Um Lugar Para Ficar
9 Capítulo 09 – Retribuindo Cuidado
Notas iniciais
Ainda naquele fim de tarde, Rosalie deu banho em Amy, e pouco tempo depois de ela mamar, adormeceu. Deixou-a na cama, ao lado da bonequinha de pano que ela adora, cercada por travesseiros para que não viesse a cair e se machucar.
Retornou a grande sala de estar pensando que fosse encontrar todos por lá, mas acabou não encontrando ninguém. Saiu para a varanda da frente, onde encontrou Kate sentada em uma das cadeiras de encosto alto com almofadas floridas no assento.
– A bebê dormiu? – a irmã de Emmett foi logo perguntando.
Rosalie estava recostada ao batente da porta. O pensamento agitado como vinha acontecendo nos últimos dias desde sua fuga.
– Sim – respondeu por fim. – Acabou de mamar. Deve levar um tempinho pra voltar acordar agora.
– Venha sentar aqui comigo, então. Vamos conversar sobre o que consegui hoje pra você.
Ela deu um passo à frente, varrendo com os olhos cada canto ao redor. Procurava pelas crianças, até mesmo Emmett, mas nenhum deles estava por perto. E também não havia sinal dos dois cachorros. Que sempre estavam rondando as crianças a fim de brincar.
– Onde estão as crianças? – ela perguntou.
– Elas foram ao pomar colher morangos.
– Não é perigoso?
– Não, de forma alguma. O céu ainda está claro, e é bem aqui ao lado. Os morangos ficam em uma área totalmente plana. Bem na entrada do pomar. Logan e Abby sabem que não devem se distanciar. Eles têm ouvido isso a vida inteira. Eu sei que isso não significa grande coisa, a julgar pela idade que têm, mas, confie no que digo.
Rosalie concordou movendo a cabeça. – E o Emmett? – pediu, distraída.
– Ele estava aqui agora a pouco. Foi até o celeiro com a vovó. Ela queria que ele arrumasse umas coisas lá pra ela. – Fez uma pequena pausa antes de voltar falar. – Então... é... soube que foram juntos à cidade hoje.
– É. Precisava comprar fraldas descartáveis pra Amy, e algumas outras coisinhas. Foi coisa rápida.
A irmã de Emmett meneou a cabeça em concordância.
– Gosta dele?
– Como? – disse uma Rosalie surpresa. Um pouco desconfortável, também.
– Perguntei se gosta dele. De meu irmão.
– Claro – respondeu muito rápido, evitando olhá-la. – Ele é gentil, tem um coração extremamente bondoso e, além tudo, adora crianças.
– Não assim. Não dessa maneira. Quero saber se sente atração por ele. Se ele te atrai como homem. Se a presença dele faz sua pulsação acelerar.
Rosalie ficou embaraçada, constrangida, talvez até confusa. Era uma pergunta que esperava não fizesse jamais. E rapidamente se viu perguntando a si mesma: Quantas mulheres por aí não se sentia atraída por ele, afinal. Um homem como Emmett, não só por sua beleza física gritante, mas por seu caráter e coração. Certamente tinha muitas admiradoras.
– Desculpe, mas, porque está me perguntando isso? – ela buscou coragem pra falar. –Seu irmão é um bom homem, e tem sido muito bom comigo e com meus filhos. Mas, penso que ainda é muito cedo para...
Kate ergueu uma mão, voltando abaixá-la em seguida tocando levemente o joelho de Rosalie com ela.
– Tudo bem. Era apenas curiosidade minha. Acho que, por alguns instantes, baixou a vovó dentro de mim. – Ela sorriu um pouco enquanto observava a cara de susto que Rosalie olhava pra ela.
As últimas palavras de Kate a fizeram relaxar um pouco. O ar deixou seus pulmões muito devagar. Aquela conversa, de repente, a tinha assustado.
– Então – voltou Kate a falar –, deixa eu te contar o que consegui. – Fez uma pequena pausa enquanto mexias nos longos cabelos louros. – Falei com a diretora da escola, e, bem, ela ficou de encaixar as crianças mesmo que as aulas já estejam em andamento. Pediu que fosse falar com ela amanhã, sem falta.
– Obrigada – disse Rosalie, com olhos que trasbordavam esperança.
Kate prosseguiu.
– Agora, quanto ao emprego... ainda não consegui nada. Mas não se preocupe, amanhã mesmo irei falar com as pessoas certas. Pode confiar em mim.
– Pode ser em qualquer coisa. Não estou em condições de escolher. Não posso, de forma alguma, me dar ao luxo de ficar muito mais tempo sem um trabalho. As crianças dependem apenas de mim, pra tudo agora. Sem contar que, não posso ficar me aproveitando da boa vontade de vocês. Isso é que não.
– Não se preocupe com isso, Rosalie. Não crie monstros por causa disso. Você e as crianças são bem-vindas aqui. Meu irmão sempre fará o que estiver ao alcance dele por vocês. E minha avó e eu estaremos o apoiando.
– Isso é um problema, Kate – Rosalie ressaltou preocupada. – Não quero que fique preso a um problema que não é dele. Não quero ser um fardo que tenha que carregar só porque nos ofereceu carona na estrada. Ele já tem feito muito mais do que deveria. E, nem em mil anos poderei agradecer por tanto carinho e hospitalidade.
– Não o deixe te ouvir falando isso.
– Por quê?
– Acredite no que digo. Emmett nunca, nem de longe, pensará isso de você e das crianças.
Rosalie não soube o que responder. O choro de Noah, mesmo que ainda um pouco distante dali, lhe chegou aos ouvidos roubando toda atenção. Ela saltou da cadeira num pulo, pondo-se rapidamente nos degraus da varanda. Parou, olhando de um lado para o outro, tentando descobrir de que lado da propriedade vinha o choro.
Não foi preciso se esforçar muito mais. As quatro crianças apareceram na lateral esquerda da casa. Seus rostos corados, e peito ofegante.
A essa altura, o sol estava se pondo. As nuvens adquirira uma tonalidade amarelada ao pé das montanhas. Trazendo à memoria pinturas em telas, que viu em uma exposição certa vez, quando ainda tinha uma vida tranquila ao lado avó Jocelyn.
Noah ainda chorava. E estava de mãos dadas com Enrico.
– Mãezinha... Oh, Mãezinha.
Não pensou duas vezes para descer correndo os poucos degraus que os separavam, indo ao encontro dos filhos.
– O que aconteceu? – ela pediu, preocupada, olhando de um para o outro.
Noah chorava alto e soluçava. No rosto de Enrico estava estampada toda sua preocupação com o irmão menor.
– Mãezinha... Mãezinha – Noah voltou a falar entre soluços.
Quando o pegou no colo, o menino se agarrou a seu pescoço, fungando e soluçando. Olhou para Enrico sabendo que Noah não conseguiria falar.
– Fala pra mamãe o que aconteceu com seu irmão, Enrico? – Sua voz soou carregada de preocupação, angustia e até mesmo culpa por não saber o que o fez chorar daquele jeito.
– Mamãe, eu não tive culpa – Enrico se explicou entristecido. – Não tive mamãe.
– Claro que não, filho. Mamãe sabe que não foi culpa sua, seja lá o que tenha acontecido. Agora me diz o que aconteceu pra que eu possa sossegar o coração.
– Ele teve medo do espantalho que tem lá no mato – o menino explicou, esticando o braço na direção do caminho por aonde vieram.
– Não é mato, amor. É plantação – ela explicou a Enrico. Mas sua mão trabalhava nas costas de Noah, fazendo afagos. – Bebê – falou agora com o filho menor – aquilo é só um boneco de palha, não faz mal a ninguém.
– Mãezinha... – Noah voltou a falar, agarrado ao pescoço da mãe. Fungando, escondendo o rostinho na curvatura do pescoço dela, deixando molhado com suas lágrimas.
– Já passou bebê. Agora você está com a mamãe.
– Não quero ver nunca mais. É muito feio, mãezinha. Não quero ver. Tá bom, mamãezinha?
– Tá bom meu amor. Você não precisa voltar a vê-lo.
Ela beijou no pescoço de Noah. Depois estendeu a mão alcançando o rostinho preocupado de Enrico, lhe fazendo um afago.
– Você está bem, filho?
O menino meneou a cabeça muito devagar. Em seguida, agarrou as pernas da mãe em um abraço. Naquele instante Rosalie teve suas suspeitas confirmadas; Enrico também tinha sentido medo. Apenas estava evitando demonstrar.
– Está tudo bem amor. É só um boneco velho, de palha, nada mais. Você não precisa esconder que sentiu medo. É só uma criança... a mamãe entende.
Passou a mão na cabeça de Enrico, mantendo Noah preso ao quadril, segurando-o apenas num braço.
Logan passou correndo para encontra-se com a mãe nos degraus da varanda, onde antes Rosalie esteve. O menino levava com ele a cesta de morangos, que foi entregue a Kate.
Abby permanecia parada, olhando Rosalie falar com os meninos. Os olhinhos esmeraldas atentos, como se os estudasse.
– Vamos entrar? – Rosalie falou com Enrico e Noah. – Mamãe vai dar banho nos dois agora. Estão bem sujinhos. O que vocês fizeram? Rolaram na terra?
– Eles estão bem, Rosalie? – ela ouviu Kate perguntar, preocupada. Realmente querendo saber como estavam as crianças.
Virou-se na direção de onde a irmã de Emmett estava, e a encontrou com a mão no ombro de Logan. A cesta de morangos na outra mão.
– Foi só um susto – disse. – Daqui a pouco eles estarão brincando novamente.
Kate concordou com um movimento de cabeça. Em seguida, sussurrou ao filho.
– Você não os assustou, assustou Logan?
– Não, mamãe – o menino garantiu, reforçando suas palavras com um movimento de cabeça.
Ela concordou, logo depois buscou a filha com o olhar.
– Vem Abby! – a chamou. – Tomar banho filha. Depois ainda tem a lição de casa pra fazer. Vocês estão me enrolando desde que chegamos.
– E o Logan? – a garotinha loura perguntou.
– O Logan também. Ele não vai escapar.
– Ah, mamãe... – o garoto se queixou, ao lado da mãe.
– Ah, mamãe, coisa nenhuma.
– Ah, mamãe... – Logan tornou gemer.
– Penso que estou começando ouvir ecos. – A mãe brincou, embora evitasse demonstrar o sorriso.
Abby sorriu, e correu para encontrá-los na varanda. Acompanhando a mãe e o irmão para dentro de casa.
Rosalie se preparava para entrar também, quando ouviu o latido dos cachorros. Olhou naquela direção, para ver o porquê de estarem latindo. Deparou-se com Emmett brincando com Jujuba e Caramelo a caminho da sede. Lena estava bem ao lado deles.
– Aconteceu alguma coisa, querida? – Lena perguntou, mesmo que ainda um pouco distante de onde ela estava com os meninos.
– Os meninos se assustaram com o espantalho que encontraram na plantação. Mas está tudo bem agora. Foi só um susto mesmo.
Lena chegou mais perto.
– Aquilo é só um boneco velho. – Ela passou a mão frágil, marcada com os sinais da idade, nas costas de Noah. Depois fez o mesmo nas costas de Enrico. – Se quiserem a bisa manda retirarem ele de lá agora mesmo.
– Não é necessário – apressou-se Rosalie em dizer.
Foi enquanto ainda falava que Emmett parou ao seu lado, acariciando os cabelos dos meninos com a mão, um por vez. Depois buscou o rostinho de Noah, escondido na curvatura do pescoço da mãe.
– Ei, campeão, não fique assim. Eu retiro aquele espantalho idiota de lá agora mesmo se você e Enrico quiserem.
– Não, Emmett. Não é necessário – Rosalie repetiu. – Acabei de falar isso pra sua avó.
– Mas eles têm medo. Não vejo problema algum, se isso vai fazer bem aos garotos.
– Ainda insisto que não é preciso. Eles já sabem que é apenas um boneco. E, além do mais, nenhum deles vai querer voltar lá depois disso. Duvido muito que Noah chegue perto do pomar outra vez. E não acredito que Enrico queira voltar lá também.
– Tudo bem. Eu vou fazer o que está dizendo. Mas, se algum deles voltar se assustar com o espantalho, retiro de lá sem antes mesmo perguntar.
– E eu prometo não reclamar – ela admitiu.
– Ótimo! – ele concordou.
Com Noah nos braços e Enrico agarrado a suas pernas, Rosalie subiu os degraus da varanda, tendo Emmett ao seu lado, e Lena logo atrás. Os cachorros os seguiram.
Ela esperou que os filhos de Kate desocupassem o banheiro no fim do corredor, para somente então ir dar banho nos seus. Depois os deixou no quarto, já de roupinha trocada e voltou para tomar seu próprio banho.
Encontrou com Emmett no corredor, e, depois de alguns minutos de embaraçamento, indo para o mesmo lado que ele, ao tentar passar pro banheiro, escutou pedir se podia convidar os meninos para jogar vídeo game na sala com ele. Explicou que Logan e Abby estavam fazendo a lição de casa, e ele não queria jogar sozinho.
Ela respondeu que tudo bem, não via problema algum nisso. E, novamente, ao tentar passar, esbarram um no outro. Ficando constrangidos. Tornando a ficar um no caminho do outro, até que Emmett decidiu por fim se encostar a parede.
Quando foi encontrar com eles depois do banho, estava com Amy no colo. Ela tinha chorado um pouco enquanto lhe trocava a fralda, por isso seus olhinhos e cílios estavam úmidos.
A cena que viu, ao chegar à sala, enterneceu seu coração de mãe a ponto de fazê-la chorar.
Emmett estava sentado no sofá maior com os meninos. Cada um de um lado de seu corpo – embaixo do braço, como pintinhos sob as azas protetoras da mamãe galinha. Ambos estavam de pés descalços. Noah estava agarrado ao seu coelhinho de pelúcia, e os olhinhos vidrados na tela da tevê. A cabeça apoiada ao corpo de Emmett, da mesma forma que Enrico. A única diferença era que o irmão enrolava uma mecha do próprio cabelo no dedo, e não segurava um bichinho de pelúcia.
Na tevê passava Scooby-Doo. Pelo que pôde perceber o vídeo game havia ficado de lado há algum tempo antes de ela aparecer. Os joysticks estavam jogados nas almofadas posicionadas diante da tevê.
Vez por outra, um deles sorria de algo que Scooby e Salsicha aprontavam na tela.
Caminhou sem chamar atenção, muito devagar se sentou ao lado deles, em silêncio. Emmett estendeu a mão, após notar sua presença, para acariciar os cabelos de Amy. Depois moveu para os cabelos de Rosalie. Mas ela se afastou discretamente, curvando-se para falar com a filha, que tentava balbuciar algumas palavras novas.
Emmett voltou a prestar atenção na tela da tevê, embora os pensamentos ainda estivessem em Rosalie. Da mesma forma que os dela estavam nele naquele instante. Muito embora evitasse olhá-lo.
O único som era o da tevê ligada. E o riso dos garotos sempre que algo engraçado acontecia com os personagens principais. E isso perdurou até o momento que Garrett chegou do trabalho, os cumprimentando muito educadamente.
Abby e o irmão deixaram a mesa de jantar, no cômodo ao lado, após ouvir a voz do pai, e vieram correndo ao encontro dele. Garrett os recebeu de braços abertos. Beijou e abraçou cada um deles, demonstrando interesse em saber como havia sido o dia de cada um dos dois filhos.
As duas crianças passaram a falar ao mesmo tempo, ficando impossível entender o que diziam. Seguiram o pai pela casa até encontrarem com a mãe na sala de jantar, onde ela recolhia o material escolar das duas crianças, pondo dentro das mochilas.
Rosalie assistia toda a cena de carinho e afeto do pai para com os filhos, notando a diferença gritante do que Royce fora para Enrico, Noah e Amy. Tudo aquilo era tão perfeito e admirável. Completamente o oposto do que fora um dia seu casamento.
Embora não tivesse consciente disso, Emmett olhava para ela agora, como que pudesse ler seus pensamentos; cada palavra.
E quando se deu conta disso abaixou o olhar rapidamente, envergonhada. Sentiu como se fosse pega no flagra desejando algo que não lhe pertencia.
Dali para o jantar ser servido, levou apenas alguns poucos minutos.
Precisou deixar Amy no quarto novamente, pois ela tinha voltado a dormir no seu colo.
Todos eles se juntaram a grande mesa da cozinha mais uma vez. Mostrando-se sempre interessados em saber como havia sido o dia um do outro. Até mesmo as crianças partilhavam disso.
Outra vez Rosalie se pegou fazendo comparações, pensando: Há quanto tempo isso vinha se estendendo apenas a ela e seus filhos pequenos. Royce nunca queria saber de nada. E se tentava falar, as coisas acabavam mal.
Apesar de tudo, ali, com aquela família, de uma forma bastante inusitada, não se sentia intrusa. Depois de muito tempo voltava se sentir parte de algo. E tinha certeza de que o mesmo se aplicava a seus filhos.
A vida começava ganhar um novo sentido.
Depois da refeição, que, aliás, toda vez que era servida, lhe fazia pensar se era alguma data especial comemorativa. Porque sempre lhe ocorria que era um banquete, mesa tão farta. Não que lhe faltasse comida enquanto viveu ao lado de Royce, isso não. O problema era que com tanta confusão raramente conseguia se alimentar nas horas certas. E era tudo muito regulado por ele, também.
Depois do jantar, as mulheres se encarregam de deixar a cozinha em ordem. E os homens se ocuparam em distrair as crianças, na sala.
Estava vivendo um momento tão bom, de paz, que quando as crianças se despediram com um beijo antes de irem brincar com os novos amigos, não sentiu que devesse estar protegendo-os o tempo inteiro.
Enquanto trabalhava ao lado de Lena e Kate na cozinha, reparou que faziam alguma mudança significativa nos móveis da sala, por conta dos ruídos que vinha de lá.
Algum tempo depois, ao deixar a cozinha, adorou o que viu na sala: Garrett, Emmett e as crianças haviam construído um forte usando cadeiras e cobertores. Por isso a necessidade de arrastarem os móveis da sala, mudando-os de lugar.
Dentro do forte, o piso estava forrado pelo carpete. Muitas almofadas haviam sido postas lá dentro.
As luzes da sala começavam a serem apagadas.
Percebeu Enrico correr ao seu encontro. A felicidade estampada em seu rostinho não deixava dúvidas do quanto estava gostando de estar ali, com todos eles. De poder ser criança realmente. Percebeu também, pela entrada do forte, ainda aberta, Noah agitado lá dentro, ansioso para dar início, seja o que quer que fosse tinham planejado.
– Mamãe! Mamãe! Mamãe! – Enrico não parava de falar. Parando animado, a poucos centímetros dela.
A mãe sorriu pra ele, e tocou seus ombros pequenos com a mão.
– Oi, amor?
– A gente construiu um forte – ele contou com entusiasmo e satisfação. – Agora Emmett está apagando todas as luzes – comentou, olhando em volta – porque ele e Garrett vão contar historias pra gente.
– Que legal filho! Você parece estar gostando muito disso.
O menino sacudiu a cabeça rapidamente em sinal positivo.
– Estou gostando muito – ele disse por fim. – Muito mesmo. Obrigado, mamãe. – Com essas palavras, agarrou as pernas da mãe em um abraço verdadeiramente grato.
Antes que pudesse perguntar o porquê do agradecimento – embora soubesse o motivo – Enrico correu de volta para onde estavam os outros. Apenas alguns minutos depois, Noah apareceu na entrada do forte e correu em sua direção.
– Obrigado, mãezinha. Obrigado! – apressou-se em dizer, enquanto abraçava as pernas dela, da mesma forma que o irmão havia feito segundos atrás. E muito rápido voltou para a brincadeira. O que a fez pensar que Enrico tivesse falado algo ao irmão, ao voltar lá. Ficou orgulhosa dos filhos que tinha. Apesar de tudo, eram bons garotos.
Percebeu Emmett parar ao seu lado. Olhou para ele com o mesmo sorriso de orgulho ainda estampado no rosto.
– Tudo bem se eles ficarem aqui na sala até mais tarde? – perguntou a ela. – Garrett e eu vamos lhes contar algumas historias. Vai ser divertido.
– Abby e Logan não deveriam dormir cedo? Eles não têm aula amanhã?
– Sim. Mas, eles dormem rápido. Não contaremos mais que duas histórias. Esse é plano.
Rosalie desconfiou que tivesse inventado tudo aquilo apenas para fazer seus meninos se sentirem à vontade. Por isso, decidiu não interferir.
– Tudo bem. Eu vou pro quarto ficar um pouco com a Amy. Depois volto para levá-los pra cama.
– Eles não podem dormir aqui? Abby e Logan sempre dormem no forte, depois de ouvir as histórias.
– Eu não sei... Penso que eles não ficariam.
Pra sua surpresa, Enrico e Noah voltaram aparecer na entrada do forte, um ao lado do outro. Dois rostinhos felizes e sorridentes.
– Mamãe, a gente pode dormir aqui com a Abby e o Logan? – pediram tão em sincronia que parecia terem ensaiado.
Emmett olhou de Rosalie para os garotos e novamente para Rosalie. E aquele sorriso brincalhão, de covinhas, brotou em seu rosto.
– Acho que não terei outra escolha – ela declarou. Olhando para as crianças disse: – Se vocês quiserem. – E sorriu quando os dois vibraram. Logo em seguida voltaram a desaparecer embaixo dos cobertores. Suas vozes se misturando a de Logan e Abby lá embaixo.
Ouviu a voz grave de Garrett, também. Concluiu que a primeira história da noite seria por conta dele.
A voz de Emmett chamou sua atenção outra vez.
– Você pode ficar com a gente se quiser – ele ofertou.
– Acho que não. Kate também não vai estar lá. Penso que esse seja um momento dos homens da casa com as crianças. Talvez seja bom deixá-los se divertir um pouco longe de mim. Assim eles treinam um pouco sua indecência.
– Tudo bem – disse Emmett. E quando estava prestes a se juntar aos outros, ouviu a voz de Kate chamando por Rosalie. – Se minha irmã começar falar demais fuja e venha ficar com a gente. – Ele piscou um olho, e se afastou antes que a irmã aparecesse.
Rosalie sorria quando se virou para falar com Kate.
– Já estão apagando as luzes? – constatou Kate.
– Parece que a historia já começou – informou Rosalie, olhando rapidamente pro forte feito de cobertores.
– Logan e Abby adoram quando eles fazem isso. Mas, geralmente acontece nos fins de semanas ou feriados. Com maior frequência nas férias escolares.
O pensamento sobre Emmett ter inventado de fazer isso hoje por causa de Enrico e Noah, voltou a sua mente.
– Mas, tudo bem – Kate completou –, disse que não ficassem acordados até muito tarde.
– Isso parece divertido – Rosalie voltou a dizer.
– Eles vão adorar. Ainda mais com meu irmão lhes contando histórias. Ele é ótimo com crianças. – Fez-se uma pequena pausa. – Olha, estava te procurando para entregar isso.
Rosalie olhou o cesto de roupas limpas e passadas que a irmã de Emmett segurava.
– São roupinhas de quando Abby era bebê – ela esclareceu. – Algumas de quando Logan era menorzinho. Pensei que, como não trouxeram muita coisa, pudesse ajudar. Sei que já tinha me dito que não era necessário. Só te peço que, por favor, aceite. Pense como um presente de uma irmã.
Rosalie a olhava sem saber o que pensar. Os olhos enchendo-se de lágrimas
Kate estendeu as mãos segurando o cesto. – Irmãos ajudam uns aos outros, não é mesmo?! – disse. – Pra mim é isso que você é, Rosalie. Uma irmã. A irmã que nunca tive.
As lágrimas rolaram, foi inútil tentar contê-las. Ela acabou estendendo as mãos, recebendo o cesto com as roupinhas.
– Obrigada, Kate. Você é pra mim, também, como a irmã que nunca tive. – Um sorriso tímido quis aparecer, mas a angustia estava ai pra impedir.
Kate a abraçou brevemente. – Pode deixar de usá-las quando conseguir comprar outras. Não vou me ofender, nem nada.
– Jamais farei isso com algo dado de tão bom coração. Obrigada. Vão ser de grande ajuda. As crianças se sujam muito rápido.
– Não foi nada, mana.
Dessa vez foi Rosalie quem a abraçou.
– Como eles se apossaram da sala estar essa noite – começou Kate, depois de interromperem o abraço. – Podemos assistir a tevê lá na outra sala, ao lado do escritório que meu irmão mantem aqui na sede. O espaço não é tão grande quanto aqui, mas a tevê também é muito boa.
– Eu adoraria. Mas, a verdade é que tenho que ficar com a Amy. Não gosto de deixá-la por muito tempo sozinha. Ela também não está acostumada ficar tanto tempo sem mim.
– Tudo bem. Não precisa se explicar. Sei exatamente como se sente. Pode ir ficar com ela. Qualquer coisa sabe onde me encontrar.
– E dona Lena, já foi se deitar?
– Ainda, não. Vovó está assistindo a tevê na outra sala.
– Certo.
– Caso queira voltar depois, sinta-se a vontade. Vamos adorar ter a sua companhia.
– Obrigada, Kate.
Kate lhe afagou o braço. No momento seguinte, cada uma seguiu por um lado da casa.
[...]
Mais tarde, durante a madrugada, Amy acordou para mamar. Depois de lhe dar a mamadeira e colocá-la pra dormir novamente, Rosalie resolveu ir até a sala ver como estavam os meninos.
Todas as luzes estavam apagadas. Apenas a fraca luz de um abajur, no canto direito da sala, fazia sua vez. Há anos presa em um casamento com Royce, estava tão habituada a andar pela casa a noite sorrateiramente que nem lhe assustava mais.
Chegou perto do forte feito com cobertores, afastando um pouco o cobertor com a mão, olhando lá dentro. Nem Emmett, nem Garrett estavam lá com as crianças.
Os seus dormiam, juntinhos, como filhotes de gatos num cesto. Mesmo Noah estando com seu bichinho de pelúcia junto ao corpo.
Um pouco mais afastado deles, Logan dormia completamente esparramado. E Abby, encolhidinha ao lado dele. Os longos cabelos louros lhe caiam ao rosto. E uma bonequinha de cabelo cor-de-rosa estava junto ao corpo.
Não queria despertá-los, por isso afastou-se tão sorrateiramente quanto havia chegado. Voltou ao quarto e deitou-se outra vez ao lado de Amy. Quando voltou a cochilar foi incomodamente acordada pelos mesmos sons que ouviu na noite anterior: dor, lamúria e angustia.
Não teve dúvidas de que novamente algo voltara acontecer no quarto de Emmett. Naquele momento soube que tinha que ajudá-lo. Fosse o que fosse que o atormentasse daquela maneira, dessa vez, não estaria sozinho. Se ele havia sido capaz de lhe estender a mão em um momento de desespero, faria o mesmo por ele sem hesitar.
Tinha retirado o short ao deitar-se, mas voltou vesti-lo ao saiu da cama.
Abriu a porta cuidadosamente evitando acordar Amy, do contrario não poderia ir.
O corredor estava escuro. No entanto, sabia exatamente que caminho seguir.
Os mesmo sons de sofrimento continuavam. Isso lhe dava a sensação de estar em uma cena de terror.
Por fim, alcançou a porta do quarto dele. Venceu os próprios medos, girando a maçaneta. A porta foi aberta de uma só vez. As luzes também estavam apagadas lá dentro, mas as janelas abertas permitiam a entrada da fraca iluminação que cercava a propriedade.
Os galhos das árvores lá fora se agitavam com o vento, da mesma forma que as cortinas nas janelas. Ainda não tinha se acostumado ao som da vida noturna na fazenda. Era estranho ouvir tantos sons à noite. Apesar de alguns deles ser acolhedor.
Cruzou o quarto apressada, dividida entre olhar o homem que se remexia na cama e a janela aberta.
Foi preciso de um pouco de força para fechar as duas bandas ao mesmo tempo. O vento dificultava seu trabalho, jogando a cortina em seu rosto. Uma vez que conseguiu fechá-las, as cortinas saltaram apenas mais uma única vez, e se aquietaram. Bem diferente do corpo grande que continuava inquieto sobre os lençóis amarrotados.
Chegou mais perto, e acendeu a fraca luz de um abajur. Encostou a mão no rosto de Emmett devagar como que acariciasse o rosto de uma criança.
A expressão no rosto dele não deixava dúvidas de que sofria. A feição distorcida em dor, medo e agonia. A testa molhada de suor.
Mesmo com todo aquele tamanho, que mais lhe fazia lembrar um urso das montanhas, aos seus olhos, agora, parecia tão fraco e vulnerável quanto um garotinho.
Que historia carregava? Quais dores guardava? , ela pensou.
Certa do que estava fazendo, deitou-se ao lado dele na cama. Chegou ainda mais perto, passando o braço em torno do corpo grande, bem devagar. Ele reagiu com impulso de se afastar, mas, ela foi insistente permanecendo na mesma posição.
Passou a mão na testa de Emmett no momento exato em que ele deixava escapar um grunhido de dor.
– Shhhh... – murmurou, como que falasse com um de seus filhos.
Emmett estava sem camisa e um pouco ofegante. Notou uma longa cicatriz no ombro dele, e, de repente, se perguntou como teria conseguido.
Embora estivesse inquieto, sabia que não era um homem violento. Ainda que estivesse no submundo dos pesadelos, seu verdadeiro eu falaria mais alto.
Persistiu no abraço, desejando que aquilo parasse logo. E, então, segundos depois de ter deitado ao lado dele, sentiu que a porta foi aberta atrás de suas costas. Logo soube, pelas vozes sussurradas, que se tratava de Lena e Kate; avó e irmã dele.
– Acho que não devemos nos preocupar essa noite... – Ela teve certeza de ter sido Kate a falar isso.
– Tem razão – a outra voz, que acreditava ser de Lena, acrescentou. – Ela vai cuidar dele assim como ele tem cuidado dela e de suas crianças. Rosalie é a mulher certa pro meu neto...
– Vovó, a senhora está criando muitas expectativas... Pode se decepcionar no final.
– Ela está gostando de seu irmão, da mesma forma que ele está gostando dela. Só não estão preparados para assumir isso ainda. Ela mais que ele. O sofrimento pelo qual passou pode ser uma pedra no caminho.
– Vovó...
– Não, minha neta. Um dia vai ver que tenho razão.
– Está bem vovó. Se a senhora diz. É melhor irmos, então. Vamos deixar que ela o tranquilize por esta noite.
– Ele vai gostar – acrescentou Lena. – Vamos. Vamos voltar a dormir. Quem sabe esse não é o empurrão de que eles precisam...
A porta voltou a ser fechada, e as vozes desapareceram. O som de passos pelo corredor foi o único som que ouviu se distanciando.
Soltou a respiração só agora notando que a prendia. Porque que motivo, não saberia dizer. Virou o rosto na direção de onde ficava a porta. Aliviada por estar trancada outra vez. E novamente olhou o corpo grande junto ao seu.
Afagou os ombros largos passeando a ponta dos dedos por sobre a cicatriz. Acariciou os curtos fios escuros com as pontas dos dedos, raspando as unhas levemente ao couro cabeludo.
– Vai ficar tudo bem – sussurrou próximo ao pescoço dele, voltando repousar o rosto nas costas largas. Passando o braço em torno do corpo grande. Cuidando. Transmitindo segurança e conforto. Gostando do cheiro amadeirado que ele exalava. – Isso vai passar... – ela tornou sussurrar. – Seja o que for, vai passar.
Sentiu o corpo grande relaxar junto ao seu. E toda aquela agonia que o consumia antes, de maneira inconsciente, cessando, pouco a pouco, até restar apenas o suspiro, a respiração constante e ritmada.
Os minutos se estenderam. A fadiga castigou. Consequentemente, acabou também adormecendo.
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