Um Natal de recomeços
2 Capítulo 2 - Mesmo que mude
Notas iniciais
Capítulo 2 – Mesmo que mude
– Não acho que seria apropriado, você sabe. Não passo de um fracassado para você. – Suas palavras foram duras e me pegaram desprevenida, pois não esperava isso vindo dele.
– Edward, eu era uma adolescente ingênua que achava que o esforço chamava o sucesso. Se serve de alguma coisa, eu me arrependi daquelas merdas todas que disse no mesmo instante que saíram de minha boca. Por muito tempo eu quis pedir perdão a você, mas você foi embora, e eu... Bem, eu nunca tive coragem de lhe procurar ou mesmo perguntar de você para ninguém.
Até dois anos atrás, o pai de Edward e Jasper ainda morava próximo a nós, mas eu nunca perguntei a ele nada. Também não tive contato com Alice, minha antiga melhor amiga, então... Eu sei que fora covarde e imatura, mas ele também não procurou por mim. Não esperei que ele respondesse, simplesmente segui para a minha mesa. Tomei um gole de minha cerveja, que já estava quente. Fiz uma careta.
– Desde quando você bebe cerveja? Odiava até o cheiro. – Notei que Edward me seguiu, e seu comentário me fez sorrir.
– Algumas coisas mudam.
– Outras permanecem iguais. – Não pedi explicação sobre seu comentário porque, no fundo, eu entendia o que ele queria dizer.
Olhei para seu rosto: o cabelo parecia mais comprido, mas os fios acobreados ainda estavam bagunçados; sua barba, inexistente antes, delineava bem sua face, trazendo um ar mais sério a ele; seus olhos pareciam cansados, desanimados. Eu via sinais do tempo que passara nele, mas meu antigo melhor amigo permanecia extremamente bonito.
– O que você faz aqui? Quando você foi embora, seu pai disse que tinha ido para São Paulo.
– Eu fui, você sabe que os músicos que fazem sucesso, via de regra, sempre estão em São Paulo. – Suspirou. – Mas no fim, não deu muito certo. Era difícil tentar sobreviver lá, tudo era extremamente caro, o aluguel de qualquer cubículo era exorbitante, as pessoas tinham muitas aparências e poucas verdades. Aguentei seis anos, foi o suficiente.
– Então a fama e o sucesso não rolaram?
– Você viu meu nome nas revistas e redes sociais por aí? – Ri.
– Não.
– Está aí sua resposta.
Eu me controlei para não dizer um grande “eu avisei”. Não por achar que Edward não tinha talento, mas sim por entender que talento não era sinônimo de sucesso. É cada porcaria que faz sucesso...
– Bem, se isso lhe serve de consolo, eu também não tive sucesso no meu “plano perfeito”.
– Carlisle me disse que você se formou.
Aquilo me surpreendeu. Então, ele perguntava de mim para o pai?
– Sim, me formei. Mas depois, só consegui emprego bosta. O sonho de ser uma revisora bem-sucedida não rolou...
– Então, somos dois fracassados?
Eu olhei para Edward e notei que um discreto sorriso se formava em seus lábios. Não era o meu sorriso, mas era um começo. Talvez, um dia, ele ainda me perdoaria.
– Acredito que sim. Dois fracassados em Gramado. Qual a probabilidade de isso acontecer?
– Você está aqui à passeio?
– Ah, não. Eu vou trabalhar aqui.
– Que coincidência. Eu trabalho aqui também.
Olhei para Edward confusa. Ele se referia ao restaurante em que estávamos?
– Como assim?
– Bem, como o plano de ser um músico famoso, lindo e rico não deu certo, tive que improvisar. Fiz faculdade de música, sabe? Aí comecei a fazer uns concursos. Passei em um aqui, para ser professor de violão.
Aquilo tudo era inacreditável. Quer dizer, Edward deixou de fazer o vestibular quando éramos adolescentes para ir naquele bendito show na praia, o qual me neguei a ir. No entanto, ele havia feito faculdade mesmo assim. Eu suspirei. Tinha sido uma adolescente tão 8 ou 80, tão focada em uma única coisa, que não entendia que a vida tem várias estradas, muitos caminhos. Nem tudo precisava ser sacrificado.
– Isso é inesperado, eu nunca vi você como um professor.
– Parece que agora sou mais estável que você, Swan.
Aquilo me fez paralisar por um segundo. Eu sabia que Edward não estava falando com intenção de me magoar ou algo do tipo, mas a realidade sem mostrava daquele jeito: eu, que sempre fora obcecada por estabilidade, não possuía nada; Edward, que sempre foi mais avoado, sonhador, mantinha seus pés firmes no chão agora. Não era culpa de ninguém, era apenas como a vida é. Ela costuma dar muitas rasteiras.
– Acredito que sim. – Foi tudo o que consegui responder.
– Bella, eu não tive a intenção... Desculpe.
Era engraçado. Eu havia falado as maiores atrocidades para ele e, mesmo assim, Edward percebeu meu incômodo com sua fala e se desculpou por isso. Ele ainda me conhecia bem. E isso era assustador.
– Está tudo bem.
Porque realmente estava. Eu já era bastante adulta para saber que nem sempre os nossos planejamentos ocorrerão na realidade da mesma forma que nos sonhos. E também, eu estava recomeçando. Era alguma coisa, certo?
Edward assentiu e, quando o silêncio começou a ficar denso, ele chamou o garçom.
– Eu vou querer uma Coca-Cola Zero 600ml, dois copos, gelo e limão. Ah, e para comer, pode trazer um xis coração e um xis salada, este sem milho e sem tomate.
Olhei para meu antigo melhor amigo um pouco chocada, sem entender como ele fez aquele pedido com tanta confiança.
– Como você teve tanta certeza em pedir para mim? Nem sabe se mudei de xis preferido.
– Mudou?
– Não. Embora seja contraditório tirar parte da salada do xis salada, você sabe.
E lá estava: o sorriso torto de Edward, aquele tão único e tão meu. Ele não precisou dizer nada, mas sentia que me perdoava pelo passado.
– Sempre foi contraditório, Bella. Mas também sempre foi seu jeitinho.
Nós comemos nossos lanches enquanto conversávamos amenidades. Contei a ele sobre meu trabalho no Natal Luz, ele pareceu ficar surpreso, mas interessado. Disse que se eu conseguisse um ingresso cortesia para ele, com certeza iria me assistir. Eu não podia repreendê-lo, pois o ingresso era mesmo uma pequena fortuna. Prometi que faria o possível para conseguir.
Após isso, o assunto ficou mais pesado. Ele me perguntou porque havia me afastado de Alice, contou o quanto ela ficara triste com o rompimento da amizade. Resolvi ser sincera:
– Eu sei que foi idiota, mas eu pensei que ficar próxima da Alice também seria ficar próxima de você. Nunca superar, sempre ficar esperando por notícias suas de São Paulo. Afinal, eu posso ter falado muitas merdas, mas foi você que foi embora, Edward.
Finalmente tive coragem de falar. Eu sempre soube que tinha agido mal, mas ele também havia tomado uma decisão ao ir embora. Não fui eu que fechei aquela grande porta final. Eu só me encarreguei de mantê-la trancada. Pelo menos até agora.
– Eu me achava um músico foda pra caralho e a mulher que eu amava me diz que sou um fracassado. O que esperava que eu fizesse? Que eu simplesmente desistisse da música e conseguisse um trabalho qualquer para atingir suas expectativas? Isso não faz parte de quem eu sou.
Edward falava várias coisas juntas, muitas informações. Entretanto, eu só conseguia pensar naquela palavra: “amava”. A mulher que eu amava. Nós nunca tínhamos falado de amor. Na verdade, nunca abordamos nenhum tipo de sentimento. Mas ali estava a palavra, finalmente. O sentimento sendo nomeado. Só que no passado.
– Nós nunca falamos sobre sentimentos.
– Não. Achávamos que éramos práticos, mas na verdade só estávamos nos enganando.
Pensei sobre suas palavras. O que antes eu via como praticidade, parecia covardia agora. Algumas coisas poderiam ser diferentes se tivéssemos conversado naquela época. Ou talvez não. Éramos jovens demais para ver com a clareza de hoje.
– Eu também te amava. – Eu havia guardado aquela informação por tempo demais. Pela primeira vez, tentaria ser madura em relação a Edward. – Do meu jeito torto, preocupado, rabugento... Eu te amava.
– Eu sei. – Edward sorriu. – No entanto, é bom ouvir você reconhecendo isso, mesmo depois de tantos anos.
Não soubemos mais o que dizer, então simplesmente pedimos a conta, pagamos e fomos embora.
Andávamos pelas ruas de Gramado sem ter um destino definido. Ele não me perguntou para qual lado eu morava, e eu também não fiz questão de informar. Embora estranho, aquele silêncio entre nós era familiar. O clima estava ameno, embora o frio do outono já começasse a aparecer à noite.
Passamos pela “rua torta” que, de torta, não tinha nada. Era somente um pega turista, visto que a rua sempre foi reta, até eles terem a brilhante ideia de pintarem para parecer torta. Lembro que, uma vez, um dos moradores daquela rua desabafou conosco – eu, meu pai e minha mãe – dizendo que desde que a rua havia virado ponto turístico, ninguém conseguia entrar com o carro em paz nos seus próprios apartamentos, pois sempre tinha um turista tirando foto no meio da rua. Estávamos viajando por Gramado pela primeira vez, era Natal... E minha mãe ainda não tinha nos abandonado.
– Você não acha que tudo nessa cidade é meio artificial?
Olhei para os postes, perfeitamente pintados e rebuscados, que iluminavam nosso caminho; analisei os prédios milimetricamente projetados, diferentes, mas ao mesmo tempo, iguais.
– Eu acho que é por isso que as pessoas gostam, dá a sensação de que podem viver em um sonho. – Edward respondeu.
Nos sentamos em um banco colorido. A neblina parecia a única coisa real daquele cenário.
– Foi por isso que veio para cá? – Questionei. Ele riu.
– Não. Você sabe que não combina muito comigo, foi realmente o primeiro lugar que eu passei, para lecionar.
– E como são seus alunos?
– Eles são ótimos, embora sejam meio barulhentos e bagunceiros, exatamente o que se espera de crianças de seis anos.
– Ah Deus, você ensina violão na creche?
Aquilo tudo parecia surreal. Desde quando Edward tinha paciência com crianças?
– Não. O Ensino Fundamental começa com 4 anos agora, Isabella.
– Caramba. No nosso tempo não era assim.
Ele sorriu e, inesperadamente, pegou em minha mão, que repousava em cima do banco.
– No nosso tempo aprendíamos as coisas fazendo, por isso a maioria das coisas ficava horrível.
– Tipo a nossa banda com aquele nome vergonhoso?
– Ei, não fale assim. A banda era boa. – Ele tentava reprimir um sorriso, mas nós dois gargalhamos alto com a lembrança.
– Edward, a banda era boa, mas o nome era péssimo, admita.
– Certo, você tem razão.
Nós nos encarávamos, nossos rostos bem próximos um do outro. Os olhos de Edward ainda pareciam me analisar com desejo, como era antes, como fora em seu quarto de adolescência, na casa de Carlisle.
Lembrei dos nossos momentos íntimos juntos, todos os que se sucederam depois daquela primeira vez inesperada. Todas as vezes que não sabíamos nomear o que sentíamos, toda vez que algo ficava difícil, era para os braços um do outro que corríamos. Me culpei por muito tempo por aquilo, por evitar a conversa, por deixar o instinto e o desejo me guiar, entretanto, sentia que me perdoava, finalmente. Depois de muitas rasteiras, entendia o que a vida tentara me ensinar: era impossível agir com maturidade sempre, ainda mais quando você é uma jovem de dezoito anos. Eu devia ter me permitido viver mais. Ser mais.
– Você ainda lembra de mim quando escuta Bidê ou Balde? – Sussurrei.
– Toda vez que o Carlinhos Carneiro canta “É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou”.
– Eu não esqueci.
Nós dois nos inclinamos até que nossos lábios se tocassem, e foi como se meu corpo reconhecesse o dele imediatamente. Eu havia sentido tanta falta de seu beijo, do jeito doce como ele me olhava antes e de como ele percorria meus braços, minha nuca e meu pescoço com as mãos no processo.
Embora houvesse saudade, não teve urgência. Foi um beijo lento, delicado, intenso. Um beijo que entendia, ao mesmo tempo que perdoava.
Apoiei minha cabeça na curvatura de seu pescoço, como costumava fazer anos atrás. Edward passou seu braço sobre meu ombro, me envolvendo em um abraço como fazíamos antigamente. Aquele encaixe foi tão natural como se nunca tivéssemos deixado de conviver.
– Está ficando tarde, eu deveria voltar para minha pousada. – Falei, sem nenhuma vontade verdadeira de sair daquele momento.
– Onde você está?
– Na pousada Recanto da Ladeira.
– Bella, isso fica há uns doze quilômetros daqui do centro.
– Eu sei, certo? Não é como se eu pudesse pagar por algo mais próximo.
– Você podia ficar comigo essa noite.
– Onde você mora?
– A duas quadras daqui.
– Você me convenceu fácil com essa informação. – Brinquei.
Talvez não fosse prudente aceitar o convite de um quase estranho para dormir em sua casa, afinal, já havia se passado anos. Entretanto, estranhamente, eu não queria mais fugir do que eu queria e do que eu sentia, queria parar de pensar tanto, de calcular milimetricamente meus passos. Eu confiava em Edward e não existia nenhum outro lugar em que eu gostaria de estar naquele momento e, por enquanto, isso bastava.
Fale com o autor