Um Estudo Na Carne

2 Capítulo 2 - Sherlock Holmes


Notas iniciais
O capítulo se passará pelo ponto de vista de Sherlock Holmes, visualizando seu primeiro encontro com o Dr. Hannibal Lecter.

– TAXI! – Sherlock Holmes gritou, ao vislumbrar um carro preto cruzando a rua.

Haviam diversas coisas que Sherlock Holmes gostaria de fazer numa sexta-feira. Investigar um assassinato, zombar da cara de Anderson, um dos membros da equipe policial da Scotland Yard, visitar a própria sede policial para ver se havia algum caso pendente ou até mesmo ficar em casa atirando na parede. Mas, definitivamente, sair num dia chuvoso para visitar um psiquiatra americano de caráter duvidoso contratado por John Watson não era uma delas.

Como não dispunha de nenhum veículo, Sherlock dependia de ônibus, taxis ou seus próprios pés para locomover-se pela grande e bagunçada cidade de Londres. Após um pequeno incidente envolvendo um taxista e uma mulher vestida de rosa, agora ele sempre tomava cuidado ao pegar taxis, prestando muita atenção na autenticidade do veículo, no taxista e em sua licença.

“Overlook Hotel”, pensou Sherlock consigo mesmo. “Bloco 2, 4º andar, 6º corredor, quarto 01”.

O taxi cruzava as longas ruas londrinas sem dificuldade. O motorista apresentava destreza, e suas feições de caráter mexicano, cobertas por um bigode agrisalhado, como o cabelo, fitavam o caminho com tanto foco que ele raramente piscava. “Certamente virou a noite trabalhando. Deve estar dopado de cafeína.”, Pensou Sherlock.

Sherlock olhou para a licença de motorista do homem, e conferiu o ano em que ele entrou para a companhia de Taxis.

“Está dirigindo esse taxi fazem seis anos”, Pensou Holmes. “O estofamento do banco da frente e parte do chão desse carro apresentam uma fina crosta de café seco, o que indica que embebedar-se de cafeína já é habitual para ele. Aqui também está fedendo à tabaco. A expectativa de vida desse homem, certamente, não passa de 10 anos. 7 anos e oito meses, eu diria, considerando que, pelo cheiro desse carro, ele deve fumar mais de 3 maços por dia, além de estar acendendo um cigarro agora.”, pensou Sherlock.

O Taxi parou em frente ao Overlook Hotel. Sherlock pagou ao motorista, e deu mais cinco libras de gorjeta. “Provavelmente, ele gastará em mais café ou cigarros. Tanto faz.”, pensou Sherlock.

Ele encarou o hotel por alguns segundos antes de entrar. A chuva e o vento faziam com que seu longo casaco preto esvoaçasse um pouco, e parte de seus cachos negros caíssem sobre o rosto, formando uma franja molhada.

“Bem vindo ao Inferno”, Sherlock pensou, antes de chapinhar até a entrada.

– Olá, bom dia. – Disse a recepcionista do hotel, quando Sherlock Holmes aproximou-se do balcão.

Holmes estava com um humor meio nublado naquele dia, então decidiu fazer algumas referências à livros para não ter que criar diálogos.

– O que você quer dizer? Você está me desejando um bom dia ou dizendo que este é um bom dia independente de minha vontade ou que você se sente bem neste dia ou que este é um bom dia para se estar bem? – Indagou Sherlock.

– Hã... bom dia. – Repetiu a recepcionista.

“Excelente.”, pensou ele. “Capacidade intelectual tão pequena à ponto de não entender a referência óbvia a uma das frases literárias mais famosas de todos os tempos. Quem não conhece O Hobbit? Essa mulher dificilmente deve ser letrada.”.

– Estou procurando pelo Dr. Hannibal Lecter. Pode comunica-lo de minha chegada, por favor? – Perguntou o detetive consultor.

– Claro, senhor. – Disse a mulher, com um sorriso forçado em seu rosto jovem, porém cansado, apertando alguns botões em um interfone. – Dr. Lecter, tem visita para o senhor na portaria. É o senhor...

– Sherlock Holmes. – Acrescentou o mesmo.

– Sherlock Holmes. – Repetiu a recepcionista, no interfone.

– Pode deixar entrar. – Disse a voz de Lecter, através do interfone.

A recepcionista desligou o interfone.

– Certo, senhor. – Disse a recepcionista, com outro sorriso forçado. — O quarto do Dr. Lecter está no...

– Bloco 2, 4º andar, 6º corredor, quarto 01. Obrigado. – Cortou Sherlock, seco.

A recepcionista, sem graça, forçou mais um sorriso, acenando, com a cabeça, para o corredor que dava ao bloco 2.

“Estou cercado de idiotas.”, pensou o detetive consultor, enquanto caminhava até seu destino, suas botas deixando pegadas molhadas no chão acarpetado do saguão.

Após alguns lances de escada, elevadores e corredores, Sherlock Holmes havia chegado ao seu destino: O Quarto 01, do 6º corredor, do 4º andar, do 2º bloco.

Sherlock tocou a campainha, suas mãos coberta por luvas de couro que ele usava para evitar espalhar impressões digitais por aí. “As pessoas deviam ser mais precavidas em relação às suas digitais”, pensava Holmes, ocasionalmente, quando olhava para suas mãos, calçadas em luvas.

Um pequeno movimento foi vislumbrado por Sherlock no olho mágico, e logo a porta foi atendida.

Hannibal Lecter era um homem de porte alto – ele e Holmes mediam aproximadamente a mesma altura. Sua pele era suavemente bronzeada, e ele tinha faces rígidas, porém finas e visivelmente delicadas. “É um homem de luxos e regalias”, logo deduziu Sherlock. Seus cabelos louros-agrisalhados pendiam num penteado lateral. Ele usava um terno azul bem cortado, por baixo de um avental de cozinha branco simples.

– Oh, olá. – Disse Hannibal, com um sorriso amigável. — Presumo que o senhor seja...

– Sherlock Holmes. – Apresentou-se o mesmo. – E você é o Dr. Hannibal Lecter. Meu...

– Psiquiatra. – Completou Lecter. – Entre. Eu estava terminando o café da manhã.

“Isso é evidente.”, pensou Sherlock enquanto entrava. “Ele está usando um avental de cozinha e ostenta um bafo de carne. Mas esse cheiro de carne... não me lembro de ter sentido um cheiro igual em nenhuma carne comestível. Possivelmente ele comeu alguma vagem ou algo parecido, que misturou-se ao cheiro do que deve ser carré, deixando em seu hálito esse cheiro peculiar.”.

O quarto de hotel, inicialmente simples, havia sido redecorado para se adequar ao gosto refinado de Lecter. Ele havia colocado uma toalha bordada sobre a mesa, (onde pendiam um prato branco vazio, com indícios de molho de carne e um pequeno laptop) haviam alguns papéis com desenhos arquitetônicos espalhados pelo sofá e uma maleta aberta no chão acarpetado. Dentro da maleta, havia um pequeno rádio de pilhas, que tocava, displicentemente, “A Flauta Mágica”, de Mozart. Ao lado do sofá, havia um banquinho dobrável, certamente colocado pelo próprio Lecter.

– Perdoe-me a bagunça. – Disse Hannibal. – Tive pouco tempo para arrumar as coisas desde que cheguei ontem.

– Certamente que teve. – Comentou Sherlock, seco. – Então... devemos começar?

– Claro. – Disse Lecter, tirando seu avental branco de cozinha e recolhendo os desenhos do sofá. – Infelizmente, não tem um divã nesse quarto, mas pode deitar-se aqui.

O Dr. Lecter pôs o avental e os desenhos sobre a mesa e sentou-se no banquinho dobrável, com um olhar convidativo. Parecia ser uma boa pessoa.

Sherlock deitou-se no sofá de modo em que sua cabeça ficasse perto da parede, e seus pés, ao lado do rosto de Hannibal.

– Sabe, a maioria dos pacientes deita do outro lado. – Falou o psiquiatra. – Assim, fica melhor para eu ouvir: a cabeça fica mais perto de mim e...

– ...Eu fico mais vulnerável caso você tenha algum canivete ou coisa do tipo e queira me assassinar. Não, obrigado. – Disse Holmes, seu tom de voz inalterado causando um clima sinistro entre os dois homens.

– Você é paranoico demais, Sr. Holmes. Tem minha palavra de que não sou um assassino. – Afirmou Lecter.

– Ainda assim, não vou arriscar. – Rebateu Sherlock.

– A escolha é sua. – Disse Hannibal, sem conseguir esconder que estava desapontado em são tom de voz. Sacou, do bolso de seu terno, um bloquinho de papel e uma caneta esferográfica.

“Destro. Ele a segura com uma certa postura desconfortável em sua mão. Não está acostumado com esferográficas comuns: escreve usualmente com canetas mais chiques, caras, finas.”, observou Sherlock. “Esqueceu-se de trazer sua própria caneta, certamente refinada, dos Estados Unidos, e teve que comprar uma caneta simples em uma lojinha perto do aeroporto ou do hotel”.

– Então, Sr. Holmes... como vai a vida? – Perguntou Hannibal.

– Entediante. – Admitiu o detetive consultor. – Estou sem um bom caso faz tempo.

– Caso, êh? – Murmurou Lecter. – Você é detetive, Sr. Holmes?

– Não se faça de desentendido. Você sabe que sou um detetive consultor. – Cortou Sherlock, que, naquele dia, estava seco como nunca. – Parece que não tomou o cuidado de virar seu laptop para outro lado. Estou visualizando-o daqui, e posso ver que ele está aberto no meu site, o “A Ciência da Dedução”. Também é visível que, na outra aba, está aberto o blog do meu colega John Watson, que noticia diversos casos resolvidos por mim. Então, é facilmente visível de que você está à par de minha profissão e de meus casos. Quer me fazer de idiota, Dr. Lecter? Eu gostaria de vê-lo tentar.

Hannibal Lecter ficou alguns segundos em silêncio. Corou, indicando que ficou levemente envergonhado.

Hannibal pigarreou.

– Então, Sr. Holmes... – Disse Lecter, brincando com a esferográfica entre seus dedos. — Seu colega de apartamento, o Dr. John Watson...

– Só “John Watson”. Apenas a irmã dele o chama de “Dr.”. – Acrescentou Sherlock.

– Certamente. – Disse Hannibal, abrindo um sorriso envergonhado. – Voltando ao assunto, o seu colega, John Watson, me contratou para conversar com você durante uma hora, às segundas e às sextas. Enfim... pensei que poderíamos começar conversando sobre amigos e conhecidos seus, e falar sobre John Watson parece um bom começo. Então, Sr. Holmes, quais são os seus pensamentos à respeito de seu colega de apartamento?

– Primeiramente, estou nutrindo um sentimento de abominação por ele ter me forçado à ter dois encontros semanais com um psiquiatra americano estúpido. – Desabafou Holmes.

– Na verdade, eu sou lituânio. – Corrigiu Lecter, com um sorrisinho.

– Tanto faz. – Disse Sherlock, indiferente. – Voltando ao assunto: John Watson. Eu o invejo.

– Inveja ele? – Indagou Hannibal, surpreso.

– Sim. Sua mente. – Explicou o detetive consultor. – Tão plácida, direta, quase não usada. A minha é um motor. Não há um botão de parar.

Hannibal rabiscou algumas coisas com a esferográfica no bloquinho. “Ele realmente não está acostumado com isso. O modo como escreve lembra uma criança de cinco anos”, pensou Sherlock.

– Você, muito pelo contrário, Dr. Lecter. Você é visivelmente pensante. – Disse Holmes. – Constantemente olha pra cima e checa seu relógio de pulso, o que indica que está impaciente: tese reforçada pela movimentação de seus pés: Está com a perna esquerda apoiada sobre a direita, e nervosamente remeche o pé esquerdo cerca de três vezes por segundo. Sua mente está em outro lugar.Também posso ver que o senhor não gosta da Inglaterra. Afinal, você não tem como trazer toda a sua bagagem de classe para cá. Traz apenas os confortos necessários que você não pode viver sem: Um rádio de pilhas com algumas baladas de música clássica, uma boa toalha de mesa, e, certamente, julgando pela toalha, um jogo de roupas de cama. Também é observável que desenhar é um hobby pessoal do senhor. É visível que está acostumado à viajar, pois vejo, entre seus rascunhos, diversos pontos turísticos mundiais. Interceptando as ligações entre você e meu colega John Watson, foi nitidamente perceptível o fato de que você combinou a compra da passagem para Londres com a maior naturalidade, o que indica que a frequência de suas viagens é, se me permite o termo, abundante. O acabamento de seus desenhos está fantástico, o que indica que talvez você também tenha algumas habilidades em arquitetura – Possivelmente adquiridas por formação universitária ou coleguismo com alguém que possua tal graduação. Seu relógio de pulso não está ajustado ao fuso-horário dos Estados Unidos ou do Reino Unido, o que mostra que você voltou recentemente de uma viagem internacional antes de vir para cá. Você está usando um rolex, e nem todo mundo tem poder aquisitivo para comprar um rolex, especialmente um original. Com um caráter pontual como o seu, é impossível que ande com um relógio desregulado pra lá e pra cá, o que indica que o senhor possui mais de um, mostrando assim, somado ao seu caráter e gostos refinados, além do terno bem cortado, que estou diante de uma pessoa rica, bem-sucedida na vida e que certamente só está no ramo da psiquiatria para aumentar seu ego. Você gosta de se sentir inteligente, Dr. Lecter. Dissecar a mente das pessoas, como se elas fossem sapinhos de barriga aberta num laboratório de ciências. Isso não vai funcionar comigo.

Sherlock Holmes fitou Hannibal Lecter por alguns segundos de silêncio. Uma gota de suor escorria da testa do psiquiatra, indicando que o mesmo estava envergonhado.

– Sr. Holmes. – Disse Hannibal, pausadamente, tentando parecer o mais calmo possível. – Que eu me lembre, o paciente aqui é você.

– Certamente. – Desculpou-se Sherlock, recompondo a postura. – Apologias.

– Vejo que possui muita perspicácia aí, Sr. Holmes. – Comentou Lecter. – Agora por que não usa essa mesma perspicácia para falar um pouco sobre si mesmo?

– Sabe, Dr. Lecter, o que há em comum entre as pessoas inteligentes? – Indagou Sherlock.

– Um elevado QI? – Arriscou Hannibal, brincando.

– A capacidade de percepção. Identificamos uns aos outros pelo olhar. E, quando uma pessoa inteligente pergunta algo simples como estas suas questões, certamente já sabe da resposta.

– Então, você me considera inteligente?

– Evidente, Dr. Lecter. Ou você acha que não me dei o trabalho de pesquisar e fazer um dossiê sobre Hannibal Lecter antes de nosso primeiro encontro? Eu sou precavido, e, como você, detesto surpresas. Você trabalha ajudando a perícia criminal. Isso não é para qualquer um.

– Sr. Holmes, percebo que você acha que estamos jogando um jogo de gato e rato.

– E estamos, afinal. Agora prepare-se para desviar de minha próxima patada. Vejo em seus profundos olhos que você teve uma infância sofrida, Dr. Lecter. Também percebi, que, agora que a mencionei, houve alterações em suas pupilas e expressões faciais, o que afirma minha teoria. Provavelmente, você foi marcado por algum acontecimento trágico. Sim, Dr. Lecter. Mortes. Mas de quem? Pai? Mãe? Ouso dizer... irmão ou irmã?

– Nossa sessão acabou, Sr. Holmes. – Disse Hannibal, nitidamente irritado.

– Não. As sessões marcadas por John tem uma hora. Só se passaram quarenta e oito minutos. – Constatou Sherlock, seu tom de voz inalterado que certamente já estava levando Lecter à loucura. – Eu sei contar, Dr. Lecter. Frequentei o primário. O senhor, certamente, também.

Hannibal Lecter levantou-se.

– Conversa terminada. – Anunciou Hannibal, seu tom de voz visivelmente irritado. – Vejo você novamente na segunda-feira,Sr. Holmes. Passar bem.

Sherlock levantou-se.

– Adeus, Dr. Lecter. – Despediu-se Sherlock.