Um Lugar Para Ficar
41 Capítulo 41 – Invasão
Notas iniciais
Rosalie despertou ainda muito cedo, recordando-se brevemente do sonho que tivera com a avó já falecida, Jocelyn. Não levou muito tempo, estava pensando em Emmett, em como cuidou para que deixasse de pensar em de tudo aquilo, ainda que por alguns minutos. Uma sensação gostosa lhe percorreu todo o corpo. Jamais imaginou que pudesse ser tão bom estar nos braços de alguém. Um homem que a fizesse sentir-se amada. De valor inestimável.
As marcas em seu corpo já não eram motivos para vergonha quando estava nos braços de Emmett. Ele lhe provou por meio de gestos e palavras que não desejava apenas seu corpo. Ele a amava e a deseja de todas as maneiras que se pode amar alguém e querer alguém.
Ela não tinha dúvidas, o queria naquele momento. Desejava com impaciência o calor e as carícias das mãos grandes e calejadas. Da língua dele mapeando toda sua pele causando calor e calafrios.
Deixou o receio e a inibição de lado, procurando por ele na cama, com carícias que iam do pescoço ao peito musculoso, abdômen e baixo ventre, refazendo todo o caminho de volta numa lentidão quase dolorosa.
Emmett reagiu às carícias abrindo um sorriso ainda de olhos fechados. Pôs a mão na dela e a guiou de volta ao baixo ventre, gostando de como aquela manhã estava começando.
— Parece que essa moça bonita acordou cheia de energia... – murmurou. E quando abriu os olhos, sentia o corpo queimar com o mesmo desejo que a consumia. Sentiu os dedos finos de Rosalie lhe acariciar as partes íntimas, apertando os olhos diante o prazer que aquilo lhe dava. Apenas um instante depois a segurou pelos ombros, levando-a se deitar de costas na bagunça de lençóis e travesseiros. Beijando-a no maxilar, pescoço e colo. Fazendo-a sorrir ao dizer que deveria acordá-lo assim todos os dias.
Acabaram por fazer amor, preguiçosamente, enquanto o sol se erguia no céu, logo atrás das montanhas. A vida recomeçando na fazenda. O som dos animais. Um trator em movimento não muito longe dali. Passos no corredor. Uma porta batendo.
[...]
Três dias se passaram. E nada de sonhos com a avó para Rosalie. Emmett voltou a ter uma de suas noites ruins e foi amparado e confortado por Rosalie, que em momento algum desejou sair de seu lado. Ele acordou pela amanhã abatido, mesmo assim, não deixou que isso o impedisse de estar ao lado dela.
A levou ao trabalho naquela manhã de quinta-feira. As crianças, a escola. Aproveitou, depois disso, para ir ao rancho de um conhecido, ver alguns cavalos em reabilitação. Nas duas primeiras horas longe de Rosalie, lhe enviou uma mensagem de texto querendo saber como estava se sentindo, uma vez que, antes de saírem da fazenda, ela havia se sentido mal. Havia sido algo rápido e passageiro no qual ela não dera muita importância. A resposta foi rápida e positiva, seguida de carinhas felizes. Emmett desejou que tivesse um bom dia. E foi exatamente o que aconteceu, até às 14h15min quando ela atendeu a um telefonema, no aparelho fixo, avisando que um homem armado havia acabado de invadir o prédio da escola primária onde seus filhos e sobrinhos estudavam.
O susto foi grande. O telefone caiu de suas mãos. Esme pegou o aparelho e encostou ao ouvido. Não demorou havia ficado mudo.
Voltando de uma aula ar livre, Kate se viu obrigada a esconder seus alunos no armário do zelador, uma sala pequena onde as crianças ficaram espremidas, sentindo de perto a respiração umas das outras. Ela se ariscou indo à sala de aula, depois de trancá-los, numa tentativa de chegar ao telefone celular e pedir por ajuda. Escondera-se embaixo da mesa enquanto tentava ligar para o marido na delegacia. O medo do que pudesse acontecer àquelas crianças, incluindo seus filhos e sobrinhos, a impediu de falar com clareza. Seus pequenos estavam com outras professoras, em classes diferentes, e ela não fazia ideia de como estavam.
Seus alunos estavam apavorados, mas, diante a situação, compreendiam que precisavam permanecer em silêncio e no local onde ela os havia deixado. Era o mais seguro no momento.
Garrett garantiu que uma equipe de policiais estava a caminho. Que ele e o xerife estavam deixando a delegacia naquele momento, também.
Na livraria, Esme correu para ligar a tevê, que quase nunca era ligada, atrás do balcão. Rosalie estava tremendo, e quase não se segurou de pé quando viu no noticiário local a escola onde seus filhos, sobrinhos e cunhada estavam presos. O prédio estava cercado por carros de polícia e homens fardados.
Havia repórteres, familiares de alunos e funcionários, aguardando por notícias nas proximidades da escola. Barreiras montadas pela polícia impediam que se aproximassem do prédio.
Subitamente, Rosalie encobriu a boca com as mãos, aterrorizada. Esme a acolheu num abraço amigo, meio de lado. Não era a escola de Alice, no entanto, era impossível não se pôr no lugar da amiga e de tantos outros familiares de crianças e funcionários que estavam todos os dias naquela instituição.
Rosalie fungou. – Eu preciso ir até lá... – deixou escapar no desespero. Apesar de não poder fazer nada, como tantas outas mães na mesma situação.
Esme sabia que não podia mantê-la na livraria diante uma situação de tamanha gravidade, assim como também não podia deixá-la sozinha num momento como esse.
— É claro. E eu vou com você.
Mesmo ainda enquanto Esme falava, Rosalie correu para pegar a bolsa onde estava o celular.
Juntas apressaram-se em fechar a livraria, entrar no carro de Esme e partirem rumo às mediações do prédio da escola primária. O trajeto foi rápido, ainda que parecesse uma eternidade. Esme conseguiu estacionar somente a duas quadras do prédio. Havia muita gente no local, algumas correndo para longe levando crianças assustadas. Outras, tentando chegar mais perto, buscando descobrir como estavam seus entes queridos.
O pavor de que algo acontecesse aos filhos e sobrinhos vinha consumindo Rosalie a cada batida de seu coração.
Aproximaram-se um pouco mais, a pé. Ali havia mais policiais. Em momento algum Esme deixou de ampará-la. A amiga não parecia nada bem, e Esme temia que não suportasse tanta agonia.
Rosalie avistou Garrett ao lado do xerife, então gritou por ele.
— Garrett!
O marido de Kate seguiu até ela a passos largos. Ao alcançá-la pôs as mãos em seus cotovelos, com ela ainda movendo os braços em sua direção.
— Vai ficar tudo bem – ele tentou tranquilizá-la. – Estamos todos buscando a melhor forma de resolver isso, preservando a segurança das crianças e funcionários, em primeiro lugar.
— Meus filhos estão lá dentro... – suplicou.
— Eu sei como se sente, Rose. Minha mulher e meus dois filhos também estão lá dentro.
Rosalie meneou a cabeça em negação, não por achar que ele não a compreendesse, mas por não querer aceitar que aquilo estava acontecendo.
— São quantos? Quantos homens invadiram a escola? – pediu, mesmo com medo do que pudesse ouvir.
— Das poucas pessoas que conseguiram sair, até agora, algumas disseram não saber. Outras disseram ter visto apenas um. Não temos certezas de nada ainda.
Havia um peso muito forte no peito de Rosalie. O coração batia rápido demais, não conseguia respirar direito. Sentia-se nauseada. A agitação ao redor era intensa.
Garrett pediu que se sentasse no banco da frente da viatura, para tentar se acalmar. Apesar de ela se recusar inicialmente, com ajuda de Esme, conseguiu convencê-la.
Assim que sentou no banco diante o volante, na viatura do xerife, percebeu o celular tocando na bolsa. O cheiro de fumaça de cigarros era forte dentro do carro. Suas mãos estavam trêmulas, e ela teve dificuldades em abrir o zíper da bolsa. Quase derrubou o celular ao pegá-lo. Deslizou o dedo pela tela, levando-o imediatamente ao ouvido.
— Emmett – soltou, se sentindo viva apenas em poder falar com ele. – Emmett, que bom que é você... – disparou. – Aconteceu uma coisa horrível...
— Eu já estou sabendo... Só fique calma, amor. Mantenha a calma.
— Emmett... – ela lamentou, angustiada.
— Eu sei... Só, por favor, tente ficar calma.
— As crianças... Sua irmã...
— Rose, me escute – ele a interrompeu. – Amor, tente se acalmar. Diga-me, com quem você está agora?
Rosalie olhou em volta como não lembrasse.
— Esme – disse, por fim. – Estou com a Esme.
— Ok, me deixe falar com ela por um momento.
Ainda que não desejasse, com mãos trêmulas, entregou o celular a Esme, que imediatamente começou a falar.
— Estou aqui, Emmett.
— Esme, por favor, não a deixe sozinha. Ela está muito nervosa.
— Não se preocupe. Ficarei o tempo todo ao lado dela.
— Eu vou tentar chagar aí o mais rápido possível. Pode me dizer exatamente onde estão agora, assim saberei onde procurar?
— Fechamos a livraria logo que ficamos sabendo do que estava acontecendo. Estamos perto da escola agora. Acabamos de falar com Garrett...
— Escute Esme. Preciso que me faça mais um favor.
— O que precisar.
— Preciso que ligue na fazenda e tente descobrir como a vovó está. Eu não posso perder tempo, Esme. Se dermos sorte, ela não está sabendo de nada ainda. Peça a Merci que mantenha a vovó longe da tevê e do noticiário. Ela não acessa internet, com isso não temos de nos preocupar. Eu vou pegar a estrada agora.
— Não se preocupe com isso, Emmett. Eu vou ligar na fazenda agora mesmo.
— Obrigado, Esme. Passa-me para Rose de novo, por favor.
Rosalie recebeu o telefone, murmurando:
— Emmett...
— Encontro você em alguns minutos, Raio de Sol. Tente se acalmar. Agora eu preciso desligar.
O telefone ficou mudo. Rosalie se recusou a afastá-lo do ouvido, permanecendo assim por mais um tempo. Esme sacou o próprio aparelho celular da bolsa, buscou o número da fazenda e fez a ligação. Conversou brevemente com Merci. Por sorte, Lena ainda não sabia de nada. A babá de Amy garantiu que se encarregaria de mantê-la longe do noticiário.
Quando finalizou a ligação, percebeu um grupo de crianças deixando o interior do prédio na companhia de uma professora, todas apressadas, seguindo uma atrás da outra. As crianças estavam assustadas. Algumas choravam. Policiais as levaram ao encontro de familiares. Por sorte nenhuma delas estava ferida.
Sem pensar, Rosalie saltou do carro do xerife, na esperança de encontrar seus filhos naquele grupo de crianças. Esme notou como ficou derrotada ao perceber que nenhum deles estava ali. Passou o braço em volta dos ombros dela, amparando-a num momento tão angustiante.
A professora falou com alguns dos policias sobre ter visto apenas um homem armado. Pelo que sabia, até o momento não havia feito nenhum disparo. Estava muito nervosa, por isso não soube dar mais detalhes. Ela recebeu um rápido atendimento numa das ambulâncias estacionada nas proximidades do prédio e foi liberada.
Esme notou que Garrett também tinha se aproximado do grupo em busca dos filhos e de alguma notícia da esposa. Reconheceu nele a preocupação crescendo com a falta de notícias.
Foi quando Rosalie se afastou atordoada, olhando pros lados. Desejando feito louca que as crianças aparecessem em sua frente.
— Rico. Noah... – murmurou. Deu meia-volta, tornando a sentar no bando da frente da viatura do xerife. O telefone o tempo todo preso entre os dedos.
Alguns minutos se passaram. Um grupo de policiais armados finalmente entrou no prédio.
O celular de Esme tocou, e, por um instante, Rosalie imaginou que fosse o dela. Levando imediatamente ao ouvido, percebendo então que estava mudo. Se dando conta que, de pé ao lado da porta aberta da viatura, Esme falava com Alice no celular.
— Nós fechamos a loja – dizia ela. – Estamos nas proximidades da escola aguardando por notícias. Sim, as crianças continuam lá dentro – houve uma pausa e ela voltou a falar: – Vá para casa. Não, não é para vir para cá. Não. Alice, isso é uma ordem. Eu quero você em casa. Não, sua madrinha não sabe de nada ainda. E não deve saber até que as crianças e Kate estejam em segurança. Vá para casa, e não se atreva a telefonar pra ela para contar nada. Obedeça-me – alertou, finalizando a ligação. Rosalie olhava para ela, nos olhos o sinal claro da angustia e do medo.
— Onde está Alice? – pediu.
— A escola os liberou mais cedo.
— E ela quis vir para cá?
— Sim. Mas já a despachei para casa.
— Fez bem. Aqui não é seguro, até que tudo se resolva. Você deveria...
— Não termine de dizer o que está pensando. Eu não vou te deixar sozinha, Rose – Esme prometeu ao lhe segurar as mãos. – Não vou a lugar algum.
— Eu estou apavorada, Esme... Sentindo-me impotente. Não é justo que depois de tudo o que passamos tenhamos de enfrentar mais isso. Embrulha-me o estômago só em pensar nos meninos lá dentro, assustados, chamando por mim.
Não muito longe dali, Emmett deixou a caminhonete estacionada na primeira vaga que encontrou e saiu correndo, desviando de pessoas e barreiras posicionadas no caminho, até chegar às proximidades do prédio cercado de policiais.
A feição preocupada, o olhar aflito. A respiração pesada por conta da correria. Olhando em volta, avistou Garrett ao lado do xerife. Não hesitou em se aproximar buscando por informações.
Agarrou o braço do cunhado subitamente com a mão. Garrett se virou de imediato. Enxergando nele o mesmo medo e preocupação que estava sentido.
— Minha irmã e as crianças? – soltou Emmett.
Garrett meneou a cabeça, decepcionado.
— Continuam lá dentro. Não sabemos ao certo o que está acontecendo. Um grupo de policiais acabou de entrar no prédio. Das pessoas que saíram até agora, todas disseram ter visto apenas um homem armado, mas pode ser que haja mais alguém.
Emmett olhou em volta.
— A Rose? Onde ela está? Esme me disse que estariam aqui perto.
Garrett olhou em direção a viatura parada. – Ela está lá – disse por fim.
Emmett se deslocou até a viatura do xerife.
— Rose? Rose!
Ao ouvir a voz dele, Rosalie saiu do carro.
— Emmett! – Ela olhou pros lados, buscando a presença dele. – Emmett. Emmett.
— Estou aqui, amor – ouviu-o dizer.
Quando o avistou, correu para os braços dele, sentindo-se fortalecida com sua presença. Seus corpos se chocaram com o desespero do reencontro. Ele a apertou em seus braços com afeto.
— As crianças e a sua irmã ainda estão lá dentro... – murmurou contra a camisa de botões que ele usava.
Emmett acariciou os cabelos dela, e também o rosto. Beijou-a brevemente na testa antes de tornar abraçá-la.
— Me perdoa – ele pediu. – Eu vim o mais rápido que pude. – Os lábios roçando os dela. Olhando sobre o alto da cabeça de Rosalie, avistou Esme. – A vovó... ela?...
— Ela está bem – Esme lhe contou. – Não está sabendo de nada ainda. Merci está cuidando de mantê-la longe das notícias.
Houve uma agitação maior ao redor deles. Dois novos grupos de crianças estavam deixando o prédio com seus respectivos professores. A diretora e outra funcionária da instituição.
As crianças, muito assustadas, eram levadas em fila indiana pelo estacionamento. À medida que os familiares se apresentavam elas eram liberadas.
Emmett, Rosalie, Esme e Garrett se encheram de esperanças indo até lá, imaginando encontrar Kate e as crianças. Infelizmente nenhum deles estava naquele grupo.
Emmett tornou a abraçá-la. Angustia e medo não os deixava em paz. Era sufocante.
Após aquele grupo, levou apenas um minuto até Kate aparecer na porta do prédio, com cabelos bagunçados, metade preso num rabo de cavalo, metade encobrindo o rosto pálido. Trazia pela mão, acompanhada de um policial, um grupo de crianças igualmente assustadas. Seus alunos. Assim que as crianças estavam em segurança, as deixou para ir ao encontro do marido.
Garrett se apressou de braços abertos em recebê-la.
— Kate! Meu Deus, Kate – ele dizia ao tomá-la nos braços. – Graças a Deus você está bem. – Ela se agarrou a ele com força. Sentindo-se em casa. Mas tudo isso durou menos que um segundo.
— Oh meu Deus, Garrett... foi horrível. Onde estão as crianças? – Ela olhou em volta. –Abby, Logan, Rico e Noah? Onde eles estão?
— Eles ainda não saíram...
Ela voltou a abraçá-lo, e dessa vez estava chorando. Agora que já não tinha de parecer forte e confiante para os alunos, Kate se permitiu desmoronar. Permitindo que todo pavor e adrenalina a deixassem em forma de lágrimas.
Esme, Rosalie e Emmett desviaram das pessoas, tentando chegar mais perto deles.
— Kate? – Emmett chamou, com a mão de Rosalie na sua. Kate se afastou do marido para chorar nos braços do irmão.
— As crianças ainda estão lá dentro... – soluçou, molhando o tecido da camisa dele com suas lágrimas. Rosalie abraçou a cunhada, ficando os três assim por um instante. Se fortalecendo no apoio um do outro.
— Onde você estava? – Emmett pediu momentos depois. – Chegou ver o cara?
— Foi tudo muito assustador... – confessou Kate. – Estávamos voltando de uma aula ao ar livre. As crianças estavam animadas, contando histórias, quando de repente ouvimos que o prédio havia sido invadido. Alguns conseguiram sair antes da chegada da polícia, mas a maioria não. Eu fiz o que pude para proteger meus alunos. Eu juro que fiz, Emmett. Eu os escondi, assim como você fez comigo naquela noite tantos anos atrás.
Um breve vislumbre da noite a qual tinha pesadelos até hoje, passou na mente de Emmett e ele se esforçou para não se afundar nas lembranças. Isso acabaria com ele, e Rosalie e Kate precisava de toda sua força agora.
Rosalie lhe acariciou o ombro, sabendo que a lembrança o fazia mal.
— Ele esteve na minha classe – Kate revelou com pavor. – Não cheguei ver seu rosto. Estava escondida debaixo da mesa, tentando ligar para Garrett. Vi somente seus pés. Os sapatos estavam sujos de terra. Naquele momento, meu coração martelava tão forte que acreditei que ele pudesse ouvir. Tive medo que encontrasse as crianças no armário do zelador... – Houve uma pausa e também um suspiro antes de ela voltar a falar: – Meu Deus, foi assustador. Acredito que tenha pensado que a sala estivesse vazia, porque logo voltou para o corredor. Nesse momento ouvi gritos. Não sei quanto tempo ficamos assim, escondidos. Só sei que pareceu uma vida. Até que finalmente um policial entrou na sala. Naquele momento pensei que o atirador tivesse voltado, prendi a respiração na mesma hora. Então vi a farda, e meu corpo inteiro reagiu com adrenalina e esperança. Queria correr dali, pegar as crianças e trazê-las para segurança. E foi o que fiz, corri ao lado dele até o armário do zelador e recuperei todos os meus alunos. Apesar do medo, eles estavam todos bem.
Emmett acariciou os cabelos da irmã com os dedos.
— Agora, eu não sei nada de meus filhos e meus sobrinhos... – Ela estremeceu. Emmett a envolveu nos braços com carinho, lhe beijando o alto da cabeça. Pensando, é claro que ela tentaria proteger os alunos, da mesma forma que ele a protegeu quando criança, trancando-a no pequeno e velho guarda-roupa de um quarto de hotel de beira de estrada.
— Estou orgulhoso de você – Emmett contou a ela. E Kate estava novamente entregue as lágrimas.
Rosalie e a cunhada ficaram abraçadas por mais um tempo, compartilhando do mesmo medo e angustia até um novo grupo de crianças deixarem o prédio. Dessa vez, Logan estava entre os primeiros a saírem.
— Mamãe! Papai! – o menino gritou ao vê-los. Lançando-se nos braços do pai quando o encontrou.
Garrett segurou o filho um tanto desajeitado. Kate abraçou Logan ainda nos braços do pai, e o menino passou o braço em volta do pescoço dela. Estava assustado. Kate beijou na cabeça dele e nas costas mais de uma vez.
Logan olhou para baixo e a pergunta veio rapidamente.
— Cadê a minha irmã?
— Ela ainda está lá dentro – Garrett contou.
Kate olhou em direção ao prédio no momento em que um novo grupo de crianças e funcionários eram escoltados para o lado de fora.
— Kate – Rosalie gritou ao avistar Abby no meio das outras crianças. A menina chorava muito.
A cunhada abriu caminho chegando perto da filha. Agarrou-a com tanto desespero que a criança lembrou uma boneca de pano entregue a seus apertos.
— Meu amor – murmurou nos cabelos da menina. – Minha vida. Minha bonequinha. Meu bebê – Beijou todo o rosto da menina. Então a levou até Garrett, voltando a se abraçar com o marido e o filho. Os quatro juntinhos. Abby ainda chorava. Os olhos pareciam assustados e vermelhos e tanto chorar. – Agora você está com o papai e a mamãe – disse. – Os dois estão com o papai e a mamãe – reforçou, acariciando os cabelos de Logan.
Rosalie não queria estragar o que eles estavam sentindo. Por isso virou-se de costas, deixando as lágrimas lhe molharem o rosto, pensando em seus próprios filhos ainda lá dentro.
Um minuto depois, Logan estava de pé ao lado do pai.
— Eu o vi – contou o menino. E toda atenção voltou-se para ele. – Ele tinha uma arma na cintura e outra na mão. E ele falou com a gente.
— O que ele disse? – Emmett se precipitou, fazendo a pergunta que Garrett pensara em fazer.
— Ele perguntou se havia algum Enrico e Noah na classe, e mandou que levantasse a mão. Apenas James Noah levantou. O homem ficou irritado, soltou um palavrão, e sacudiu a arma ao deixar a sala.
— Meu Deus – Kate lamentou tendo a visão do filho tão perto do provável atirador sem nenhuma proteção.
— Eu também o vi – Abby revelou. – E ele perguntou a mesma coisa na minha turma.
Naquele momento, a consciência do que estava acontecendo tomou conta de Rosalie. Ela então olhou no rosto de Emmett, o pavor escancarado nos olhos.
— Não – Emmett lhe disse, como que lesse seus pensamentos. – Não pense nisso. Royce não está aqui.
Enquanto eles falavam, a professora de Enrico deixou o prédio com os alunos. Imediatamente, Rosalie procurou pelo filho.
— Enrico? – ela chamou. Os olhos cheios de lágrimas, sabendo que não o encontraria entre os colegas. – Ele não está Emmett. Enrico não está com eles. Não está com eles.
— Eu sinto muito – o pedido contido de desculpas veio da senhorita Bridget, professora de Enrico. As pernas de Rosalie fraquejaram. – O homem com a arma entrou na classe e o levou. Ele o avistou assim que abriu a porta. Ameaçou a todos nós com a arma. Enrico estava com muito medo, vi nos olhinhos dele quando olhou o invasor.
A professora de Noah deixou o prédio indo imediatamente falar com eles.
Rosalie segurou forte o braço de Emmett antevendo o que o ela diria.
— O homem – começou a senhora Parker. – O que estava armado e invadiu a escola, entrou na sala de aula e o levou. Levou seu garotinho... eu sinto muito. Ele estava apavorado. Eu sinto muito mesmo – a senhora Parker soluçou. – Eu queria ter feito algo para impedir, mas não fui capaz. Ele apontou a arma para todos nós e disse que atiraria. Naoh estava gritando: “Mãezinha, mãezinha, ele está aqui”.
— Como ele era? – aquela altura Rosalie já não duvidava de quem fosse o homem armado que invadiu a escola onde seus filhos estudavam, mas a pergunta saiu de sua boca mesmo assim.
A senhorita Bridget respondeu antes mesmo que a senhora Parker pudesse abrir a boca novamente.
— Eu não queria ter notado isso, mas, ele lembrava o Enrico. A mesma cor de cabelos. A mesma cor dos olhos, a diferença era que os dele eram cheios de ódio. Enrico ficou paralisado. E eu posso apostar que foi no momento em que o reconheceu.
A senhora Parker voltou a falar.
— Além de ficar falando sempre a mesma coisa. “Ele está aqui, ele está aqui”, Noah fez xixi na roupa. Quando o homem o pegou, já trazia Enrico pelo braço. E com a mesma mão que segurava a arma, o prendeu embaixo do braço. O pavor nos olhinhos deles foi uma das coisas mais difíceis que vi em toda minha vida como professora nesta escola.
— É ele – Rosalie lançou a Emmett. E ele podia jurar que o pavor nos olhos dela era o mesmo que aquelas duas mulheres diziam ter visto nos olhos das crianças quando se viram sozinhas com Royce carregando uma arma. – Ele nos encontrou... – doeu em dobro ter de dizer essa frase em voz volta. – Ele nos encontrou. Meu Deu do céu... Ele...
Kate segurou no braço de Rosalie, se solidarizando.
À medida que Rosalie falava, Emmett sentia a adrenalina crescendo, assim como o sentimento de culpa. Algo mais forte o puxou a algumas lembranças adormecidas. De volta ao passado, com idade entre cinco a seis anos.
O pai agredindo sua mãe com socos e pontapés, gritando palavras que feriam tanto quanto seus golpes, após tê-lo machucado com uma grossa cinta. Aimee ficou largada no chão, entregue a própria sorte, enquanto Maximus pegava as chaves do carro e da casa, e os deixavam sozinhos, trancados, em seguida. Ao menos teriam alguns minutos de paz até ele retornar.
Emmett cruzou a sala ao encontro da mãe cheia de hematomas e sangue no rosto. Dobrando-se de joelhos no chão ao lado dela, ele a abraçou. Lágrimas lhe molhavam o rosto. O corpo estava trêmulo. E uma dor profunda judiava de seu coração.
A mãe começou a chorar. Emmett olhou no rosto dela; o belo rosto de traços sutis transformado pela agressão que sofrera. O olho esquerdo inchado, não conseguia sequer abri-lo. A dor e os ferimentos sombreando sua cor tão bela. O nariz sangrando.
Aquele menininho, que sofria por todos eles, estendeu a mão tocando sutilmente no rosto machucado da mãe.
— Mamãe... – ele soluçou.
Aimee abriu o olho menos afetado, buscando enxergar o filho, mesmo com as lágrimas e a dor enevoando sua imagem.
— Vai ficar tudo bem, meu menino – ela se esforçou a falar, a voz soando rouca. Fraca. Ela ergueu o braço esforçando-se para tocar o braço do filho, os dedos manchados de sangue. – Você está bem? – tentou mais uma vez. A garganta estava seca e ela sentia o gosto característico de sangue na boca.
Emmett anuiu, tentando reconfortá-la de alguma maneira. Mas não era verdade, ele não estava bem, sentia os próprios machucados arderem na carne.
— Preciso que me ajude a levantar. Consegue fazer isso, querido?
Emmett tornou a anuir, os olhos brilhando com lágrimas. Fazendo um esforço enorme, ambos sentindo dores pelo corpo, gemendo por conta do esforço, conseguiram chegar até o sofá onde o estofado era queimado por cinzas de cigarro.
— Onde está sua irmã? – Aimee tentou olhar em volta, mesmo com a visão comprometida, procurando pela filha caçula. – Eu não consigo vê-la. Onde ela está? –soluçou ainda que se esforçasse para não fazer isso. – Onde está sua irmãzinha, filho?
— Fique calma, mamãe, eu vou encontrá-la.
Depois de deixar a mãe no sofá, Emmett correu pela sala, chamando a irmã pelo nome enquanto a procurava. A encontrou escondida atrás as cortina. Kate tinha entre três e quarto anos. Era miudinha. Suas pernas alvas estavam marcadas por manchas escuras causadas por uma agressão no dia anterior.
Emmett a pegou pela mão. Kate estava tremendo, e havia feito xixi na roupa. Ela subiu no sofá, debruçando-se sobre o corpo dolorido da mãe. Aimee sentiu o alívio no coração por ter os dois filhos ao seu lado outra vez. Os três se abraçaram, as crianças ficando com manchas do sangue dela nas roupas e também no rosto.
— Me perdoa... Me perdoa... – Aimee sussurrou aos dois.
Naquela mesma noite, Emmett limpou os ferimentos da mãe, lhe trouxe o comprimido que ela pediu para as dores e a ajudou erguer a cabeça da almofada puída para engolir o líquido no copo. Banhou a irmãzinha e a vestiu com roupas limpas.
Depois de um tempo, mesmo estando tão machucada, Aimee levantou do sofá e foi à cozinha preparar o leite das crianças. Era tudo o que tinha, um pouco de leite no fundo do garrafão na geladeira. Serviu o filho mais velho no copo com o canudinho e a filha caçula, na mamadeira. Dormiu de estomago vazio, porque para ela mesma não restou o que comer.
Em outra ocasião, Emmett dormia no quarto com a irmã, quando o barulho o despertou. Chegando à sala encontrou o pai arrastando a mãe pelos cabelos. Ao tentar ajudá-la, foi golpeado no peito, caindo de costas, tendo um pouco de dificuldades em respirar. Desesperada, Aimee gritou que fosse para o quarto. Ele não queria ir, mas, precisava fazer isso por ela e pela a irmã. Assim, o garotinho vestindo pijama, voltou ao quarto correndo. Ao trancar a porta com força, acordou a irmã menor.
— Mamãe – Kate choramingou. – O irmão se apressou indo até a cama, abraçando-a apertado ao subir no colchão. Cantarolou baixinho, entre um soluço e outro, ouvindo as agressões que vinham do outro lado da porta fechada, uma canção infantil que a mãe costumava cantarolar para eles. Quando tudo passou e o silêncio se instalou, ele saiu do quarto. Kate estava novamente dormindo.
Desceu as escadas pisando levemente no chão, o coração martelando no peito, temendo encontrar Maximus no caminho. Mas ele havia saído. Aquele garotinho encontrou a mãe sentada no chão ao lado da escada. Marcas de agressão novamente em seu corpo. Dessa vez, ela segurava uma mecha dos cabelos longos e louros entre os dedos, e parecia não acreditar no que via. Maximus havia arrancado um chumaço de seus cabelos com puxões.
Ao ver o menino, assustado olhando para ela, Aimee tentou em vão limpar as lágrimas no rosto.
Emmett chegou mais perto.
— Vai crescer de novo, mamãe – ele murmurou, com lágrimas nos olhos, estendo a mão para acariciar o couro cabeludo da mãe, o local afetado. Com mãozinhas gentis, lhe acariciou todo o cabelo e também o rosto marcado. – Você ainda é muito bonita.
Aimee levou a mão ao rosto do filho, fazendo um carinho.
— Meu bebê. Amor de minha vida. Eu te amo, filho. – Os dois se abraçaram. – Vai chegar o dia que você será um homem crescido... Vai se casar... E quando isso acontecer vai tratá-la com muito carinho e respeito. Vai ser bom para ela. Vai fazê-la se sentir bela e especial, eu sei que vai.
O menino deixou as lágrimas molharem o rosto, depositando um beijo no rosto da mãe.
— Eu vou cuidar de você, mamãe, e também da minha irmã.
Aimee chorou se deixando levar pela dor física e psicológica.
Numa outra lembrança, eles estavam trancados no porão. Maximus os tinha deixado lá há dois dias. O mesmo tempo que ele não aparecia em casa. As crianças estavam impacientes, Aimee se esforçou para distrai-los. Ela montou uma barraca com cobertas e travesseiros deixados lá embaixo, criou um teatro com fantoches de meias velhas. Cantarolou para eles. Os três se divertiram com aquilo que estava ao alcance. Vê-los sorrir era o maior presente que recebia naqueles dias terríveis, sendo prisioneira do homem que um dia acreditou a amasse.
Contou histórias e as duas crianças ouviram com atenção. Ela fez cocegas em suas barrigas e as duas rolaram de rir no tapete velho que cheirava a mofo. Mas aí... aí uma porta bateu no andar logo acima do porão. As crianças pararam de rir e olharam para ela, medo escancarado em seus olhinhos, e tudo o que Aimee pôde fazer foi trazê-los para debaixo de seus braços. Desejando que fossem fortes mais uma vez. O inferno estava para recomeçar. Ele estava de volta.
Depois de muito tempo vivendo como prisioneiros dentro da própria casa, de tanta dor e sofrimento, eles conseguiram, enfim, coragem e uma brecha para escapar.
— Estou com medo, mamãe... – Emmett lhe confessou, pouco antes de eles escaparem.
Aimee terminou de pôr a mochila nas costas do menino. Em seguida, pôs as mãos trêmulas nos ombros dele.
— Vai ficar tudo bem, querido – ela lhe disse. – Nós vamos conseguir. – Mas não ficou tudo bem. Eles não conseguiram ficar livres por muito tempo. Maximus os encontrou. E o que deveria ser o recomeço para ela, acabou se tornando o fim.
[...]
Era difícil ficar longe do passado quando ele estava tão perto, se repetindo na história de Rosalie e de suas crianças.
— Ah meu Deus! Ele vai levá-los – alguém falou atrás das costas de Emmett. E o som agonizante que Rosalie deixou escapar o arrastou para fora das lembranças. Reconheceu imediatamente a dor e o medo estampados nos olhos dela, porque ele já tinha presenciado muitas vezes antes, no presente e no passado.
— Ele nos encontrou – ela se alterou. – Ele está aqui... E vai machucá-los. Ele vai machucá-los.
— Não... – Kate murmurou. Em seguida olhou no rosto do irmão como que buscasse uma solução. – Como foi que ele chegou aqui? – pediu.
— Ele sabia que dessa maneira seria mais fácil. Estando com as crianças, eu ficaria sem saída.
— Não – dessa vez foi Emmett quem alertou.
— Royce sabia que eu iria aonde quer que meus filhos estivessem, sem causar problemas.
— Não – Emmett tornou a dizer.
— Eu preciso ir até lá. É a única maneira de ele parar.
— Você não vai fazer isso – Emmett impôs.
— Royce está fazendo meus filhos reféns. Não posso ficar aqui parada. Eles estão com medo, precisam de mim. Ele não vai parar até que eu vá ao encontro dele.
Emmett segurou firme no braço dela.
— Eu vou. E prometo devolver os dois a você.
— Como? – ela questionou um pouco mais alto do que realmente pretendia.
A essa altura restavam apenas os policiais dentro do prédio procurando por Royce e as duas crianças.
— Darei um jeito – Emmett concluiu. – Só não permitirei que ele a tire de mim.
Rosalie olhou nos olhos dele com tristeza infinita. Emmett sentiu um frio estranho no coração reagindo a aquele olhar.
— Eu sinto muito... – Rosalie murmurou. Ela se desvencilhou das mãos dele, correndo, decidida, para dentro do prédio, desviando com dificuldade de um dos policiais que tentou impedir sua entrada.
— Rose? – Emmett gritou. A mão fechada em punho acertou o vazio, vendo-a desaparecer através da porta larga de vidro do prédio, disposta a tudo para salvar os filhos da maldade do próprio pai.
— Meu Deus, Emmett... – Kate lamentou num fio de voz, em algum lugar perto de onde ele estava. – Ele vai matá-la...
Emmett teve um vago flashback de sua infância. A pior memória de todas; o pai matando sua mãe diante de seus olhos, algum tempo depois da fuga. Aquela memória acabava com ele. Ele precisou de toda força, tirada do amor por Rosalie e pelas crianças, para não se deixar afundar nela. Ele tinha de estar bem para mantê-los bem. Voltando a si, respirou como tivesse acabado de sair de uma batalha física, sabia exatamente o que fazer.
A irmã reconheceu no rosto dele a decisão tomada.
— Você não vai fazer isso – Kate exigiu, amedrontada. Olhou no fundo dos olhos dele, e, naquele instante, soube que não importava o que dissesse, Emmett iria buscá-los. Mesmo que isso custasse à própria vida.
No fundo, Kate sempre soube, desde o momento em que Emmett apareceu com Rosalie e as crianças na fazenda, numa noite após uma de suas viagens sem destino certo, que essa seria a única decisão dele. Arriscaria tudo para salvá-los.
— Me desculpe – ele pediu. – Não posso perder mais ninguém.
Kate sentiu as lágrimas trilharem seu rosto. Acariciou o rosto do irmão, e fechou os olhos com força.
— Eu sabia que isso iria acontecer... – sussurrou. Mas ela também sabia, como ninguém, que aquela era a chance do irmão encontrar seu próprio perdão. Assim, saiu de seu caminho, se limitando a limpar as próprias lágrimas no rosto.
Emmett lhe lançou um último olhar, que a fez sentir como uma despedida. Em seguida, disparou entre os policiais e algumas das pessoas que ainda estavam por ali. Disposto a tudo para salvar a mulher que ama e aos filhos dela. Disposto a tudo para recuperar sua família. Desviou do bloqueio policial na entrada do prédio e ninguém mais pôde detê-lo.
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