Notas iniciais
Editado em: 21/04/2013

Armando chegou à empresa, mal cumprimentou os funcionários e foi diretamente para o escritório de Betty. Tinha um liquidificador na cabeça, sacudindo e misturando todos os seus pensamentos. Já não sabia mais se queria que Betty estivesse ou não grávida, visto que lhe pareceram muito reconfortantes os pensamentos que tivera enquanto dirigia.

Entrou sem bater e deu de cara com Seu Hermes, que estava saindo do escritório da filha. Assustou-se e a cor fugiu de seu rosto, ainda que ele tentasse disfarçar.

— Bom dia, Seu Hermes! — cumprimentou-o, meio sem graça.

— Bom dia, doutor! — Seu Hermes devolveu o cumprimento com um olhar de reprovação, por sua entrada intempestiva.

Seu Hermes saiu da sala, Armando se virou para vê-lo fechando a porta.

— Bom dia, Betty! — ele finalmente disse, abraçando-a com um sorriso e um olhar apaixonado.

— Bom dia! — ela o retribuiu da mesma forma.

— Seus pais perceberam alguma coisa ontem? — ele abaixou o tom da voz e sentou-se a frente dela.

— Bem... — ela disse, ruborizada — Meu pai não, mas minha mãe, sim.

O susto segurou a respiração de Armando na garganta.

— Como assim, Betty?

Betty então lhe contou a conversa que teve com Dona Júlia na noite anterior.

— Você contou para sua mãe que nós... Que você e eu... Que a gente... — Armando estava bastante desconcertado.

— Não – Betty sorriu e corou mais uma vez. — Mas ela deve imaginar...

Armando se sentiu como se estivesse nu em público, com absolutamente todos os olhares voltados para si.

— E ela vai contar para o seu pai? — Se Dona Júlia sabe da história, Armando concluiu que o segredo dos dois estava profundamente ameaçado.

Betty estranhou o comentário. Terminou sorrindo diante da preocupação dele e acariciou seu rosto.

— Claro que não, Armando, minha mãe apóia a nossa decisão e, além do mais, ela sempre torceu para ficarmos juntos, ela gosta de você.

Armando segurou a mão de Betty em seu rosto.

— De verdade? Eu pensei que Dona Júlia também não gostasse de mim...

— Por que "também"?

— Por que seu pai não gosta, Beatriz! — ele confessou, chateado.

Betty ergueu as sobrancelhas, confundida, como se tivesse perdido alguma parte importante do discurso:

— De onde você tirou isso?

Armando encostou as costas na cadeira, ligeiramente revoltado porque ela não percebera uma coisa tão óbvia.

— É evidente! Ele sempre me olha com reprovação. Você que não viu como ele me cumprimentou quando eu cheguei aqui? Sempre me sinto como se tivesse fazendo algo errado.

Betty balançou a cabeça numa negativa.

— Ele é assim mesmo, Armando. Sempre foi — ela ficou com pena da cara de desconsolo de Armando. — Mas fique sabendo que ele o respeita e estima muito.

Armando coçou a têmpora, num aspecto reflexivo.

— Ah, que bom... Mas... isso até ele descobrir que estou apaixonado pela filha dele... — ele parecia cada vez mais desconsolado. — Aí eu quero ver o que ele vai achar de mim...

— Com certeza vai ser um choque para ele — Betty estava se divertindo com o medo que Armando tinha de seu pai. — Mas depois ele se acostumará.

— Está bem! Eu acredito! – Armando exclamou, irônico. — Mas deixemos o seu pai de lado, porque precisamos conversar sobre um outro assunto, Betty.

Ele proferiu essas palavras muito seriamente e Betty se arrepiou com o gelo do tom de voz, pensando que, certamente, ele reclamaria de alguma atitude dela.

— Que assunto? Desse jeito você me assusta, Armando!

Armando ergueu as sobrancelhas, arrependido pelo tom que usara. Não queria alarmá-la, ele mesmo não se sentia assim.

— Não, mi amor! Não precisa ficar assustada. Quer dizer, eu acho que não... — ele sabia dele, mas não poderia prever as reações dela.

Definitivamente, Armando não a estava ajudando com as palavras que escolhia.

— O que aconteceu?! – ela perguntou, já preocupada, tinha certeza que era algo sobre ela.

Armando se levantou, abrindo a porta da presidência e olhando em volta, procurando algum rastro de seu Hermes. Em seguida, voltou e sentou-se outra vez, ajeitando as costas, pensando em como iria tocar no assunto com Betty.

Ela, por sua vez já sentia o coração acelerado e o corpo pesado. As pernas estavam perdendo a sensibilidade, ainda bem que ela já estava sentada.

— Armando, diga logo de uma vez! — ela teria gritado se tivesse pulmões para isso.

— Bem, é que... esta manhã eu estive pensando... Na verdade, eu me lembrei de que eu, que nós... — ele coçava a cabeça, como era estranho falar daquilo — Nós nos esquecemos de uma coisa, Betty.

— De quê? — Betty estava intrigada, naquela altura não fazia a mínima ideia sobre o que ele estava falando.

— Bom... Nas duas últimas vezes em que fizemos amor, eu não usei nada, nós não nos lembramos de colocar, eu não me lembrei de colocar... Você sabe... Não nos precavemos.

Betty arregalou os olhos e colocou as duas mãos na boca, assustada. Isso nem lhe passara pela cabeça. Esquecera completamente. Sensações diversas espocaram na sua mente antes de ela conseguir decifrá-las.

— Meu Deus! Eu nem pensei nisso! — ela disse, preocupada.

— Você... você acha que existe a possibilidade de estar... de estar grávida? — ele perguntou com voz suave e baixa, sem saber se queria ouvir uma resposta negativa ou não.

Betty ficou pensativa e se colocou a fazer cálculos imediatamente. Depois de alguns segundos de silêncio ela levou a mão ao peito, deu um suspiro aliviado e disse:

— Creio que não. Eu não estou em meu período fértil. Graças a Deus! — ela disse mais tranquila e seu cérebro voltou ao ritmo normal de trabalho.

— Ah! — o alívio com que Betty lhe disse isso o deixou preocupado.

Armando franziu as sobrancelhas:

— Mas isso não pode voltar a se repetir! De jeito nenhum, Armando!

— O que, Beatriz? — ele perguntou, assustado, dando um pulo na cadeira.

— Esse descuido!

— Ahhh, sim... — Armando suspirou, aliviado. — Eu pensei que você estava dizendo que nós não poderíamos mais... — ele esboçou um sorriso sem graça — Deixa pra lá!

Betty ficou olhando para ele uns segundos sem entender do que ele estava falando. Quando finalmente entendeu, enrubesceu e sorriu, envergonhada.

Mas Armando ainda se remexia na cadeira. À Betty lhe pareceu que ele ainda estava incomodado com alguma coisa.

— O que foi, Armando? Você não está seguro? Eu acredito que não temos com que nos preocupar, eu sempre fui muito regular e...

— Não, Betty, não é isso – ele não queria preocupá-la mais.

— O que é, então?

— É que... A forma como você se assustou... O jeito como falou... Não sei!

Ele coçou mais uma vez a cabeça e Betty começou a se irritar com essa incapacidade de comunicação dele, sentia que ele queria reclamar dela e não sabia como dizê-lo, sendo que seria muito mais fácil se ele dissesse tudo de uma vez.

— Do que você está falando, Armando? Hoje você está dizendo as coisas pela metade! Está insatisfeito com alguma atitude minha, pode falar!

— Não, mi amor, claro que não! É que fiquei pensando: você não gostaria de ter um filho meu?

Era isso? Betty terminou sorrindo aliviada e comovida com aquele comentário. Percebeu que ele viu essa possibilidade de gravidez como uma coisa boa, e isso realmente a emocionou, pois o antigo Armando jamais se portaria da maneira como ele se portava ali.

— Claro que sim, Armando!Eu adoraria! — ela respondeu com firmeza — Mas não agora.

– Claro, claro! Não agora! — ele repetiu aliviado. Aquela resposta não só significava que ela gostaria de ter um filho com ele, como também que ela tinha planos para os dois no futuro, o que o deixou muito feliz, já que a falta dela em sua vida e a falta de luz solar para o mundo eram a mesma coisa simetricamente falando.

— Meu pai te mataria — ela deu sua risada típica — se eu estivesse grávida!

— Sim! Não quero nem pensar! — Armando acompanhou-a na risada.

Ele percebeu que ela tinha razão. Seu Hermes foi uma figura completamente excluída do seu sonho cor-de-rosa. Pensando nele, o via como uma nuvem carregada, pronta para começar uma tempestade nos seus planos sem defeitos.

— E o obrigaria a casar-se comigo! — Betty continuou, rindo.

Armando ficou sério diante desse comentário. Não conseguiu ver aquilo como uma piada. E não foi um comentário feliz.

— Você acha que ele teria que me obrigar a casar com você, Beatriz? Eu me casaria com você hoje mesmo, se você quisesse. E nem precisa estar grávida para isso...

Betty assustou-se com a gravidade do tom dele e com a seriedade com que ele reagiu à sua brincadeira, mas bebeu cada palavra avidamente, inebriada com o gosto que sentia. Aquilo era simplesmente a realização de todos os seus sonhos e ela nem acreditou que ele dissesse aquilo de verdade.

Eles ficaram se olhando, perdidos um no outro.

— Você não se casaria comigo, Beatriz? – ele perguntou suavemente.

— Você sabe que sim... – ela respondeu um pouco tímida.

Betty abaixou os olhos, incapaz de continuar sustentando aquele olhar tão intenso de Armando, diante do pensamento que rasgou sua mente, machucando-a com um corte fundo.

— Mas seria um casamento muito estranho...

— Por que, Betty? — Armando não entendia. Nada poderia ser mais perfeito do que a união dos dois.

— Porque nós dois mal nos conhecemos.

— Como assim? — Aquelas palavras soaram como estacas no seu coração, paralisando-o.

— Você sabe qual é minha cor favorita, Armando? – ela disse isso com a voz quase sumindo. — Sabe qual é minha comida favorita? Que tipo de música eu gosto de ouvir? Que tipo de filme gosto de assistir?

Armando se entristeceu com as palavras dela, se entristeceu com a sua voz pálida e se entristeceu o dobro por saber que ela tinha razão. Durante o período em que estiveram juntos, enquanto ela era sua assistente, o relacionamento deles sempre havia sido distante. Eles não tiveram tempo para se conhecer melhor. E naquele momento ele entendeu bem porque ela lhe pedira um tempo, porque ela queria ser apenas sua amiga.

— Bem, pelo menos eu sei que você gosta de suco de amora... – ele disse tentando brincar, mas não surtiu efeito.

Betty percebeu que ele tentava animá-la, mas não ajudou, dentro de si ainda havia feridas muito abertas que demorariam a se fechar.

— Sim. E isso é tudo o que você sabe sobre mim...

— Ok, Beatriz! — Ele se levantou, animado, como se tivesse tido uma ideia brilhante e tivesse arrumado uma solução rápida e eficaz para o problema. — Vamos fazer o seguinte: vamos fazer um questionário. Faremos todas as perguntas que quisermos um ao outro, assim poderemos nos conhecer melhor — Armando olhava para dentro de si, lendo em voz alta os próprios pensamentos.

Betty sorriu diante dessa solução infantil criada por ele... Tudo o que ela queria é que as coisas fossem tão simples quanto ele pensava. Porém se animou um pouco em vê-lo tão empenhado em aparar as pontas do relacionamento dos dois.

— Armando... — ela falou como se estivesse conversando com um menino. — Isso vem com a convivência. É disso que precisamos. Conviver.

— Eu sei, Betty! Mas o questionário iria adiantar um pouco as coisas... — ele disse acreditando realmente que estava fazendo uma grande contribuição.

Betty voltou a sorrir. Sabia que quando ele colocava uma coisa na cabeça não havia quem o convencesse do contrário.

— Está bem! Façamos o questionário, então.

Armando sorriu, feliz. Percebeu que uma pequena luz acendeu nos olhos dela e que ele causara aquilo.

— Ótimo! Eu vou já fazer o meu.

Levantou-se, deu a volta na mesa e foi até ela. Estendeu-lhe a mão e disse:

— Será que minha presidente poderia dar um beijo no seu vice? — e lhe mostrou o seu melhor sorriso.

Betty olhou-o, preocupada:

— Meu pai está aqui. Temos que ser cuidadosos.

Armando então segurou a mão dela e a puxou para dentro da sala de reuniões. Fechou a porta que dava acesso ao corredor e puxa Betty para um abraço, colocando-a ao lado da porta, encostada na parede:

— Pronto! Agora a senhora pode me beijar, senhora presidente. Ninguém vai entrar pelo meu escritório e se alguém entrar pelo seu, nós ouviremos a porta.

Ele então se apoderou dos lábios dela que não ofereceram nenhuma resistência e se entregaram a um beijo longo e apaixonado.