Um Lugar Para Ficar

30 Capítulo 30 – Sombras do Passado


Notas iniciais
Meu agradecimento a Biannylinda12 pela recomendação feita a fic. Fiquei muito contente quando entrei aqui ontem e a encontrei. Obrigada, coração. Espero que goste do capítulo, ele é dedicado a você. A todos uma boa leitura :)

De volta à fazenda, família e amigos se reuniram em torno da grande mesa de madeira, na varanda dos fundos da casa grande, para o almoço.

A churrasqueira elétrica ficou aos cuidados de Garrett. Embora algumas vezes, Carlisle desse lá os seus palpites. De vez em quando, Esme se pegava rindo, porque, era em momentos assim, em reuniões com amigos, que reconhecia nele um pouco de Alice.

As crianças maiores se divertiam a valer no parquinho em frente à varanda.

Lena, Rosalie e Kate cuidaram do almoço com ajuda de Neva, que deveria estar de folga, mas, vendo as visitas chegarem se ofereceu para ajudar.

Emmett ficou inspecionando Amy, que brincava no triciclo, empurrando os pezinhos no chão para que o brinquedo se movimentasse. Ela ainda não conseguia usar os pedais, por mais que tivessem lhe mostrado como se fazer. Mas nem por isso gostava menos do presente. Durante sua brincadeira, estava sempre repetindo a palavra “papa”, enchendo o coração de Emmett de alegria. Amy o adorava, e o carinho era reciproco.

Momentos depois, as crianças foram todas convidadas a lavarem as mãos. Rosalie foi quem as levou até o banheiro dos fundos onde fizeram fila diante da pia.

Todos juntos à mesa, Emmett dividiu com ela a tarefa de ajudar as crianças a se servirem, e cortar seus alimentos. Os filhos de Kate estavam sentados ao lado dela, enquanto o marido cuidava do churrasco.

No trajeto de volta, Kate ligou para Isabella convidando-a com o marido e o filho a se juntarem a eles na fazenda.

Entre risos e conversas fáceis, Rosalie se pegou olhando cada um daqueles rostos com carinho. Cada um com seu jeito, sua peculiaridade, porém todos portadores de um coração de ouro.

Somente deixou de observá-los no momento em que Amy, muito irritada, acabou gritando. O motivo dessa irritabilidade toda fora o desejo de comer sozinha, segurando a própria colher. Emmett cedeu as suas vontades, e não demorou mais que alguns poucos minutos para estar completamente suja. Nem mesmo seus finos cabelos louros escaparam das mancas de molho. E tudo o que Emmett fez foi dar risadas. Rio do modo como ela conseguiu se sujar nos locais menos improváveis e de como parecia não se importar.

Apenas quando já não tinha mais com que lambuzar foi que Rose a pegou no colo e a levou para o banho. Esforçando-se ao máximo para livrar os cabelos das mãos sujas de Amy.

Usou uma bacia vermelha de plástico como banheira. Acertou em cheio quando fez a escolha, Amy não parava de bater as mãozinhas em punho na água, conversando em linguagem de bebês.

No final a enrolou em uma toalha macia, com temas infantis. Amy já começava demonstrar sinais de cansaço quando deixaram o banheiro, encostando a cabecinha molhada ao ombro da mãe.

Encontraram com Emmett ainda a caminho do quarto.

— Já está cheirosinha de novo? – ele pediu.

— Diga “sim” ao papai – Rose cochichou, roçando o nariz na cabeça de Amy. A garotinha ergueu a cabeça apenas para fazer um pedido.

— Pepê – Os olhinhos piscando preguiçosamente. A mão pequena esfregou um dos olhos reforçando aquilo que Rose já sabia.

— A mamãe já vai buscar sua chupeta.

Emmett chegou um pouco mais perto, afagando as costas de Amy sobre a toalha úmida. Curvando-se para beijar os lábios de Rosalie.

— Estou indo ensinar as crianças como fazer pipas. Depois vamos empiná-las todos juntos.

— Tenho certeza que irão adorar. Jamais fizeram algo parecido. Eles não vão querer desgrudar de você nunca mais. Tem sido tão atencioso e querido com eles.

— Nem quero que façam isso – Emmett admitiu.

Estava prestes a beijá-la outra vez, quando, vozes de crianças dispararam pelos cômodos da casa a sua procura. Rosalie não precisou vê-los para saber que eram Logan, Abby, Enrico, Noah e Liam. A voz dos seus filhos se destacando por chamá-lo de papai. Os outros, de titio.

— É melhor eu me apressar – avisou a Rose, aproveitando para beijá-la uma última vez.

[...]

Rosalie ouviu a barulheira, as cinco crianças falando ao mesmo tempo com Emmett. Todas empolgadas, querendo que lhes mostrassem como se fazer pipas.

Emmett passou pelo pessoal que conversava sentados à mesa da varanda sendo seguido de perto por cinco crianças. Três delas de cabelos louros, um era castanho, e outro cor de bronze.

Todo material necessário para a confecção das pipas foram postos na grama baixa. As crianças se sentaram ao redor. Até mesmo Alice e Jasper se juntaram a eles.

O material foi dividido por igual. No instante seguinte, Emmett se pôs sentado na grama junto a eles. Todos muito atentos seguiam suas instruções ao pé da letra. Até Liam resolver implicar, escondendo embaixo do papel verde que usaria na confecção de sua pipa às varetas que Noah usaria na dele.

Sem perceber o ocorrido, o menino ficou procurando, até Abby entender o que tinha acontecido. O que denunciou foi o sorriso cínico no rosto de Liam.

— Devolve, Liam – ela pediu. – Devolve as varetas pra ele.

— Eu não peguei nada. Você está inventando – Liam acusou.

— Não estou inventando nada. Você pegou, sim, as varetinhas que o titio deu para ele.

— Mentirosa! – Liam gritou, se irritando com Abby.

— Liam – A voz grave de Emmett alertou o menino quanto a seu erro. Emmett olhava para Liam de canto de olho, observando sua reação.

— Ô titio – começou Abby – o Liam pegou o material da pipa do Noah. E fica me acusando de mentirosa.

Emmett olhou da sobrinha para o filho do casal de amigos.

— Devolve o material da pipa dele, Liam – ele fez o pedido, usando um tom de voz firme.

— Eu não peguei – mentiu o garoto.

— Eu sei que você pegou. Conheço minha sobrinha o suficiente para saber que não é uma mentirosa.

Furioso por ter sido descoberto, Liam pegou as varetas escondidas embaixo do papel verde atirando-as na grama.

— Por favor, pegue as varetas e devolva nas mãos dele. Isso não foi educado, Liam.

— Não precisa – Noah apressou-se em dizer. – Não precisa papai. – Estava claro que Noah se assustou com a atitude de Liam, associando aquele momento ao ocorrido na escola dias atrás quando o garoto bateu em Abby, ocasionando a briga com Logan.

— Eu não quero – Liam respondeu grosseiramente.

— Então você está fora da brincadeira – Emmett deu o alerta.

Liam se abaixou, recolhendo as varetas então. Apenas mais uma olhada pra Emmett, entregou todas nas mãos de Noah.

— Eu posso ficar agora? – perguntou.

— Pode – Emmettt respondeu, em seguida, voltou-se para as outras crianças. – Preciso de um pouco de cola. Volto em alguns minutos, é só o tempo de ir lá dentro pegar.

Bastou apenas Emmett desaparecer pela porta dos fundos, para Liam retomar com a implicância. Empurrando as mãos de Abby, fazendo com que erasse parte do trabalho.

— Para – pediu ela. Liam empurrou sua mãozinha outra vez. – Para, seu chato.

— Dedo-duro – o menino acusou, para em seguida beliscar no braço dela com a ponta das unhas.

Quando Abby começou chorar por conta da dor das unhas dele na carne fina de seu braço, Enrico tomou a frente empurrando Liam para trás.

— Para de machucar ela, seu besta – se queixou em defesa da garotinha, que chorava.

Enquanto Enrico afagava no bracinho de Abby, o local onde ficaram as marcas das unhas de Liam, Logan se aproximou, empurrando o pequeno encrenqueiro pelos ombros.

— O que você fez com minha irmã? – exigiu. As mãos nos ombros do pequeno adversário, exigindo uma resposta. – Seu estúpido! Por que bate nela? Não ver que é uma garota?

Emburrado, Liam o empurrou de volta.

Da varanda, os pais notaram a confusão se formando.

— Parou! – Garrett alertou num tom de voz alto o suficiente para todos ouviram em meio à discussão.

Isabella desceu os degraus da varanda dos fundos pisando duro, agarrando Liam pelo braço.

— Já chega! – avisou Kate, se aproximando de Logan.

— Foi ele quem começou – Logan retrucou, com raiva. Kate segurou seu braço, também, afastando-o da confusão.

Abby ainda chorava. Garrett se aproximou para ver o machucado no braço dela. Reconhecendo que Enrico era só cuidados. Chegando ao ponto de beijar o machucado no bracinho dela. Abby olhava pra ele, os olhos verde-esmeralda cheios de lágrimas, o rosto molhado. Os lábios, tremendo em um beicinho.

Edward também estava ao lado do filho agora. – Você vai ficar sentado lá na varanda – avisou a Liam. – E vai pensar em tudo o que fez, até que esteja arrependido e peça desculpas aos seus amigos.

— Eu quero brincar – o menino, choramingou olhando no rosto do pai.

— Você não vai brincar. Está de castigo, Liam.

— Papai...

— Nem mais uma palavra. Agora me obedeça, Liam. Faça como falei.

Emburrado, o menino começou andar de volta à varanda, os pais logo atrás, seguindo seus passos.

— Estou muito envergonhada, Liam – admitiu Isabella, em voz baixa. – Você está sempre aprontando.

— Você percebe o que fez? – Edward insistiu. Eles chegaram à varanda e o menino se sentou no último dos degraus.

— Eu quero brincar – Liam apenas repetia.

— Vai brincar sozinho, porque nenhuma criança quer mais brincar com você. O tempo todo você provoca. Você machuca. Não percebe, isso não os faz gostarem de você. Não seja assim filho... – Bella implorou num tom de lamento.

— Garoto imbecil! – grasnou Logan.

— Ei, o que foi isso? – Kate alertou, olhando seria no rosto dele.

— Eu fico com muita raiva do Liam quando ele bate na minha irmã. Você e o tio Emmett sempre disseram que é errado bater em garotas. E esse estúpido sempre comete o mesmo erro. Não é possível.

Garrett não conseguiu segurar o riso. Kate lhe lançou um olhar de reprovação, e ele imediatamente mudou de postura com o filho.

— Mas você não pode bater nele. Isso também é errado – ele esclareceu a Logan, olhando meio de soslaio a esposa.

Kate se abaixou, e, segurando o rosto de Logan entre as mãos, falou. – Você precisa me procurar querido. Não é assim que se resolvem as coisas. Eu vou tentar resolver tudo sempre. Não importa o que seja.

Logan desviou olhar. Após um segundo em silêncio, acrescentou:

— Se eu fizer isso, e quando voltar Liam já tiver matado minha irmã – os olhos de Logan arderam, com acúmulo repentino de lágrimas.

Kate puxou o corpo pequeno do filho para um abraço. Beijando seus cabelos louros, quase brancos, no alto da cabeça.

— Isso não vai acontecer, meu amor.

— Essas coisas acontecem, mamãe – sua resposta a surpreendeu. Ele não tinha conhecimento da história que envolvia o passado da família. Nenhuma das crianças tinha, na verdade. Mas, Logan era esperto. Podia muito bem ter ouvido qualquer coisa e criado em sua cabecinha uma versão para tudo que ouviu. Passados alguns minutos de silêncio, ele voltou a falar.

— Posso só dar um soco nele?

— Não, você não pode – a mãe foi firme na resposta, embora ainda preocupada com o que ele pudesse ter ouvido sobre o passado da própria família. Havia decido guardar segredo até que ele e a irmã fossem grandes o suficiente para compreender, sem causar danos.

Ela ofereceu a mão a Abby. – Vem com a mamãe, amor. Vamos passar uma pomadinha nesse machucado.

— Tá doendo...

— Eu sei que está, Docinho.

Abby se afastou de Enrico, segurando na mão da mãe. Mas, ao se aproximarem dos degraus da varanda, não quis passar perto de Liam. Kate precisou pegá-la no colo. Chorosa, Abby enlaçou os braços em torno do pescoço da mãe, vendo Enrico segurar sua pipa lilás, inacabada.

— Ei – tagarelou Alice –, vamos continuar. – Ela pôs a mão no ombro de Enrico. – Daqui a pouco ela volta.

— Aposto que minha pipa vai ser a mais bonita – Jasper tentou ganhar a atenção dos meninos.

— A minha é mil vezes melhor – rebateu Alice, entrando no jogo dele.

— A sua parece mais um arco-íris – Logan declarou, ameaçando um sorriso. Os outros meninos o imitaram.

— Bem, arco-íris é legal – respondeu uma Alice risonha.

[...]

Emmett entrou na cozinha com o tubo de cola branca na mão. Tinha ouvido o choro da sobrinha ainda do escritório na casa grande.

Abby estava sentada sobre a mesa, e Kate passava pomada em seu machucado recente. As bochechas vermelhas, molhadas pelas lágrimas que caíram até poucos segundos atrás.

A mãe havia lhe dado uma caixinha de suco de laranja, que Abby bebia em pequenos goles com o canudinho.

— O que foi? – pediu Emmett, preocupado. – O que ela tem?

— Foi o Liam outra vez – a irmã respondeu, sem olhar pra trás. Abby levantou o olhar buscando a figura grande do tio junto à porta.

O rosto de Emmett se contorceu em desagrado. Com mais alguns passos, ele se aproximou das duas.

— Você sabe o que penso sobre isso, não sabe? – comentou, olhando de perto o machucado no braço da sobrinha.

— Eu sei... – Kate respondeu, sentida. – Bella e Edward já o castigaram.

— Parece que nunca é o suficiente. Esse garoto tem a incrível capacidade de me tirar do sério. Mas é filho do meu amigo, o que posso fazer?! – Então, encostou o dedo no queixinho de Abby. – Quer vir soltar pipa com o titio, gatinha?

A menina lhe estendeu os braços, segurando a caixinha de suco entre os dedos. Emmett a pegou no colo, com o mesmo carinho e cuidado com que segurava Amy. Kate beijou as costas da filha, para então, também, beijar o braço do irmão.

— Estou meio triste com o Liam – ela admitiu, em voz baixa ao irmão.

Rosalie apareceu na porta, seu rosto, imediatamente, adquirindo preocupação. Caminhou até eles, analisando a expressão em seus rostos.

— O que aconteceu? – ela pediu, olhando de um para o outro. Foi quando Abby mostrou o bracinho, onde havia as marcas das unhas de Liam.

— Liam – Emmett respondeu pela sobrinha.

— Sinto muito, querida – disse a Abby, em seguida, beijando seu bracinho, próximo à região do machucado. Então se voltou para Emmett outra vez. – E os meninos?

— Eles estão bem – respondeu Kate. – Continuam trabalhando nas pipas. Alice e Jasper ficaram ajudando eles.

— Liam também?

— Não. Edward o deixou de castigo, pensando no que fez.

Rosalie anuiu.

— Vou levar a cola para eles terminarem a colagem – Emmett avisou. – Vem comigo, amor?

— Vou sim.

— E a Amy? – ele perguntou.

— Está dormindo. Em todo caso, estou com a babá eletrônica – emendou, mostrando o aparelhinho numa das mãos.

Ele manteve o peso de Abby em um único braço, deixando o outro livre para envolver a cintura de Rosalie.

— Encontro vocês em um minuto – visou Kate.

Passavam pela varanda quando Liam falava com a mãe.

— Já posso sair do castigo?

— Ainda não.

Emmett desceu Abby do colo. Ela imediatamente correu para se juntar aos meninos, parando com um sorriso no rosto. Enrico se pôs de pé ao vê-la chegar. Em suas mãos estava a pipa lilás, com colagens de florezinhas coloridas, finalizada.

Abby encolheu os ombros, olhando o garoto, e então seus bracinhos se ergueram, passando em torno do corpo dele, num abraço agradecido.

— Eu terminei pra você – ele disse, em seguida.

— Obrigada, Rico – ela agradeceu. E depois de receber a pipa pronta, os dois se puseram sentados na grama para terminar a confecção da dele.

Emmett e Rose se juntaram a eles, ajudando no que faltava para que todas as pipas ficarem prontas.

Deixaram as colagens secando ao ar livre, enquanto comiam um lanche na varanda. Lena e Neva haviam preparado sanduiches de peito de peru e suco de fruta pra todos. As crianças estavam animadas novamente, exceto Liam, que continuava de castigo.

Momentos depois, quando voltaram ao gramado, Emmett os ensinou como pôr suas pipas no ar. Rosalie se pôs a filmá-los no celular dele. Às vezes fazia uma foto. De tempos em tempos, um deles acenava e sorria para a lente.

A pipa azul de Noah por pouco não se enroscou na multicolorida de Alice. Emmett agira rápido na manobra que as afastou uma da outra.

Com a chegada da noite, Garrett fez uma fogueira e todos se puseram em torno dela, sentados em cadeiras e pequenos bancos, equilibrando varetas com marshmallows nas pontas.

Amy estava no colo de Emmett. Os meninos ao lado da mãe. Liam ficou um pouco mais agradável. Dedicado a assar seu marshmallow sem perturbar ninguém.

Alice se pôs a cantar uma animada canção de acampamento. Os únicos que não conheciam eram as crianças de Rose, mesmo assim, se esforçaram para acompanhar aos amigos na cantoria.

Quando todos os marshmallows acabaram, Garrett e Emmett se empenharam em contar histórias. Eram histórias engraçadas e teatrais. O objetivo era animá-los, e não assustá-los, por isso ninguém reclamou a ausência dos contos de terror.

Não levou muito tempo até que estivessem correndo de um lado para o outro, sendo perseguidos por Garrett, que fingia ser um urso das montanhas a atacá-los. Emmett o esnobava afirmando ser muito magricela para um urso.

Tendo o riso das crianças e as vozes dos amigos flutuando ao fundo, Rosalie olhou o céu. Estava salpicado de estrelas brilhantes. Feliz. Emmett firmou Amy no colo com apenas um braço, passando o outro em torno dos ombros dela. Amy passou do colo dele para o da mãe facilmente, se aninhando no calor do corpo dela. Com a chupeta na boca, ficou enrolando o dedo minúsculo na ponta da fralda.

Emmett se inclinou, até seus lábios encostarem-se aos fios louros no alto da cabeça de Rosalie. Passando a observar o céu junto com ela.

— Está vendo a Ursa Maior? – ele começou num tom de voz brando. – Para os índios Cherokee a constelação representava um grupo de caçadores que perseguia um urso. Mas, para cada civilização existe uma crença diferente. Eu poderia contá-las todas agora. Acontece que essa é minha favorita. Vovô adorava tudo e qualquer coisa que falassem de ursos, e, embora eu estivesse emocionalmente muito ferido quando cheguei aqui, me recordo de essa ter sido uma das primeiras histórias a me contar. Por isso, ofereço a você, agora, a Ursa Maior como meu presente.

Rosalie se aconchegou ao calor do corpo dele, emocionada.

— Se por ventura acontecer de ficarmos longe um do outro, busque a constelação da Ursa Maior, então saberá que estou contigo; olhando e cuidando.

A vozinha sonolenta de Amy os afastou daquela rota de pensamentos.

— Papa – a pequena se expressou, movendo a mão pequenina no alto.

— Você gostou bebê? – ele falou com ela, mantendo a mesma calmaria de antes no tom de sua voz.

— Tô – Amy balbuciou, bocejando em seguida.

Os cachorros perseguiam as crianças, barulhentas. Garrett se lançou na grama, ofegante, depois de tanto correr atrás delas.

— Amor – disse ele –, eu estou morrendo.

— Está ficando velho, hein – Kate provocou, dando risada.

Isabella gritou de susto ao sentir algo subindo por suas pernas. Liam e Edward riram em cumplicidade. O menino segurava um graveto.

— Acho que já está na hora de irmos – emendou Carlisle.

— Ah, papai...

— Está tarde Alice – Esme reforçou. – Ainda temos de deixar Jasper na casa dele.

Em pouco tempo, a família de Esme havia partido. Edward e Isabella foram logo depois, com Liam totalmente desperto no banco de trás.

A fogueira foi apagada e logo todos estavam dentro de casa.

As crianças foram postas no banho, depois em suas camas. Vindo a dormir muito rapidamente, exaustas.

Naquela noite, Emmett convidou Rosalie a tomar banho com ele. Enquanto todos na casa dormiam, eles fizeram amor embaixo do chuveiro.

[...]

Na segunda-feira logo após o almoço, Esme deixou Rosalie encarregada da livraria. Precisava ir ao banco cuidar de assuntos financeiros. Confiava nela para cuidar de tudo em sua ausência.

Estava tudo indo muito bem até às duas e quarenta da tarde, quando um novo cliente entrou na loja.

A sineta anunciou sua chegada, imediatamente Rosalie se encaminhou a entrada da loja. Estivera arrumando alguns livros novos nas prateleiras mais afastadas. Tendo um vislumbre apenas das costas do recém-chegado, sentiu o coração falhar uma batida. As pernas tremerem. A mesma altura, a mesma cor de cabelo castanho-escuro. O mesmo corte. Não era possível que estivesse ali. Não podia ser ele.

O homem deu alguns passos na direção contraria a que ela estava. Rosalie se encostou muito rápido na estante de livros atrás de suas costas. O coração assumindo um ritmo fora do comum.

“Deus, por favor, não”, se viu suplicando em pensamentos. “Ele não pode estar aqui”, seus olhos em pavor absoluto. “Deus, não faz isso comigo”.

Não podia ser ele. Não ali. Não quando estava tão sozinha e vulnerável.

Afogando-se no próprio medo, não percebeu quando, na direção contraria a que havia desaparecido, o homem se aproximou.

Encontrava-se pálida feito papel. A testa brilhava com gotículas de suor. A pulsação forte agredindo seus ouvidos.

— Você se sente bem? – perguntou. Mas tudo o que Rosalie fez foi gritar. Um grito agudo, horrorizado. O homem se afastou, imaginando o que teria acontecido a ela para estar tão assustada.

O pânico havia tomado conta de cada célula do corpo dela. A semelhança a confundia. Com ele de frente, via-se o castanho de seus olhos. O medo obrigou ver coisas. Para Rosalie aquele homem era seu marido Royce. E ela tinha certeza, estava perdida.

Enxergava a figura masculina através de lágrimas, uma cortina invisível do medo implacável.

Quis fugir, mas acabou esbarrando na prateleira, derrubando alguns exemplares de Crime e Castigo – romance do escritor russo Fiódor Dostoiévski publicado em 1866 ­– no piso de madeira bem encerado.

O homem moveu as mãos a fim de ajudá-la, se arrependendo no meio do caminho.

— Moça, me diga se puder ajudá-la em alguma coisa. Parece tão assustada. Aconteceu algo?

Não reconhecia o timbre de voz gentil e preocupado daquele homem. Em vez disso, ouvia a agressiva da voz de Royce. Em toda sua fúria, na mesma entonação, fazendo ameaças e xingamentos. Fazendo-a sentir-se a pior das mulheres. A mais desprezível e merecedora de maus-tratos.

Em uma nova tentativa de ajudá-la, o homem tocou seu braço. Foi o suficiente para se deixar sugar pelas memórias. Memórias horríveis, de um passado que gostaria de esquecer.

Royce estava gritando com ela, acusando-a de deixar a comida sem sal. E então o prato cruzando a cozinha, estilhaçando-se no chão. Cacos de porcelana se misturando a comida desperdiçada do jantar. Em seguida, a força do punho dele acertando seu rosto. Apenas o primeiro dos muitos socos e pontapés que vieram a seguir.

Como na ocasião que a espancou embaixo do chuveiro por ter trancado a porta com a chave. Lembrou-se da porta quebrando com um forte estrondo. Dos golpes que acertaram seu corpo nu. Das fortes dores que sentiu. De como ele abaixou a calça e abusou dela sem se importar com as dores que lhe causava. Era bruto e insensível. E como se sentiu humilhada ao ficar jogada no piso molhado do banheiro. Com a consciência de que resíduos da ejaculação dele ainda escorriam entre suas pernas, bambas e doloridas. E do choro das crianças, trancadas no menor dos quartos da casa.

Em outra lembrança, segurava Enrico ainda pequeno nos braços. Era madrugada e o bebê não parava de chorar. Royce gritou inúmeras vezes para fazê-lo calar. Por mais que se esforçasse, não conseguia. Nada no mundo o acalmava. E quando Royce tentou pegar o bebê de seus braços, ela o segurou com força contra o peito, implorando que o deixasse em paz. Foi chutada e teve os cabelos puxados com brutalidade. A criança chorou ainda mais, sentindo todo medo e estresse da mãe passando pra ele.

Royce os enxotou para os fundos da casa. Rosalie teve de passar uma noite fria de outono inteira do lado de fora com um bebê de meses nos braços. Buscando calor numa única toalha de mesa que se encontrara no varal. Sentada ao pé da porta, temendo ser vista pelos vizinhos. Enrico passou à noite grudado ao seu peito, porque não teve coragem de afastá-lo. Implorando que o vínculo materno e o calor de seu corpo fossem suficientes para mantê-lo aquecido.

E então ela sentiu a dor do dia em que Royce pegou Noah, com dois anos de idade, pela perna mantendo o menino de cabeça pra baixo, porque ele não parava quieto. Ele tinha uma imagem totalmente errada da infância. Às vezes Rose pensava se ele queria os filhos como robôs, pré-programados.

Os gritos de Noah a deixava doente. Ela implorou que lhe devolvesse o menino, e Royce riu com deboche ao dizer que o jogaria no latão de lixo, do lado de fora. Foi quando Rose ameaçou gritar, até que os vizinhos ouvissem e chamassem a polícia. Naquela noite, dormiu amordaçada, depois de ter apanhado e sido ameaçada de morte mais uma vez.

Era aniversário de um ano de Amy, Rose tinha comprado um bolinho escondido dele no mercado, no dia anterior, quando foram às compras. Ela e os meninos estavam felizes, mesmo com tão pouco, sentados ao chão do quartinho da caçula, cantando-lhe os parabéns em voz baixa.

Royce chegou furioso por algo ocorrido no trabalho. Chamou por ela com a mesma frieza e descaso de sempre. Rose se apressou em fazer as crianças soprarem à velinha cor-de-rosa, mas, infelizmente, Royce alcançou o quarto antes que o fizessem. Debochando deles, pegou o bolinho de glacê rosa e comeu tudo sozinho. Repetindo que o que era comprado com o dinheiro dele, pertencia a ele. As crianças choraram e Rosalie ficou com a difícil tarefa de consolá-las, temendo que voltasse para machucá-los.

Então a lembrança do dia em que, sem querer, deixou cair uma travessa de macarrão. Royce a obrigou comer grande parte do macarrão no linóleo da cozinha, enquanto puxava seus cabelos forçando seu rosto contra o alimento derramado.

Lembrou-se de todas as noites que acordou com ele de pé ao lado da cama, encarando-a enquanto dormia. E como sempre imaginava se estaria planejando sua morte. Foi por medo do pior que passou a dormir num colchão inflável no quarto de Amy, ao lado de seu bercinho.

Na livraria, o homem que segurava seu braço percebeu quando seu corpo tombou para cair. Por sorte conseguiu segurá-la antes que batesse com a cabeça no chão.

— Moça? – ele repetiu, tomado por uma nova preocupação. Segurou firme o corpo mole, levando-a para o maior dos sofás, localizado aos fundos da livraria, no cantinho da leitura. Esforçou-se em reanimá-la. Quando, por fim, achou melhor ligar pra emergência. Foi quando ainda pegava o celular do bolso da calça que percebeu Rose abrir os olhos, confusa. Estava tendo dificuldades para separar presente e passado. Realidade e lembranças.

Sentindo a garganta seca, conseguiu pronunciar apenas uma única palavra.

— Emmett...

A figura do homem a sua frente estava desfocada. A imagem de Royce se dissolvia aos poucos, ela, por fim, começava perceber que confundira o homem a sua frente com seu carrasco. Apesar das semelhanças físicas, aquele não era Royce. Começava compreender que sofrera de um ataque de pânico.

Levou a mão à têmpora direita em um gesto débil, voltando a dizer:

— Emmett...

— Quem é Emmett? Você quer que eu o procure?

— Meu namorado... – conseguiu dizer. Sua voz não passava de um suspiro.

A sineta anunciou a chegada de alguém. Não demorou a descobrir que era Esme de volta.

— Rose, querida, eu já estou de volta – à voz da patroa, e amiga, chegou até seus ouvidos. Esme olhou em volta, estranhando a falta de resposta.

Caminhou pela loja a procura dela, até avistar um homem de costas, ajoelhado diante um dos sofás. Olhando melhor, percebeu que ajudava Rosalie a se sentar.

— Oh, meu Deu! – as palavras deixaram seus lábios sem obstáculos. E ela disparou até onde eles estavam, nos fundos da livraria.

Ignorando totalmente a presença do homem, Esme se pôs ao lado de Rosalie. – O que houve minha querida? O que aconteceu aqui? Você está bem?

Rosalie olhou do homem para ela. – Eu não sei... acho que foi uma crise de pânico. Sinto-me tão confusa...

Esme a envolveu em seus braços gentis e amigáveis. – Oh, minha amiga. Vai ficar tudo bem. Fique calma, eu vou pegar um copo de água pra você. Fique quietinha. Não saia daí.

Enquanto Esme se afastava, o homem voltou a falar.

— Ela falou algo sobre o namorado.

— Emmett. Eu vou telefonar pra ele depois.

O homem assentiu e se pôs de pé.

— Eu vou indo.

— Me desculpe... – Rose lhe pediu. – Você sequer pôde escolher o livro.

— Não tem problema – ele respondeu se encaminhando a saída.

[...]

Rosalie estava olhando pra Esme agora. E segurava o copo vazio na mão.

— Me desculpe – pediu. – Sem querer acabei atrapalhando nas vendas.

— Não se preocupe com isso, meu bem. Mas, me diga o que aconteceu aqui? Ele fez ou disse algo que te assustou? Ainda dá tempo de chamarmos a polícia. Ele não deve estar muito longe.

— A verdade é que ele não fez nada além de tentar me ajudar. Quando entrou na loja, o vi de costas... pensei, por um instante, que fosse Royce. Fiquei em pânico. Cheguei até mesmo a pensar que fosse morrer sem ter a chance de me despedir de meus filhos – havia uma tristeza dolorosa, entremeada com os fios escuros de seu passado.

Os braços de Esme estavam novamente em torno dela, envolvendo-a com carinho.

— Ah, minha querida... – Se afastando, acrescentou: – Vou telefonar pra Emmett vir te buscar. Quero que vá pra casa descansar. Você está muito abalada. Ficarei mais tranquila sabendo que Emmett está cuidando de você.

— Não quero dar trabalho, pra nenhum de vocês.

— Não é trabalho algum, boba.

Momentos mais tarde, Emmett passava pela porta trazendo no rosto um ar preocupado.

— Onde ela está?

Esme indicou a escada que levava ao segundo piso da livraria. – No banheiro – disse. – Só tome cuidado ao se aproximar. Ela ainda está sucessível a sustos hoje.

Emmett torceu o rosto a essa informação. Assustá-la era o que ele menos queria. Ele a compreendia como ninguém. Tinham o passado semelhante. E a amava desesperadamente.

Ele subiu a escada, de dois em dois degraus, indo parar em frente à porta do banheiro.

— Rose, sou eu, amor – bateu o punho de leve na madeira bem trabalhada. – Raio de sol, você está aí?

O coração de Rosalie ficou em paz ao ouvir sua voz, a doçura e cuidado por trás dela. Terminou de secar as mãos na tolha de papel, alcançou a maçaneta, puxando a porta devagar. Reconhecendo o sorriso de covinhas que esperava por ela do lado de fora.

Emmett abriu os braços, e ela se acomodou ao corpo dele, descansando a cabeça no ombro largo. Por um instante, ouvindo apenas os batimentos contínuos de seu coração.

Ele a envolveu em seus braços fortes com carinho, beijando no alto de sua cabeça loura. Se deixando levar pelo aroma de maçãs.

— Ah, meu amor... – murmurou, com os lábios nos cabelos dela. – Esme me contou o que aconteceu. Lamento que tenha passado por isso sozinha. Eu devia saber que isso poderia acontecer um dia.

Os dedos finos dela grudaram no tecido da camisa de botões azul-marinho que ele usava.

— Foi horrível... – Rose lamentou. Sua voz não passava de um murmúrio, cansada.

— Eu sei... – ele respondeu, beijando novamente nos cabelos dela.

— Me desesperei quando pensei que pudesse ser ele...

Emmett encostou os dedos da mão direita no queixo dela. Abaixando a cabeça, uniu seus lábios, silenciando a pronuncia do nome dele. Voltou envolvê-la com os dois braços, permanecendo assim um instante, sem nada a dizer, apenas apreciando a paz interior que a presença de um causava ao outro.

Voltou a falar, depois de ter verificado a hora no relógio de parede.

— Está quase na hora de as crianças saírem... Por que não vamos juntos?! Esme me disse que está dispensada por hoje. Os meninos irão adorar encontrar o papai e mamãe esperando por eles na porta da escola.

Rosalie moveu a cabeça, concordando. – Eles ficarão em êxtase – disse por fim. Só agora percebendo o chapéu de couro preto na cabeça dele. O que a fez pensar ter saído às pressas da fazenda, largando o serviço pela metade.

Raspou as pontas das unhas de leve no rosto dele. Emmett segurou seus dedos se dedicando a beijar os nós com devoção.

Depois de ela pegar a bolsa no armário, os dois se despediram de Esme no balcão de atendimento.

A presença de Emmett a deixara mais tranquila.

Entraram na caminhonete e foram à escola primaria esperar pelos meninos. As três e quarenta e cinco da tarde, Kate deixou o prédio com as quatro crianças.

Emmett e Rosalie esperaram por eles, de mãos dadas, ao lado da caminhonete. Quando avistou os filhos, Rose só quis abraçá-los. Sentir o tão conhecido cheiro de cada um. Eles eram seus companheiros. A razão de cada batalha que enfrentou em sua vida com Royce. E também sua vitória.

A primeira a avistá-los foi Kate. Seu rosto se iluminou com um sorriso no mesmo instante. Sua mão se moveu, mostrando as crianças em que direção olhar, enquanto lhes falava algo.

Enrico e Noah giraram nos pés, o sorriso crescendo nos lábios. Deixando as lancheiras aos cuidados de Kate, os irmãos correram, levando nas costas o sobrepeso das mochilas. Se lançando nos braços da mãe, que se abaixava para recebê-los com os braços abertos.

— Mãezinha.

— Mamãe.

— Príncipes de minha vida – ela murmurou, sendo apertada pelos bracinhos deles dois. As mochilas impedia que os abraçassem como realmente queria. Mas, seus rostinhos e pescoços estavam livres para beijar e cheirar o quanto quisesse.

— Você veio – disse Noah, surpreso.

— E o papai também – comentou Enrico, indo abraçar as pernas de Emmett.

Rosalie pegou Noah no colo. Emmett, Enrico. As ouras duas crianças se puseram aos pés deles trazendo suas mochilas pesadas nas costas e lancheiras vazias nas mãos.

Enrico e Noah foram postos no chão novamente. Logan e Abby foram recebidos com beijos pelo casal.

— Isso sim é uma surpresa boa – acrescentou Kate ainda enquanto se aproximava.

— Sorvete para todos! – Emmett anunciou em voz alta, gerando agitação entre os pequenos.

— Yes! – Noah gritou, agitando os bracinhos no alto. Fazendo com que todos rissem de sua empolgação.

Notas finais
Bom, gente, espero que tenham gostado. Aproveito para dizer que a fic irá até o capítulo quarenta e cinco. Adianto a vocês que na reta final tem muita coisa acontecendo. Ficaria muito contente se pudesse vê-los nos comentários. *Postei uma nova short-fic, se alguém ainda não viu e tiver interesse em conhecer, segue o link: https://fanfiction.com.br/historia/718737/Coracao_de_Soldado/ Beijo, beijo Sill