Um Lugar Para Ficar
8 Capítulo 08 – Aqui Queremos Ficar
Notas iniciais
Emmett não soube o que fazer com as mãos depois da quase caricia nos cabelos de Rosalie, de repente pareciam tão fora de lugar, se viu, num instante, enfiando-as nos bolsos do jeans.
Com Rosalie, não foi muito diferente. Ela desviou o olhar concentrando-se apenas na filha, que estava agarrada a suas pernas enquanto brincava.
Tanto ele quanto ela, ao longo da vida, aprenderam apreciar o silêncio. No entanto, nunca antes se viram tão incômodos ao surgimento dele.
Desconfortável, ela brincou com a mão pequenina de Amy, sem mencionar uma só palavra. Emmett pigarreou buscando coragem para falar qualquer coisa.
– Minha avó tem se comportado bem? Digo isso, porque você viu a capacidade que ela tem de fantasiar.
A estranha necessidade de voltar ouvir a voz dela estava o deixando perturbado.
Lembrar-se da avó dele a fez rir. E, muito devagar ergueu a cabeça encontrando o olhar tranquilo dele, brilhando naquele azul cristalino, focado no seu.
– Sua avó é uma mulher incrível. Não tem com quê se preocupar. Ela é o tipo de mulher que desperta admiração da parte de quem a conhecesse. Mesmo que apenas de ouvir falar.
Ela não pôde evitar o encantamento que sentiu ao presenciar as covinhas voltarem às bochechas dele, com a doçura do sorriso de uma criança.
– É. Ela é sim – ele respondeu. O orgulho em seu tom de voz não passou despercebido. – Mas, às vezes, tenho que admitir, ela fala sem pensar. Não quero que você e as crianças, de repente, interprete-a mal e... – Ele, de repente, sentiu o coração ficar inquieto. Mas a voz de Rosalie, outra vez lhe trouxe paz.
– Ei, estamos bem. Acredite. Como nunca antes estivemos.
– Que bom, porque eu não gostaria...
– Mamã – Amy gritou, exigindo atenção da mãe.
Os dois adultos olharam para ela no mesmo instante. Mais uma vez Emmett deixando frases incompletas, e Rosalie com a mente trabalhando sobre o que isso significava.
– Oi, meu amor – ela falou com a filha.
Emmett apreciou a forma suave como sempre falava com cada um dos filhos. Assistiu ela pegar Amy no colo, beijar suas bochechinhas coradas, e depois lhe dá um cheirinho no pescoço.
– Onde estão os garotos? – ele pediu, estranhando o fato de não estarem ao lado da mãe.
– Estão lá dentro. Assistindo a um desenho animado na tevê. Estão tão sossegados que ainda não me procuraram desde que vim pra varanda. Tirando o tempo que estavam na escola, esse foi o maior número de tempo que ficaram longe de mim.
– Que bom. Eu fico feliz que estejam à vontade. Pode não parecer, mas sei como se sentem...
– Não sei o que se passa em sua mente, Emmett. Quase nada sobre seu passado. Mas sei que é uma pessoa boa. Disso não me restam dúvidas. E se meus filhos estão lá dentro, se sentindo em casa, isso é graças a você e a sua família.
– Não... – ele falava quando sentiu a pele do braço receber uma torrente de calor, e um estranho formigamento ao toque da mão delicada de Rosalie, ainda que de leve. E foi exatamente como imaginou que fosse: suave e macia.
– Não fosse por você – ela continuou –, é possível que meus filhos e eu ainda estivéssemos na estrada. Ou até mesmo Royce tivesse nos encontrado.
Emmett trincou o maxilar imaginando o marido violento pondo as mãos nela e nas crianças novamente. Devagar encostou a mão a dela que tocava seu braço. Não pôde evitar o prazer que sentiu. Parecia terem sido feitas para unir-se uma a outra, de todas as formas viáveis.
– Não volte a pensar nisso. O que importa é que estão aqui, seguros agora.
Amy balbuciou algumas palavras em uma linguagem típica de bebês, e Emmett olhou para ela, sorrindo.
– Ah, ia me esquecendo de te perguntar – Rosalie voltou a falar. – Por acaso tem algum lugar aqui onde eu possa comprar fraldas descartáveis pra Amy? Coitadinha, senão me apressar terei que pôr nela fralda comum, o que vai dar um trabalhão.
– Não se preocupe, eu sei exatamente onde comprar. Só tem um problema.
– Qual? – ela pediu, desconfiada.
– É um pouco longe daqui.
– Longe quanto? É preciso ir de carro?
– Ou a cavalo – ele respondeu, com um olhar que lembrava um garoto em um dia de farra.
– Ah. Mas preciso mesmo ir... Pode me levar? Não é nem tanto pela carona, sabe. É que realmente não sei onde fica.
Ele riu um pouco. – Claro. Quando quiser.
– Agora? – sondou, erguendo uma sobrancelha.
Emmett concordou meneando a cabeça, demonstrando menos empolgação do que realmente sentiu.
– A cavalo? – ele arriscou.
Rosalie deixou uma risada nervosa escapar, chamando atenção de quem estivesse por perto. E sem afastar a mão de Amy da sua respondeu:
– Está louco! Eu nunca antes estive tão perto de um bicho desses quanto estive hoje. E olha que foi o bicho lá e eu aqui. – Ela indicou com a mão o lugar onde Emmett saltou do cavalo minutos atrás.
– Tem medo de andar a cavalo?
– Não é exatamente medo. É só que...
– Tudo bem. Eu posso te ensinar montaria, se estiver disposta a aprender claro.
– Por enquanto prefiro a segurança de ter os pés nos chão. E uma carona em certa caminhonete novinha que vi estacionada logo ali. – Ela o viu sorrir. – Mesmo que eu quisesse, não poderia ir a cavalo a lugar algum. Esqueceu que tenho que levar Amy comigo, talvez os meninos também. Mesmo que a tevê esteja mantendo-os ocupados até o horário de Abby e Logan voltarem da escola, não acredito que queiram ficar sem mim por perto.
– Tem razão. A cavalo não é possível. Espera eu tomar um banho e trocar essa roupa? Estou meio suado da cavalgada.
– Não precisa ter pressa – ela garantiu, com um olhar tranquilo, enquanto ele olhava dela para Amy.
– Eu sei. Ainda assim, prometo que serei rápido. Não quero que a Amy fique com a fralda cheia de xixi e corra o risco de ter assaduras.
A cabeça de Rosalie se inclinou para um lado, enquanto pensamentos lhe vinham à mente. Será que de fato esse homem existia? Porque, além de doce e gentil, parecia entender de tão bem crianças.
Emmett caminhou até a porta, e pôs a mão empurrando devagar.
– Senhorita – disse, ao abri-la pra que Rosalie passasse com Amy.
Ela levou na brincadeira, fazendo uma mesura. O viu sorrir enquanto fechava a porta outra vez.
Pensou que ele fosse passar direto para banheiro, mas foi surpreendida ao vê-lo parar pra falar com os meninos na sala.
– Legal esse desenho, não é? – disse.
Enrico e Noah concordaram, e, entusiasmados, começaram a falar o que acontecia com os personagens naquele momento. Algo que Rosalie nunca tinha visto antes, com alguém que não fosse ela. Cada segundo ao lado daquele homem era uma descoberta prazerosa de bondade e afeto.
– Emmett – a avó o chamou, chegando à sala. – Graças a Deus você voltou.
Rosalie o viu passar a mão na cabeça, como um garotinho que sabe ter feito algo errado, ao olhar pra avó.
– Eu estou bem vovó.
– Eu sei meu querido. Mas essa jovem aqui estava em agonia olhando a estrada.
Rosalie sentiu quase que imediatamente as bochechas queimarem. A verdade é que a vergonha lhe atingiu em cheio. Sabia que se pudesse olhar no espelho agora, depararia com as bochechas vermelhas.
As palavras de Lena tiveram efeito contrario em Emmett, despertando esperança e satisfação. Ele não pôde evitar olhar pra Rosalie, e depois as crianças. Seu olhar dizia ser a coisa mais importante e perfeita do mundo, do seu mundo talvez.
– Volto daqui a pouco – ele avisou, virando-se na direção do caminho que levava aos quartos, onde também ficava um dos banheiros.
Ao fundo, Rosalie ouviu o riso dos meninos. Havia acontecido algo no desenho que os fez sorrir.
– Vão sair? – Lena perguntou.
– Vou levar Rose à cidade para comprar fraldas para Amy – ele respondeu, estendendo o tom de voz.
– Mas e o almoço? Não podem sair sem almoçar antes. As crianças devem estar com fome. E eu caprichei em tudo.
– Tudo bem, dona Lena, nós almoçaremos com a senhora antes de ir.
– Oh, que bom, querida. Não quero meus bisnetos andando por aí com fome – resmungou aos sussurros, como que conspirasse. E, então, olhou por sobre o ombro e falou para que Emmett ouvisse. – Eles vão ficar pra almoçar. Então ver se toma banho direito. Lava bem atrás das orelhas.
Rosalie conteve o riso quando esse ameaçou vir à tona, certa de que Emmett havia resmungado algo no corredor.
Lena voltou olhar para Rosalie, e afagou seu ombro. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, saiu pela porta da frente com um sorriso radiante.
Lá estava Rosalie agora, olhando da porta para o corredor, pensando nos dois que a deixaram sozinha com as crianças. Aproveitou e foi falar com os meninos. Sentou-se entre eles no sofá maior, de frente pra grande tevê de plasma.
Os cachorros, Jujuba e Caramelo, estavam deitados ali perto.
Admirou por alguns uns instantes os rostinhos dos garotos, livre da mascara do medo. A paz que isso lhe trouxe não tinha preço. Sorriu consigo mesma. No minuto seguinte, estava beijando o rosto de cada um deles. Noah logo se derreteu ao seu lado, abrindo um sorriso de covinhas iguais ao do homem que estava os ajudando. E foi inevitável não pensar na semelhança que ambos carregavam no sorriso e na cor dos olhos. Podiam facilmente passar por pai e filho.
– Mãezinha – a voz de Noah lhe chamou atenção.
– Mamã – Amy se apressou, não querendo ficar de fora.
– Mamãe ama os três, perdidamente – disse-lhes. O amor brilhava em seus olhos. – Estão gostando de ficar aqui?
– Sim – Enrico foi o primeiro a responder. Seu rostinho tomou um ar radiante. O que não passou despercebido aos olhos da mãe.
– Nunca mais eu quero ir embora daqui – esse foi Noah, inquieto ao lado do irmão.
Amy balbuciou qualquer coisa, e a mãe achou graça. Com a certeza de que, se ela soubesse colocar as palavras, teria dito a mesma coisa.
– Mas essa não é nossa casa, filho – ela disse. –Vamos ficar aqui por pouco tempo.
– Não, mamãe – Enrico se recusou. E sua voz agora soou como um lamento.
A mãe passou a mão em sua testa, afastando os fios castanhos dos olhos.
– Não o que, amor? – ela pediu. Seus dedos ainda brincavam nos cabelos que caiam na testa de Enrico.
– Não quero voltar... Eu gosto daqui.
Rosalie o abraçou juntinho ao corpo, com apenas um braço, e beijou seus cabelos no alto da cabeça.
– Não voltaremos para aquela casa nunca mais – garantiu ao menino, que demonstrou alivio ao suspirar. – Kate vai conseguir um emprego pra mim, e, assim que possível, alugarei uma casinha pra nós quatro vivermos, pertinho daqui.
Noah encostou a mão pequenina no rosto da mãe.
– Não, mãezinha. São cinco pessoas – corrigiu.
– Cinco? Não amor. São quatro: você, Enrico, Amy e a mamãe – ela explicou.
Ele continuou negando com cabeça.
– Não? – a mãe insistiu, sem realmente entender.
– Não – o menino voltou afirmar –, porque faltou o Emmett.
– Não, filho. Essa é a casa dele.
– Então a gente fica aqui.
– É a gente fica aqui – Enrico ajudou o irmão.
– Qui – Amy balbuciou, mesmo não sabendo do que se tratava.
– Oh, meu Deus – Rosalie se viu murmurando, abraçando todos de uma só vez. Começando a pensar no quanto seria difícil afastá-los de Emmett, e daquela família conforme o tempo passasse. E o pior, começava sentir o mesmo.
– Não vamos pensar nisso agora, está bem? – disse por fim. – Até porque nem emprego eu tenho ainda. Quem dirá dinheiro pra sairmos daqui. Até lá, irei ajudá-los no que puder.
Aquela constatação não foi muito bem-vinda. Queria que sua realidade fosse outra. Que não estivesse tão dependente de favores alheio.
Deixou que os meninos se afastassem quando demostraram querer isso.
– Emmett e eu vamos ao mercado comprar fraldas descartáveis pra Amy, depois do almoço. Querem ir também com a mamãe?
– Aham – concordou Enrico.
– E você compra um doce, mãezinha? – Noah pediu.
– Desculpe bebê, mas a mamãe só dinheiro pras coisas realmente importantes.
– Tá.
Rosalie percebeu no rostinho dele a vontade frustrada de comprar o doce. Imediatamente buscou mudar isso.
– Se sobrar dinheiro mamãe compra um pirulito pra cada um.
Noah abriu o sorriso que espera que o fizesse. E nesse momento ela aproveitou para lhe beijar a pontinha do nariz.
– Pili. Pili. Pili – Amy repetiu, batendo as mãozinhas uma na outra.
Os três sorriram, vendo-a empolgada com a ideia de ganhar um pirulito.
No momento que Emmett chegou à sala, eles ainda sorriam.
Ele estava de cabelos molhados e de roupa trocada, ela logo notou. Apreciou o aroma do perfume logo que esse atingiu seu olfato. E gostou do frescor que veio junto com ele.
– E, então, vamos almoçar?! – disse Emmett.
Rosalie concordou com um movimento de cabeça, e as crianças se agitaram ao seu redor.
– Tem macarrão com queijo? – Noah foi logo perguntando.
– Ele ama macarrão com qualquer coisa, não só com queijo – a mãe explicou.
Emmett estendeu a mão pra Noah convidando-o ficar de pé.
– O que acha de irmos até lá descobrir?
Noah olhou pra mãe, buscando sua autorização. – Mãezinha?
– Pode ir filho.
Ele a presenteou com o sorriso de covinhas que a mãe tanto ama, e logo sua mão pequenina se juntou a mão grande de Emmett.
– Não vamos esperar sua avó chegar, Emmett?
– Vamos adiantando, arrumando a mesa. Ela não deve demorar a voltar.
– Se você diz.
Ela ajeitou Amy em um dos braços, e estendeu a outra mão a Enrico, que estava bem ao seu lado.
O menino olhou pra ela, inclinando um pouco o pescoço. – Mamãe?
– Oi, amor?
– A gente vai sair de carro?
– Vamos, sim.
Enrico sorriu parecendo bastante satisfeito. Ela apertou a mão pequena na sua enquanto sacudia um pouco no ar. Foi quando ouviu a voz de Noah, um pouco mais a frente.
– Emmett, a gente vai sair com seu carro pra comprar fralda pra Amy?! Minha mãezinha que falou, quando você foi tomar banho. Ela falou.
– Você gostou do meu carro?
– Gostei – Noah sorriu lembrando-se do carro do novo amigo. – É grande. Muito bonito. Eu vou querer um igualzinho.
Emmett bagunçou os cabelos dele com a outra mão, no momento que cruzavam a porta da cozinha.
Rosalie guiou Enrico a uma das cadeiras e lhe entregou Amy.
– O que tenho que fazer? – ela pediu, olhando para Emmett e Noah.
– Só precisa me ajudar a pôr a mesa. Os pratos e os talheres estão ali no armário. Vai encontrar os copos ali também.
– Eu acho que sei onde estão – ela respondeu. Imediatamente se movimentando pela cozinha grande e espaçosa. – Ajudei sua avó com as coisas hoje mais cedo – esclareceu, pondo uma das mãos na porta do armário.
Emmett a observou, e o sorriso que chegou aos seus lábios foi apenas consequência de vê-la tão à vontade. Não parava de se perguntar como o marido podia maltratá-la tanto. Era cuidadosa, dedicada. E era linda. Sacudiu a cabeça com esse último pensamento.
– Acertei. – Ele a ouviu comemorar, de forma bastante contida.
– Mãezinha? Mamãe? Mãezinha?
– O que, filho?
– Tem macarrão com queijo?
– A mamãe não sabe. Foi dona Lena, avó do Emmett, quem fez o almoço.
Emmett se pôs ao lado do fogão e começou abrir as tampas das panelas – uma por vez – verificando o que havia dentro de cada uma. A cada tampa aberta, uma nuvem de vapor subia levando seu aroma delicioso ao olfato de todos eles.
– Advinha o que acabei de encontrar aqui? – disse ao menino.
– Macarrão com queijo? – Noah gritou, pulando na frente dele.
Rosalie encostou a mão à cabecinha loura, para que parasse de pular perto do fogão.
– Vai sentar filho – pediu. – Temos que esperar a dona Lena voltar.
– Tá, mãezinha.
Ela observou, assim como Emmett, Noah ir sentar-se ao lado do irmão sem reclamar.
– Ouvi alguém falar meu nome. – A voz de Lena atraiu atenção para a porta da cozinha, e, logo em seguida sua figura apareceu, trazendo uma cesta de vime repleta de hortaliças. – Acabei de pegar com Neva. Ela tinha ficado de colher pra mim – olhando para Rosalie completou. – Ela e o marido trabalham pra gente há anos. Eles moram em uma casinha aqui mesmo em nossas terras. E é ela quem também me ajuda com a casa. Ela insiste em colher hortaliças pra mim, como se eu fosse incapacitada. E vocês o que estão fazendo?
Rosalie segurou o riso. Em seu pouco tempo na casa, já tinha percebido que Lena gostava de fazer tudo por contra própria.
– Estamos pondo a mesa vovó. Estamos com um pouco de pressa, também.
– Obrigado, querido. Então vão mesmo à cidade?
– Vamos. Como disse, Rose precisa comprar fraldas descartáveis pra Amy.
– Sim, sim, você já me falou isso. Não se preocupem com a louça.
– Dona Lena – Rosalie começou –, eu não vou me sentir bem se toda louça que usarmos ficar pra senhora limpar. Não me parece justo.
– Bobagem. – Lena estalou a língua. – Vão lá fazer as coisas de vocês, que cuido de tudo por aqui. Até mesmo do almoço de Jujuba e Caramelo.
– Vovó, a senhora vai querer alguma coisa da cidade?
– Não, não. Sua irmã já fez isso pra mim. Ela ficou de passar na farmácia assim que saísse da escola.
Emmett terminou de pôr a mesa com ajuda de Rosalie. Em pouco tempo estavam todos ocupando seus lugares. Porém, antes de pegar Amy de volta, Rosalie cortou toda a carne no prato de Enrico. Noah quis apenas macarrão, apesar de Lena, Emmett, e a própria insistirem que comece outros tipos de alimentos.
Enquanto se servia, ela servia também a Amy com pequenas porções de verduras e legumes.
Quando terminaram, mesmo Lena resmungando que não deveria se preocupar, Rosalie fez questão de lavar toda louça que ela os filhos sujaram.
Os garotos correram pra frente da casa, e os dois cachorros os acompanharam. Enrico ainda tinha um pouco de receio. Já Noah os adorava.
Quando Rosalie apareceu na varanda, com Amy no colo, Noah se esbaldava, correndo de um lado a outro com Jujuba e Caramelo em seu encalço. Enrico apenas olhava, paralisado. O que a fez pensar se estava em pânico.
Mas Amy atraiu de volta sua atenção quando começou gritar:
– Au, au! Au, au! Oah – abriu e fechou a mãozinha. – Oah. Au, au.
– Enrico – Rose o chamou.
– Mamãe.
– Vem filho – ela o chamou novamente, descendo os poucos degraus, na varanda.
O menino correu até ela, e passou a mão pequena em um dos seus braços.
– Noah! Para de correr filho. Vem. A gente já vai.
Noah parou de correr, apoiando as duas mãozinhas nos joelhos. Depois de um curto descanso, correu novamente, só que dessa vez ao encontro da mãe. Suas bochechas estavam coradas e os cabelos grudados na testa, com alguns fios nos olhos. A mãe logo tratou de empurrá-los para lado com a mão.
– Não quero ir embora, mãezinha. Não quero.
– Não é pra ir embora, amor. Só vamos ao mercado. Já esqueceu que vamos comprar fraldas pra sua irmãzinha?
– Ah. – O menino abriu um sorriso, demonstrando tanto alivio com a resposta que recebeu que a mãe até sentiu dó.
– Vem, bebê.
– Oah – Amy o chamou, novamente abrindo e fechando a mão pequenina.
– Obrigado, mãezinha.
– Porque está me agradecendo, filho?
– Porque veio pra esse lugar.
A mãe sorriu, embora enternecida com suas palavras. – Você gostou amor?
– Muito. Muito mesmo. – Ele olhou para o irmão. – Rico, vamos correr até o carro? Quem chegar por último é um bobo.
– Você vai ser o bobo – o irmão respondeu, enquanto soltava do braço da mãe.
– Não, não vou. Eu sou muito rápido.
– Eu sou mais – o irmão afirmou.
Antes que Noah pudesse dizer o contrario, Enrico saiu em disparada. Noah logo o alcançou. E quando chegaram perto do carro, os dois estavam juntos e ofegantes.
Amy chorou vendo-os correr, queria ir com eles. Rosalie a colocou de pé no chão e se manteve segurando suas mãozinhas enquanto dava seus passinhos trôpegos, agitada, inutilmente querendo alcançá-los.
A mãe estremeceu quando Emmett parou ao seu lado.
– Calma, sou eu – disse para tranquilizá-la. – Desculpe, não queria te assustar.
– Não foi culpa sua. Sou eu quem vive assombrada o tempo todo.
– Tudo isso vai passar – ele garantiu. – O tempo vai cuidar disso. Acredite em mim. Nada melhor que o tempo para amenizar. Em alguns casos, fazer esquecer.
Ela concordou com um leve movimentar de cabeça.
A brisa suave soprou seus cabelos quando se curvou para pegar Amy no colo novamente. Fingiu não perceber que ele a olhava quando isso aconteceu.
– Vamos lá? – anunciou ele.
Ela olhou de Amy para ele.
– Vamos, sim.
Caminharam a passos curtos, mantendo uma distancia segura, evitando esbarrar um no ouro, até onde estava o carro. Enrico e Noah brincavam de pega-pega dando voltas ao redor da caminhonete.
– Enrico. Noah. É hora de irmos – a mãe os chamou.
Os dois voltaram correndo, parando ao lado dela. Emmett abriu a porta e os ajudou subir. Não estranhou quando Rosalie entrou e sentou ao lado dos filhos no banco de trás.
Ele fez questão de prendê-los com o cinto de segurança antes de fechar a porta.
–Vamos lá, pequenos ursos! – comentou. Agora sentado, com as mãos ao volante. Preparando-se para girar a chave na ignição.
– Vamos! – os meninos responderam em alto e bom tom. E Amy gritou.
Enrico encostou a cabeça no braço da mãe, olhando-a com tanto amor que não havia quem não percebesse. Em seguida, fez um carinho no braço dela.
Mas Noah o questionou. – Mãezinha e Amy, não pode ser urso. É menina. Menina não tem pinto.
A mãe achou graça. Enrico cobriu o rosto com as mãos.
– Elas são ursinhas – Emmett logo esclareceu.
Sorrindo de orelha a orelha, Noah olhou as duas e disse:
– Ursinhas! Isso mesmo. Duas ursinhas muito lindas.
Enrico afastou as mãos do rosto, permanecendo junto à mãe.
Passado o momento de risos, eles se aquietaram.
Agora, com a luz do sol, Rosalie e os meninos puderam ver melhor a estrada por onde passaram na noite anterior ao chegar à fazenda. E toda a vegetação que rodeava a propriedade. As montanhas, os pastos, a plantação. Nunca antes tinha visto nada parecido. Aos seus olhos, tudo lembrava uma tela pintada pelas mãos de um artista.
– O que vocês fazem aqui? – ela perguntou, sem deixar de olhar a paisagem.
– Temos um grande rebanho de gado leiteiro e também cavalos de competição, e eu sou responsável por qualquer animal que chega ou sai da propriedade. Também cuido da parte financeira.
– Seu cunhado não trabalha na fazenda, não é?
– Não. Garret é subxerife. Trabalha na cidade.
– Então ele cuida da desordem? – ela brincou.
Emmett riu. – Pode se dizer que sim. – Ele ligou o radio, deixando tocar a música de Alan Jackson — Country Boy. – Essa é pra você entrar no clima da fazenda – ele disse.
Rosalie olhou os meninos ao seu lado. Eles sorriam e os olhinhos brilhavam. Amy se sacudia no seu colo. Tornou olhar pra Emmett. As covinhas estavam nas bochechas dele outra vez. Mas seu olhar focado na estrada.
[...]
Quando chegaram ao supermercado, e a caminhonete foi estacionada numa das vagas próxima da entrada, nenhum dos garotos se moveu. A mãe sabia o que se passava na cabecinha dos dois: as intermináveis broncas e avisos que Royce sempre dava ao irem ao mercado juntos.
Rosalie desafivelou os cintos de cada um deles.
– Já podem descer – ela os avisou. Os garotos olharam dela para Emmett, e novamente para ela. – Ele não vai brigar com vocês – garantiu.
Emmett apressou-se em sair do carro, e foi recebê-los. Em seguida ajudou Rosalie descer com a caçula no colo. Depois disso, Enrico e Noah se puseram ao lado dela em silêncio.
– Não precisa ter pressa – Emmett avisou.
– Mesmo assim, não irei demorar.
Estavam a caminho das portas do mercado, quando juntos ouviram uma voz chamar por Emmett.
O homem que carregava o bagageiro do volvo com caixas de cervejas, sinalizou com a mão para que fosse até ele.
Emmett olhou de um para o outro, sem querer deixar Rosalie e as crianças sozinhas.
– Tudo bem, Emmett – ela disse. – Estaremos aqui fora em alguns minutos.
– Tem certeza? – ele insistiu.
– É até bom que fique conversando com seu amigo, assim não fica entediado nos seguindo pelos corredores.
– Nunca é tedioso estar na companhia de vocês.
Rosalie ficou um pouco sem graça, e a estranha sensação de estar com as bochechas corando lhe ocorreu. As crianças olhavam de um para o outro, sem entender o que se passava.
Emmett levou a mão ao bolso com intenção de pegar a careteira, mas Rosalie logo reagiu em negativa.
– Não faça isso, por favor. O que tenho é suficiente para o que preciso comprar.
– Mas...
– Definitivamente não, Emmett.
Ele pareceu frustrado ao afastar as mãos do bolso. – Espero por vocês aqui.
– Obrigada.
Ela segurou na mão de Noah. Enquanto Enrico mantinha a mão no mesmo braço que segurava Amy. E logo voltaram a caminhar.
Emmett ficou observando-os entrar no mercado e se encaminhar a primeira sessão de produtos. Viu o momento que Rosalie soltou a mão de Noah, mas o menino não correu ou se afastou dela como a maioria das crianças teria feito.
Deixou que fizessem o que tinham que fazer, e foi falar com o amigo que o chamava.
– E aí, arrumou uma namorada? Meu amigo enfim desencalhou, é isso mesmo?
Emmett olhou novamente na direção do supermercado.
– É só uma amiga da família, Edward, não viaja. Ela vai ficar conosco por um tempo.
– Está passeando no meio do ano letivo? – comentou, desconfiado. – Aquelas crianças não deveriam estar na escola? Que tipo de mãe leva os filhos pra viajar em época escolar?!
Ao chegar mais perto, Emmett lhe deu um soco, não muito forte, no braço esquerdo.
– Não seja enxerido, Edward.
– Qual é irmão. Diz aí quem é ela?
– Já disse, é amiga da família.
– Não acredito em nada do que diz. Mas, tudo bem. Não se estresse. Se ela vai ficar na cidade, logo todos saberão quem é. Esse tipo de notícia corre em cidade pequena. Bella vai acabar descobrindo e vai contar pra mim.
– Te aconselho a não fazer isso.
– Não fique nervoso.
– Não estou nervoso. Só não quero que a coloquem em roda de conversas. Que façam disso o assunto do ano.
– Tá certo. Tá certo. Olha só, é aniversário do pai de Bella na sexta-feira. Vamos fazer um churrasco pra comemorar. Vê se aparece por lá, cara.
– Se eu for, vai ser sozinho.
O amigo sorriu. – Não disse que tinha que levar ninguém.
– Palhaço – resmungou Emmett. E o ajudou guardar as compras no bagageiro.
Dentro do mercado, Rosalie e as crianças caminhavam a procura da sessão de fraldas.
Por todo tempo sentiu-se estranha. Há muito tempo não entrava em um mercado, sozinha com as crianças. Royce estava sempre junto, vigiando, reclamando. Fazendo-os se apressar. Enrico e Noah já estavam tão traumatizados com tanta ignorância que mais pareciam dois robozinhos ao lado da mãe enquanto fazia compras.
Apesar de gostar da ideia de sentir-se livre, estava com medo. Tinha a estranha sensação de estar sendo seguida. Qualquer ruído por menor que fosse a fazia tremer. Toda tensão e nervosismo acabavam se refletindo nas crianças.
Em seu colo, Amy mordia o brinquedo de borracha que Abby lhe deu de presente.
– Mamãe – Rosalie ouviu Enrico falar.
– Oi, filho?
O menino esticou o braço ao falar novamente com a mãe. – Estão ali, as fraldas.
– A mamãe já viu amor. Obrigada!
Caminharam até lá, sem pressa. O que era absurdamente estranho pra eles.
Ela esticou o braço alcançando um pacote, depois outro, pondo dentro da cesta que Enrico segurava.
Passaram para o corredor ao lado, e lá pegou um pacote de absorventes, um desodorante e o xampu que costumava usar. Tinha usado o de Kate no outro dia, mas não estava se sentindo bem com isso. As crianças ainda tinham do xampu que levou de casa. Sabonetes e outros itens de higiene, na casa de Emmett tinham de sobra.
Voltavam para onde ficavam os caixas, quando um dos meninos tropeçou, por pouco não caindo de cara no chão.
– Cuidado, Noah! – a mãe alertou, preocupada. – Segura na mão do seu irmão.
Noah fez exatamente como a mãe pediu, oferecendo a mão pro irmão segurar, e, juntos, seguiram atrás dela em silêncio.
Rosalie retirou as coisas da cesta enquanto Enrico segurava. Acrescentando três pirulitos, de um pote ao lado, as compras.
Enquanto esperava a moça registrar as compras, viu Noah olhando fixamente um livro de colorir colocado estrategicamente ao lado do caixa, em um suporte para revistas. Passou a mão na cabecinha loura, e o menino a olhou no mesmo instante. Lamentou em pensamentos não poder comprar pra ele o livro. O menino pôs a mão na boca, ela afastou com a sua.
Enrico recebeu as sacolas.
– A mamãe comprou seu pirulito – disse, tentando animá-lo um pouco. – Pega na sacola com seu irmão.
Um sorriso doce curvou os lábios de Noah, e ele logo correu para perto de Enrico. A mãe ficou olhando o momento que ele enfiou a mãozinha na sacola de trouxe com ela os três pirulitos.
– Pili! Pili! Pili! – a pequena nos braços da mãe vibrou.
O menino ainda sorria quando entregou um dos pirulitos ao irmão, e outro a mãe para que desse a irmãzinha. Amy imediatamente largou no brinquedo no chão interessada no doce.
Enrico pegou o brinquedo e guardou na sacola, com a mãe lhe soprando um obrigado. Depois de retirar a embalagem ela entregou o doce a Amy. A pequena gargalhou segurando o doce com as duas mãozinhas, arrancando também o sorriso da mãe.
A fralda que estava com a chupeta foi usada como babador.
– Obrigado, mamãe – Enrico agradeceu, após uma lambida no pirulito.
Noah deu uma boa lambida no dele, também se apressando em agradecer.
– Obrigado, mãezinha.
A mãe sorriu pra eles. E logo estava os guiando para fora do supermercado. Emmett estava exatamente onde disse que estaria. E sorria pra eles como se não os visse há tempos.
– Tudo bem? – Rosalie o ouviu perguntar, enquanto ainda se aproximava com as crianças.
– Sim – disse. E ao parar em frente a ele completou. – Já podemos ir.
As crianças estavam felizes com seus pirulitos, Emmett logo notou isso.
– Eles são bem fáceis de agradar – Rosalie comentou com ele, olhando os filhos com adoração.
– Pili – Amy balbuciou mostrando pra Emmett seu doce.
– Está gostoso? – ele pediu, e as covinhas brincaram em seu rosto.
Amy piscou os olhinhos – na mesma cor dos da mãe – balançando a cabeça em concordância.
– Totodo – balbuciou.
– Foi sua mamãe quem te deu?
A garotinha olhou pra mãe, mostrando um sorriso cheio de baba rosa. – Mamã – disse.
– Foi a mamãe, foi? – a mãe falou em um tom de voz meio bobo, conquistando ainda mais a admiração de Emmett, mesmo não sabendo disso. Rosalie beijou as mãozinhas grudentas de Amy, e a pequena encostou seu pirulito na boca dela. – Mamãe não quer amor. É seu.
– É?
– É, bebê.
– Querem ir a algum outro lugar? – Emmett perguntou.
– Não. A não ser que você queria, ou precise ir.
– Não, não tenho nenhum lugar pra ir agora.
– Então acho que já podemos voltar.
– Tudo bem.
Emmett pegou as sacolas do mercado que Enrico segurava, em seguida, segurou sua mãozinha. Com as sacolas presas ao pulso, segurou também na mãozinha de Noah.
Os garotos olhavam pra ele, satisfeitos. Na verdade, havia algo mais se destacando em seus olhinhos, havia admiração e afeto. E, em momento algum, nada disso passou despercebido ao olhar atento da mãe.
De volta à fazenda, as outras crianças também já tinham chegado da escola. Logan e Abby os encontraram ainda do lado de fora da casa, e levaram os meninos com eles para brincar.
Os dois cães da raça golden retriever, os seguiram pela propriedade, tão saltitantes quanto às próprias crianças.
Rosalie deixou que os filhos se divertissem; que agissem como crianças que são. Não se importou que fossem se sujar. Apenas queria vê-los felizes.
Aproveitou esse tempo para ir dar banho na caçula, que estava grudenta por conta do pirulito que chupou durante a viagem de volta. E lhe preparar uma mamadeira, também.
Cumprimentou Lena e Kate da mesma forma que Emmett o fez, ao entrarem na casa. As duas assistiam a um programa de tevê, empoleiradas no sofá. Garrett ainda não tinha chegado do trabalho.
Kate mencionou ter novidades, mas que fizesse o que tinha que fazer, sem pressa. Depois conversavam.
Emmett se sentou no outro sofá, com os braços estendidos sobre o encosto.
Não conseguia evitar a necessidade de estar sempre perto de Rosalie, de cuidá-la. Nunca antes havia se sentido assim em relação a nenhuma outra mulher. Suspirou, e, um sorriso involuntário chegou aos seus lábios, trazendo de volta as covinhas que o fazia parecer um menino.
Lena reparou no neto discretamente, percebendo ele de olho em Rosalie enquanto ela deixava a sala. Somente então depois disso ele encostou a cabeça ao estofado, olhando o teto com expressão de encantamento no rosto.
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