Um Lugar Sem Esperança
5 What it takes to come alive
Notas iniciais
“Olhe Sasuke!” Mostrei à ele, que sorriu e me pediu um beijo. Estava com dor, eu o conhecia, mas já estava acabando a dele também. Taparam a ‘cicatriz’ com um plástico e nos deram as recomendações, pagamos o devido e saímos de mãos dadas, a esquerda dele laçada com a minha direita. Ficamos em silêncio, andando na calçada que beirava a praia, sem um rumo certo. Não estávamos afim de voltar a festa da praia, isso era óbvio, mas a festa da praia veio à nós.
De longe ouvimos o som de carros pulsando como coração de velho com pressão alta, e uma multidão de gente. Pensei: ‘Nossa, como eu sou foda, fiz uma pequena festinha acabar assim, num mar de gente’. Afinal, de onde saiu esse povo todo? É um mistério. Paramos na calçada para ver eles passarem, que nada, Neji que dirigia, parou na nossa frente com aqueles loucos e aquele monte de gente estranha, tinha menina até fazendo topless!
“Ei, vocês sumiram! Tavam onde?” Perguntou Naruto.
“Fazendo tatuagem.” Sasuke levou o pulso até Naruto que estava visivelmente bêbado.
“Zika! É um dragão muito lindo!” E drogado! “Eu também quero!”
“Um dia eu te levo para fazer um igual.” Falou Sasuke seriamente. Eu sabia bem que ele era louco o bastante para levá-lo naquele momento mesmo para tatuar um dragão ou coisa pior no pulso ou lá se sabe onde se a oficina de tatto estivesse ainda aberta. “Estão indo para onde?” Perguntou afinal.
“Para a pista de skate soltar fogos de artifício.” Oh Dear God! Meus olhos brilharam! Adoro fogos de artifício!
“Pra que?” Perguntou Sasuke debochando.
“Ora, para jogar no céu e ver explodir, anta!” Interferiu Gaara.
“À que finalidade?!” Insistiu Sasuke.
“Ou vem ou vá se fuder também!” Irritou-se Gaara.
“Vou me fuder com a minha mulher!” Me agarrou bravo.
“Sasuke!” Lhe chamei atenção envergonhada.
“Boa foda! Pode ir Neji.”
“Não! Sasuke!!! Eu quero ir!” Pedi.
“Ouviu Sasuke, nada de foda, até a Sah quer ver as luzinhas explodir no céu!” Sasuke me olhou já irritado e perguntou baixinho. ‘Quer mesmo ir?’, respondi que sim com a cabeça. Entrei na cabine com Naruto e Neji e Sasuke ficou na caçamba com Gaara, Ino e um povo estranho. Esse seria mais um item para riscar da lista de afazeres da noite.
Ops! Acho que pulei um!
“O que é isso Naruto?” Vi ele abastecer um seringa do meu lado.
“Heroína.”
“Tem mais seringa?”
“Sakura, Sasuke nos avisou para não te drogar!” Avisou-me Neji.
“Se você não contar, eu não conto!” Ele virou o rosto e continuou dirigindo. Olhei o retrovisor, Sasuke estava bebendo distraído com Gaara e outros caras, nem ia perceber. “Onde tem, Naruto?”
.
“Porta luvas.” Abri e peguei uma seringa, por sorte embalada e limpinha. “Tem um frasco de êxtase em um dos meus bolsos, não me pergunte qual.” Revistei as calças do Naruto, achei um frasco. Puxei a fita de proteção e coloquei agulha na saída, puxei até metade da seringa e tirei a agulha para fora. Aquilo me deixava contente. Eu não era uma viciada, digamos que me dopar é como tomar uma caneca de chocolate quente antes de dormir. É confortante, indispensável. Eu poderia viver sem, mas não gostaria... Seria obrigada a largar por causa do Sasuke, prometi que só iria me drogar esta noite e eu vou cumprir isso.
Chegando lá, cerca de cinco carros lotados pararam um ao lado do outro e as pessoas saíram, as mais bêbadas mal conseguiam destravar as portas. Com toda aquela euforia, preferimos ficar na caminhonete mais um pouco. Aquela sensação era tão boa! Eu me deliciava com o líquido circulando pelas minhas veias ao lado de Naruto que parecia uma puta tendo orgasmos. Neji ria e se lamentava algo como “Deus, tenha piedade deles.” Ignorei. Deus já tem muitos filhos em situações piores do que a minha, deixa Deus cuidar deles enquanto eu estou bem e consciente.
O prazer era tão intenso que chegava a ser agonizante, me lembrava o Sasuke em absoluto. Era incrível! Olhei de relance meu braço que sangrava bastante, talvez porque eu devo ter mexido demais com a agulha dentro da veia. Terminei de aplicaras últimas ml e aguardei a onda de êxtase puro, essa mais forte do que as anteriores, me debati ali me esforçando pra ficar em silêncio com aquela sensação extasiante que a droga me proporcionava. Em segundos o efeito acabou infelizmente. Recuperei meu fôlego e me concentrei no meu braço machucado.
“Exagerou dessa vez, não acha?” Comentou Neji travando o carro. Olhei para ele sem simpatia alguma e tentei achar um jeito e estacar o sangue.
“Você tem AIDS?” Perguntou Naruto já recuperado da dopamina.
“Não”
“Hepatite?”
“Claro que não!” Respondi estressada. Por que ele queria saber?
“Beleza.” Ele agachou na minha frente, por baixo do porta-luvas; pegou meu antebraço e lambeu o sangue que havia escorrido. Não tive reação de impedir, xingar ou sentir nojo por ele. Estava boquiaberta. Desde quando Naruto se importa? “Vou tirar um pedaço desse negócio, ta?” Rasgou uma pequena parte do plástico que protegia a minha tatuagem e colocou na dobra do cotovelo, onde eu havia aplicado o entorpecente. Funcionou.
“Obrigada, Naruto.”
“Não agradeça, vá atrás de um vício saudável.” E saiu da caminhonete como se nada tivesse acontecido. É, nada havia acontecido, ninguém saberia, inclusive Sasuke. Ele ficaria muito chateado, apesar de ter concordado, ele não aceitava me ver nessa vida sem volta, não queria decepcioná-lo.
Limpei a agulha suja de sangue embaixo da poltrona e guardei a seringa no porta-luvas, saindo do carro olhando para os lados para ver se alguém estava me vigiando. Neji ficou lá. Talvez nem saísse -de todos os meninos, ele é o mais reservado e maturo, tem limites, prioridades e suas próprias regras, não chegava ao ponto de ser tão louco quanto os outros-. Todos estavam juntos formando uma espécie de círculo em torno dos garotos responsáveis pela queima dos fogos.
“Hey, onde estava?” Perguntou Sasuke me pegando pela cintura, meio tonto de tão bêbado, nem iria perceber que eu havia me drogado, para a minha sorte.
“Estava descansando um pouco.” Respondi.
“Vamos ver o que esses idiotas vão fazer!” Me deu um rápido beijo e voltou à atenção para os meninos acendendo os fogos e os jogando para todos os lados, fazendo um show de luzes coloridas e perigosas. Todos se afastavam dos loucos rindo e zuando... Fiquei realmente empolgada.
“Polícia!!!” –Anunciou Ino. Só vi todo mundo correr para tudo quanto era veículo. Sasuke me puxou para a caminhonete, mas já havia lotado. Comecei a me desesperar.
“Sasuke, precisa arrumar algo para fugir e rápido! Se eles te pegarem dessa vez...”
“Eu sei! Fica tranqüila!” Olhou em volta e procurou por um idiota, achou um. Roubou a bicicleta dele e montou em cima comigo junto, com a polícia atrás. Isso não foi impedimento para fazer os meninos desistirem de soltas os fogos.
“Hey, pega aí!” Naruto jogou um lançador já aceso pra gente. Peguei e Sasuke deu as instruções.
“Segura bem firme a base e levanta o braço.” Ele pedalava e eu guiava com apenas uma mão livre, só para complicar mais as coisas.
“Sasuke! Pedala mais rápido ou os policiais te alcançam!” Avisou Gaara desesperado. “Deixa a Sakura aqui e pedala sozinho!” Sasuke pareceu estar de acordo. No momento em que ia responder a oferta de Gaara, todos os fogos de artifício deram partida, inclusive o meu. Levei um susto tão grande que perdi o controle da bicicleta, bati em um poste de iluminação e cai na calçada com o Sasuke. A primeira coisa que pensei depois da queda foi: ‘Puta que pariu, agora o Sasuke me mata’. Ele pegou minha mão e saiu correndo esquina abaixo. Corremos até não agüentar mais enquanto o céu era tomado pelo barulho dos fogos.
Mesmo ofegantes e ansiosos, não poderíamos perder aquela ânsia de um beijo após nossa grande fuga. Mordeu meus lábios e acariciou meu cabelo. Me senti tão querida que por um momento quis chorar só de satisfação. Eu estava feliz apesar de tudo.
“Se machucou?” Perguntou me revistando.
“Não, estou bem.”
“Mesmo? Deixa eu ver.”
“Não!” Disse tirando meu braço das mãos dele. “Eu... estou bem, não se preocupe.” Ele estranhou minha atitude mas não contestou.
“Precisamos de um carro.” Falou pegando minha mão e indo em direção a uma casa. De primeira vista não reconheci, logo depois me lembrei do lugar, era a casa de Kakashi, tio de Sasuke.
“O que vai fazer?”
“Pegar o carro dele.”
“Sasuke, ele é seu tio!”
“Por isso mesmo ele vai emprestar.”
“Ele te conhece! Se emprestar o carro pra você não vai sobrar nada dele de manhã!”
“O que está querendo dizer?”
“Que você bêbado com um carro é igual a Osama Bin Laden com uma bomba!”
“Eu não estou bêbado, estou alcoolizado!”
“Que diferença absurda!” Ironizei.
“Não seja irônica comigo!” Me jogou na parede em frente a casa do tio. “Seja delicada...” Desceu a mão pelas minhas costas e mais embaixo, não consegui abafar o suspiro que foi calado por um beijo cálido e obsceno.
“Sasuke, é você que está aí, não é? Tem como para de se esfregar com sua namorada em cima do meu interfone? Essa droga fica apitando e não me deixa dormir.” Falou a voz através do aparelho. Vergonha não explicava o que eu estava sentindo. Empurrei Sasuke e fui por lado extremo da rua emburrada.
“Ah, tio, desculpa, é que eu queria te pedir um favor.”
“Sabe que horas são?”
“Não.” Falou sem hesitar com a mesma cara de sínico que o fazia ser esse ser lindo que era.
“Já vou aí te mostrar.” Falou por fim desligando o interfone. Sasuke ficou irrelevante e eu fui me aproximando aos poucos dele, estava meio receosa com esse tio, ele parecia ser tão insolente quando o Sasuke. Depois de uns minutos a porta se abriu. “Aí está meu sobrinho mais problemático.” Falou sem sair da casa. “Ainda não sabe as horas?” Sasuke deu os ombros. “Mais de uma da manhã. Acha que isso é hora de perturbar os outros?”
“Não vim perturbar, vim pedir um favor, já disse!” Se alterou. Estranhei a demora de o Sasuke surtar com Kakashi.
“Que favor, Sasuke?” Perguntou o homem de cabelos prateados com um tédio palpável.
“O carro.” Apontou para a garagem.
“Meu carro?” Kakashi se impressionou.
“Sim”
“Vamos analisar: você vem aqui de madrugada com sua namoradinha, totalmente bêbado e quer meu carro emprestado?”
“Olha, se não vai emprestar, um ‘não’ já basta, ok? E outra, eu não estou bêbado, estou alcoolizado!” Kakashi riu e saiu da casa.
“Sasuke, eu gosto de você, acredite, mas se acha que gostar de alguém é dar apoio para o que vai prejudicá-la, então conte nos dedos os que te apreciam.” Aquilo mais pareceu uma direta para mim do que para Sasuke. “Só pela sua coragem, eu emprestaria meu carro sem problemas, mas veja o seu estado. Mal piscar os olhos você consegue! Se eu colocar um carro na sua mão, o mais provável é você bater e se matar. Você sua namorada. Já pensou nisso?” Sasuke virou o rosto. Sinal de que sabia que estava errado e admitia isso. Esse sinal eu conhecia, era muito freqüente ele usar isso comigo.
“Você não vai me ver mais.” Falou pegando minha mão e se afastando.
“Ora Sasuke, não leve isso para o lado pessoal, faço isso pelo seu bem!”
“Estou falando sério!” Abaixei a cabeça. Kakashi percebeu que não era cena de Sasuke.
“O que há?” Perguntou preocupado.
“Câncer.” Falou como se não fosse nada ou algo que fosse passar logo. Kakashi olhou para mim. Virei o rosto. Sentia meu nariz e meus olhos formigarem anunciando um inevitável choro.
“Não posso acreditar!” Kakashi estava pasmo. “Quando descobriu?”
“Há umas semanas.”
“E está se tratando, não está?”
“Nem se eu tivesse como, poderia. Espalhou por todo o meu corpo, só estou ainda de pé porque mesmo espalhado, o câncer não está em um nível muito avançado, pelo menos não na maioria dos órgãos então...” Kakashi se apoiou no batente da porta olhando para o piso, parecia abalado. Nem eu nem Sasuke esperávamos essa reação dele. “Sakura e eu tiramos essa noite para curtir.” Me olhou meigo. “Tem dado certo, não é?” Sorri em meio as lágrimas. “Tenho algumas semanas de...” Larguei ele e corri para o outro lado da rua. Me apoiei na parede e comecei socá-la furiosa, sem parar, até machucar todos os meus dedos. “Sakura, para!” Sasuke veio por trás de mim e me agarrou com força.
“Me solta! Para de falar! Eu não quero ouvir! Eu não quero me lembrar disso! Por favor, para!” Kakashi observava tudo sem reação. O moreno beijou o topo da minha cabeça e me envolveu em um abraço frouxo onde me rendi, mais calma. Depois de alguns minutos de conformação, Kakashi se pronunciou.
“Eu lhe empresto o carro Sasuke. Mas tem algumas condições.” Cruzou os braços. “A moça vai dirigir e, se não devolvê-lo até amanhã de noite vou dar queixa de roubo.” Sasuke concordou. Peguei o carro e sai agradecendo Kakashi. Ele foi generoso conosco, mas apesar de tudo, não sabia se ainda merecíamos qualquer generosidade, fizemos o bastante por uma noite, meus olhos já queriam cair.
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