Notas iniciais
Editado em: 23/04/2013

As palavras de Armando espantaram o sono de Betty, sapateando em sua mente, mantendo-a alerta. Ela passara tanto tempo preocupando-se com a própria dor e só agora entendia que Armando também sofrera e que ele tinha um sentimento de culpa que o martirizava. Isso lhe pesava na garganta, um peso seco que queria secar-lhe inteira por dentro. Com muita dificuldade acalmou aquelas palavras e dormiu, todavia, foi um sono perturbado de situações cruas e cruéis.

Acordou de repente num sobressalto, recusando os ruídos espectrais que a envolviam no seu inconsciente. Piscou de maneira rápida várias vezes, certificando-se de que estava na realidade palpável, contudo, ainda permanecia aquela vibração estranha de um timbre de voz que a chamara... E continuava chamando. Mas não seu nome em tom claro, ela sussurrava cores e temperaturas diretamente em sua cabeça. Foi do frio ao calor, com cores frias e quentes em raios de segundos. E era estranho porque não era de todo ruim, ainda que não parecesse de todo bom.

Levantou-se, foi até a cozinha, pegou um copo d'água e começou a subir as escadas em direção a seu quarto. Mas a sensação estranha ainda a acompanhava. Ela parou nos primeiros degraus da escada e uma brisa fria da madrugada entrou pela janela, a pegou pela mão e a guiou em sentido contrário. Ela voltou a descer as escadas e, sem saber o que estava procurando, só se deixando guiar, afastou as cortinas e olhou pela janela. Então ela viu um carro parado em frente de sua casa e não pode acreditar em seus olhos quando reconheceram o carro de Armando. Nesse momento as vozes e as cores e as temperaturas a abandonaram, como se fossem animais a avistar o dono. Ela levou a mão à boca, pela surpresa.

— Não pode ser! — murmurou em tom de espanto. — O que ele está fazendo aqui?

Ela subiu correndo, porém silenciosamente, vestiu um roupão e desceu outra vez. Seu coração era uma corredeira de sensações que iam desde ao estarrecimento à sobreposição de alucinações doces em vê-lo ali, no mesmo mundo que ela, ao alcance de seus dedos. Saindo de casa ela foi até o carro e viu que Armando estava parecia estar dormindo. Bateu na janela e ele acordou assustado, demorando uns segundos para construir o mundo em volta de si. Quando despertou totalmente, viu Betty e desceu do carro num reflexo primitivo, preocupado por ela estar na rua àquela hora.

— Armando, o que você está fazendo aqui?

Armando segurou-a pelos braços. Os olhos estão muito abertos, mas o cenário à sua frente ainda é embaçado pelo sono, ainda que Betty estivesse sempre bem contornada, não importassem o quanto as sombras sibilassem.

Ele se viu diante dela nu de sentimentos e pretextos. Sentiu um frio incômodo que arranhou a pele por dentro.

— Betty, me desculpe... Eu só queria me sentir próximo de você — sorriu meio sem graça. — Não pretendia dormir, claro, só queria ficar aqui um pouquinho, minha mente estava com você...

Betty não pôde deixar de sorrir se jogando num abismo de flores. Mas se recompôs imediatamente, voltando a ficar séria.

— Você não sabe que é perigoso ficar aqui sozinho há essa hora e ainda dormindo? — ela o repreendeu, porém, o tom não fez jus à intenção, saindo macio de seus lábios.

Armando olhou para os próprios pés, menino pego em flagrante que foi.

— Sim, Eu sei. — Ele sorriu.

Nesse mesmo instante, caiu uma figura imaginária no escuro de sua mente e ele a olhou com olhar curioso, perscrutando-a de cima abaixo. Betty vestia um roupão branco sobre um pijama desbotado e largo e pantufas.

— Então esse é o seu “pijama super-sexy”? — ele perguntou divertido.

— É... — ela riu olhando para si mesma envergonhada.

— Eu fiquei tentando desenhar interiormente você de pijama e seu quarto. Você nunca me contou nada sobre ele...

Armando continuou segurando Betty pelos braços e percebeu que ela estava tremendo.

— Está com frio, mi amor? — ele a abraçou saboreando seus contornos de realidade com um prazer de sonho.

— Sim. As madrugadas bogotanas não são as mais agradáveis — ela respondeu com a cabeça nos ombros dele amparando a alma.

— Então é melhor você entrar. Não quero que pegue um resfriado — Armando não sabia quem dentro dele teve força para dizer isso.

Ele lhe deu um beijo terno nos lábios e se escutou dizendo:

— Vá, Betty – e a soltou, empurrando-a levemente em direção a casa — Boa noite, mi vida!

— Boa Noite... — ela respondeu baixinho com medo daquela liberdade que ele lhe dera, como se lhe apresentasse um caminho escuro demais e frio demais até um lugar longe demais para se ir só.

Começou a andar devagar, medrosamente, voltando para casa, virando-se várias vezes para olhá-lo enquanto ele permanecia em pé fora do carro. O chão fugia de seus pés e a casa deslizava para longe a cada passo que ela dava. O cenário começou a cair em flocos negros de uma neve opaca e ela teve medo, muito medo de não conseguir chegar onde deveria ser sua casa. Perdera o rumo do caminho. Ela parou, voltou correndo, quase com os olhos fechados, e se atirou nos braços de Armando. Eles se fundiram em um beijo apaixonado.

— Betty, seu pai pode nos ver – ele disse ainda abraçado a ela quando se separaram.

Depois de um momento de silêncio ele a ouviu dizer, tímida, quase num sussurro:

— Você quer mesmo conhecer meu quarto?

Essa frase de uma musicalidade sobrenatural chegou aos ouvidos de Armando derramando-se em seu corpo uma calidez doce, concentrando-se no seu sexo. Sentiu-se anestesiado e não soube o que responder.

Betty se soltou do abraço e estendeu-lhe a mão oferecendo-lhe o sol no meio da noite fria.

Armando estava estático, ainda sem saber como reagir com medo de que aquela sensação o abandonasse tão logo ele se mexasse.

— É muito arriscado, Betty! — ele disse, olhando sem ver, por causa da luminosidade, para a mão que ela mantém estendida.

— Precisaremos ser cuidadosos e não fazer barulho... — Seu sorriso era um diamante cuidadosamente lapidado.

Dividido entre a vontade de acompanhá-la e o temor de que Seu Hermes descobrisse os dois, ele ficou indeciso. Mas logo o desejo venceu a razão. Ele segurou a mão que Betty lhe ofereceu e se deixou levar por ela para o interior da casa.

Betty foi guiando-o no escuro pela casa. Armando muito tenso, com todos os pelos eriçados, seguiu-a através da sala, pela escada, fazendo um caminho psicodélico de manchas dançantes em vários tons de negro, até chegarem ao quarto. Quando eles entraram, Betty fechou a porta e trancou-a com chave. Armando respirou, aliviado, cuspindo todos os borrões escuros. Ela acendeu a luz. Ele piscou algumas vezes até poder ver claramente o quarto de Betty. Seus olhos percorreram o aposento todo, curiosos. Era um quarto humilde, sem dúvida, mas também era um quarto de menina, com bichinhos de pelúcia por todos os lados. O quarto de uma menina sonhadora e romântica. Ele sorri. Não esperava nada diferente... Olhou para a cama e pensou em quantas vezes o holograma de idéias dele esteve ali... Quantas vezes desfigurou-o em palavras em seu diário. Quantas vezes chorou por seu plano estúpido, por causa da maldita carta de Calderon... Nisso, a culpa, vestida de um cinza cintilante, como um fantasma vivo, amordaçou-o e ligou uma luz forte na sua cara.

Betty, atenta a todas as mudanças de expressão no rosto dele, percebeu o olhar triste e tentou afastar os pensamentos ruins de sua mente.

— E então, doutor? — ela quase sussurra — Era o que você esperava?

— Sim e não...

— Como assim?

— Eu esperava algo assim, com esse tipo de decoração, mas não tinha uma ideia clara de como seria...

— Não combina com uma executiva, presidente de uma empresa, não é?

— Não... Mas combina com minha Betty! — ele disse passando a mão em seu rosto suavemente.

Betty fechou os olhos. Quase teve de tocá-lo para se certificar de sua presença ali, em seu quarto, em pessoa...

Armando se aproximou e começou a beijá-la, levemente, como se tivesse medo de afugentar aquela miragem perfeita. O beijo começou terno, suave e foi se aprofundando à medida que o desejo ia tomando conta de seus corpos. Ali, o mundo se resume a eles dois. O risco, os pais de Betty, nada disso importava, somente a urgência.

Armando interrompeu o beijo para retirar os seus óculos e os dela e voltou a beijá-la em seguida. Eles começaram então a tirar suas roupas que iam caindo no chão do quarto, junto com as armas e as máscaras e as tristezas e as incongruências, enquanto eles iam se aproximando da cama. Deitaram já completamente despidos. Armando se deteve acariciando todo o corpo de Betty, com calma, saboreando as reações dela a cada carícia que ele lhe fazia. Betty também o acariciava, querendo proporcionar-lhe tanto prazer quanto ele lhe dava.

Subitamente Armando parou as carícias e olhou para ela com uma cara torturada:

— O que foi, Armando?

— Eu me esqueci, mi amor. Não tenho nenhum preservativo aqui comigo... — ele diz desapontado.

— De acordo com as contas que eu fiz hoje de manhã, não estou no meu período fértil, Armando, lembra?

— Você tem certeza, mi vida?

— Sim, acho que hoje ainda estaremos seguros.

Armando sorriu e lhe disse, com um olhar malicioso:

— Então, onde estávamos mesmo?

— Aqui... — ela disse, investindo nele um beijo e recomeçando as carícias.

Armando adorava vê-la assim, sem reservas. Isso o excitava ainda mais. Eles se amaram intensamente e entre gemidos contidos e palavras de amor, chegaram ao clímax.

Ficaram abraçados, esperando que seus corpos se acalmassem e suas almas voltassem ao tamanho normal e se acomodassem neles.

Depois de algum tempo Betty pensou que ele estivesse dormindo.

— Armando, mi amor! — ela o chamou suavemente, acariciando seu rosto.

— Sim? — ele respondeu imediatamente – Estou aqui, mi vida...

— Não podemos dormir.

— Eu sei, mi amor... — ele começou a dar beijos em seu rosto e em seu pescoço — Nem eu quero dormir estando assim com você...

Ele recomeçou as carícias pelo corpo dela acendendo o desejo entre os dois novamente. Eles voltaram a se amar, saboreando novas carícias e novas posições. Para Betty tudo era novidade e Armando sentia como se estivesse fazendo tudo pela primeira vez também, porque na realidade era mesmo a primeira vez que ele se sentia assim, como se além de seu corpo, sua alma também estivesse ligada a ela.

Com seus corpos satisfeitos eles se deitaram lado a lado, olhando-se nos olhos, acariciando-se no rosto, entrelaçando suas mãos. O universo os amarrara um ao outro, e enquanto sentiam a expansão dele cada um em seu peito, permaneceram em silêncio. As palavras era parcas e tortas e desnecessárias naquele momento..

Ficaram assim por algum tempo mais, até que Armando disse:

— Betty, preciso ir embora antes de amanhecer.

— Eu sei. Não queria que essa noite terminasse... – ela disse, entristecida.

— Nem eu, mi amor – e a beija na testa – mas haverá outras noites, muitas... — e não é possível imaginar que não haja, mesmo depois da morte de ambos e do mundo palpável.

Eles se beijaram e sentiram que o desejo voltou a queimar em seus corpos.

Armando, então, reunindo o que restava de seu autocontrole, se levantou e começou a se vestir. Sabia que não podia ficar mais, que já estavam correndo um risco muito grande.

Betty também se levantou e se vestiu para acompanhá-lo até a saída.

— Seu pijama é realmente muito sexy, Betty – ele brincou.

— Você está brincando! Esse pijama é mais seguro do que um cinto de castidade...

— Não para mim, porque eu sei o que há debaixo dele... — ele disse com olhar malicioso.

Ela riu, beijou-o e disse:

— Vamos, doutor. Tenho que tirá-lo daqui em segurança.

— Será que seu pai não vai estar aí quando abrirmos a porta?

— Vamos ver...

E abriu a porta lentamente. Para alívio dos dois não havia ninguém.

Eles saíram do quarto com cuidado e da mesma maneira que entraram, Betty conduzindo Armando no escuro. Não era disso que se tratava, desde quando a conhecera?

Chegaram à porta, Betty saiu com ele. Do lado de fora ele respirou aliviado.

— Nem acredito que fizemos isso, Betty...

— Nem eu. Mas é melhor você ir logo, antes que nossa sorte mude.

Eles se beijaram uma última vez.

— Te amo, mi Betty! Te amo tanto! — ele lhe disse segurando seu rosto entre as mãos com as emoções debatendo febrilmente nas paredes fracas do seu coração.

— Eu também te amo!

Finalmente se separaram. Betty acenou e voltou rapidamente para o interior da casa, enquanto Armando foi embora com um sorriso nos lábios, o céu diurno estampado na alma, sentindo-se como um adolescente depois de uma aventura proibida.