Um Jogo de Convivência - Revanche
3 Um último ponto de Revanche
Notas iniciais
Eu deixei Yuu no apartamento dele e, como o meu não era longe, voltei andando para casa, ainda rindo divertido de todos os nomes que o moreno furiosamente me xingara.
Na manhã seguinte, o mais velho ainda espumava quando chegou à sala do the GazettE no prédio da gravadora e me viu, sentado na poltrona, dedilhando o violão.
— Ohayou gozaimasu, Aoi-san! – saudei-o e ele grunhiu na minha direção, surpreendendo nossos amigos.
— Vai se foder... – ele me deu as costas e foi pegar café.
Os outros três se entreolharam.
— Eu pergunto... – Akira disse, como se algum deles tivesse perguntado alguma coisa. – O que foi que aconteceu entre vocês dois?
— Acontece que o filho da puta do Uruha armou a maior cachorrada da história comigo ontem depois do ensaio! – o moreno vociferou na minha direção e eu o encarei com a cara mais desgraçada que eu tinha, me divertindo muito com seu mal humor.
Yutaka, Takanori e Akira me olhavam com reprovação, mas eu não liguei.
— Não seja mal humorado, Aoi! Não sabe brincar?
O moreno me fuzilou com os olhos e eu caí no sofá gargalhando.
— Ao que parece, não...
— Você tem um conceito doentio de “brincar”, Uruha! – o mais velho gritou na minha direção, quase destruindo o copo de café em sua mão. – Eu simplesmente não consigo acreditar que sua mente seja tão deterioradamente louca a ponto de levar uma vingança besta a um nível tão baixo!
— O quê? Você esperava que o meu conceito de vingança fosse adorável e angelical como meus olhos, Yuu-chan? – eu zombei. – Você está falando com um homem, porra!
— Vê se cresce, Kouyou! – o moreno me deu as costas e eu gargalhei. – Nenhuma das coisas que eu lhe fiz merecia isso!
— Não?! Tem certeza disso?! Quer mesmoque eu diga aqui, na frente dos outros membros da banda, qual das brincadeirinhas sem graça que você fez comigo quando entrou na banda que merecia muito mais do que você recebeu ontem?
Pude ver o moreno hesitar diante da minha fúria, quando ele voltou a me encarar. Talvez, ele estivesse se lembrando exatamente do que eu falava. Aguardei em silêncio sustentando seu olhar, por uma resposta que não veio. O mais velho simplesmente se sentou no sofá e levou o copo de café à boca.
— Vocês podem nos dizer de uma vez o que foi que aconteceu ontem?! – Ruki perguntou, impaciente.
— É! E o que o Aoi aprontou quando entrou na banda também! – Reita completou.
Eu dei risada e o outro, apesar de ainda estar muito furioso, revirou os olhos. Eu realmente não tinha problema em contar a eles, mas Yuu me lançou um olhar que me dizia para ficar calado. A guerra era nossa...
— Pensei que tínhamos vindo para ensaiar – olhei para o líder da banda, que ainda nos analisava cautelosamente, sem dizer nada.
— Uruha tem razão... – o moreno mais novo disse, frustrando nosso vocalista e nosso baixista. – Mas escutem bem vocês dois – seus olhos, sempre tão doces e infantis, se voltaram para mim e Aoi, severos – eu não quero saber mais dessas brincadeiras imbecis de vocês! Vocês dois são adultos e têm completa noção das próprias responsabilidades! Vocês têm um compromisso com a banda! Se vocês estiverem com algum tipo de problema, nós resolvemos de maneira sensata... Fora isso, pensem direito nas decisões que tomam! Eu tenho dito!
Nós todos o vimos entrar no estúdio e se dirigir para sua bateria. Eram raras as ocasiões em que Yutaka se portava como líder de banda. Mas, quando se portava, eu me esquecia que era mais velho que ele... Todos nos encaminhamos para o estúdio e cada um assumiu sua posição, sem dizer mais nenhuma palavra.
— Acho que devíamos começar pela última que tocamos no ensaio de ontem... – o baterista novamente se prontificou, dando início ao ensaio de uma vez.
Assentimos, nos focando nas primeiras notas calmas, a voz de Takanori se sobressaindo aos outros sons.
Olhei para Yuu, do outro lado, tentando deixar toda a sua fúria lá fora e apenas a guitarra falar por ele. Essa era uma das coisas que eu tinha aprendido a admirar no moreno: a sua capacidade de focar todo o seu espírito na música e dar-lhe tanta importância, que o resto se tornava completamente insignificante.
Eu ainda era capaz de perceber a raiva que deslizava por suas cordas, a raiva pouco contida e a vontade assassina que ele tinha de atravessar aquele pequeno espaço que nos separava e quebrar o instrumento na minha cabeça. Mas eu podia ver aquele sentimento porque eu conseguia entender Yuu... Porque, naquele último mês, eu tinha descoberto muito sobre ele enquanto nos acostumávamos a sincronizar nossas guitarras.
Comecei a me sentir nervoso enquanto tocava, cada vez que se aproximava o solo de guitarras que tinha na música... Era o temor de realmente ter extrapolado os limites do outro guitarrista...
Meu maior medo, quando Yuu entrou na banda, era que eu nunca me acostumasse com outro guitarrista além de mim no the GazettE... Depois, eu temi que ele me superasse a ponto de que eu não fosse mais necessário... E, por fim, que existisse uma competição entre nós dois.
Mas, quando trabalhávamos juntos, quando trocávamos solos de guitarra, era simples de entender como Yuu e eu nos sincronizávamos... Não era um duelo... Era um diálogo... E eu tinha de admitir que isso acontecia, não por competência minha, mas dele! Porque era ele que dava um passo pra trás e aceitava ser base pras minhas notas...
Quando ele olhou pra mim durante o solo, eu vi a raiva e vi a amizade, vi que, por mais que eu tivesse ido longe demais, eu tinha chances de consertar o que eu tinha feito.
O ensaio seguiu sem interrupções até a hora do almoço, quando largamos os instrumentos, saímos do estúdio e fomos todos pra lanchonete do último andar.
Dividimos uma mesa e eu me sentei com uma distância segura de Yuu, com medo de que ele usasse os talheres para se vingar de mim.
— Como vão os músicos mais queridos do Japão? – Sakai-san, nosso agente, se aproximou de nossa mesa com um sorriso e puxou uma cadeira. – Espero que estejam preparados, porque a notícia que eu tenho pra vocês é grande! É muito grande!
Não teve um de nós que não largou os talheres e prendeu a respiração, aguardando com expectativa o que ele viera para nos dizer. Ele sorriu vitorioso com nossa demonstração desesperada de ansiedade por receber a notícia dele.
— Bem... Não façam nenhum plano para os próximos cinco meses porque o the GazettE vai estar em turnê pelo país! – ele anunciou animadamente e nós cinco quase enfartamos.
— Turnê? – eu repeti de olhos arregalados.
— Pelo país? – Yutaka disse, incrédulo.
— O país todo? – Takanori perguntou e Sakai assentiu com um sorriso no rosto.
— Por cinco meses? – Akira perguntou, um sorriso em seu rosto parecido com o do agente.
— Acabaram de decidir isso lá no andar da administração! Vocês estão aptos a entrar em turnê e são a promessa da gravadora para o próximo ano!
Eu estava quase caindo da cadeira de tanta felicidade... Era a realização do sonho que começara em Kanagawa, na primeira vez que eu vi o Sugizo-senpai tocando no Luna Sea... Eu ia viajar em turnê, com minha banda, tocando nossa música pra centenas de pessoas por todo país! Meu coração só faltava sair pela boca!
— Providenciem tudo o que precisarem nesse mês, está bem? – ele se levantou e fez uma reverência na nossa direção. – Qualquer coisa, podem me procurar – se despediu e foi embora.
— Uma turnê... – Takanori assobiou. – Uma turnê do the GazettE! – todos sorriram.
— Isso merece uma comemoração! – eu vibrei e todos assentiram.
— Sábado, na minha casa! – Yuu disse contente, mas eu senti um leve temor quando ele olhou para mim. Dei risada na sua direção.
— Sábado! Festa na casa do Yuu! – Akira ergueu o copo e todos o imitamos. – Pelo the GazettE!
— Pelo sonho que chega! – Takanori sorriu.
— E o sonho que começa! – Yutaka completou.
— Por todo trabalho até aqui! – Yuu disse e todos nós demos risada.
— E todo trabalho que está por vir! – eu completei e eles assentiram.
Nenhum de nós conseguia mais comer ou raciocinar com tanto entusiasmo. Nós tínhamos dado muito duro, principalmente depois que Yuu chegara e esperamos muito por aquela oportunidade. Eu olhava o sentimento de euforia nos rostos de meus companheiros que provavelmente estava no meu naquele momento.
Segurei o ombro de Yuu e ele se esquivou por reflexo. Eu dei risada.
— Pelo the GazettE, Yuu... Trégua, amigo – sorri e ele sorriu hesitante de volta pra mim. – Sábado à noite, na sua casa, então? – eu confirmei e ele ficou preocupado novamente. – Não está com medo que eu apronte alguma coisa, está, Aoi? – dei risada.
— Depois de ontem, pode me culpar por não confiar mais em você? – ele me acompanhou na risada.
— Nós somos amigos, Aoi! Agora, somos!
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