As coisas tinham mudado drasticamente em minha vida desde o último verão. Não que alguém percebesse, para eles eu era a mais forte, a única que resistira. Mas não era bem assim. Eu ainda sentia falta dele. Sentia tanto...

Naquela noite fria e vazia, como todas as outras desde que tudo acontecera, eu resolvi me deitar cedo. Não por sono ou cansaço, mas sim por não aguentar mais ouvir meus pais falando sobre ele ou ver minha avó lamentar por todas as coisas não ditas. Todas a coisas não feitas. Todas as memórias que agora eram tudo o que tínhamos. Meu avô já não estava conosco, mas eu me recusava a ficar ali sentada lamuriando pelo passado.

Sentei-me na cama com as costas encostadas na parede e deixei que a brisa suave vinda da pequena varanda do quarto soprasse em minha direção. Eu queria chorar. Como eu queria. Porém algo em mim me impedia de fazê-lo, e então eu apenas ficava ali sentada, tentando entender o que estava acontecendo.

Meus pensamentos eram a única coisa que, de certa forma, me conectavam a meu avô, e não estava disposta a perdê-los. Passava muito tempo refletindo sobre milhares de coisas que havia aprendido com ele através dos anos, mas ao mesmo tempo sentia como se não tivesse aprendido nada, como se ainda faltasse algo. É lógico que faltava algo. Mas eu não podia mais recuperá-lo, ele se fora, e mesmo que eu me recusasse a aceitar aquilo, no fundo sabia que era verdade.

Foi então que eu senti.

Ali, sentada pensando sobre todas essas coisas, senti a brisa ficar mais forte e de repente não era apenas uma brisa que me envolvia, mas sim uma ventania quente e revigorante que engrossava o ar a minha volta. Eu podia sentir em cada articulação do meu corpo algo me encher e me envolver numa adorável e mágica dança em que eu não mais parecia controlar meu corpo.

Deixei-me levar pelo sentimento tão diferente e magnífico que me envolvia e com certeza eu nunca tinha me sentido daquele jeito antes. Era algo tão... tão lindo! Eu nunca conseguiria explicar o que senti. Gosto de pensar que era o amor me enchendo, já que não poderia existir sentimento mais puro do que esse. Eu nunca fui uma defensora do amor, mas não pude negar que o que sentia era esse tão lindo sentimento em sua mais perfeita forma.

O sentimento que me envolvia era tão intenso que não pude mais me manter sentada na cama, e logo estava ajoelhada no chão de meu quarto. Lágrimas começaram a rolar em meu rosto, as primeiras desde que sofrera a grande perda, mas eu não as sentia como sendo consequência de minha tristeza, e sim como sendo toda a felicidade que eu poderia sentir em minha vida. Era como se todos os momentos felizes que eu já tinha tido ou teria tivessem se encontrado no mesmo instante em minha mente e em meu coração, me enchendo tanto que eu não podia mais conter tudo aquilo dentro de mim, precisando despejar a imensa e intensa alegria em forma de lágrimas.

Enfim, sentindo que aquilo logo passaria, olhei para cima com meus braços estendidos e fechei os olhos, desejando uma última coisa que fizesse com que aquele sentimento durasse para sempre. E então eu vi. Vi a cena mais linda de toda a minha vida.

“A grama verde, um pouco mais alta do que de costume, chacoalhava e balançava acompanhando a harmoniosa e bela dança do vento. As flores da primavera cresciam em todos os cantos do grande jardim. Tulipas, lírios, dálias, rosas... tudo emanando um doce perfume, que misturado à beleza das árvores e ao agradável clima da estação, tornavam a paisagem extremamente exorbitante.

Correndo pelo extenso e lindo jardim, uma garotinha de cabelos castanho-claros e olhos de um azul marcante brincava com a natureza ali tão bela, passando entre as flores e fingindo voar com as borboletas multicoloridas. Seus cabelos cacheados voavam com o vento e seu vestido azul florido acompanhava seus movimentos em voltas e mais voltas harmoniosas. Ela parecia uma verdadeira ninfa, interagindo com a natureza como se essa conversasse com ela e sussurrasse em seu ouvido todos os segredos ocultos ao homem que tinha se entregado a perversidade. Qualquer um se sentiria abençoado por ver tão bela cena.

Sentado na pequena escada de apenas três degraus da varanda, um homem já com seus cinquenta e poucos anos observava a pequena garotinha brincar e rodar pelo jardim, apreciando aquele tão puro e inocente momento. Os muitos cabelos grisalhos que possuía em sua cabeça se bagunçavam a cada rajada de vento e seu corpo grande parecia resistente a qualquer coisa. Porém seu olhar carregava lembranças tão antigas e profundas que era impossível não encontrar ternura nele, e isso tornava o grande homem um doce e sensível senhor.

A garotinha, percebendo que era assistida por plateia tão primorosa e importante, voltou-se para o senhor e correu em sua direção, seguida por uma porção de borboletas coloridas que a cercava em meio às flores.

Parou em frente a ele e o olhou profundamente nos olhos, como que esperando algo incrível acontecer. Por um instante, nada ocorreu. Então, o grande senhor se levantou e pegou a pequena pela mão, caminhando com ela ao extremo oposto do jardim, passando pelo grande carvalho que parecia reger toda a natureza ali presente e adentrando alguns arbustos, até então desconhecidos pela menina. Não tinha como saber quem estava mais animado com aquilo. A garotinha sonhadora ou o velho homem esperançoso.

Ao chegar ao outro lado dos arbustos, a cena encontrada se mostrou ainda mais bela do que a anterior. Uma pequena fonte borbulhante jorrava água e formava um pequeno lago, mais para uma grande poça na verdade. Ao redor, flores de todos os tipos e tamanhos cresciam e a grama era de um verde tão brilhante e vivo que quase não parecia real. Dois coelhos brancos como a neve brincavam entre alguns arbustos e pássaros combinavam seus cantos para que sua canção final fosse uma digna e linda harmonia de anjos. A pequena fonte nascia em algo que se parecia com uma bacia prateada, também pequena. Mais borboletas coloridas voavam por ali, mas essas possuíam colorações e desenhos totalmente inusitados e marcantes, como se quisessem chamar a atenção de seu Criador a cada voo. Na verdade todo o local expressava adoração à seu Criador em cada minúsculo movimento.

O velho continuou andando normalmente como se tudo aquilo fosse muito normal para ele, enquanto a garotinha olhava todos os detalhes da bela natureza ao seu redor com animação e surpresa. Os dois andaram até perto da fonte, e ali o senhor se sentou em uma pedra, passando a observar toda a beleza ao seu redor. A garotinha pegou em seus braços um dos coelhos e foi sentar-se ao lado do homem.

-Veja só pequena – ele disse dirigindo seu olhar para ela, que o encarava com imensa empolgação. – Eu nunca mostrei esse lugar para ninguém, é o meu lugar secreto.

-É muito bonito vovô – ela respondeu e começou a brincar com o coelhinho que carregava como um filho.

-Sim, é muito bonito – ele respondeu com um sorriso nos lábios – E agora ele será nosso lugar secreto. Sempre que você precisar ficar sozinha ou pensar um pouco, é só vir até aqui que encontrará todas as respostas. E se um dia você precisar de mim e não puder me encontrar, saiba que eu sempre estarei aqui para você.

-E como eu vou saber que você não foi embora vovô? – ela perguntou, agora com um olhar um pouco mais preocupado.

-Eu te prometo que nunca vou te deixar. E deixo o canto dos pássaros como prova disso... Você pode ouvir o que eles estão dizendo?

-Dizendo? Mas pássaros não dizem nada – ele respondeu confusa.

-Apenas fique em silêncio e tente ouvir, não com seus ouvidos, com seu coração.

Os dois se calaram enquanto os pássaros entoavam sua linda melodia, até que a garotinha cortou o silêncio.

-Eles dizem que... estou a sós com você, que sempre estarei com você – ela diz meio hesitante, maravilhada com tudo aquilo.

-Exatamente – o velho concorda e volta a olhar a paisagem – Eu nunca vou te deixar pequena, nunca.

Os dois ainda ficam ali por algum tempo, apenas rindo e brincando, apreciando o tempo que estavam passando juntos.

Quando chega a hora de sair do paraíso e voltar ao mundo real, o homem a pega pela mão e a guia pelo caminho, guiando-a por entre os arbustos e obstáculos que surgem. Quando chegam ao carvalho e então ao jardim, trocam um olhar e o sorriso em seu rosto transcreve o amor tão puro e sincero que só pode existir em família. A união não só de sangue, mas também de coração.

Ele sussurra uma última vez que a ama, e ela responde com um longo e sincero abraço.”

Quando abro os olhos, minhas mãos ainda estão estendidas e meu coração acelerado. Já não sinto o vento ou a energia que me enchia antes, mas mesmo assim estou paralisada. Tentei me levantar, mas era como se estivesse presa e meu corpo simplesmente não obedecia meus comandos. O sentimento que me enchia já não era a tristeza ou a negação, mas algo totalmente novo. O carinho. A sensação de conforto. O amor. Sim, o amor mais puro e verdadeiro que eu tinha tido em minha vida. Meus pais me amavam, mas não me conheciam. Garotos poderiam dizer “eu te amo” muitas vezes, mas no fundo eu sabia que não era pra sempre. Porém meu avô me conhecia. Ele me amava. E era pra sempre. Agora eu sabia onde encontrá-lo, mas isso não era tudo. Agora eu tinha certeza de que ele ainda estava aqui. Dentro de mim. Ao meu redor.

Talvez meu avô soubesse que não teria a oportunidade de me dirigir uma palavra final, e por isso naquele dia, assim como em tantos outros, fez questão de me alertar sobre como me amava e como estaria aqui, comigo, pra sempre. Algumas vezes eu chegava a ignorar algumas de suas palavras, não por serem fúteis ou sem sentido, mas simplesmente por serem a verdade. Ele conhecia a verdade, e agora eu também.

Fechei meus olhos e tentei relembrar todos os momentos perdidos em minha mente, todas as brincadeiras, as conversas, as noites em que eu chorava e ele cantava pra mim, os choros que ele entendia e tentava parar com palavras de consolo...

Teria ficado ali por muitas horas se minha mãe não entrasse no quarto e acendesse a luz, perguntando-me se estava tudo bem.

-Sim, na verdade nunca esteve melhor – respondi enquanto ela me encarava confusa.

-Como assim? Está tudo bem, de verdade?

-Sim mãe, está – respondi convicta – É só que antes eu estava cega, e algo abriu meus olhos.

-Algo? – era a primeira vez que eu falava com tanta segurança desde que tudo acontecera, então com certeza minha mãe deveria estar um pouco chocada.

-O amor.

Ela saiu do quarto chocada. Eu permaneci ali maravilhada.

Notas finais
Espero que gostem e deixem reviews ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.