Um Novo Final
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Betty chegou à Ecomoda com um enorme sorriso e os olhos brilhando de felicidade. Ainda sentia os acontecimentos da noite anterior na sua pele e, ainda que teimasse em tentar esconder aquilo, seu sorriso constante e o brilho dos seus olhos denunciava-lhe alguma coisa diferente. Até as secretárias perceberam e trataram logo de cercá-la, enchendo-a de perguntas e fazendo brincadeiras. Betty simplesmente respirou fundo, abaixou a cabeça e entrou rapidamente para seu escritório... Sabia que qualquer coisa que falasse soaria falso, já que as meninas a conheciam tão bem.
Pouco depois chegou Armando, com o mesmo sorriso e a mesma expressão de felicidade. As suspeitas do quartel se confirmaram, elas emitiram risinhos umas para as outras e expressões maliciosas... Armando, entretanto, nem estranhou, simplesmente, enxergava tudo envolvido numa espécie de bruma perfumada e as coisas pareciam perfeitamente colocadas no lugar.
— Bom dia! Bom dia! — ele se dirigiu às secretárias todo simpático.
Todas responderam também sorrindo. Armando parou em frente da mesa de Aura Maria:
— Aura Maria, Betty já chegou?
— Chegou sim, doutor. Está em seu escritório — ela respondeu com sua habitual alegria.
Armando agradeceu e foi para seu escritório, como uma criança em direção ao parque de diversões. Pegou um envelope em sua maleta, arrumou a gravata e, com um sorriso maroto nos lábios, dirigiu-se ao escritório de Betty pela sala de reuniões. Sorriu ao perceber que seu coração galopava no peito... E voltou seus pensamentos para a noite anterior...
Como a porta estava aberta, ele parou por alguns segundos e ficou a admirá-la, procurando asas nas suas costas... Ela estava lendo alguns papéis e demorou um pouco para perceber sua presença. Quando o fez, levantou os olhos e sorriu para ele, pensando se algum dia deixaria de sentir seu coração disparar e de estremecer diante da visão daquele homem. A bruma se adensou diante dos olhos de Armando e ele sentiu um nó na garganta. Respirou fundo e sorriu, controlando a vontade de correr até ela e envolvê-la em seus braços.
— Bom dia, mi amor! — ela disse num tom vivaz que fez o sangue de Armando correr mais rápido pelas veias.
— Bom dia, mi amor! – ele respondeu arrastado entre um meio sorriso característico se aproximando da mesa. — É tão bom ouvi-la chamar-me assim, Betty!
Perderam-se nos olhos um do outro, entre um caleidoscópio de fogo e flores reavivado pela lembrança que ambos têm do quê de maravilhoso ocorrido ainda tão recentemente entre eles e que ainda estava absurdamente presente em ambos. Armando se apoiou na mesa para ficar mais perto de Betty, mas encostou no porta lápis e o derrubou fazendo com que os dois se despertassem e a realidade se derrubasse sobre eles.
Armando se dobrou para pegar os lápis e canetas no chão, e se levantou voltando as coisas no lugar e estendendo um envelope a Betty.
— O que é isso, Armando?
— Meu questionário, Betty.
Betty levou alguns segundos para dar-se conta do que se tratava. Sorriu, não acreditou que ele levou aquilo mesmo tão a sério. Em contrapartida, ela nem pensara no assunto. Achou a ideia interessantíssima, todavia não dispôs de tempo para pensar seriamente naquilo. Ela pegou o questionário e disse:
— Ai, Armando... Me desculpe! Eu ainda não fiz o meu.
— Não tem problema! – ele deu de ombros, apesar de ter ficado um pouco decepcionado – Você vai respondendo esse e depois me entrega o seu, certo?
— Certo!
Ela começou a abrir o envelope, mas ele a impediu, um misto de timidez e constrangimento. Tinha noção de que a ideia que teve era demasiadamente infantil, por isso não queria que ela abrisse na frente dele, ainda assim, na urgência de conhecê-la mais e, sobretudo, na urgência que ele tinha de que ela o compreendesse, queria manter a ideia daquele questionário.
— Eu só ia dar uma olhadinha... Estou curiosa!
— Não, nada de olhadinhas!
Ela assentiu, fechou o envelope e o guardou.
Armando sentou-se a sua frente. E em voz suave perguntou:
— Você dormiu bem, mi amor?
Betty sorriu tímida e enrubesceu, sua pele voltando a queimar.
— Dormi muito bem, mas muito pouco. E você?
— Não, não dormi. Não consegui... Passei o restante da madrugada terminando meu questionário.
De repente rasgou a mente de Armando a imagem dos pais de Betty encontrando com ela na porta segundos depois de ele entrar no carro... Ele então mudou o semblante e perguntou, preocupado:
— Seus pais não perceberam nada, Betty?
— Não, Armando. Nada.
— Tivemos muita sorte, mi vida. O que fizemos foi muito arriscado...
— Você se arrependeu?
Ele sorriu, com o gosto daquela aventura picante no paladar.
— Não, de forma alguma!
Ele segurou as mãos dela, que estavam cima da mesa, e lhe disse com a voz terna:
— Foi lindo! A noite mais linda da minha vida!
— Foi lindo, sim! – Betty acompanhou-o, abaixando a cabeça, tímida – Você não sabe o que significou para mim tê-lo em meu quarto! Em minha cama... No lugar em que tantas vezes sonhei com você...
Armando a olhou ternamente. Entendia o que ela queria dizer e lembrou-se que só gostava de dormir na própria cama agora porque ela estivera lá.
— Talvez o mesmo que significou para mim tê-la em meu apartamento, Beatriz.
Betty contraiu levemente as sobrancelhas, num aspecto interessado. Ficou um pouco surpresa com o que ele dissera.
— E o que significou para você ter-me em seu apartamento, Armando?
Armando pensa por um segundo, buscando as palavras, não a ideia.
— Isso mudou completamente a maneira como vejo o meu apartamento. Ele agora é um lugar especial, porque você esteve lá... E minha cama é um lugar especial porque fizemos amor nela...
Armando sentou-se mais a frente da cadeira e leva as mãos dela aos lábios, fazendo suaves carícias e distribuindo pequenos beijos.
— Te amo Beatriz... – ele sussurrou, encarando-a.
Betty fechou os olhos por um raio de segundo, sentindo todo o amor que ele passava através daquele ato. Atirava-o em todas as suas dúvidas e sublimava uma a uma. Estava feliz agora, tanto que às vezes se perguntava se merecia.
— Eu também te amo, Armando! — ela disse, sem desviar os olhos dos dele.
Ele se levantou, deu a volta na mesa e aproximou-se dela, mas no momento em que ia abraçá-la, Aura Maria entrou na sala. Betty olhou para ela naturalmente, mas aquilo é de tal impacto para Armando que quase tropeçou nos próprios pés e caiu de surpresa. Virou-se para Aura Maria com os olhos arregalados.
— Até hoje você não aprendeu a bater antes de entrar, Aura Maria?!
— Desculpe, doutor, eu não queria atrapalhar... Eu não faço mais! Prometo que sempre vou bater de agora em dian...
— Tudo bem, Aura Maria. – Betty a interrompeu, sorrindo. — Em que eu posso ajudar?
— Ai, Betty, vim avisá-la que o Dr. Cortez já chegou para a reunião.
Betty lembrou-se então de seu primeiro compromisso daquele dia.
— Ah, sim, claro! Mande-o entrar, Aura Maria.
— Está bem, Betty!
— Quem é esse Dr. Cortez? – Armando disse, os olhos semicerrados.
— Um empresário dono de uma cadeia de lojas de sapatos na Argentina. Parece que quer que a Ecomoda produza os uniformes de seus empregados.
Armando tentou puxar da memória o momento em que Betty comentara sobre isso com ele... Não havia esse momento e isso o deixou extremamente surpreso. Todavia, controlou-se.
— Sim? E como você o conheceu?
Betty percebeu um tom diferente na voz dele e ficou sem entender, embora sua intuição dissesse que tinha algo a ver com o fato de ela não ter comentado nada sobre o Dr. Cortez... Torceu para que não se repetisse o ocorrido com o Dr. Millar, ainda que tivesse achado uma graça da parte dele, lá no fundo. Tentou falar com a maior indiferença que conseguia:
— Eu não o conheço pessoalmente. Só mantivemos um contato por telefone. Vou conhecê-lo hoje... Ou melhor, vamos conhecê-lo hoje.
Nesse momento o empresário entrou na sala, acompanhado por Aura Maria que o olhava com indisfarçável admiração, o que era compreensível, pois se tratava de um homem lindo, que parecia saído das páginas de uma revista de moda. Era alto, mais que Armando, porte atlético, de cabelos negros lisos, ligeiramente compridos, porém num corte muito moderno. Tinha os olhos de um profundo verde e a pele branca. Sem contar na presença marcante e um sorriso que parecia um abraço.
Betty ficou surpresa com sua aparência e Armando percebeu isso, o que lhe veio como uma bofetada. Fechou a cara imediatamente.
— Bom dia, Dra. Pinzon! – o empresário lhe estendeu a mão. — Muito prazer em conhecê-la e muito obrigado por me receber.
Ele segurou a mão de Betty entre as suas enquanto falava e não parecia disposto a soltá-la tão cedo, para desgosto de Armando, que não gosta de seu jeito galante e nem da maneira como estava olhando para Beatriz.
— Bom dia Dr. Cortez! – Betty respondeu olhando para sua mão que ele não soltara. — É uma honra para nós recebê-lo e uma honra maior que tenha escolhido nossa empresa.
Virando-se para Armando ela o apresentou:
— Dr. Cortez, este é Armando Mendoza, vice-presidente executivo e um dos maiores acionistas da empresa.
“E meu namorado”, ele gostaria que ela tivesse acrescentado.
Dr. Cortez finalmente soltou a mão de Betty para apertar a de Armando.
— Luis Felipe Cortez, muito prazer em conhecê-lo, Dr. Mendoza.
— O prazer é nosso, como já disse a Dra. Pinzon — Armando tentou ser verdadeiro, mas a expressão que conseguiu com o esforço era ridícula.
— Tenho ótimas referências da Ecomoda. Gostei muito da última coleção que lançaram e creio que vocês seriam perfeitos para desenhar e produzir os uniformes de meus funcionários, pois o conceito é o mesmo, meus funcionários são pessoas comuns, quero dizer, não são super models... Mas nem por isso não podemos vesti-los bem e com estilo.
— Claro! — Betty concordou. — É exatamente esse o conceito da última coleção. Vestir bem as pessoas comuns, ou melhor, vestir bem qualquer pessoa.
— Considero a ideia brilhante, inovadora e de muita coragem — Dr. Cortez continuou. — Decidi entrar em contato com vocês assim que vi reportagens sobre o novo lançamento.
O empresário dirigia-se basicamente a Betty, quase ignorando Armando, para quem apenas lançava alguns olhares ocasionalmente. Armando não estava gostando nada daquilo, se mexia toda hora na cadeira, mexia nos papéis, na tentativa de desviar a atenção do Dr. Cortez. Resolveu tentar participar da conversa:
— Sim, foi uma ideia brilhante de nossa presidente e, claro, contamos com a genialidade de Hugo Lombardi, nosso estilista.
— Claro! Aliás, eu gostaria muito de conhecê-lo.
— Infelizmente Seu Hugo tirou uns dias de folga, afinal, esteve muito envolvido com o último lançamento. Merecia uns dias de descanso — Betty soltou seu riso característico.
Armando voltou a mexer-se na cadeira, incomodado com a maneira descontraída com que Betty vinha conversando com o empresário.
— Claro! Perfeitamente compreensível!
— No entanto creio que poderemos ir dando encaminhamento às negociações e quando Seu Hugo retornar passaremos para eles as coordenadas. Como por exemplo, o tipo de uniforme que o senhor tem em mente, o tipo de tecido, enfim, as características básicas.
— Sim, sem problemas. Mas, por favor, será que podemos tratar-nos pelos nossos nomes? Essa coisa de Dr. e Dra. me aborrece. Vocês podem me chamar simplesmente de Felipe — dessa vez ele incluiu Armando.
— Concordo, Felipe! Você pode me chamar de Beatriz!
Armando deixou cair a caneta que segurava. Não podia acreditar! Ela que demorara tanto para deixar de chamá-lo de "Dr." e de "Seu Armando", mal conhecera o empresário e já o chamava pelo primeiro nome!
— Então está bem! — Dr. Cortez exclamou. — Tenho algumas ideias que já coloquei no papel, gostaria de deixá-los para que vocês analisassem e poderíamos discutir minhas sugestões mais tarde. Quem sabe podemos jantar hoje? Vocês têm algum compromisso para essa noite?
— Não. A mim me parece perfeito que discutamos isso mais tarde, Felipe — e, virando-se para Armando – O que você acha?
— Tampouco tenho o que fazer. Podemos marcar um jantar — ele respondeu, contrariado.
— Perfeito! Que tal o Maison de San Diego? Gosto muito desse lugar. Sempre vou lá quando venho à Colômbia.
O coração de Betty deu um nó quando escutou esse nome. A simples menção desse lugar sufocava seu espírito. Mas como iria dizer isso a um estranho? Achou melhor concordar, afinal, ela e Armando estavam bem e felizes agora. Talvez fosse uma terapia poder voltar e superar isso os dois juntos. Além do mais, ela não poderia fugir para sempre dos fantasmas do passado.
— Para mim, está bem. E para você, Armando, o que lhe parece?
Armando simplesmente não conseguiu acreditar no que escutava. Também odiava aquele lugar e nunca mais esperou voltar lá qualquer dia de sua vida. Ainda, acima disso, jamais pensou em voltar lá com Betty, trazer à tona um dos piores dias da vida de ambos, e se encontrar com aquele Armando que aprendera a odiar com todas as suas forças. Porém jamais deixaria a sua Betty sair sozinha com aquele tipo de cartaz de cinema. Por ela, decidiu ir:
— Tanto faz. – ele mal conseguiu falar, surpreso pela reação de Betty.
— Eu os esperarei. Que lhes parece às 20 h 00?
— Perfeito! — ambos responderam de maneira desunida.
— Nos encontramos lá, então. — Dr. Cortez disse, estendendo a mão a Armando. — Até logo!
— Até logo!
— Até logo, Beatriz! — o empresário levou a mão dela aos lábios. — Obrigado mais uma vez por me receber!
— Até logo, Felipe! — E riu. — Nós é que agradecemos.
Betty acompanhou o empresário até a porta do escritório enquanto Armando estava paralisado, inconformado com a maneira como Betty se comportara, tão à vontade diante de um desconhecido.
Quando o empresário se foi, Betty volta para perto de Armando, com um sorriso radiante e com uma expressão animada.
— Precisamos ler os documentos que Felipe nos deixou, Armando. Sabe que a cadeia de lojas dele é muito grande? Eu estive pesquisando e ele tem lojas até no exterior, inclusive em Miami.
Armando não respondeu, limitando-se a olhá-la friamente. Betty se surpreendeu.
— O que foi, Armando? Não gostou do negócio? Pode ser excelente para Ecomoda. Você não acha? Não aprova?
— Claro. Um excelente negócio para Ecomoda...
O estômago de Armando estava revirado e sua cabeça latejava de leve... Certamente era por causa do perfume do Dr. Cortez que impregnava o ambiente de uma forma que o irritava ao extremo.
Ele olhou para Betty que separava alguns papéis, alegremente sentada na cabeceira da mesa da sala de reuniões. O quadro da sua vida caiu no chão e estilhaçou em milhões de pedaços tão logo ela saiu dele e ele quase que perdeu o ar pela pontada que sentiu no seu peito. Via tudo embaçado naquele momento e esfregou os olhos que pulavam incomodando-o.
Betty sentou-se distraidamente para separar o contrato de Felipe. Sorriu, ficou surpresa por ela mesma conseguir se dirigir a ele tão informalmente de maneira tão rápida, mas estava disposta a mudar e deixar de ser a coitadinha que se inferiorizava perante todos, afinal, era a presidente, de fato, da Ecomoda, e não estava no cargo temporariamente. Quis comentar com Armando o que ele achou dessa atitude dela, mas quando levantou os olhos em sua direção, viu uma sombra cobrindo-o de uma forma tão intensa que ficou com medo de que ele fosse sumir. Enquanto ele esfregava os olhos, ela levantou-se e foi em sua direção.
— O que você tem? — Por mais que ela tivesse suspeitas, não queria acreditar que Armando pudesse pensar que ela se interessaria por todos os executivos que apareciam na Ecomoda, ainda que eles fossem superficialmente belos.
Armando olhou-a com uma expressão melancólica, distante... De repente puxou-a para si e abraçou-a fortemente, e quando ela teve forças para retribuir-lhe o abraço, ele largou-a e saiu da sala sem dizer uma palavra. Depois disso, não voltou mais.
Na hora de ir embora Armando passou pela sala de Betty.
— Passarei às 19 h 30 em sua casa para pegá-la — ele disse, frio.
— Não é preciso. Eu tenho meu carro — Betty reagiu magoada a essa frieza dele.
— Já disse que vou passar para pegá-la, espere-me. — Ele se virou e saiu, sem esperar resposta.
Betty não conseguia entender essa reação de Armando. Ela ficara tão feliz por estar prestes a fechar um negócio excelente com um empresário bem conceituado no ramo, negocio este que seria muito bom para Ecomoda, e Armando reagia assim?
Ela sabia que ele sentia ciúmes, e até gostava disso, mas dessa vez ele estava muito diferente. Ainda assim ela não acreditava em como ele poderia imaginar que ela se interessaria por outro homem depois da noite maravilhosa que tiveram... Ele sabia que ela o amava. Tinha que ter certeza disso.
Ela foi para casa pensando que precisava acalmá-lo. E tinha um plano para isso. Não conseguiu deixar de sorrir para si mesma. Naquela noite iria seduzir Armando...
Caprichou na escolha da roupa optando por uma saia preta justa, que revelava seus quadris e por uma blusa branca, ligeiramente decotada que ela comprara em Cartagena, mas que nunca pensou que fosse usar. Deixou os cabelos soltos, fez uma maquiagem que realçava os lábios. Olhou-se no espelho, perguntando-se se Armando a acharia sexy, imaginando a cena perfeita que aconteceria quando ele a visse. Riu dos seus pensamentos e desceu para esperá-lo.
Seu Hermes quando a viu ficou bravo:
— Mas o que é isso, Beatriz Aurora Pinzón Solano?? Cadê a minha filha?? Não canso de falar que o diabo é porco e você me veste e me pinta assim???
Dona Julia veio da cozinha quando escutou as palavras de Seu Hermes. Se deparou com a filha ainda mais linda do que de costume e colocou as mãos no rosto, admirada.
— Que linda, minha filha! Vai sair? – Dona Julia perguntou com os olhos se era com Armando, e Betty disse que sim, sorrindo.
Don Hermes pôs a mão na cintura
— Você ainda apóia essa conduta dela, Julia??? O diabo é porco, o diabo é porco!
— Ai, Hermes, deixa a menina, está tão linda, muito mesmo, minha filha!
Dona Julia saiu para a cozinha e Don Hermes saiu resmungando atrás dela. Nisso Armando chegou para buscá-la e ela saiu correndo gritando "tchau", antes que seu pai voltasse e não a deixasse sair.
****
Armando, quando a viu saindo de casa sentiu que seu coração parou de bater e gelou todo seu peito, o sufocando por um momento. Pareceu-lhe uma visão, um sonho de tão linda, mas logo sentiu que despertava ao pensar que ela se produziu daquele jeito para “Felipe”. O ar, então, ficou pesado, e a atmosfera voltou a ficar embaçada. Ele esfregou os olhos mais uma vez, irritado com essas sensações. Porém não falou nada.
Eles fizeram o trajeto até a Maison em silêncio. Para Armando o tempo perdeu a pilha e ficou incapacitado de passar. Sentiu-se torturado em ter Betty tão linda assim do lado dele e não poder olhar, acariciar, beijar... Se nada daquilo era para ele, não haveria porque se admirar tanto... Pensava nisso sempre que ia olhar para ela, e voltava os olhos na direção, firme, porém demorava pouco para que voltasse a cair nesse círculo cruel novamente.
Betty, a princípio, ficou desapontada por ele não ter reparado nela como imaginara, porém, apesar de não entender por que, percebeu seu esforço em não olhar para ela durante o trajeto até a Maison... Sorriu. Teve vontade de agarrar o pescoço dele quase sem deixá-lo respirar, da mesma forma que fazia quando ainda era feia. Essa lembrança lhe fez sentir um gosto amargo na garganta e arrependeu-se de trazê-la à tona porque esta trouxe pela mão uma série de outras, inclusive as da Maison, que ficaram rodeando sua cabeça numa ciranda obscura e áspera.
Eles chegaram e ela não conseguiu levar a mão à porta do carro. Armando, entretanto, desceu rapidamente e abriu-lhe a porta estendendo a mão para ela. Betty lhe sorriu e agarrou sua mão fortemente. Armando passou o braço por sua cintura e entrou ao lado dela, segurando-a e, apesar de estar evidentemente bravo, a apresentou a todos os conhecidos que o cumprimentavam.
Armando percebeu o nervosismo de Betty ao chegar à Maison. Ele também estava um pouco nervoso, não negava, todavia sabia que dessa vez podia fazer diferente e podia enterrar para sempre aquele Armando que pisou ali com ela da última vez em que estiveram naquele lugar, ainda que ele soubesse que Betty merecia um homem muito melhor do que ele... Talvez do porte do Dr. Cortez... Sacudiu a cabeça na tentativa de espantar esse pensamento.
Eles avistaram Felipe que já chegara e foram até ele.
Quando o empresário os viu, levantou-se imediatamente e cumprimentou-os, elogiando muito a beleza de Betty, que ficou sem graça. As veias da têmpora de Armando latejaram e ele cerrou os dentes como que tentando fazer o sangue parar de correr.
Durante todo o jantar eles falaram exclusivamente de negócios. Armando permaneceu calado a maior parte do tempo, falando somente o necessário, ou quando alguém dirigia a palavra a ele. Por várias vezes ele flagrou o empresário olhando para Betty com cobiça e seus olhos ferveram de raiva. Fez um esforço absurdo para se conter e não gritar que ela lhe pertencia, que ninguém, a não ser ele, tinha o direito de olhá-la daquela maneira.
Betty decidiu terminar logo o jantar, apesar dos protestos do argentino. Eles combinaram de se reunirem outra vez na Ecomoda, já com a presença de Hugo Lombardi, para começarem a trabalhar nos uniformes.
Eles saíram do restaurante e Armando continuou calado, se sentia cansado de tanto esforço para manter o controle e não socar aquele maldito argentino até a morte.
Betty, ao perceber que ele tomou a direção de sua casa, colocou a mão sobre a sua e lhe disse suavemente:
— Armando, não quero ir para casa agora...
Ele a olha surpreso.
— Quero dançar... — ela terminou o raciocínio.
— Dançar?
— Sim, por favor.
Armando, mesmo bravo, não conseguiu resistir ao pedido e a levou para uma casa noturna na Zona Rosa, uma zona de entretenimento conceituada de Bogotá, composto de lugares bem diferentes daqueles que costumavam ir no início do relacionamento, em Galerias¹.
Eles sentaram-se e observaram os casais por algum tempo. Armando bebeu um uísque e continuou com a cara fechada.
Betty pegou sua mão e lhe disse:
— Vamos dançar?
Armando não entendeu o que estava acontecendo, mas, lá no fundo, os nós começaram a se desfazer na sua alma, então, ele, sem dizer palavra, colocou o copo de uísque na mesa, levantou-se e, segurando-a pela mão, a levou até a pista de dança.
Chegando lá ele a abraçou, mas manteve uma certa distância. Betty colou o corpo ao dele enlaçando-o pelo pescoço e encostando a cabeça em seu ombro. Ele não a afastou, porque perdeu as forças, porque não podia resistir a ela. Aos poucos ele começou a apertá-la contra si e a deslizar as mãos por suas costas. Ela levantou o rosto e o puxou para um beijo e ele se apossou de seus lábios como se quisesse fundir-se a ela. Betty sentiu que ele estava no limite e continuou a acariciá-lo na nuca e a mover sensualmente o corpo junto ao dele, até que Armando é vencido pelo desejo:
— Beatriz, vamos sair daqui...
— Sim, mi amor, vamos...
Eles pagaram a conta e saíram apressados em direção ao carro. Lá chegando, Armando encostou Betty no veículo e começou a beijá-la novamente, enlouquecido de desejo, acariciando seu corpo. Betty conseguiu interromper o beijo e dizer:
— Vamos para o seu apartamento.
Armando não precisou ouvir mais nada. Abriu a porta para ela, entrou no carro e se pôs a caminho de casa, antecipando os momentos de prazer que viriam. O cenário derretera em volta, e enquanto escorria, só sua Betty permanecia intacta, como tinha que ser. Nunca se viu tão perdidamente devotado a ninguém. Betty tinha o poder de subjugá-lo. Se ela soubesse o poder que tinha sobre ele...
Finalmente chegaram ao prédio de Armando. Subiram no elevador se beijando, não conseguindo separar-se um do outro.
Entraram no apartamento e Armando a puxou pela mão diretamente para o quarto, onde começou a despi-la com pressa. Suas mãos tremiam e ele tentou se controlar, mas tinha urgência em possuí-la, em confirmar que ela lhe pertencia e a ninguém mais. Livrando-se rapidamente de suas próprias roupas, deitou-a na cama e deitou-se sobre ela. Betty o impediu, colocando as mãos em seu peito:
— Mi amor, precisamos nos cuidar, lembra-se?
Ele rapidamente fez o que ela pedia, voltando a deitar-se sobre ela, que o acolheu, abraçando-o.
— Olhe para mim, Beatriz — ele pediu com voz rouca e entrecortada pela respiração irregular.
Betty obedeceu. E, olhando nos olhos dela, ele disse:
— Você é minha! Só minha!
Em seguida, Armando pediu que ela abrisse os olhos, que olhasse para ele enquanto a amava. Ela tentou, mas não conseguiu manter os olhos abertos devido à intensidade do prazer que estava sentindo.
— Diga que me ama! — ele pediu, os lábios rente aos dela.
— Eu te amo... Te amo! — ela sussurrou entre gemidos.
Eles se amaram desesperadamente, apaixonadamente, alcançando um prazer intenso, como jamais pensaram que poderia existir. E abraçados, esperaram que seus corações se acalmassem.
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