Um Lugar Sem Esperança

4 It's the way I'm feeling I just can't deny


Notas iniciais
"É como se você gritasse, mas ninguém pudesse ouvir. Você sempre se sente envergonhado por alguém poder ser tão importante daquele jeito. Que sem essa pessoa você se sente um nada. Ninguém vai entender o quanto isso dói. Se você se sente sem esperança, como se nada pudesse te salvar, tudo se foi e está acabado, você quase deseja ter todas aquelas coisas ruins de volta, só para com elas virem as boas junto."

Achamos um tatuador barato há quinze minutos de onde estávamos. O lugar era pequeno e cheirava a álcool, de repente senti um medo terrível de pegar hepatite ou HIV tatuando num lugar tão precário como aquele, mas Sasuke fez o cara esterilizar tudo na frente dele só para me acalmar.

“O que vão fazer?” Perguntou à nós.

“Eu quero tatuar o nome dela aqui!” Bateu no peito e eu dei risada.

“Qual o seu nome, princesa?” Perguntou o tatuador.

“Princesa não, cara!” Sasuke advertiu.

“Quer que eu a chame como, se não sei o nome?!”

“Sakura.” Respondi ainda rindo.

“Cara, não dá não. Eu fecho daqui uma hora, não daria nem para fazer três letras no tamanho que você quer, que tão algo diferente?” Sugeriu.

“Eu quero o nome dela!”

“Não vai dar para terminar! Você disse que quer para hoje, não vai dar!” Explicou o homem já nervoso.

“Então o que sugere?” Cedeu.

“A inicial dela. Dá para fazer algo bem...”

“Um ‘S’? Se for para fazer uma cicatriz com S eu mesmo me corto em forma de ondinha!” Santo Cristo! Como esse Sasuke era complicado. O tatuador já estava se estressando.

“E a inicial dos dois?” Nossas iniciais? S e S. Humm, nada mal. Até eu gostei da ideia.

“Dois ‘S’?” Perguntou Sasuke incrédulo, surtando como um menino mimado cujo pedido não é compreendido. Ele devia ser mais maduro e compreensivo, parece contrariar tudo o que lhe propõe. Ou é do jeito dele, ou não tem jeito. O tatuador pegou um pedaço de papel e rapidamente fez um desenho, depois nos mostrou.

“O símbolo do infinito?” Observei confusa.

“Sim. Se dividi-lo em duas partes, pode ver que forma dois Ss.” Sasuke adquiriu uma expressão amena e se pôs a observar bem o desenho. Eu tinha adorado a ideia. Além de ter nossas iniciais, era um símbolo de eternidade. Eu sabia que eternidade não seria possível, nem sequer alguns anos juntos nós teríamos, mas pelo menos na minha memória ele seria eterno. Aquela tatuagem seria perfeita.

“Você faz essa gravura em quando tempo?” Perguntou Sasuke conformado com a sugestão genial do homem.

“Uma hora.” Respondeu calmamente.

“Uma hora cada?” O tatuador confirmou, e Sasuke me olhou confuso. “Quero uma igual no pulso.” Sasuke me olhou surpreso e perguntou com a voz séria:

“Tem certeza de que quer fazer?”

“Por que não teria? Viemos aqui com esse propósito, não é? Não saio daqui sem uma tatuagem.” Olhei para o tatuador lhe perguntando novamente. “Tem como fazer as duas?”

Bem, acho que sim. Tem mais um tatuador ali, fazemos as duas ao mesmo tempo.” Sasuke gostou da ideia. Aceitou tudo de boa e se sentou quietinho na cadeira específica. Fiz o mesmo com um sorriso bobo no rosto. “Onde vai fazer, cara?” Perguntou ao Sasuke.

“No pulso esquerdo” Respondeu me olhando.

“Eu quero no pulso direito.” Acrescentei.

“Vai doer.” Sasuke me avisou.

“Eu sei.”

“É como perder a virgindade, multiplicado cinco vezes!”

“Moleza.”

“Tá fingindo ser forte agora?”

“Tá fingindo se preocupar?”

“Eu me preocupo com você.”

“Mesmo?”

“Claro! Quando temos algo muito precioso que queremos ter para sempre, precisamos cuidar para que não se quebre ou se perca. Meu avô dizia isso para mim.” Se calou por um tempo. “Ele me deu um globo de neve, daqueles com uma bolha de vidro cheia de água, sabe? Era um presente que ele deu à minha mãe quando ela fez quinze anos, mas a minha mãe rejeitou, disse que era só um enfeite vagabundo e jogou no chão quebrando tudo. Ela não sabia que aquilo era muito precioso, nunca soube.”

“O que esse enfeite tinha de especial?” Perguntei.

“Fisicamente, os diamantes que têm dentro o torna valioso, todas as janelas e pedrinhas em volta da casinha são pedrinhas de diamantes, minha mãe devia pensar que era vidro, um objeto qualquer que se compra em qualquer loja de turismo. Mas o que mais o tornava valioso, é a forma como esse enfeite foi feito.”

“Como?”

“Pelo meu próprio avô. Depois que a minha avó morreu, ele pegou o diamante do anel dela e picou em várias pedrinhas. Meu vô dizia que minha avó cantava uma música muito bonita que falava que seu sonho era ter a casa cheia de diamantes. À princípio, meu avô queria espalhar as pedrinhas pela casa atendendo ao ‘pedido’ da minha avó.” Os tatuadores já preparavam tudo para começar, os instrumentos esterilizados, a pele limpas... Só faltava começar. “Mas ele viu que com o tempo, os diamantes iam se perder, achou melhor fazer algo diferente, sem mudar a ideia.”

“Espalhou os diamantes pela casa da bolha de vidro.”

“Sim. Ele mesmo moldou a casinha num pedaço de carvalho, pintou, fez a base, espalhou diamante por diamante pela pequena casinha, fechou com a bolha e encheu de água. Aí ele deu de presente para a minha mãe, que rejeitou e quebrou. Ele demorou meses para consertar tudo. Quando completei oito anos ele me contou a história e me deu o globinho de neve no natal. Eu não acreditei no começo. Mas aceitei o presente com a maior gratidão.” Já queimavam nossa pele. Nesse momento deixei escapar um ‘ai’, e Sasuke se assustou, continuou a história pouco depois. “Vi como as pedrinhas brilhavam, reparando bem nelas, então eu acreditei. Até hoje eu tenho esse globo de neve e cuido tão bem dele quanto meu avô cuidava. Já houve dias em que eu não tinha o que comer, só tinha a roupa do corpo e uma mochila com algumas coisas inúteis que sempre carrego comigo, e nem um segundo sequer eu pensei em vender as pedras para me sustentar.”

“Nunca me contou isso.” Falei meio emocionada.

“Nunca vi necessidade de contar.”

“Qual a necessidade agora?”

“Você duvidou da minha preocupação com você, eu te dei um motivo para acreditar.”

“Falou sobre o cuidado que tem com esse presente do seu avô.”

“É o mesmo cuidado que eu tenho com você.” Ri. Talvez ele ache que só porque eu me comovi com a história vou ignorar o pequeno detalhe que ele me trata igual a uma cachorra vira-lata. “Por que está rindo, idiota?” Perguntou.

“É que... você realmente é muito cuidadoso!” Ele me olhou furioso.

“Você sabe que não gosto nenhum pouco de ironia, não sabe?” Bronqueou.

“Não se mexa!” Repreendeu o tatuador.

“Sou sim cuidadoso com você, mas sou cuidadoso do meu jeito.

“Sasuke, nem sempre o seu jeito é o jeito certo de fazer as coisas. Nem sempre as coisas que te deixam feliz me deixam feliz, nem sempre as coisas que fala e que acha que vão me fazer bem, me fazem de fato, nem sempre que eu sorrio estou sendo sincera, pois boa parte do tempo que passo com você estou magoada com algo, contudo eu sempre acabo perdoando, sabe?” Olhei para os meus pés. “É mais fácil fazer você feliz com um sorriso falso do que você fazer o mesmo comigo.”

“Não sabia que se sentia assim.”

“Nunca tive coragem de dizer. Tenho medo de você.” Ele pareceu surpreso.

“Medo?”

“Sim. Acho que sei disfarçar bem né? Mas não tem importância, eu sei lidar bem com isso.” Ele me olhou sério, com uma expressão que poucas vezes vi seu rosto expressar. Eu gostava daquela expressão, mas não sabia como contorná-la, parecia me acalmar, parecia me acolher apesar de tudo o que eu disse. Não sei se me deixei levar pelo momento, só não posso deixar de dizer que me senti realmente segura quando ele segurou minha mão e disse baixinho ‘sorry’. Não pude deixar de sorrir, mesmo com a dor que sentia com aquela máquina queimando minha pele. Uma lágrima desceu pelo canto interno dos meus olhos ao vê-lo me olhando com tanta ternura e paz, de um jeito que eu nunca vi, me senti a mulher mais sortuda do mundo por tê-lo comigo. Disse ‘eu te amo’ baixinho, da forma mais informal de se dizer, mas a mais bonita no meu ponto de vista.

“Está pronta.” Anunciou o tatuador depois de uma coleção infinita de minutos dolorosos que passamos sentados naquelas cadeiras que mais parecem de dentista. Olhei para o meu pulso: estava avermelhado e a parte da tatuagem ficou ressaltada. Dois Ss. Sasuke e Sakura. Infinito. Eu sempre o carregaria comigo. Ele sempre me carregaria com ele, não importava onde ele fosse.

Notas finais
Capítulo revisado: 21/05/2015