Um Lugar Para Ficar
29 Capítulo 29 – Transpondo A Dor
Notas iniciais
Quando a manhã chegou, trazendo preguiçosamente os sons da natureza, Rosalie despertou com a certeza de ter ouvido Amy chamá-la do quarto no lado oposto do corredor. Remexeu-se sob os lençóis amarrotados, quente com calor de seus corpos.
A imagem da noite angustiante voltou a sua memória. Pensar em tudo o que Emmett dissera sobre o passado dele, fazia seu estomago revirar. Era como estar com um pé no passado, outro no futuro previsível.
Olhou-o dormindo. Era doloroso pensar que o homem forte que dormia hoje ao seu lado fora um dia a criança assustada e ferida daquela história. Que o adolescente que foi e o homem adulto que é agora, eram, na verdade, reflexos daquela tragédia. Carregando marcas profundas. Convivendo com uma dor gigantesca. Não queria nem imaginar que esse pudesse ser o futuro de seus filhos. Não suportava a ideia de que um deles carregasse dor tão grande pelo resto da vida.
Foi inevitável. Lágrimas surgiram em seus olhos ao lembrar-se de toda dor encontrada no olhar dele, na maneira como se agarrava a ela; em puro desespero. Querendo salvar a quem mais amava.
Permitiu-se abraçá-lo. Reconhecendo sua temperatura corporal. Apesar de a temperatura corpo dele ter baixado há algumas horas, estava suado.
— Vai ficar tudo bem... – assegurou, num tom de voz sereno. – Não está mais sozinho com essa dor tão grande. Talvez eu não possa curá-lo, mas farei o possível para que se sinta melhor. – Então seus lábios encostaram-se ao peito dele, num beijo delicado, repleto de carinho. – Amo você, meu grandão com coração de menino.
Afastou-se dele com movimentos cuidadosos, desejando que ele pudesse dormir um pouco mais. Porém, quando se preparava para deixar a cama, o percebeu de olhos abertos. Parecia abatido, ainda assim, melhor que nas manhãs que o passado não era de conhecimento dela.
— Você está bem? – ela quis saber.
— Me sinto estranho – respondeu ele, com sinceridade. – A verdade é que me sinto bem mais tranquilo depois de ter lhe contado tudo.
Rosalie anuiu, concordando.
— Voltou a ser atormentado com mais frequência pelos pesadelos depois de ter nos encontrado, não é verdade? – ela pediu hesitante. Odiaria saber que era a culpada pelo desconforto dele. Por suas memórias voltarem com tanta frequência depois de anos.
Como que pudesse ler os pensamentos dela, Emmett respondeu.
— Não quero que pense que sua presença me faz mal. Na verdade, você é a melhor coisa que me aconteceu desde...
Ela se inclinou, girando o corpo um pouco para o lado, apertando com a mão o tornozelo dele.
— Não estou – ela garantiu.
— Então, aonde você pensa que vai a essa hora da manhã?
— A Amy acordou.
— Traga ela pra ficar aqui com a gente. Ainda é cedo. A propósito, Rose, obrigada por me ouvir essa noite. Por ter sido tão compreensiva cuidando de mim como cuidou.
Rosalie afagou o tornozelo dele. – Vou querer sempre ouvir o que tem a dizer. Não importa o que seja.
Juntos ouviram ao mesmo tempo o resmungar de Amy anunciando o choro que viria a seguir.
— Vá buscar nossa garotinha.
Rosalie se afastou da cama. Antes de deixar o quarto vestiu um short por baixo da camisa de botões dele que pusera durante a madrugada. Passou os dedos nos cabelos a caminho da porta do quarto.
No quarto das crianças, encontrou Amy se preparando para descer da cama. Imaginando que pudesse se machucar, apressou-se até lá. Amy estremeceu de susto quando sentiu mãos segurando seu corpo pequeno. Mas, ao reconhecer quem a pegava, abriu um sorriso que, por pouco, não fez a mãe derreter.
Rosalie beijou o canto do sorriso de Amy, apertando sua bochechinha marcada pelo travesseiro.
— Bom dia, bebê. Quer o seu gagau, né amor? – falou com a filha entre um carinho e outro no rostinho amassado.
— Gagau.
— A mamãe já está indo preparar o seu gagauzinho.
— Papa?
— A gente vai encontrar com ele daqui a pouco.
Enquanto trocava a fralda de Amy, ela mexia as pernas como se pedalasse uma bicicleta, dificultando seu trabalho. Quando finalmente conseguiu, seguiu para a cozinha a fim de cuidar do preparo da mamadeira. A casa ainda estava silenciosa, apenas ouvia o resmungar da bebê.
Não demorou a fazer o que tinha de fazer e voltar para junto de Emmett. Ele aguardava recostado à cabeceira da cama.
Rosalie segurava Amy nos dois braços, e a mamadeira presa entre as mãos.
Ele sorriu ao vê-las passar pela porta.
— Bom dia papai – falou pra Amy. A garotinha o saudou com o mesmo sorriso que dera a mãe minutos atrás. Emmett abriu os braços ainda enquanto Rosalie se aproximava com a filha no colo.
— Já estava tentando descer da cama – contou. – Por sorte cheguei a tempo. Morro de medo só em pensar que ela possa cair e bater com a cabeça.
Emmett olhou a bebê no colo dela. – Fala pra mamãe que você queria vir pra nossa cama. Fala, bebê.
Rosalie pôs Amy nos pés da cama, e ela engatinhou apressada para junto de Emmett. Ele a pegou, dando vários beijos em sua barriguinha.
— Quem é a neném do papai? – ele repetia entre um beijinho e outro. Amy se contorcia em suas mãos grandes, desesperada para se libertar. Após várias risadinhas, ela, por fim, falou.
— Não isso.
Tanto Rose quanto Emmett deram risadas.
— Não isso? – Emmett repetiu risonho.
— Gagau – Amy pediu, esticando os bracinhos enquanto tentava alcançar a mamadeira nas mãos da mãe. – Não isso – ela repetiu, ficando emburrada.
— Está certo – Emmett respondeu, controlando a vontade de rir. – O papai vai dar o seu gagau. Não farei mais isso. Que bebê mais exigente esse do papai.
Rosalie pôs na mão dele a mamadeira. Ela ainda parecia encantada com o como Amy usou sua nova frase.
— Obrigado, Raio de Sol – Emmett agradeceu, ajeitando Amy no colo. A menina esticava as mãos, agoniada, querendo pegar a preciosa mamadeira. Quando seus dedinhos roliços a envolveram, imediatamente alcançou o bico com uma sugada forte. Ela sorriu para Emmett, deixando escorrer o leite nos cantos da boca. Rosalie logo tratou de limpar com a fralda de pano.
Ela ficou a observá-los sem nada a dizer. Feliz e emocionada ao mesmo tempo. Não tinha uma única lembrança de Royce cuidando das crianças. A vida inteira isso foi um desejo seu; que seus filhos tivessem outra forma de amor que não fosse apenas materno. Agora isso acontecia, a cada dia, bem diante de seus olhos. Deixara de ser apenas um desejo para se tornar realidade. Uma lágrima então saltou no canto de seu olho esquerdo. Ainda assim conseguiu abrir um sorriso ao ver a filha retirar a mamadeira da boca, ofertando-a a Emmett.
— Não papai, é todo seu – ouviu Emmett falar para sua filhinha. E naquele momento leves batidas antecederam as vozes dos meninos do lado de fora do quarto, no corredor.
— Mamãe.
— Mãezinha.
— Papai – disseram juntos.
Emmett a olhou e Rose saltou da cama a caminho da porta. Ao abri-la se deparou com os dois, com cabelos emaranhados e pés descalços. Do jeito que deitaram pra dormir aquela noite; Noah só de cueca, e Enrico, de cueca e camiseta vermelha.
O mais velho tinha um sorriso contagiante nos lábios, escancarando a recente lacuna do dente perdido. Ao lado dele, Noah parecia emburrado.
— Mamãe – disparou Enrico. – A fada do dente me deixou uma nota de dez dólares. E o meu outro dente está quase caindo também. – A mão pequena foi estendida, mostrando com orgulho a recompensa por ter deixado um dentinho branco embaixo do travesseiro.
Os lábios de Rosealie tinham a curva de um sorriso diante a alegria do garoto.
— Dez dólares – ela falou, mostrando-se surpresa. E seu olhar foi pra Emmett, na cama com Amy. – Uau.
— Era um dente muito bom – ele disse a ela, com tranquilidade. – Achei que essa fada foi bem justa até.
— Eu não tenho nada, mãezinha – Noah choramingou. – A fada nunca que vai me dar um dinheiro. E agora o Rico fica com tudo. E eu fico com o quê? O que mãezinha? Nada. Nada de nada. Só isso. Apenas nada.
Noah disparou a chorar. O irmão entrou no quarto, correndo até cama, ansioso para mostrar a Emmett que a fada tinha vindo visitá-lo durante a madrugada.
— Oh, meu amor – Rose lamentou por Noah, pegando-o no colo, enganchando suas perninhas ao redor do corpo. – Não chora, não, filho. Um dia o seu dentinho também vai ficar mole e cair. A fadinha não vai esquecer de você. Para com isso.
— Eu queria que caísse agora. – Ele soluçou. – Eu queria. Agora.
— Mas não vai cair, amor. A mamãe já explicou que ainda é cedo pra isso acontecer.
— Na hora do almoço, então?
Rosalie segurou a risada. Noah estava realmente sentido pela fada do dente ter visitado o irmão três vezes, e a ele nunca. A mãe afagou seus cabelos bagunçados.
— Essa fada é muito legal, papai – dizia Enrico a Emmett, de joelhos na cama. – Ela nunca tinha me deixado dez dólares. Devia ser mesmo ser um dente muito bom.
Noah chorou ainda mais alto, no colo da mãe, disparando uma reclamação em seguida.
— Não. Não é legal. Ela não me deu nada. – E então ele olhou no rosto de Rose. – Ela não deu nada pra mim – acusou, fazendo beicinho. – Não gosto de fada do dente. Só do Papai Noel, porque ele me dá um presente pequenininho no dia do natal. Ele não é agolista.
— Egoísta – Rose falou baixinho.
— Noah – Emmett chamou. – Olha aqui o papai, filho – Quando Noah olhou, Emmett continuou a falar: – A gente vai à cidade daqui a pouco e então você poderá escolher o doce que quiser. O papai compra pra você. Não tem problema se a fada do dente não te deixou nada.
O menino soluçou. – Um doce bem gotoso? – pediu.
— O seu favorito.
Noah sorriu, mesmo com lágrimas nos olhos.
Rosalie se aproximou da cama, pondo ele de pé no colchão. Noah correu para os braços de Emmett, sem pensar duas vezes. Amy resmungou no aperto, empurrando o irmão com a mão pequenina.
— Sai Oah. Saiiii.
— O que acham de irmos todos escovar os dentes, e depois nos arrumarmos para irmos à igreja? – Rosalie convidou.
Enrico saltou no colchão. Ele realmente havia gostado de ir à igreja. Havia se tornado seu programa de domingo favorito. Mas Rose duvidava que fosse apenas por causa dos sermões do reverendo Walker. Ele gostava mesmo era de ouvir a banda da igreja e ter a chance de tocar violino.
— O papai pode escovar os dentes com a gente? – ele disparou ansioso.
— Pode. O papai pode, sim, se ele quiser.
— Mas é claro que o papai quer – Emmett respondeu, saindo da cama com os dois meninos. Amy ficou com a mãe. De repente, Noah se deu conta de que estavam os três apenas de cuecas.
— Papai, você também tá de cueca igual eu e o Rico. Mas a sua é feia – Noah deu risada junto com a mãe. – Você também tava com um calor e a mãezinha deixou você dormir pelado?
Emmett deu risada, pegando os dois meninos pela mão.
— Você e a Amy não vêm? – ele disse a Rose.
— Vamos, sim. Só estou aproveitando para olhar vocês. Estão tão lindos assim.
— É melhor eu por uma bermuda, né?! Vai que o resto do pessoal também já acordou.
Não foi surpresa alguma quando os meninos disseram querer pôr uma bermuda também.
— Primeiro vocês vão tomar banho.
— Mas o papai vestiu o dele – alegaram juntos.
— É que o papai já é grande. De toda forma, vamos todos nos arrumar para sair.
A caminho do banheiro, Enrico correu até o quarto onde dormia e guardou o dinheiro na gaveta da mesinha de cabeceira.
[...]
Antes de deixarem a fazenda naquela amanhã para irem à igreja, Rosalie procurou Kate para falar de seus planos em levar Emmett até o cemitério para visitar o túmulo da mãe deles.
A cunhada arregalou os olhos em uma mistura de incredulidade e esperança. Ciente do quão importante era aquele passo na vida do irmão. Subitamente tomando Rosalie nos braços, agradecendo por cuidar dele. Por se preocupar tanto.
Sabia o quanto poderia ser difícil pra ele. No entanto, era algo que há muito precisava fazer.
Rosalie pediu se poderia ficar com as crianças durante esse tempo. Não queria que nenhum deles fosse testemunha da dor de Emmett ao visitar o túmulo da mãe. Muito menos que tivessem conhecimento da história, não até terem idade suficiente para compreendê-la.
Kate garantiu que ficaria com as crianças, sem problema algum. Após abraçar Rosalie mais uma vez, correu para contar a novidade a avó.
Antes de entrarem no carro, Lena abraçou Rosalie para lhe agradecer pelo que estava fazendo por seu neto. Aquilo foi o bastante para Rose ter certeza de que fazia a coisa certa.
Por isso, agora, ao lado da caminhonete, Rosalie assistia seus filhos entrarem na igreja dominical, acompanhados pela família de Emmett: Amy no colo de Kate, Enrico de mãos dadas com Abby e o irmão Noah, e Logan de mãos das com Garrett.
Emmett se encontrava encostado à carroceria da caminhonete, olhando o chão. As duas portas da frente permaneciam abertas.
Em sua visão periférica, Rosalie percebeu o sorriso de covinhas deixarem o rosto dele lentamente. Dando espaço a velha melancolia.
Ela tomou a iniciativa de ir até lá abraçá-lo.
— Você vai conseguir amor. Estarei ao seu lado, minha mão na sua. O tempo todo.
Emmett suspirou pesadamente, apertando o corpo dela junto ao seu, descansando o queixo nos cabelos dourados dela, inalando seu inconfundível aroma de maçãs.
— Obrigado por estar fazendo isso – murmurou.
Rosalie inclinou a cabeça pra trás, buscando o olhar dele. – Quer que eu dirija? Você só tem de me ensinar o caminho.
— Tudo bem. Eu posso fazer isso.
— Tem certeza?
Ele moveu a cabeça, concordando.
— Então, acho que já podemos ir.
Emmett fechou a porta quando ela entrou na caminhonete. Deu a volta pela frente e se pôs no banco do motorista. Não demorou em partirem rumo ao cemitério local.
A uma rua do cemitério, Emmett começou demonstrar sinais de sua enorme dor. As mãos tremiam ao volante, a respiração se tornou ofegante. Por um instante, Rosalie realmente temeu que ele fosse sequer conseguir entrar no cemitério. A culpa pela morte da mãe era absurdamente grande. Sentia-se indigno de estar diante do túmulo dela.
Quando estacionava em frente aos muros que separavam as sepulturas do resto da cidade, lembranças devastadoras, do dia do funeral, pipocaram na mente de Emmett. O Emmett dentro do carro via, do lado de fora, a criança machucada que fora um dia.
A visão dele ficou desfocada pelo tempo que a imagens mergulhavam em sua mente.
O garotinho de rosto angelical tinha a marca registrada de seu sorriso, as covinhas, ocultas pela grande tristeza. Usava um terno escuro, diluindo a imagem da infância como deveria ter sido. Sua mão pequena estava na mão de um homem maduro, com traços semelhantes aos seus, de barba bem aparada. Seu avô Elliott. Gerações diferentes compartilhando da mesma dor.
A avó Lena, bem mais jovem na época, em seus trajes de luto, levava pela mão a garotinha loura, de três anos idade, que acabara de perder a mãe. A pequena usava um vestido azul-marinho com sapatos pretos e meia-calça branca. Duas longas tranças pendiam nos ombros. Uma bonequinha, pena o momento fosse de tanta dor.
Amigos da família acompanhavam o cortejo fúnebre. Muitos deles conheciam Aimee desde criança. A vira crescer indo a escola com seus filhos. Brincando nas terras da família, sempre com um sorriso encantador no rosto. A menina loura de espírito aventureiro. Apelidada de Tinker Bell aos três anos de idade pelo pai.
Sua jovialidade e espírito desbravador foram dizimados com chegada de Maximus a sua vida. A menina alegre e cheia de amigos se tornou triste e solitária.
O garotinho que carregava, no azul de seus olhos, tristeza irreparável, tropeçou nos próprios pés. Mas o avô, com sua mão firme, o amparou. Avô e neto se olharam por um único instante; além da mesma cor de azul, seus olhos se assemelhavam na tristeza.
O Emmett adulto, dentro do carro, encostou a cabeça ao volante, tentando expulsar as imagens de seu pensamento.
Rosalie estendeu a mão, alcançando o braço dele com um afago.
— Sei o quanto é difícil... – admitiu, pensando no funeral dos próprios pais, apesar de não recordar desse momento de dor. Era só um bebê quando eles partiram. Anos depois o funeral do avô, e depois da avó que a criou. Um compreendia a dor do outro, haviam convivido com a morte e sua destruição desde a infância. Com a diferença que Rosalie não presenciou a morte trágica de nenhum deles.
Emmett ergueu a cabeça da direção tão devagar que o simples gesto de se mover parecia lhe causar uma dor aguda no corpo e na alma. Seus braços grandes e fortes se moveram para abraçá-la com uma lentidão que dava desespero.
— Você é forte, meu amor. Sei que pode fazer – Rose o encorajou. Era muito importante pra ele transpor a dor imensa que carregava.
— Foi culpa minha... Se eu pudesse ter a chance de voltar no tempo... Se eu pudesse... – as palavras deixaram seus lábios como que o ferissem na pele. Com uma dor profunda.
Rosalie apertou os braços em torno do dele, sentindo os batimentos frenéticos de seu coração.
— Não foi culpa sua. Era apenas uma criança quando tudo aconteceu. Não pode se culpar pela crueldade cometida por um insano.
Ele afastou a cabeça do ombro dela, encostando suas testas uma à outra. – Vamos deixar isso para outro dia... – seus olhos, fixos nos dela, pareciam implorar. A respiração estava pesada. Estava certo de que não conseguiria.
— Faça isso por mim – Rose pediu, sutilmente. – Faça por você mesmo.
Emmett tornou encostar a cabeça ao ombro dela. Rose acariciou a nuca dele, percebendo o momento que ele soltou um soluço seco. O silêncio a preocupou. Mas, para sua surpresa, ele se afastou, concordando. A falta de fé em si mesmo era dolorosa.
Ambos saíram do carro ao mesmo tempo. Rosalie segurava numa das mãos um buquê de lírios brancos. Emmett deu a volta pela frente do carro, e, na calçada, deram-se as mãos.
A luz do sol refletia nos fios louros dos cabelos Rosalie com a mesma intensidade que refletiam nas gotas de suor na testa de Emmett. No entanto, as gotas de suor na testa dele nada tinham a ver com calor; eram puramente de ansiedade e medo.
À medida que adentravam o cemitério lembranças o seguia. Emmett parou de andar algumas vezes, seu olhar desfocado, perdido. Rosalie não queria apressá-lo, no entanto precisava que lhe mostrasse o caminho até o túmulo de Aimee. Se é que, depois de tantos anos sem pisar ali, ainda se lembrava de sua localização. Mas como tudo que deixa marcas, ele recordava perfeitamente a localização.
Caminharam mais alguns metros, desviando de túmulos com lápides altas e brancas posicionadas em fileiras sobre a grama bem aparada. Das árvores, que, vez por outra, entravam no caminho.
E então, Emmett parou, apontando com a mão livre o caminho que deveria levá-los ao túmulo de sua mãe. Alguns metros à frente, pararam diante duas lápides idênticas, cujos nomes indicavam: “Aimee McCarty”, “Elliott McCarty”. Pai e filha que jaziam sob seus pés. As lápides estavam como novas. As flores ficando murchas indicavam a visita recente de alguém. Rose se viu então imaginando quem as teria levado. Lena ou Kate? Talvez um amigo da família.
Foi quando Emmett olhou para o lado, numa leve inclinação de terra. Lá estava um carvalho, provavelmente tão antigo quanto o próprio cemitério, seus galhos encobertos por barba-de-velho.
Outra vez o passado estava diante de seus olhos.
O garotinho de olhar triste cuja voz o tinha abandonado estava lá, sentado no chão, recostado ao tronco grosso, abraçando as próprias pernas, chorando muito. Tinha fugido pra longe quando começaram atirar sobre o caixão fechado de sua mãe os primeiros punhados de terra. Seu terno preto estava manchado pela terra lúgubre. Resultado da luta para evitar que pusessem o caixão com sua mãe dentro naquele buraco.
Uma luta resumida a choro e gritos.
Rosalie soltou a mão dele para abraçar a cintura. Emmett voltou-se de frente para a lápide da mãe, e a do avô bem ao lado. Depois, olhando para Rose. Por fim a lápide de Aimee outra vez.
Ele se abaixou enquanto as palavras deixavam seus lábios com dificuldade.
— Ela amava a natureza. Tinha verdadeira paixão por cavalos. Adorava cavalgar. Era perfeita na prova dos três tambores. Tinha começado competir ainda na infância, aos dez anos de idade. Durante seu tempo competindo ninguém jamais a venceu. O sonho dela era se formar em medicina veterinária. Queria ir pro Texas fazer especialização. As coisas não saíram como esperava. Ainda assim, sempre dizia estar feliz porque tinha a mim e a Kate.
Rosalie compreendeu que, apesar de ele amar os animais e gostar de sua profissão, se formara em medicina veterinária para realizar o sonho da mãe. Indo fazer sua especialização onde ela, em algum momento de sua vida complicada, havia mencionado ser esse seu desejo. Talvez fosse essa uma forma de estar ligado a ela, e de realizar seu sonho. De ficar em paz consigo mesmo.
Ela repousou a mão ao ombro dele, com um aperto firme, dizendo-lhe que estava ali.
— Havia tanto sangue... – ele lembrou, começando a chorar copiosamente. Rosalie não se lembrava de jamais ter visto um homem adulto chorar tanto quanto o vira chorar na madrugada e também nesse momento. O corpo grande chegava a tremer.
Ajoelhou-se ao lado dele, abraçando-o com força.
— Foi minha culpa... – ele tornou acusar a si mesmo. – Se eu não tivesse desobedecido... Se eu não...
— Não. Não foi culpa sua. E sua mãe sempre soube disso. Assim como sabe agora, meu amor.
Emmett meneou a cabeça se recusando aceitar.
— Ela teria dito pra você não se culpar se tivesse tido a chance. Eu teria dito a mesma coisa para Enrico e Noah. Apenas quero que entenda que, por mais que Aimee sofresse nas mãos do homem que a matou – Emmett estremeceu ao ouvi-la dizer isso –, ela te amava. Amava sua irmã. Jamais faria algo como culpá-lo por sua morte.
Ele parecia não absorver as palavras de Rosalie.
— Ela pediu para eu ficar longe da janela... Eu desobedeci...
— Ficar na janela não foi o que tirou a vida de sua mãe, Emmett. O único culpado foi ele, o monstro que os fez tanto mal a vida inteira. E, se Deus for mesmo justo, esse infeliz está pagando por todo mal que causou.
— Havia muito sangue... – ele tornou a repetir. E sua dor era tão grande que Rose soluçou junto com ele. – As mãos dela... – murmurou, e não conseguiu mais falar. Rosalie o embalou, sentindo os batimentos de seu coração, enquanto choravam juntos.
O crocitar de um corvo foi perceptível à distância. O abraço que compartilhavam foi interrompido. Ambos se puseram a ajeitar as flores diante da lápide. Deixando algumas sobre o túmulo do avô dele também.
Puseram-se de pé. Rosalie passou as mãos uma na outra derrubando resíduos de terra e grama. Emmett novamente olhava o velho carvalho que ficava na inclinação, há alguns metros de onde estavam.
— Eu estive ali – ele a surpreendeu – a sombra daquele carvalho por um longo tempo. Até o vovô me encontrar, me pegar no colo, mesmo todo sujo de terra como eu estava, e me levar de volta para o carro. Lembro-me das palavras que me disse: “Entre todas as pessoas no mundo, meu neto querido, eu sou uma das quais mais compreende sua dor.” E ele realmente compreendia. Se eu havia perdido minha mãe, vovô havia perdido sua única filha. A garotinha que ele apelidara de Tinker Bell. A mesma a que um dia ele ajudou a dar os primeiros passos. A quem ele ensinou o que mais gostava; que era montar a cavalo e amar aquelas terras.
Emmett apertou os dedos das mãos com uma força desumana, como fizera em alguns momentos durante a madrugada. Rosalie buscou a mão dele. Diante seu toque a força como ele apertava os dedos cedeu.
— Retornamos à fazenda levando aquele sentimento de vazio profundo dentro do peito. E uma dor que parecia não ter fim. Lembro-me que naquela noite dormirmos os quatro na mesma cama. Os amigos da família deixaram refratários com vários tipos de comidas pra gente, e todas continuaram intocadas. Nenhum de nós conseguiu comer nada. Vovó não precisou fazer comida durante vários dias. As pessoas estavam sempre nos trazendo algo para comer. Tentando ser prestativas e solidarias.
Rosalie pôs a mão dele entre as suas, e continuou a segurar.
— Minha irmã chamou pela mamãe a noite inteira. Meu sentimento de culpa cresceu naquela noite. As coisas foram ficando cada vez mais difíceis. Minhas crises de terror noturno. O choro de Kate, sempre pedindo pela mamãe. E todas as vezes que ela corria para se esconder dentro de um guarda-roupa. A doença do vovô. E a vovó sozinha para lidar com tantas dores. Vovô veio a falecer meses depois. E então eu tinha perdido o único herói que conheci na vida. Perdi o homem que compreendia minha dor. Tivemos que passar por tudo outra vez; funeral e condolências. Vizinhos trazendo refeições prontas a nossa casa. Sempre nos olhando com aquele olhar de pena.
Rosalie apertou os lábios antes de falar. – Eu sinto tanto...
— Por muito tempo me senti anestesiado. Por todos esses anos tenho voltado aos acontecimentos daquela noite por meio de minha mente. Minha mente é minha pior inimiga.
Rosalie estendeu a mão alcançando o rosto dele com um carinho. Ele segurou a mão dela, beijando nos nós de seus dedos.
— Obrigado por ter vindo comigo. Obrigado por me permitir fazer parte de sua vida e também das crianças. Obrigado por existir. Por seu esforço em querer me salvar de mim mesmo.
Emmett se curvou beijando brevemente nos lábios dela. O sabor salgado de lágrimas estava bem ali, nos lábios que se uniam.
— Não tenha medo. Não tenha medo de nada – ele aconselhou logo depois. – Irei cuidar de você. Irei protegê-la, ainda que com minha própria vida. Não permitirei, de forma alguma, a história se repetir. Enrico e Noah jamais sentirão a mesma dor que senti ao ser testemunha de tanta crueldade. Irei privá-los desse sofrimento, mesmo que seja a última coisa que faça na vida. Eles vão crescer com sua presença. E, se você permitir, no mesmo lugar onde eu cresci.
— Meu Deus, Emmett. Não fale assim... Não posso nem pensar em te perder.
— Você não irá me perder, Raio de Sol. Estou preparado pro que possa acontecer. E te garanto, não serei eu a sair perdendo. Os quatro são minha família agora. Não permitirei ninguém tirá-los de mim. Nem fazê-los sofrer.
Eles então se despediram daqueles que hoje eram apenas lembranças, retornando ao carro estacionado do lado de fora do cemitério.
Emmett parecia bem melhor que quando chegaram.
Ele pôs a chave no contato, e antes que pudesse girá-la, Rose lhe fez uma pergunta.
— Emmett, quando você disse, durante a madrugada, quando revelava a história de sua vida, sobre eu não o ter deixado por causa de seus traumas, de suas crises... quis dizer que já foi deixado por alguém por causa disso?
Ele hesitou apenas por um instante antes de falar. – Uma ou outra namorada que tive. Mas nenhuma que eu amasse como amo você.
Foi inevitável o sorriso que surgiu nos lábios dela, tomando consciência daquelas palavras.
— Quanto tempo faz a mais recente?
— Acho que uns três anos.
— Você sofreu?
— Sim. Mas não porque eu a amasse. Mas, sim, por ela ter dito que jamais teria um filho comigo. Não queria um filho carregando os meus genes, defeituoso. Tive a infelicidade de descobrir, meses depois, que Sienna tinha abortado um filho meu. As pessoas que se encarregaram de contar o que ela fizera, também contaram que ela não passou muito bem depois do que fez. Parece que sofreu as consequências de um procedimento mal feito. Não fui vê-la. Não a queria por perto. Assim como ela não quis a nosso filho.
Rosalie o abraçou. – Eu sinto muito, Emmett. – Enquanto o mantinha em seus braços, lembrou-se dele falando, na noite que fizeram amor no celeiro sem proteção, que cuidaria e amaria a criança, caso ela engravidasse naquele descuido dos dois. Foi quando ela falou próximo ao ouvido dele: – Eu te amo. Ter um filho com você seria um belo presente.
Emmett moveu o rosto devagar, até seus rostos ficassem frente a frente. Tomou o rosto dela entre as mãos, selando seus lábios em um beijo forte. Cheio de certezas e promessas.
[...]
O culto tinha terminado quando retornaram finalmente ao estacionamento ao da igreja. A família os aguardava com ansiedade.
Mesmo depois dos momentos de angustia que viveu ao visitar o túmulo da mãe e também do avô, Emmett ainda conseguiu se lembrar de comprar doces para as crianças; lembrando-se da promessa feita a Noah antes de saírem de casa pela manhã.
Ele estacionou o carro no meio-fio. A maior parte das pessoas que estiveram na igreja àquela manhã já tinha retornado a suas casas. Lena conversava na porta da igreja com o revendo e a esposa dele. Kate e Garrett, com Esme e Carlisle, do lado de fora. Alice e Jasper estavam com as crianças, que não paravam quietas em momento algum.
Emmett permaneceu imóvel dentro da caminhonete. Notando sua hesitação, Rosalie deixou de observar a família, voltando olhar pra ele dentro do carro. Temia que tivesse uma recaída. Os momentos no cemitério tinham sido desgastantes.
— Você está bem? – ela perguntou, tendo o cuidado em tocar o braço dele. Queria que soubesse que estava com ele. Mas não queria forçá-lo a enfrentar mais uma situação difícil por hoje. Ele realmente precisava de um descanso. Suas emoções haviam todas sido postas a prova em um único dia.
— Uhum – ele se limitou inicialmente em dizer. E então estendeu a mão segurando a dela, que descansava em seu braço. – Eu só não queria ter de ficar explicando pra Kate e nem pra vovó como foi. Não gostaria de estar revivendo tudo outra vez.
— Tenho certeza de que elas irão entender. Elas têm feito isso a sua vida inteira. Não acredito que possam magoar você.
Ele abaixou o olhar, encarando suas mãos unidas, e voltou apertá-las.
— Você tem razão – Ele ergueu suas mãos unidas, encostando a dela aos lábios. – Vamos pegar nossas crianças. Elas devem estar se perguntando onde fomos e por que estamos demoramos tanto pra voltar.
Rosalie sorriu pra ele, encorajando-o. Ambos deixaram o interior do veículo ao mesmo tempo. Ele deu a volta pela frente da caminhonete mais uma vez, e segurou na mão dela.
A irmã dele foi a primeira a avistá-los. Antes de ir ao encontro deles, Kate murmurou um pedido de desculpas a Esme, pondo a mão em seu ombro. Caminhou até os dois sem se preocupar em olhar para mais ninguém, sua única preocupação naquele momento era saber como o irmão se sentia.
Sem dizer uma só palavra, Kate passou os braços ao redor do corpo grande do irmão. Ele retribuiu com o mesmo carinho. Beijando seus cabelos louros no alto da cabeça. Depois lhe beijou a testa, enquanto ela lhe ofertava um sorriso sincero. Absolutamente feliz por ele ter conseguido.
— E a vovó? – pediu Emmett.
— Ela não para de falar com o reverendo sobre você. Ela está orgulhosa. Não fique chateado com ela. Ela precisava contar pra ele.
— Não estou. Eu sei que ela não podia guardar isso dele. O reverendo sempre esteve ao nosso lado, em vários momentos de nossa vida.
Kate afagou o braço dele, animada. – Que bom.
— Então – disse Emmett –, já podemos ir?
— Convidamos Esme e a família dela pra almoçar com a gente na fazenda... – de repente ela parecia insegura quanto à aceitação do irmão. O dia já tinha sido agitado demais pra ele, imaginou que fosse querer se isolar, como era de costume.
— Então almoçaremos todos juntos, em família. – Os irmãos sorriram um para o outro. Rosalie viu tanta cumplicidade naquela troca de sorrisos que o coração enterneceu.
Foi surpreendida pelos braços da irmã dele envolvendo-a com força. – Obrigada – sussurrou Kate ao seu ouvido. – Obrigada por cuidar tão bem do meu irmão.
Amy se desvencilhou dos braços de Alice tão logo percebeu a presença da mãe. Correndo ao encontro deles com passinhos vacilantes.
— Mamã. Papa.
Rosalie se adiantou. Temendo que pudesse cair correndo tão desesperada em suas perninhas roliças, com passos trôpegos, dentro daquele vestidinho fofo florido. Pegou a filha no colo, apertando-a junto ao peito. Beijando suas bochechas rosadas, reconhecendo seu cheirinho de bebê.
— Sentiu saudades da mamãe?
— Tio, todade.
— Claro que sentiu né, amor?! – Rose voltou a beijá-la. Amy estendeu os braços querendo o colo de Emmett. Ele a recebeu com o mesmo carinho.
Os meninos vieram correndo para juntos deles logo em seguida.
— Mamãe.
— Mãezinha.
— Papai – diziam juntos. Fazendo com que as covinhas se exibissem nas bochechas de Emmett. Depois de tanta tempestade, elas surgiam entre nuvens que eram sua dor. Rose afagou o braço dele, intercalando o olhar entre ele e as crianças.
— Como foi? – Emmett sondou, sem deixar de olhar os meninos.
Enrico pulou, animado. – O reverendo me deixou tocar violino hoje pra todo mundo ouvir. – Os olhinhos brilharam com a declaração. Tornando os da mãe um reflexo dos seus.
— E eles gostaram amor? – Rose pediu.
O menino moveu a cabeça, concordando, em um gesto frenético.
— Você tinha que ter visto mamãe. Eles adoraram – Enrico falou sem conseguir conter o sorriso.
Rosalie afagou o rosto contente do menino, pensando se depois suas bochechas não doeriam com sorriso tão grande.
— Me desculpa Rico, mamãe tinha uma coisa muito importante para fazer com o Emmett.
— Com o papai – o menino corrigiu.
— Isso, com o papai – ela repetiu.
— Onde que tá o meu doce? – Noah cobrou.
— Está dentro do carro. O papai vai buscar pra vocês.
Emmett entregou Amy a Rose antes de voltar ao carro para pegar a sacola de doces. Amy não quis saber de ficar no colo por mais tempo, se remexendo até que a mãe a pusesse no chão. Rose ficou segurando-a pela mãozinha, enquanto Amy saltitava ao redor de suas pernas.
O restante do pessoal se aproximou.
— Então, onde andavam os pombinhos? – Alice xeretou.
— Tínhamos coisas a resolver – Rose foi quem respondeu.
— Coisas é? Sei...
— Não dê bola pras coisas que Alice diz – Esme alertou.
— Ah, essa danadinha eu já conheço bem.
Alice assumiu uma expressão de santa, com mãos unidas em frente ao corpo.
Emmett agora estava cercado pelas crianças, que recebiam doces em total animação.
Jasper não tirava os olhos do visor do celular.
— Ei, Jasper, você quer um doce? – Alice perguntou ao amigo.
— Quero, sim. Quem está distribuindo? – o garoto levantou as vistas do aparelho.
Alice o acertou com um tapa na nuca. – Então se liga! As crianças vão ficar com tudo. Apresse-se. Ei, Emmett – ela gritou –, tem alguma jujuba aí?
Ele ergueu a mão revelando um pacotinho de balas de goma.
— Aí, dá pra mim. Dá pra mim – ela correu, afobada, na ansiedade de ter as deliciosas jujubas.
— Eu quero jujuba – Noah declarou em voz alta.
— Não, você não quer – Alice revidou, alcançando o pacote colorido com a mão. – São minhas. Minhas preciosas.
Os lábios de Noah formaram um beicinho de choro, e ele foi correndo para junto da mãe. Segurando as pernas dela no instante em que a alcançou.
Alice ficou dividida, olhando das jujubas no pacote para a criança com cara de choro agarrada a perna da mãe.
— Ela pegou meu doce... – Noah lamentou todo choroso. – O papai disse que era meu. Mãezinha a moça pegou.
Rosalie passou os dedos nos fios louros que caiam na testa dele, desejando que parasse de chorar. Enrico se aproximou, trazendo seu chocolate.
— Pode ficar com ele, Noah – disse ao irmão, estendo a mão com o chocolate.
— Eu não quero isso, Rico. Eu quero jujuba... – Um soluço escapou enquanto ainda falava.
Alice chegou perto deles. Ficando de joelhos para falar com Noah.
— Toma. Pode ficar com elas. Você tem razão, elas eram pra você. Você me desculpa por querer ficar com seu doce?
Noah recebeu o pacote de doces, ainda choroso. E, olhando as balinhas de goma coloridas no saquinho, respondeu:
— Obrigado.
— Você está bravo comigo?
O menino meneou a cabeça, negando. – Tira um pouco pra você – ofereceu a Alice. – Pode tirar.
— Não precisa. Depois eu pego grana com meus pais e compro pra mim. – Ela se pôs de pé novamente. – Desculpe-me Rose. Eu não queria que ele chorasse. Foi mal.
— É que Alice fica maluca quando se trata de jujubas – o amigo, Jasper, acusou. Alice pareceu não se importar. E os dois riram juntos.
— Isso? – Amy pediu, com o dedinho em riste, mostrando o doce que o irmão segurava.
— São jujubas – Noah respondeu.
— Oah, dá? Dá um?
Noah entregou o pacotinho pra Rose. Ela abriu e devolveu a ele. O menino mergulhou a mão pequena dentro da embalagem tirando uma jujuba, pondo na boca da irmã. Depois outra na própria boca.
— Duduba – Amy respondeu com a boca cheia. Pequenos pedaços de balinha de coma amarela caíram de sua boca direto no vestido.
Em sua visão periférica Rosalie viu Lena abraçar Emmett. Ele falar algo no ouvido da avó e o rosto dela, marcado pela idade, se iluminar com um sorriso orgulhoso. Na curta distância, Lena olhou pra Rose com um agradecimento silencioso nos lábios, e também no olhar.
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