não, Betty! Queria tanto sair com você!

Betty sorriu. Teve vontade de colocá-lo num chaveiro e levá-lo consigo.

– Sinto muito, doutor. Desculpe! Sinto muito, Armando. Mas eu já me comprometi com elas.

Armando não era capaz de disfarçar a sua decepção. E nem o queria, de fato. Passaria o dia programando as lembranças futQueria ir a um lugar diferente, mostrar a Betty um pouco de si também como ela fizera na praça. Mas os planos foram arrebatados pelo vento, e não havia nada mais que pudesse ser feito.

– E a qual lugar irão? – ele disse, coçando a nuca.

– Ainda não sei. Aura Maria é quem sabe.

– Hum! Aura Maria... – Armando constatou, cruzando os braços, de cenho fechado – já imagino como será esse lugar!

– Eu pedi a ela que fosse um lugar bem tranqüilo, onde pudéssemos jantar e conversar.

– Ah! Claro! Um lugar “tranqüilo” como o Santuário, não é, Betty...

Betty sorriu. Por um momento a lâmina do arrependimento encostou em seu rosto. Queria muito poder se aninhar nos braços dele e dizer para que ele não se preocupasse. Contentou-se com a visualização do momento.

– Espero que não.

– Han, han! – ele murmurou, dando um passo em sua direção, ficando bem próximos os dois.

– Pode ficar tranqüilo, também não ficaremos até muito tarde, amanhã tenho que estar aqui bem cedo.

Armando pensou em dar mais outro passo em direção a ela. Se sentiu sufocado sem sentir-lhe o perfume. Nesse momento, todavia, Seu Hermes entrou na sala, fazendo com que Armando se afastasse em um salto e ainda terminasse batendo a perna no sofá. Amaldiçoou a vida em pensamento, se esforçando para não gritar palavrões na frente de Seu Hermes.

– Minha filha, eu já acabei meu serviço por hoje. Vou para casa!

Só nesse momento Seu Hermes se deu conta da presença de Armando.

– Boa tarde, doutor Mendoza!

– Boa tarde, Seu Hermes!

E, dirigindo-se novamente a Betty:

– Não vá chegar tarde, filha.

– Papai, eu vou sair com minhas amigas hoje. Elas querem comemorar porque eu decidi ficar em Bogotá.

– Sair com as amigas outra vez, Betty?!

– Sim papai, mas não me demorarei.

– Agora, porque tem um cargo de presidente, pensa que pode fazer o que quer! Não se esqueça que na casa dos Pinzon há regras, mocinha!

– Sim, Papai! Eu não me esquecerei!

– E não se esqueça também que “o diabo é porco”, Betty!

Seu Hermes saiu e Betty olhou consternada para Armando que assistiu a cena toda divertido.

– Eu nunca vou crescer para meu pai... – ela disse meio envergonhada.

– Ele só está preocupado com o maior tesouro que tem na vida, Betty! E tem razão. Afinal, você vai sair com a Aura Maria!

Betty apenas sorriu.

– Antes de ir, peça a Aura Maria o endereço do lugar aonde vão, para qualquer eventualidade.

Betty sorriu mais ainda. Naquele momento, ele estava parecendo Seu Hermes:

– Já não bastava meu pai, agora você também?

– Eu me preocupo com você! Você sabe que... Que a amo, Beatriz! – ele disse com aquela expressão manhosa e Betty quase rezou a Deus pedindo forças para permanecer no mesmo lugar.

– Está bem! Vou falar com Aura Maria. Satisfeito?

– Eu ficaria muito mais satisfeito se você fosse jantar comigo. Mas...

– Não faltará oportunidade.

Eles ficaram por alguns segundos em silêncio, apenas olhando-se nos olhos. Armando chegou a dar um passo em direção a ela, mas Betty voltou a retroceder, o que fez com que ele se lembrasse da maldita promessa de serem apenas amigos.

Armando respirou fundo como que gritando para todos aqueles sentimentos por Betty se aquietarem um pouco. Maldição! Nenhum sequer escutava.

Ele massageou a têmpora esquerda:

– Eu vou... Vou voltar para o meu escritório. Não vá embora sem despedir-se de mim, ok?

– Está bem.

– Não se esqueça de pedir o endereço a Aura Maria.

– Não me esquecerei.

Armando saiu, olhando para trás e vendo a si mesmo na sala enquanto cerrava a porta...

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Um beijo!