Um Lugar Sem Esperança
6 Love and live i will devide
Notas iniciais
“Aonde vamos?” perguntei.
“Para a divisa.” falou olhando o fraco movimento na rua pelo vidro.
“Para a divisa?” perguntei novamente meio desconfiada. “Lá é deserto!”
“Por isso mesmo.”
“O que quer fazer no meio do deserto?”
“Transar com você.” falou naturalmente.
Dei risada pela forma indiscreta do Sasuke falar as coisas. Ele não era nem um pouco sutil, não se envergonhava, não via problema em dizer a verdade às pessoas erradas nos momentos errados. Era uma pessoa rara, dessas que precisariam ser criadas e não desenvolvidas. Pergunto-me como um garoto que cresceu cercado de mentiras pode ser tão transparente e verdadeiro.
“Pode acelerar?” Passei para 80 km/h. “Mais.” Passei para 90 km/h. “Mais.”
“Sasuke, mais que isso levaremos multa!”
“Menos do que isso, vai amanhecer o dia e a gente não vai chegar lá!” Suspirei e acelerei: 120 km/h na rodovia paralela da Califórnia. Apenas caminhoneiros e carros de turistas latinos estavam na estrada naquele horário. O vento era forte, parecia querer levar meus cabelos róseos com o couro cabeludo e tudo, Sasuke já se estressava em ter que toda hora tirar as mechas que caiam em seu rosto, fechou o vidro, desistente, e me obrigou fazer o mesmo. Ele realmente era muito mimado e controlador, a minha única saída era obedecer sem contestar.
“Entra aqui.” Depois, lembrando disso, pensei ‘entrar onde sendo que o deserto era todo aberto?’, Sasuke não costumava usar a lógica ou achava divertido dar uma de otário. Virei onde ele pediu e andei em linha reta até ele me mandar parar. Podia ver a aurora querendo surgir no horizonte, de um lado o céu azul-royal se tronando um azul mais cremoso, e do outro uma perfeita escuridão com minúsculos pingos brancos, como botões em um grande lençol. “Venha aqui.” Me puxou de onde eu estava para o seu colo. Ele não perdia tempo. “Te amo.” Passou o dedo indicador pelos meus lábios lentamente, como se aquilo o excitasse até os ossos.
“Te amo mais.” Sussurrei me entregando aos lábios doces daquele homem torto que endireitava toda aquela droga que eu chamava de vida. Eu aprofundava o beijo e meus pensamentos nele e suas mãos adentravam minhas roupas. Eu me afogava no medo incalculável de perder aquele momento para sempre, meu coração gritava desamparado porque sabia que não era apenas um medo, era uma certeza.
Não consegui mais beijá-lo, parei desesperada, o deixando confuso, segurei seu rosto como se ele fosse se desmanchar a qualquer momento, como se eu pudesse evitar isso mesmo sabendo que eu não poderia jamais. Eu queria poder entrar dentro dele e rançar todo o mal que o destruía aos poucos por completo, que o tiraria de mim definitivamente. Queria ao menos pegar um pouco desse mal para mim e sofrer com ele, morrer com ele, nos braços dele, não ele em mim.
Meu ar fugia dos pulmões, as lágrimas despencavam, eu tremia e Sasuke se desesperava, tentava me acalmar, saber o que eu tinha, eu não conseguia nem sequer olhar em seus olhos negros sem imaginá-los imóveis olhando para um nada que eu não poderia mirar. Eu queria colocá-lo dentro de mim, guardá-lo para sempre, protegê-lo de tudo, nunca deixá-lo ir longe, me deixar. Estava com tanto medo, um medo que nunca senti antes, incomparável. Eu era capaz de me matar só para não sentir aquilo. Aí ele segurou meus pulsos delicadamente e juntou como dele, juntou as tatuagens.
“Infinito.” Disse. Então olhei seus olhos, marejados e serenos, como um beijo de boa noite. “Não fica assustada, não podemos mudar isso. Eu tive uma vida feliz Sakura, eu fiz tudo o que quis fazer, eu fui perdoado, eu fui amado, eu tive você. Ainda a tenho. Eu estou feliz, Sakura. Pedir mais a Deus do que alguém comigo agora seria abuso. Você é como um anjo enviado para mim, só para fazer desses momentos um pouco menos pesados. É como se Deus tivesse deixado você carregar meu peso sobre seus frágeis ombros, e eu peço desculpas por isso.” Limpou minhas lágrimas. “Eu nunca pude te levar para um bom restaurante, nem te dar um anel de compromisso. Eu quis muito te dar um anel de compromisso, sabia? Eu não pude te dar um filho, nem uma boa casa, nada menos do que um colar barato, mas todos os dias você parecia tão contente com o nada que eu te dava... Eu me martirizava, eu sentia raiva, pois você era simplesmente perfeita. Você é perfeita. E quantas vezes eu fiz esses olhos chorarem?” Limpou as novas lágrimas. “Desculpe-me por isso, amor! Deus sabe o quanto que praguejei por isso, sabe o quanto isso acaba comigo, então, por favor, pare, deixe a parte viva e alegre que ainda está em mim ficar mais um pouco, eu preciso disso para aguentar tudo quando você não estiver. Não faça isso, não chore mais. Não há o que fazer, então sorria para mim.” Acariciou minha bochecha. “Sorria para mim.” Sorri sem graça. “Você, é a mulher mais linda e mais amada desse mundo, sabia?” Balancei a cabeça. “Você tem muita sorte, é linda e amada, então não chore mais. Faça isso por mim.” Limpei minhas lágrimas na blusa. “Me beija.” Assim fiz, com o rosto todo inchado pelo choro, com os lábios salgados.
As roupas eram como pétalas murchas se soltando do caule, as mãos, tão suaves como a brisa, os beijos tão delicados como sopros. Era um reparo. Era uma lembrança. Era como um selo sobre uma carta finalizada. Era tudo. Tudo o que eu queria, tudo o que eu não queria, tudo o que eu precisava não importava minha vontade. Ele era tão bonito. Ele me amava. Ele se encaixava em mim como se fosse um pedaço, ele era a maior parte de mim, como um propósito. Não havia luxuria naquele carro, não era sexo, não era uma atividade, uma troca de carícias, essas coisas frágeis que se desprendiam da memória como uma folha seca se desprende de um galho qualquer e voa para longe. Era algo superior, era algo além de tudo o que qualquer pessoa poderia fazer ou sentir.
No fim, ele acariciou meu rosto e disse: “Eu nunca vou deixá-la.” Isso foi tudo. Isso foi literalmente tudo. Adormecemos juntos. Calados. Era uma manhã tão linda! Nos vestimos e saímos dali, desta vez com Sasuke dirigindo na rodovia agora mais movimentada. Ele estava calmo e com um sorriso gostoso no rosto, como um garoto de oito anos. Eu o olhava, admirava e ria da forma como ele tentava tirar os cabelos negros do rosto. Mesmo irritado, quis deixar o vidro aberto.
Fomos para casa enfim. Pagamos as bicicletas que roubamos dos vizinhos e eles retiraram a queixa na polícia. Estava tudo uma bagunça e estávamos famintos. Decidi arrumar tudo enquanto ele ia buscar algo para comer. Ele voltou antes que eu terminasse, mesmo assim eu não quis parar. Deixei o quarto de aluguel parecendo algo digno e confortável de estar. Café com leite e biscoitos, sentados juntos no sofá falando sobre a noite anterior e as loucuras. Tomamos banho e decidimos descansar, não havíamos dormido muito. Deitamos na cama limpa e ficamos nos olhando, eu acariciando os cabelos lisos dele.
“Se tivéssemos um filho, como acha que ele seria?” Perguntei distraída enquanto os olhos dele pareciam pesados.
“Seria um homem, como eu.” Falou com a voz rouca e falha. “Sakura, eu estou meio sonolento...”
“Eu também.”
“Não, você não entendeu.” Uma pontada lhe fisgou o peito, as batidas do coração se aceleraram de uma forma rápida. “Estou me sentindo uma pedra.” Falou devagar.
“Sasuke, você tá bem?” Perguntei nervosa.
“Estou.” Falou com os olhos fechados. “Só estou meio assustado.” Uma lágrima desceu dos meus olhos. “Pode me beijar?” O beijei.
“Está melhor?” Perguntei na esperança de que aquilo fosse uma brincadeira.
“Vem cá.” Pediu tentando me puxar para cima de seu peito, mas parecia fraco, então eu mesma apoiei minha cabeça em seu tórax, sem deixar de olhá-lo por um segundo. Seu coração... estava batendo fraco.
“Sasuke! Sasuke, seu coração!” Falei desesperada e ele me pediu silêncio.
“Esse quarto tem eco?” Perguntou com os olhos perdidos. Eu já não sabia o que fazer. “Por que está chorando de novo?” Não consegui responder. “Deixa eu ver seu rosto.” Me aproximei. “Você é um anjo.” Riu. “Acho que é agora, Sakura.”
Fale com o autor