Um Estudo Na Carne
3 Capítulo 3 - D.I. Greg Lestrade
Notas iniciais
Lestrade esperava, impaciente, recostado em sua viatura.
Gregory Lestrade era um Detetive Inspetor que comandava uma unidade policial da New Scotland Yard. Estavam ali investigando um homicídio – as viaturas pararam na rua. Alguns outros membros da equipe de Lestrade já entravam no beco para examinar o corpo. Mas ele, não. Estava lá, recostado na viatura, esperando...
- O maluco já chegou? – Perguntou a Sgt. Sally Donavan, uma dos membros da divisão de Greg Lestrade.
- Ainda não. – Respondeu Lestrade, impaciente, batucando com o pé esquerdo no chão e checando seu relógio de pulso.
- Ele não vai vir? – Perguntou Sally.
- Nem sempre vem. – Disse o detetive inspetor. – Deve estar ocupado.
Porém, para contradizer Lestrade, naquele momento, um taxi chegara às margens da rua, e de lá saíram Sherlock Holmes e o Dr. John Watson.
- Você está atrasado! – Gritou, do outro lado da rua, Anderson, um dos médicos da equipe de Lestrade.
- Eu nunca me atraso, bem como nunca me adianto. – Falou Holmes, seco. – Chego exatamente quando quero chegar.
Um silêncio constrangedor pairou pela atmosfera por alguns segundos.
- É de um livro. – Explicou Watson. – Estamos sem um caso faz uns dias. Ele anda lendo tudo o que encontra pela frente.
- O que temos aqui, Lestrade? – Perguntou Sherlock.
- Mais um homicídio. – Respondeu Greg.
- Onde está? – Indagou Holmes.
Lestrade indicou, com um aceno de cabeça, o beco onde sua equipe estava analisando a cena do crime.
- Excelente. – Disse Sherlock Holmes, recompondo a postura. – Você tem luvas de látex aí? Eu não quero sujar as minhas.
- Tem umas usadas, do Anderson. – Explicou o detetive inspetor.
- Eu não vou usar as luvas do Anderson. – Sherlock pareceu acentuar, com desgosto, o nome do médico. – Além disso, reutilizar luvas de látex é anti-higiênico. Quero luvas novas, Lestrade.
Uma das médicas da divisão de Greg Lestrade estava por perto, ouvindo a conversa. Ela estava segurando uma caixa de papelão azul-clara, de tamanho médio, que continha uma abertura vertical no topo, como uma caixa de lenços. Então, aproximou-se de Sherlock.
- Aqui, pegue. – Ofereceu a moça.
Sherlock puxou um par de luvas.
- Grato. – Agradeceu o detetive consultor, calçando o par de luvas com um estalo em suas mãos. – John?
John Watson acenou com a cabeça, fazendo um “não”.
- Você tem cinco minutos, Sherlock. – Falou Lestrade, de prontidão.
- Não irei demorar. – Garantiu Holmes, caminhando em direção ao beco, seguido por Watson e pelo próprio Lestrade.
Os três homens abriram caminho entre a rodinha de médicos que rodeava o corpo e lá viram o homem deitado no chão, sobre uma poça de sangue.
– Adrian Reeves. – Disse Lestrade. — Libano-Americano, 28 anos, agente do Censo. Não tenho ideia do que veio fazer aqui na Grã-Bretanha.
- Isso é... – John Watson limpou garganta. – Grotesco.
O homem tinha a garganta perfurada violentamente, de modo em que o chão era visível por um buraco em seu pescoço. Ele também tinha uma grande abertura, um corte, sangrando, inflamado, na região esquerda de sua barriga.
- Não achamos digitais, cabelos, saliva, nem nada que pudesse identificar o assassino. – Comentou Anderson. – Provavelmente, este furou a garganta do homem com um facão, depois usou o mesmo para furar sua barriga e-
- Excelente, Anderson. – Falou Sherlock, indiferente, abaxiando-se para entrar em proximidade com o corpo. – A excelente análise de um idiota.
Anderson praguejou e saiu andando para fora do beco. “Provavelmente vai fumar um cigarro, ou ir para casa.”, pensou Lestrade. “Cigarros. Não, Gregory. Não. Pense. Nisso.”.
Greg Lestrade já havia tido problemas prévios relacionados ao fumo. Agora, já não fumava, porém usava adesivos de nicotina.
Sherlock Holmes (que, por acaso, também usava adesivos de nicotina – Porém, se estava usando agora, era algo que ia além do conhecimento de Lestrade) continuava examinando minuciosamente o corpo.
Enquanto este tatetava cuidadosamente a garganta do agente do censo morto, seu colega, John Watson, fazia algumas caretas.
Após seu dedo indicador direito tocar em algum lugar da garganta do falecido, um brilho intenso nos olhos de Sherlock pode ser vislumbrado por Lestrade. O Detetive Inspetor sabia o que aquele brilho significava – ele já o havia visto diversas vezes em casos passados. O brilho significava que Holmes havia achado uma pista.
Sherlock levantou sua mão para o alto, contra a fraca luz do sol daquele dia nublado, a luva de látex ensanguentada. Ele segurava um pedaço do que parecia ser madeira – um galho quebrado, talvez, pensou Lestrade – castanho-escura.
- O que é? – Indagou o detetive inspetor. – Um galho? Talvez um pedaço de mobília...?
- Não, Lestrade. – Disse Sherlock, sério, olhando para o pedaço. – Isso é parte de um chifre de veado.
- Chifre de veado? – Repetiu John Watson, incrédulo.
- De veado, cervo, talvez. – Afirmou Holmes. – No estado em que está, é difícil afirmar com precisão à olho nu. Mas que isso foi parte do chifre de um animal, tenho certeza.
- Por que alguém usaria um chifre para matar? – Indagou Watson.
- Isso, meu caro John, é o que precisamos descobrir. – Respondeu Sherlock, ainda fitando o pedaço de chifre.
Holmes piscou e pareceu voltar ao mundo real. Deu o pedaço do chifre para um dos membros da unidade de Lestrade, que o pôs num saquinho para evidências, e desceu um pouco para examinar o corte na barriga.
- Agora, se o assassino já o matou através do corte na garganta, por que perfurou a barriga também? – Perguntou Holmes.
- Talvez ele tenha feito primeiro o corte na barriga, e depois perfurado a garganta. – Sugeriu Lestrade.
- Improvável. – Falou Sherlock. – Observe as poças de sangue, Lestrade. A que vem da garganta é bem maior do que a que vem da barriga. Além disso, as bordas da ferida na garganta já estão secas e semi-cicatrizadas, enquanto o corte na barriga ainda está bem recente, com nada além de uma leve inflamação.
“Nunca tente corrigir Sherlock Holmes, Gregory.”, pensou Lestrade, consigo mesmo. “Você sabe que nunca dá certo.”.
Holmes estudou o ferimento na barriga por alguns segundos.
- Esse corte foi feito por um bisturi. – Concluiu o detetive consultor.
- Mas... – Murmurou John Watson. – Como-
- Eu sei, John. – Cortou Sherlock. – Eu sempre sei.
Ensanguentando ainda mais suas luvas de látex, Sherlock Holmes abriu, levemente, o corte, olhando dentro. Sua expressão facial logo se mutou para algo que poderia se classificar como assustado, surpreso.
- Lestrade. – Requisitou Holmes, indicando, com um aceno de cabeça, o corte. – Posso...
- À vontade. – Murmurou Greg Lestrade, indiferente.
Sherlock abriu um pouco, com os dedos, o corte, tateando o interior do corpo.
- Isso está errado. – Murmurou o detetive consultor. – Não pode ser.
- O que é, Sherlock? – Perguntou John Watson.
Subitamente, Holmes penetrou com a mão direita inteira dentro do corte, tateando o interior do corpo, e depois retirando, a luva de látex quase inteiramente vermelha.
- O assassino... – Murmurou Sherlock, com algo que Lestrade nunca vira tão claramente estampado em sua voz: medo. – Ele tirou o rim da vítima.
- O RIM?! – Falaram, assustados, John e Greg, em uníssono.
- Exato. – Falou Sherlock, fitando uma parede vazia, nitidamente assustado. – Provavelmente, para negociações externas no mercado negro, ou por pura diversão. Talvez, ainda, para...
- ...Consumir? – Perguntou Lestrade. – Quer dizer...
- ...Comer. – Completou Sherlock, lentamente. – Talvez. Mas não consigo pensar em alguém doentio à ponto de fazer isso.
- Canibalismo, Sherlock. – Falou John Watson, que parecia tão assustado quanto seu colega.
- Porém, isso é algo ilegal e repudiado na maioria das sociedades. – Acrescentou Holmes. – Temos um maníaco-homicida, possivelmente canibal, solto em Londres, Lestrade. O que eu devo fazer?
- Encarar. – Respondeu Lestrade, com surpreendente frieza. – Pegue-o. Ele vai te odiar por isso, mas esse é o seu ponto, Sherlock. Você pode fazer a escolha que ninguém mais pode fazer. A escolha certa.
Sherlock Holmes fitou Greg Lestrade por alguns segundos.
- Você acabou de parafrasear o Alfred, do Batman?
John Watson não pode se conter, e deixou escapar um risinho.
- Desculpe. – Falou Lestrade, envergonhado. – Achei que poderia ajudar.
- Muito poético, Lestrade. – Concluiu Holmes, levantando-se da posição em que se encontrava: de joelhos, diante do corpo. O Dr. Watson imitou seu movimento, e logo os dois homens estavam de pé.
- Então, maluco, o que sugere sobre o caso? – Indagou a Sargenta Sally Donavan, que surgira subitamente entre a rodinha, que fazia um burburinho, em volta do corpo. Cada vez mais gente, Lestrade observava, se juntava ali.
- O assassino é alguém qualificado, experiente. Possivelmente, exerce algum cargo relacionado à medicina, considerando o fato de estar em posse de um bisturi. Também deve ser afeiçoado à animais, deduzindo pelo chifre de veado, ou talvez seja dono de um zoológico. Talvez, apenas more perto de um, e tenha acesso frequente. Ou talvez tenha contato com um traficante de animais. Não sei. Existem muitas possibilidades. – Constatou Sherlock Holmes.
- Alguma suspeita? – Perguntou o detetive inspetor.
- Sete, até agora. – Respondeu Sherlock, cético, examinando todos do ambiente com os olhos. – Oito.
Alguns segundos de silêncio se passaram.
- Onde está Anderson? – Indagou Holmes.
Lestrade olhou adiante, pela saída do corredor.
- Acho que não está aqui.
- Sete. – Afirmou Sherlock, definitivamente.
- Por que essa implicância com o Anderson? – Perguntou a Sargenta Donavan.
- Nada pessoal. Mas ostento um asco inexplicável pela maioria dos idiotas. – Respondeu Holmes, seco. – Agora, precisamos focar no caso...
Alguns segundos de silêncio seguiram-se.
- Lestrade, calado. – Falou Sherlock, quebrando o silêncio.
Greg Lestrade acabou ficando surpreso.
- Mas eu-
- Você estava pensando. Isso é irritante. – Cortou Holmes.
O Detetive Inspetor se afastou. Aquela não fora a primeira vez, nem seria a última, pensou ele, que Sherlock dissera isso.
John Watson checou seu relógio de pulso e franziu o cenho.
- Sherlock...
- Agora não, John. – Cortou Sherlock. – Estou pensando.
- Sherlock, hoje é segunda feira. – Disse Watson.
- Eu sei. O dia posterior ao domingo, e anterior à terça. E daí? – Indagou Holmes.
- Você tem de ir ao psiquiatra hoje. – Acrescentou John Watson, sem conseguir deixar escapar um pouco de vergonha, mista com um sorriso de canto de lábio.
Greg Lestrade e a Sargenta Donavan deram risadinhas.
“Sherlock Holmes – o gênio da resolução de crimes, o grande Detetive Consultor, a mente mais inteligente do planeta: frequentando um psiquiatra?”, pensou Lestrade. “E eu pensei que já havia visto de tudo nesse mundo”.
- Eu não vou voltar para outra sessão com o Dr. Lecter, John. – Falou Sherlock, parecendo uma criança de cinco anos falando com sua mãe. – O chato, egocêntrico, pseudo-intelectual e previsível Dr. Hannibal Lecter. Não. De jeito nenhum. Nunca mais.
- Ora, vamos, Sherlock. – Murmurou Watson, mau-humorado. – Eu paguei-o previamente pelas sessões.
- Eu sei. Atitude burra, se me permite dizer. – Ralhou Holmes.
John Watson fitou-o por alguns segundos.
- Você não vai me convencer assim, John. Eu não vou voltar. Não preciso de um psiquiatra. Principalmente de um psiquiatra medíocre como o Dr. Lecter.
Então Sherlock percebeu que Lestrade e os membros de sua equipe não conseguiam conter as risadinhas.
- O que foi, Lestrade? – Indagou Holmes.
- Nada, nada... – Murmurou Lestrade, ainda entre risinhos. – É que, de todas as pessoas de Londres, você é a que eu menos esperaria estar frequentando um psiquiatra.
- Algo que você já deveria ter feito faz tempo, devo dizer. – Acrescentou a Sargenta Sally Donavan.
- Não devo levar em consideração a opinião de vocês. – Murmurou Sherlock, indiferente. – Inclusive, eu vi sua esposa recentemente, enquanto passava por um bar em Chiswick, Lestrade. E a situação dela não estava nada bonita.
Lestrade franziu o cenho. Não gostava de quando mencionavam sua esposa. O caso andava, digamos, complicado.
- Você não deve se importar que eu diga isso, claro. – Disse Holmes, ajeitando seu casaco e recompondo a postura. – Afinal, como eu vejo, não está mais usando sua aliança de casamento, o que sugere que se divorciou ou simplesmente está brigado com ela.
“É verdade.”, pensou Lestrade. “Mas não precisa mencionar isso toda vez que nos encontramos.”.
- A propósito, o caso que ela está tendo com o professor de educação física está cada vez mais abrangente. – Acrescentou Sherlock. – Se eu fosse você, Lestrade, eu abriria o olho. Agora tenho que ir... afinal de contas, eu tenho uma... consulta no psiquiatra.
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