Um Natal de recomeços
1 Capítulo 1 - Ao fim de tudo
Notas iniciais
Capítulo 1 – Ao fim de tudo
Ponto de vista por Isabella Swan
Abril de 2025
Eu já estava dirigindo pela BR-116 há algum tempo, quando finalmente encontrei uma placa indicando o meu destino: a cidade de Gramado ficava na serra gaúcha e era famosa, principalmente, por seus grandes espetáculos de Natal. Eu não residia muito longe dali, visto que a capital Porto Alegre era relativamente perto. Entretanto, por conta da enchente ocorrida em maio de 2024, não perdi apenas a casa que morava com meu pai, mas também o emprego. Ser livreira no Brasil já era uma tarefa árdua em tempos normais, mas em tempos de calamidade pública? Meu bem, era praticamente impossível.
O local onde era a livraria foi inundado e os proprietários perderam todas as mercadorias, decretando falência. Como eu era uma simples proletária, não é difícil imaginar o que aconteceu comigo, certo? Isso mesmo, fui para o olho da rua. O seguro desemprego nos ajudou por um tempo, mas após seis meses, eu me encontrava fodida e mal paga. Meu pai foi contemplado com um programa habitacional do governo federal e, finalmente, pôde mudar-se para uma nova casa, também em Porto Alegre. Entretanto, eu estava cansada de depender dele, ainda mais agora sem emprego. Afinal, eu já era uma mulher de vinte e cinco anos que ainda morava com o pai e sabia que precisava começar minha própria vida, com independência. Recomeçar, no caso.
Por isso, quando vi uma notícia do Jornal do Almoço informando sobre a disponibilidade de empregos em Gramado, não pensei duas vezes: me candidatei para uma vaga no Natal Luz da cidade, um espetáculo de arte que acontece de outubro a janeiro na cidade. Eu tinha alguma experiência com música, dança e atuação da época da escola, então, achei que seria um bom momento para reativar essas habilidades. Em março, fiz a entrevista, e agora, em abril, aqui estava eu, me mudando, porque fui aceita na equipe e os ensaios começariam na próxima semana. Embora os espetáculos só começassem em outubro, os meses de preparação e ensaio eram essenciais para que tudo saísse perfeito e mágico, tanto para as crianças, quanto para os adultos.
Meu pai me emprestou um pouco de dinheiro para passar o primeiro mês, uma vez que só receberia meu primeiro salário dali a 30 dias. A quantia seria suficiente para pagar o primeiro mês de aluguel na pousada mais barata que achei, bem como me alimentar com o básico. A cidade era caríssima, pois se guiava pelo turismo não só nacional, como também internacional. Entretanto, foi onde eu consegui um emprego para recomeçar, então iria tentar, pelo menos até conseguir algo melhor.
A pousada alugada era bastante afastada do centro, e notei, com o passar dos dias, que a maioria dos hóspedes eram de pessoas trabalhadoras, praticamente na mesma situação que eu. O meu trabalho no Natal Luz ainda não havia começado, mas ir ao mercado naquela cidade foi um baque bastante grande: as mercadorias, inegavelmente, custavam quase o dobro do que em Porto Alegre.
Por conta disso, percebi que só um emprego não seria o suficiente para me manter naquele lugar, mas eu não ia desistir: tentaria oferecer meus serviços como cantora aos bares, aos restaurantes, etc. Quando adolescente, eu estava sempre levando meu violão para lá e para cá, cantando não só músicas cover, mas também autorais, na noite de Porto Alegre, principalmente na Cidade Baixa. Porém, quando o Ensino Médio terminou, eu achei que precisava focar mais na minha vida, não podia levar uma vida tão desregrada, e decidi que faria faculdade de Letras para um dia me tornar uma revisora de textos bem-sucedida.
Como muitos jovens adultos descobrem, eu também percebi da pior maneira que o conceito de “bem-sucedida” é bastante complexo, e quase nunca funciona se você for pobre e/ou não tiver contatos. Terminei a graduação em Letras com honras e muitas portas abertas para realizar um mestrado, mas meu pai era da Brigada Militar do Rio Grande do Sul e, além de ser pouco, seu salário vinha parcelado, de modo que tive que trabalhar em vez de me dedicar à carreira acadêmica. No fim, consegui apenas empregos em editoras pequenas, que pagavam muito pouco pela quantidade de textos revisados. Após minha terceira experiência como revisora nessas empresas, aceitei uma proposta de emprego em uma livraria independente do centro histórico de Porto Alegre; o trabalho como livreira me obrigava a atender ao público, mas como sempre gostei muito de ler e estudar sobre literatura, era muito boa no que fazia. Até que, depois de quatro anos no mesmo emprego, e um pouco acomodada já, confesso, embora não fosse meu emprego dos sonhos, a enchente veio, e o pouco de estabilidade que eu tinha se foi, junto com a livraria e com a casa em que eu residia.
Deixei os pensamentos tristes de lado, peguei meu violão e entrei em meu carro, dirigindo-me para o centro da cidade. O que mais havia naquela cidade eram opções de bons restaurantes e bares e eu esperava, sinceramente, que algum me desse uma chance para um trabalho autônomo nas noites. Após duas horas de muita caminhada e busca por um emprego como música, já estava pronta para retornar para minha pousada e esperar mais dois dias pelo início do meu emprego no Natal Luz. Foram muitos “nãos” em uma noite só. As lágrimas teimavam em sair, mesmo eu segurando-as como podia, pois a frustração era imensa. Meu estômago doía de fome, mas não me sentia confortável para gastar o pouco dinheiro que sobrara, após pagar o mês da pousada, com medo que faltasse para comprar comida nos demais dias.
Em meio a rua principal, encontrei uma viela, uma ruazinha estreita, bastante iluminada. Havia uma placa, no início da ruazinha, indicando que, bem no fundo daquela viela existia um restaurante com música ao vivo, chamado Renas & Sabores. O nome me fez sorrir um pouco em meio ao caos, e decidi entrar. Um último “não” para fechar a noite, por que não? Pensei, amargurada.
Eu ouvia, bastante abafado, um som vindo lá do final da viela. Parecia um homem cantando, e eu conseguia distinguir que havia um violão também. Conforme fui caminhando pela ruazinha estreita, a voz foi ficando mais clara, e eu travei como se estivesse ouvindo um fantasma. Um fantasma a muito tempo enterrado nas minhas melhores e piores memórias.
Ponto de vista por Isabella Swan
20 de dezembro de 2017
– Bella, nós precisamos ir nesse show, é uma oportunidade muito boa para nós! – Edward falava animado sobre a possibilidade de tocarmos no Opinião com nossa banda cover de rock gaúcho em um festival amador que teria na próxima semana.
Eu suspirei frustrada, sem saber o que fazer. Eu amava cantar e amava nossa banda, entretanto, sentia como se estivesse desperdiçando meu tempo, como se estivesse já muito velha para me comportar como uma adolescente boba, que achava que teria futuro como artista em um país como o Brasil.
– Edward, eu adoro a nossa banda, mas você não acha que nós estamos colocando muito foco nisso?
– O que quer dizer?
– Quer dizer que daqui a um mês é o vestibular da UFRGS e, em vez de estudarmos, nós ficamos apenas ensaiando para esses festivais amadores que não nos darão futuro algum! – Explodi.
– Então você acha que ficar ao meu lado, ter a nossa banda, é não ter futuro algum, isso? – Edward parecia decepcionado. Embora eu adorasse cantar, e fosse boa nisso, ele tinha um talento surreal. Ele nasceu para ser músico, para estar nos palcos, para ser famoso. Entretanto, nós dois sabíamos que talento não é sinônimo de sucesso, e a arte não é um futuro certo nesse país.
Eu e Edward nos conhecíamos desde o primeiro ano do Ensino Médio, e passamos pelos três anos dessa tortura juntos. Ele havia se mudado para a cidade em 2015, pois seu pai foi transferido de Santa Maria para Porto Alegre. No primeiro dia de aula do primeiro ano do Ensino Médio, eu estava aterrorizada por estar em uma escola nova, onde não conhecia ninguém, pois minha mãe tinha decidido, no ano anterior, que a vida comigo e com meu pai não era boa o suficiente, então arranjou um amante, engravidou dele, e foi morar com um tal de Caio em outra cidade. Deixou-nos apenas um bilhete, falando do quanto estava infeliz ali e o quanto Caio a fez reacreditar no amor e no recomeço.
Bem, é curioso, pois foi justamente naquele momento que eu comecei a não acreditar mais no amor. Meu pai ficou arrasado, embora não demonstrasse muito. Nós mudamos de casa, uma vez que todos os vizinhos do nosso bairro ficavam cochichando sobre ele pelas costas, inclusive fazendo piadinhas pelo fato de ele ter sido corno. No trabalho dele, as coisas não eram muito diferentes. Nos mudamos para a área mais central de Porto Alegre e, por conta disso, também fui transferida de escola, e meu pai de posto de trabalho. Ao mesmo tempo que era um alívio estar em uma escola que ninguém sabia sobre o escândalo da minha mãe, também era triste, pois a única amiga que eu tinha não seria mais minha companhia a partir de agora. Ao entrar na primeira aula, do primeiro dia, vi umas meninas bobas rindo de maneira escandalosa, e percebi que era de um menino alto, que parecia tão deslocado quanto eu.
– Eu não acredito que você fala “leitê quentê”, é tão estranho! De onde veio, da roça? – Elas caíam na gargalhada, enquanto o menino ficava cada vez mais vermelho e sem graça. Mesmo não sendo da minha conta, decidi intervir. A maioria dos adolescentes era, sim, babaca, mas precisava mesmo debochar do sotaque do menino?
– Olha só, suas patricinhas. Vocês porto-alegrenses falam com um som anasalado insuportável e a cada dez segundos cospem um “né”, então parem de debochar do menino.
Elas não gostaram do meu comentário, tanto que por três anos fui vítima de bullying daquelas nojentas. Entretanto, pararam de encher o saco de Edward e, a partir da minha “defesa”, nós viramos amigos. Sentávamos juntos em todas as aulas, fazíamos os trabalhos em dupla, estudávamos juntos e, por fim, montamos uma banda juntos. Ele tocava teclado e cantava, já eu, tocava violão e cantava. O irmão dele, Jasper, sabia tocar guitarra, então fazia parte da nossa banda também. Alice, minha amiga da outra escola, sabia tocar baixo, então também foi convocada. Começamos fazendo cover da banda Nenhum de Nós, e fomos ampliando para Bidê ou Balde, Cidadão Quem, TNT e muitas outras. Éramos bons, o que nos rendeu muitos fins de semana de diversão, comida e bebida de graça e um pouco, bem pouco, dinheiro. Meu pai nunca se opôs às minhas saídas noturnas, e eu nunca soube se seu silêncio era de aprovação pela banda ou apenas de cansaço. Após a traição de minha mãe, o velho Charlie ficara mais aéreo, mais solitário, mais melancólico. Eu nunca perguntei a ele sobre isso, pois nenhum de nós dois éramos adeptos ao diálogo, simplesmente mostrávamos nossos sentimentos em atitudes práticas do cotidiano, desde a realização de um jantar até um simples “boa noite” antes de ir para o quarto. Apesar de sermos emocionalmente distantes, meu pai sempre gostou de Edward, tanto que ele, até hoje, nutria uma esperança de que nós pudéssemos nos tornar um casal, um lindo casal feliz. Eu sorri com pesar ao relembrar da véspera de um natal longínquo, ocorrido há cinco anos atrás.
Era 20 de dezembro de 2017, e Edward surgiu animado na minha casa informando que a nossa banda havia sido convidada para abrir o festival amador do Natal Gaúcho. Podia parecer pouco, mas sim, era uma visibilidade relativamente grande para uma banda de garagem como a nossa. O festival seria no sábado, 23. Aparentemente, toda a turma já havia aceitado, faltava apenas eu. Edward ainda esperava que eu respondesse sobre a banda, e sobre achar que aquilo não era futuro algum.
– Ed, eu adoro a nossa banda! Só não acho que ela vá durar, entende? A escola terminou, ano que vem espero que já estejamos na faculdade, consigamos um emprego de verdade... No fim das contas, a banda vai morrer com a nossa adolescência.
Ele bufou, visivelmente discordando da minha opinião, mas não quis entrar em uma discussão.
– Certo, Bella. Eu só quero saber, você fará o show conosco no sábado ou não? O resto podemos resolver depois.
– Sim, é claro que eu vou fazer o show com vocês.
Eu não disse para Edward, mas aquele seria meu último show com a Deslocados. Eu sei, o nome da banda era terrível, mas era o que melhor descrevia nossa amizade e nossa situação: em algum grau, éramos os quatro deslocados naquelas escolas, naquela cidade.
– Que bom, Bella! Eu não ia conseguir cantar sem você ao meu lado. – Ele falou aquilo de uma maneira tão doce e intensa, olhando em meus olhos fixamente. Edward parecia querer me dizer mais, mas não disse. Eu também queria dizer mais, queria dizer a ele que conviver com ele, nesses três anos, tinha sido um privilégio, um paraíso em meio ao caos que a minha vida havia se transformado desde que minha mãe nos abandonou, mas não disse absolutamente nada.
Há um tempo, eu sentia que meus sentimentos por Edward não eram apenas fraternais, que não o via apenas como um irmão ou como melhor amigo. Acho, na verdade, que desde o primeiro dia, quando o defendi, eu sentia que queria estar perto dele, que o achava bonito, que o achava inteligente. Entretanto, nós nunca conversamos sobre isso. Nós nunca dissemos um “eu te amo”, embora nos amássemos, nos protegêssemos e nos ajudássemos mutuamente.
– Eu sei, nós formamos uma boa dupla, não? – Foi tudo o que eu consegui dizer, junto a um sorriso sem graça que lancei a ele. Ele sorriu torto, como só sorria para mim, de uma forma simplesmente linda e, tirando um cigarro e um isqueiro do bolso, disse:
– Vou contar aos outros que você topou e aproveitar para marcar um ensaio para amanhã, pode ser?
Eu assenti, observando-o acender o cigarro e levá-lo lentamente aos lábios. Eu nunca disse, também, mas sempre achei sexy o jeito que Edward segurava o cigarro. Ele me ofereceu o cigarro e eu o peguei das suas mãos, compartilhando nosso péssimo hábito. Era o mais próximo que nós dois chegávamos da boca um do outro, e não sei se Edward pensava sobre isso, ou da mesma forma. Não sei se ele me via como uma amiga, ou como algo a mais porque, de novo, nós nunca falávamos sobre isso, simplesmente seguíamos a vida.
Afinal, o que eu sabia sobre sentimentos? Minha mãe havia ido embora e meu pai não era muito a favor do diálogo, ele escondia bem seus afetos, mas também suas mágoas.
E eu havia puxado esse mesmo comportamento do meu velho.
Ponto de vista por Isabella Swan
23 de dezembro de 2017
– Bella, você não pode ir com essa roupa no show! Tem que ser uma mais chamativa, mais brilhante, sabe? – Eu revirei os olhos por conta do comentário de Alice. Minha melhor amiga sempre queria que eu me vestisse como ela, mas nós não éramos nem um pouco parecidas nesse sentido. Olhei para minha meia calça preta, minha saia jeans e minha blusa de manga curta, também preta, com a estampa da TNT, e achei que estava muito bem vestida para a ocasião. Nós tínhamos uma banda, mesmo que cover, de rock gaúcho, então, não fazia sentido colocar brilho ou cor. Alice destoava muito de nós no figurino, mas o pessoal gostava, era algo único dela.
– Alice, você parece que vai fazer cover de Ursinhos Carinhosos e não de rock gaúcho, pelo amor de Deus! – Ela riu, me mostrando a língua. Estávamos no meu quarto, nos arrumando, e esperando os meninos chegarem.
– Sabe, tem uma coisa que eu gostaria te contar. – Alice parecia nervosa.
– Aconteceu alguma coisa?
– Sim! Eu e Jasper estamos namorando!
– Oh, isso é bastante esperado, Alice, eu acho que até demorou para acontecer. – Comentei, sincera. Todos percebiam que os dois se gostavam, desde que eu convidei Alice, minha amiga da antiga escola para participar da nossa banda. Jasper ficou encantado por ela, e os dois eram melhores amigos, quase como... Quase como Edward e eu. Com a diferença, é claro, que eles se gostavam para além de uma amizade, de forma recíproca.
– Então, só que já faz um tempo, entende? Estamos transando desde junho de 2015.
– O quê? E você conta isso para a sua melhor amiga dois anos e meio depois?! Porra, isso é sacanagem! – Eu estava indignada, mas mais do que indignada, me sentia burra. Eu sabia que eles se gostavam, mas daí a achar que estavam se envolvendo há tanto tempo? Como conseguiram esconder de nós por dois anos e meio?!
– Bem, nós não sabíamos se era só excitação adolescente ou algo a mais, sabe? Então resolvemos esperar! Contamos para nossos pais só mês passado, lembra aquele final de semana que eu e Jasper sumimos e você e o Edward não sabiam o motivo?
– Sim... O que aconteceu?
– Contamos para o pai de Edward e Jasper que nos amávamos e que queríamos ter um futuro juntos. Ele ficou super feliz! Pedimos o apoio dele, então, financeiramente, para fazer o vestibular da Universidade Federal do Paraná. Ele para o curso de Direito e eu para o curso de Medicina Veterinária. Ele deu o dinheiro de bom grado, e a minha mãe nos ajudou com os custos da passagem de ônibus. Naquele final de semana, realizamos a prova. Ontem, recebemos o resultado: fomos aprovados!
Eu estava um pouco chocada com o tanto de informações que Alice estava despejando em cima de mim. Primeiro, não era surpresa que ela e Jasper se amavam. Agora, era muito surpreendente que eles pensaram em realizar o vestibular e, ainda, que decidiram realizar fora do estado.
– E por que vocês não tentaram na UFRGS? O vestibular é mês que vem, eu achei que todos nós, o nosso grupo....
– Bella, nós queremos conhecer outros lugares, sabe? Eu sempre quis morar em Curitiba, e Jasper topou. A gente é muito novo pra criar raiz em um lugar só! Entende? Eu sei que você tem toda uma metodologia do que quer fazer, que você acha que essa banda já é infantil demais para a nossa vida e tudo o mais..., mas às vezes você pensa muito pequeno! E não vê o que está bem à sua frente!
Suspirei ao ouvir o que Alice me dizia. No fundo, eu sabia que ela tinha razão. Eu sempre fora muito prática, nunca tive muito tempo para ser criança ou para ser adolescente. O futuro era algo que me incomodava, pois eu tinha um enorme medo de fracassar. De ser alguém medíocre. Por isso, eu me colocava pressões absurdas, metas que deveria atingir, não só para provar a mim mesma que, sim, eu conseguiria, mas também para orgulhar meu pai.
Racionalmente, eu sabia que o abandono de Renée não era minha culpa, pois a decisão foi unicamente dela. Entretanto, eu queria ser diferente dela. Eu queria ser melhor. E achava que estar em uma banda no final da adolescência não soava muito responsável.
– Olha, Alice, fico feliz por você! Sempre será minha melhor amiga. E sei que Jasper é uma boa pessoa.
Não estava mentindo. Aliás, toda a família de Edward era maravilhosa. Jasper e ele eram de uma gentileza e educação ímpar. Não me recordo, nesses três anos, de ter visto aqueles dois irmãos se exaltarem com alguém de verdade, nunca foram grosseiros. Eram sempre pacientes, cuidadosos, carinhosos... Eu via nos olhares de Jasper que ele amava minha amiga e, com isso, tinha a certeza de que teriam um futuro lindo juntos.
Eu e Alice nos abraçamos com carinho e também com tristeza. Sabíamos que com sua mudança para outro estado, nossa rotina mudaria bastante. Eu não a veria mais com frequência, não marcaríamos um ensaio da banda para desestressar... Tudo seria mais solitário. Ela e Jasper iriam embora, mas eu e Edward ficaríamos. Ou era o que eu imaginava.
(...)
– Nossa, Bella! Você está linda! – Foi tudo que Edward me disse assim que me viu na frente da casa de shows em que tocaríamos. Eu fiquei bastante vermelha com seu comentário, mas seria uma mentira dizer que não havia gostado. O jeito como ele olhava para minhas pernas e coxas envoltas pela meia calça preta acendeu um alerta em minha cabeça: talvez meu melhor amigo não soubesse, mas ele me desejava. Era algo mais profundo do que um “querer bem” de irmãos ou melhores amigos.
– Obrigada. Você também está muito charmoso, eu adoro essa camisa. – Não tive coragem de fazer um comentário mais ousado, embora eu quisesse muito dizer a ele que, sim, estava lindo, sexy, desejável e tudo o mais. Edward vestia uma camisa preta com estampa da banda Bidê ou Balde, que eu havia dado a ele no ano passado, em seu aniversário. A camiseta trazia um trecho da música mais famosa da banda: “é sempre amor mesmo que mude”.
Meu amigo sorriu torto, aquele jeito de sorrir tão dele, que ele só direcionava a mim. Nós entramos no local e fomos direcionados a uns camarins improvisados. Éramos a terceira banda a tocar, então esperaríamos por bastante tempo.
– Galera, temos várias bebidas no frigobar, podem ficar à vontade, hoje é por conta da casa. – Um dos organizadores do festival aparecer para nos informar e, tão rápido como chegou, também foi embora. Alice dava pulos de felicidade ao lado de Jasper.
– É, amigos, parece que finalmente nossos bicos de fim de semana estão dando retorno. Já ganhamos bebidas de graça, mas um frigobar inteiro? – Ela abriu a pequena geladeira, parecendo deslumbrada. Realmente, estava lotado de cerveja, vodca, energético e até algumas garrafas de água com gás.
Eu ri de Alice e fui para seu lado, aproveitando para pegar um energético e uma vodca. No clássico copo de plástico descartável, misturei um pouco dos dois líquidos e bebi. Meus amigos me encaravam bastante surpresos, pois embora eu bebesse socialmente, eu nunca começava tão cedo. Eu nunca começava a beber antes do show, ainda mais vodca.
– O que vocês estão olhando? – Questionei, mesmo já sabendo a resposta.
– Bem, é que você é a mais certinha do grupo. – Mencionou Jasper.
– Pois é, Bella. Beber assim não vai interferir em seu cronograma do futuro, ou algo do tipo? – Edward debochou. Eu sabia que ele estava magoado por eu ter dito que a banda morreria junto com a nossa adolescência.
– Eu decidi que, por hoje, vou tentar não me preocupar com o futuro ou com os bons modos.
Eles não sabiam, mas eu sim. Sabia que aquele seria meu último show com todos eles. Talvez Alice e Jasper também desconfiavam, visto que pretendiam se mudar em breve. Afinal, as aulas deles começariam em marco, e já estávamos praticamente em janeiro. Em menos de dois meses, tudo mudaria. E mesmo que eu já soubesse disso, me doeu perceber de uma forma tão concreta.
Mais uma vez, peguei as duas bebidas e misturei-as em meu copo. Eu sempre fora fraca para bebida, e a segunda dose já tinha me deixado alegre demais.
– Bem, Alice Hale e Jasper Cullen! Vocês não têm algo a revelar para nosso amigo Edward? Ele é o único que não sabe.
– O que eu não sei?
– Eles estão namorando! Há malditos dois anos, Edward. Nos enganaram! – Eu ri, mesmo não sendo engraçado. Era o efeito da bebida. Jasper ficou vermelho, visivelmente sem graça. Ah, então Edward realmente não sabia. Como ele conseguiu esconder do próprio irmão?
– Como assim? Como você soube? E por que eu sou o último a saber? Porra, Jasper! Eu moro na mesma casa que você, lembra?
Ele parecia muito mais transtornado do que eu quando descobri. De certa forma, era confortável saber que eu não fui a última a saber da novidade. Edward era ainda mais tapado do que eu. Sorri e puxei-o pela mão, convidando-o a sentar-se no sofá ao meu lado. Sua expressão de indignação mudou ao olhar para sua mão e ver que era eu quem o puxava. Ele sorriu e aproximou-se mais, o que fez com que eu recostasse minha cabeça em seu ombro, como muitas vezes fiz ao longo desses três anos de convivência.
– Irmão, deixe de hipocrisia, cara. Não sou o único a ter segredos, certo?
Os dois se olharam de maneira séria, como se fossem cúmplices em algo. Aquilo me incomodou. Eu e Edward éramos amigos e achei que ele não escondia nada de mim. Será que havia me enganado?
– Falem logo, eu também quero participar da fofoca. – Murmurei. Alice sorriu.
– Ah, amiga. Você sempre fez parte da fofoca. No fundo, sabe o que está implícito aqui. – Aquela baixinha fez um gesto no ar com seus braços, dando a entender que nós quatro guardávamos um segredo, até de nós mesmos. Mesmo assim, não era como se não soubéssemos – só não queríamos admitir. Ao menos eu... E Edward. Talvez, só talvez, o “elefante na sala” fosse nossa amizade mal resolvida. No fundo, eu sabia que a atenção de Edward sobre mim era muito maior do que uma amiga recebe. Entretanto, nenhum dos dois comenta sobre, pois não somos bons nisso. E se não há conversa, o sentimento não existe. Ou talvez existisse, mas fingíamos que não. Éramos práticos.
(...)
– Amigos, me orgulho muito em dizer que somos fodas! – Após o show, fomos andando para nossas casas. A casa de Edward e de Jasper era mais próxima, a minha ficava umas três quadras para frente. Alice não morava na região central, mas agora que estava de namoro com Jasper, dormiria na casa dos rapazes.
O show havia sido muito bom, era sempre ótimo tocar com os quatro, embora eu constantemente ficasse aérea à plateia, pois me perdia vendo Edward tocando teclado e cantando. Sua voz era rouca, firme e... sexy como o inferno. Eu sentiria falta daquilo, daquela sensação. Mas ninguém ficava adolescente a vida toda.
– Nós temos um fã clube. – Alice continuou, olhando maravilhada para seu telefone. É uma maldita página no Facebook intitulada “Descofãs”.
– Meu Deus, isso não pode ser real. Que nome horrível. – Resmunguei. Mas também, o nome da banda não ajudava.
– Quantos seguidores essa página tem? – Edward perguntou, parecendo interessado.
– Até o momento, 113 seguidores. Foi criada ontem, então... Talvez esse número cresça.
Bem, para uma banda que nasceu em uma garagem, já era mais do que esperado.
Não havia bebido muito, mas o pouco já foi suficiente para me deixar alegre demais e também tonta demais. Eu mais tropeçava do que andava pelo caminho. Em um momento do trajeto, Edward entrelaçou sua mão na minha, dizendo que não queria que eu caísse no chão a qualquer momento. Talvez fosse uma desculpa, mas não me importei muito. A sensação de ter sua mão colada à minha era bastante agradável, quase como se um calor irradiasse daquele toque para todo o meu corpo. Eu queria que ele me tocasse mais.... Embora não soubesse como abordar isso.
– Tchau, Ali. Tchau, Jazz. Vejo vocês por aí... – Me despedi sem saber quando nos veríamos. A escola havia acabado e minha melhor amiga ia se mudar com seu namorado para o Paraná. – Tchau, Edward. – O abracei, tirando sua mão da minha. Ele me interrompeu.
– Tchau nada, vou levá-la em casa.
– São apenas duas quadras.
– Sabe que não a deixaria caminhando sozinha por aí, Bella.
Eu assenti, não havendo outra opção. Eu sabia que não adiantava discutir com ele, meu melhor amigo sempre dava um jeito de me proteger, desde que nos conhecemos.
Assim que chegamos no portão de minha casa, notei que meu pai não estava sozinho lá dentro. Por conta do calor, as janelas da sala estavam abertas, fazendo com que eu pudesse ver Charlie quase que completamente em cima de uma mulher em nosso sofá. Eles estavam se beijando de uma forma urgente. Eu sorri, mesmo constrangida. Esperava que desse certo, pois desde que minha mãe nos deixara, Charlie não havia tido muitos encontros.
– Quer voltar para minha casa? Você pode dormir lá, sabe que é bem-vinda.
– Sou bem-vinda quando seu pai faz um churrasco ou dá uma festa, dormir assim... É bem diferente, o que ele vai pensar?
– Nada que ele já não pense. Aliás, nada além do que todo mundo já pensa.
– Não estou entendendo. – Eu estava confusa, mas deixei que ele me levasse de volta para a rua, rumo à sua casa.
– Deixa para lá. – Edward deu de ombros, não parecendo muito à vontade para explicar-se. Também decidi ficar em silêncio.
Tão logo chegamos à residência de meu melhor amigo, ele subiu as escadas comigo, me levando para seu quarto. Eu não relutei. A casa estava no mais absoluto silêncio e todos pareciam dormir. Com certeza eu não insistiria para ficar no sofá, onde todos me veriam no dia seguinte. Mandei uma mensagem a meu pai, avisando que ficaria com Alice essa noite. Não que ele parecesse muito preocupado, na verdade.
– Se quiser tomar banho, pode usar essa toalha. – Eu estava sentada na beira da cama de Edward, ele me estendia uma toalha limpa.
– Eu adoraria, mas não tenho uma roupa limpa aqui.
– Embora você esteja muito gostosa com essa meia calça, eu posso te emprestar uma camiseta minha, aí você faz de camisola.
Ele havia falado com naturalidade, mas eu não conseguia fingir costume. Edward sempre me elogiava, dizia que eu estava linda, bonita... Mas nunca havia ido, tão explicitamente, para esse lado. Gostosa era um adjetivo novo vindo dele. E eu gostei de como soou. O silêncio entre nós tornou-se denso. Lá estava o “elefante branco” novamente. Eu gostava dele, o desejava. Ele parecia sentir o mesmo. Pela primeira vez, Edward estava falando abertamente sobre. O que eu deveria fazer?
– De onde surgiu tudo isso? – Tomei coragem para perguntar. – Quer dizer, você sempre foi um perfeito cavalheiro, me elogiando e tudo o mais, mas não com essa intencionalidade.
– Isso sempre esteve aqui, comigo. Entretanto, nunca tive coragem de externar.
– Eu entendo.
– Entende?
– É claro. Há pelo menos uns dois anos e meio lido com meu conflito interno de desejar o meu melhor amigo. Eu...
Estava ali, então. As palavras saíram, de ambos os lados. Talvez meio desajeitadas, talvez imaturas demais, cruas demais, afinal, éramos adolescentes idiotas.
Edward não me deixou terminar, e eu também não saberia como continuar aquela frase. Ele simplesmente sentou-se ao meu lado na cama, tirou de minhas mãos a toalha que havia me oferecido minutos atrás e aproximou-se de mim. Nossos rostos estavam muito próximos e seus olhos me fitavam com uma intensidade surpreendente. Seu sorriso torto, aquele que era sempre direcionado a mim, também estava lá. Para a surpresa de ambos, fui eu quem deu o primeiro passo: colei meus lábios aos dele de forma urgente. Minhas mãos, que antes estavam impacientes em meu próprio colo entrelaçaram o pescoço de Edward, acariciando seus cabelos, sua nuca, seu pescoço.
Meu melhor amigo pareceu surpreso com a minha atitude, mas retribuiu os beijos, correspondendo com a mesma necessidade e urgência que a minha. Quando me dei por conta, Edward estava em cima de mim e me olhava não apenas com afeto, mas também com desejo. Ele me encarava, enquanto uma de suas mãos segurava a barra de minha blusa, como se pedisse permissão para continuar. Eu sorri e, em seguida, tirei eu mesma minha blusa. Posteriormente, retirei a camisa dele para poder ver teu peitoral à minha frente. Já havia imaginado aquele momento algumas vezes, mesmo não admitindo para ninguém, nem para mim mesma. Aquelas ações foram suficientes para que Edward continuasse.
Pelo menos naquela noite, não iria me preocupar com o futuro e com a consequência de minhas ações. Pelo menos naquela noite, seria uma perfeita adolescente: impulsiva, inconsequente e perdidamente feliz.
(...)
Ponto de vista por Isabella Swan
Abril de 2025
Foi difícil me concentrar e voltar ao presente. Todas aquelas lembranças de minha adolescência passaram por minha mente como se fossem um flash. E por que elas haviam retornado tão repentinamente? Ah, sim. Por causa dele. Do fantasma que agora eu via à minha frente: Edward Cullen. Não sei como, mas ele estava aqui, na mesma cidadezinha, naquela mesma viela, que parecia não levar a lugar algum. Ele tocava violão e também cantava, só ele, ali, com seu instrumento e sua voz. A música que cantava era conhecida por mim, pois por muitas vezes nós tocamos aquela mesma melodia com a banda.
Minhas lágrimas não caem mais,
Eu já me transformei em pó
E os meus gritos não se escutam mais
Estão na direção do Sol
Meu futuro não me assusta ou faz
Correr para desprender o nó
Que me amarra a garganta e traz
O vazio de viver só...
Se alguém encontrou um sentido para a vida, chorou
Por aumentar a perda que se tem ao fim de tudo transformando o silencio que até então é mudo
Naquela canção, que parece encontrar a razão
Mas que ao final se cala frente ao tempo que não para a nossa lucidez.
Sua voz estava muito mais bonita do que era antes. Ele cantava a música “Ao fim de tudo”, da banda Cidadão Quem, com melancolia. Eu entendia o sentimento, porque agora que era adulta, entendia o peso de viver só, mesclado ao eterno vazio das nossas escolhas, do medo de pensar o que poderia ter sido se tivéssemos escolhido caminhos diferentes. Além disso, aquela ânsia da adolescência sobre o futuro, agora, parecia estupidamente ridícula. Se eu pudesse voltar no tempo, teria feito tanta coisa diferente.... Talvez até tivesse aceitado a proposta de Edward para tocarmos naquela maldita festa no litoral norte gaúcho, bem no fim de semana do vestibular.
Era janeiro de 2018. Desde o final de dezembro de 2017, Edward e eu tínhamos ficado mais próximos, por assim dizer. Não conseguíamos fingir costume após aquela noite em que ficamos juntos, ainda mais por ter sido a primeira vez dos dois. Embora tudo tivesse sido especial, não falávamos muito sobre nossos sentimentos. Quando a coisa parecia querer complicar, nós nos beijávamos, transávamos, e tudo ficava novamente bem. Ou era no que queríamos acreditar. Seguimos estudando para o vestibular: eu tentaria Letras, e Edward tentaria Música.
Até que em uma quinta-feira, Edward apareceu em minha casa, eufórico. Ele comentara que aconteceria uma festa privada grande em Xangri-Lá e, de algum jeito, a dona da festa, pouco mais velha que nós, queria que tocássemos lá. Ela pagaria e tudo o mais, uma ótima quantia. Ao contrário dele, eu não estava eufórica, pois no sábado começaria o vestibular da UFRGS, e eram quatro dias de provas muito extensas e intensas. Não existia nenhuma possibilidade de estarmos em uma festa no sábado, tocando, uma vez que no domingo teríamos que estar novamente em Porto Alegre para o segundo dia de provas.
Quando neguei, expondo meus motivos, lembro de Edward ter dito algo como “foda-se esse vestibular e essa universidade de merda, Isabella, isso não vai mudar nada na nossa vida”. Ali foi o estopim para que brigássemos e para que nunca mais voltássemos a conversar, a conviver. Eu dissera algumas coisas bem pesadas ao melhor amigo, lembro de ter o acusado de ser um vagabundo imaturo, que não pensava no futuro e apenas em sua banda, como se a vida fosse um morango. Eu perdi um pouco o ar quando resgatei, lá do fundo da minha memória, algo que eu não queria nunca mais lembrar: “não quero ficar com alguém que é um fracasso, Edward”. Foram minhas últimas palavras, há sete anos atrás.
Soube alguns meses depois daquela nossa última conversa, que Edward havia se mudado para São Paulo, onde ia tentar seguir a vida como músico. Eu passei no vestibular, formei-me em Letras e, bem, estava aqui: desempregada e perdida em Gramado. Do que adiantaram todas aquelas palavras? Nada. Foram apenas mágoas de dois adolescentes inexperientes. É claro, eu fora bem pior. Nunca havia conseguido me desculpar, mesmo tendo me arrependido de proferir aquelas palavras ferinas no exato momento que deixaram minha boca.
Será que era tarde demais para um pedido de desculpas? Eu esperava que não.
As pessoas que estavam naquele pequeno restaurante escondido começaram a me olhar estranho; só então notei que havia simplesmente paralisado bem próxima à porta, encarando o músico de uma maneira bizarra. Felizmente, Edward não parecia ter percebido a minha presença, ou não me reconhecera. O Renas & Sabores era bastante aconchegante, sendo que uma parte das mesas ficava em uma parte coberta e a outra ficava ao ar livre, onde havia muitas luzinhas clareando o ambiente. Edward tocava na parte de fora. Resolvi me sentar em uma mesa mais afastada, mas ainda ali e, com muita dor no coração, chamei o garçom para pedir uma bebida. Depois que conseguisse conversar com meu antigo melhor amigo, pediria um xis. Eu tentei economizar, mas teria que gastar uma parte do dinheiro de Charlie para me alimentar, pois sentia meu estômago reclamando.
Algo chamou minha atenção: algumas mulheres, já na casa dos cinquenta anos, foram mais perto do “palco” em que Edward estava e começaram a bater muitas palmas, além de gritar coisas como “lindo”, “arrasou”, etc., a cada música que ele cantava. Não consegui me conter e revirei os olhos, bufando. Ele sempre causava esse tipo de efeito nas mulheres.
– Bem, vejo que as senhoritas estão bem animadas. – Ele falou ao microfone, sorrindo. – Querem pedir alguma música em especial?
Elas simplesmente enlouqueceram com aquela interação. Pelo menos umas cinco mulheres começaram a gritar e a falar junto, não sendo possível entender nada.
– Meninas, uma de cada vez, por favor.
– Toca “Vento Negro”, do Kleiton e Kledir. – O pedido de uma das senhoras me fez rir. Aquela era música gaúcha, sem dúvidas, mas pendia mais para o tradicionalismo do que para o rock. Eu estava interessada em como Edward se livraria dessa, pois quando éramos adolescentes, ele se recusava a cantar as músicas mais bairristas de nosso estado.
– É claro. – Ele piscou para a senhora e, surpreendentemente, começou a cantar. Uau, ele sempre fora talentoso, mas agora estava mais maduro. Dava para ver que Edward sabia mais o que estava fazendo, e também mais eclético.
Quando a música acabou, uma chuva de aplausos soou no recinto. Não apenas das senhoras mais eufóricas, mas de todos que estavam no local. Era isso, os gaúchos não conseguiam fingir normalidade quando alguém cantava suas músicas mais icônicas. O público, que era majoritariamente mais velho por ali, continuou a pedir por músicas naquele estilo. Embasbaca, ouvi Edward cantar “Deixando o Pago”, de Vitor Ramil, e até mesmo “Do fundo da Grota”, do Baitaca.
Finalmente, o show pareceu acabar. Eu respirei fundo umas mil vezes, tentando criar coragem para chamá-lo, dizer oi, pedir perdão, perguntar como estava..., mas meu cérebro e meu coração não queriam entrar em um consenso. A parte racional me dizia para ir embora, sair correndo, afinal, já haviam se passado anos, éramos completos desconhecidos; já meu coração me dizia para ficar, implorar por seu perdão, se preciso, para tentar, em vão, recuperar uma suposta amizade antiga.
– Oi, Edward. – Ele estava de costas para mim, pois se dirigia para a saída. Em uma mão carregava o estojo de seu violão. Toquei em seu braço, chamando sua atenção para mim. Ele virou.
Deus, permita que ele se lembre de mim. Que ele me olhe não com raiva, mas com afeto. Como antigamente. Como nos velhos tempos.
– Isabella? – Sua voz parecia falhar, como se não acreditasse que era eu mesma ali, na sua frente. Por um lado, fiquei aliviada por ele lembrar de mim; por outro, fiquei temerosa ao ver que meu antigo melhor amigo não sorriu. Ele não me lançou nenhum de seus sorrisos tortos, que costumavam ser unicamente direcionados a mim. Eu percebia a mágoa em seu semblante, mesmo após todos esses anos. Bem, eu não poderia culpa-lo por isso. – O que está fazendo aqui?
– Eu iria te perguntar a mesma coisa, acredita? – Sorri, tentando não demonstrar meu nervosismo. – Estou sentada naquela mesa ali. – Apontei. – Quer me fazer companhia?
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