Um Estudo Na Carne
1 Capítulo 1 - Dr. John Watson
Notas iniciais
Apartamento 221B, Rua Baker, Londres, Inglaterra.
John H. Watson. Ex-Médico Militar, que serviu durante a guerra do Afeganistão, havia se retirado do serviço à alguns anos. Sua estatura não muito alta era compensada por um semblante sério, coberto por cabelos grisalhos bem penteados que adquiriam um tom um tanto peculiar à luz do sol de fim de tarde. John suava, pois acabara de sair do mercado, carregando duas pesadas sacolas, e o calor pouco usual do dia, combinado ao suéter de lã que estava usando, contribuía para que seu calor corporal aumentasse.
John Watson abriu a porta e entrou.
– SRA. HUDSON! – Gritou o ex-médico militar.
Nenhuma resposta.
A Sra. Hudson não estava em casa.
John subiu as escadas, lentamente, devido à uma fratura, hoje quase sarada, em uma de suas pernas.
Chegou ao topo do 2º andar. Estava com uma sacola em cada mão, mas passou a que estava na mão direita para a mão esquerda, deixando a direita livre para abrir a porta.
Watson abriu a porta.
– Sher- John foi interrompido por um barulho de tiro.
Um homem alto, esguio e pálido encontrava-se sentado num sofá. Estava deitado em um dos braços do móvel, com as pernas esticadas e apoiadas no outro. Um de seus braços estava encostado atrás da cabeça, servindo de apoio para a mesma. O outro segurava um revólver carregado, o qual disparava contra o desenho de um “smiley”, pichado, com tinta spray amarela, sobre o papel de parede do cômodo. O homem parecia displicente com sua atitude, calmo, como se atirar na parede fosse algo que ele fizesse todo o fim de semana. Seus cabelos negros semi-cacheados, curtos, pendiam um pouco para frente, mas ainda era possível visualizar seus olhos claríssimos fitando o teto. Seu longo rosto dava a nítida impressão de que ele estava entediado.
– Sherlock. – Murmurou Watson. – Atirando na parede de novo?
– Estou entediado. – Declarou o homem no sofá, Sherlock, atirando mais uma vez no smiley pichado na parede.
John Watson dividia o apartamento 221B com Sherlock Holmes. O homem, que aparentava estar em meados dos seus trinta anos, era um detetive consultor – profissão o qual ele mesmo inventara – e resolvia casos requisitados por terceiros em sua página na web ou até mesmo pela polícia britânica, a New Scotland Yard. John havia conhecido-o através de um conhecido em comum, e publicava diversos casos de Sherlock em seu blog pessoal, que ganhava cada vez mais leitores.
– Você não pode ficar atirando na parede à toa assim. – Disse John. — Lembra-se de como a Sra. Hudson ficou irritada da última vez que-
– Entediado! – Gritou Sherlock, monotonamente, porém entoando gravemente, enquanto dava mais um disparo contra a indefesa parede.
John suspirou e deixou as sacolas de compras em cima de uma mesinha. Ele sabia que não havia como discutir com Sherlock Holmes quando o mesmo estava entediado.
A vida de Sherlock resumia-se em resolver casos. Quando não estava resolvendo algum, ficava entediado e irritado, e, infelizmente, atirar na parede era seu passatempo favorito durante esses momentos.
– A quanto tempo você está sem resolver um caso? – Indagou Watson.
– Sete minutos e trinta e cinco segundos. – Respondeu Holmes, disparando mais uma vez contra o rosto sorridente da parede.
– Oh. Qual foi o último?
– Um assalto em uma lanchonete na Piccadilly. Facilmente resolvível. Até uma criança de 4 anos conseguiria resolver aquele, mas ainda assim, os trapalhões da Scotland Yard precisaram da minha ajuda. – Falou Sherlock, avoado, como se seu pensamento estivesse em outro lugar. – ENTEDIADO! – E disparou mais uma vez contra o smiley. O papel de parede já estava descolando daquela área.
John suspirou e tirou alguns enlatados da sacola de mercado. Dirigiu-se até a cozinha, onde planejava colocar as latas na geladeira.
– SHERLOCK! – Entoou Watson. – Tem POLEGARES na geladeira.
– Vejo que seu senso de observação está muito bom. – Disse a voz de Sherlock, vinda de outro cômodo.
– Por que tem polegares na geladeira?!
– Parte de um experimento que deu errado. Coloquei-os ai para economizar, caso eu precise deles em alguma ocasião futura.
John bateu a porta da geladeira, com sentimentos que misturavam fúria com frustração.
“É isso”, pensou John Watson. “Vou chamar um psiquiatra para Sherlock”.
– Um psiquiatra? – Repetiu Mike Stamford.
John havia saído de casa para dar uma caminhada e esfriar à cabeça. No caminho, passou por uma praça, onde encontrou um velho amigo: Mike Stamford. Foi graças à Stamford que John conhecera Sherlock, e agora, os dois velhos amigos encontravam-se sentados em um banco da praça, conversando sobre o detetive consultor.
– Sim, Mike. Um psiquiatra, para Sherlock. – Confirmou John. – Ele está ficando maluco. E está me deixando maluco.
– Sabe, John, não entendo muito de psiquiatria – Disse Stamford – Mas acho que se eu precisasse ficar sozinho com Sherlock Holmes numa sala durante uma hora duas vezes por semana, acho que eu ia acabar cometendo suicídio.
Watson deixou escapar um leve riso.
– Você é o homem mais sociável da Inglaterra. – Falou John. – Com certeza conhece um psiquiatra.
– Na verdade, eu conheço. – Afirmou Mike. – Dr. Hugo Chill. Um bom homem. Meio velho, mas é um excelente psiquiatra. Ajudou a esposa de um amigo meu uma vez.
Stamford tateou seus bolsos até achar um pedaço de papel e uma caneta. Apoiando o papel sobre o joelho, ele anotou um número telefônico, em caligrafia apressada, e entregou-o à seu interlocutor.
– Não o vejo faz um tempo – Acrescentou Mike. – Então não sei se ele ainda está na ativa. Mas, se eu conheço bem o Chill, ele só vai largar a psiquiatria quando morrer! – Disse, com um riso.
– Hugo Chill está morto. – Declarou uma voz feminina pelo telefone.
John tentara ligar para Chill, e receber essa notícia, mesmo tratando-se de uma pessoa que não conhecia, fora como um baque.
– Câncer pancreático. – Acrescentou a voz feminina, em tom choroso. – Já fazem duas semanas.
– Olha, senhora... minhas desculpas e consolos pelo falecido, mas meu amigo precisa de um psiquiatra. – Disse Watson, tentando manter um tom de voz calmo. – Por acaso o Sr. Chill tinha algum colega, ou coisa do tipo, em que ele confiava muito?
– Bem... – Murmurou a voz. – Ele tinha um contato. Mas ele mora na América. Deve ser muito difícil contata-lo.
– Oh, você não faz ideia do quanto estou desesperado para conseguir um psicólogo para meu amigo. – Respondeu John. – Com certeza eu conseguiria convencê-lo. Você tem o número do sujeito?
– Claro... espere um minuto. – A voz sumiu por alguns segundos, e depois reapareceu, ditando o número telefônico que John apressadamente anotou no verso do mesmíssimo pedaço de papel em que Stamford anotara o número do Dr. Hugo Chill.
– Prontinho. – Declarou Watson, após terminar de anotar o número no papel. – Qual é o nome dele?
– Lecter. – Disse a voz feminina. – Dr. Hannibal Lecter.
– Certo. Obrigado. – Agradeceu John, desligando após o adeus da voz feminina.
Em seguida, ele discou o número de Lecter no celular, junto com o código de área adequado para uma chamada internacional.
Após alguns segundos, uma voz atendeu.
– Crawford. – Proclamou a voz.
– Com licensa, êh... estou procurando pelo Dr. Hannibal Lecter. – Disse John.
– Certo. Um minuto. – Falou “Crawford”, cuja a voz logo desapareceu, dando lugar à outra.
– Dr. Hannibal Lecter. À quem devo a ligação? – Perguntou, gentilmente, a voz.
– Watson. John Watson. – Apresentou-se o mesmo. – Preciso de seus serviços.
– Oh, claro. – Disse Lecter, como se seus serviços fossem requisitados diariamente. — Em que estado você vive?
– Er... um pouco longe de você, acho. Moro em Londres.
– Londres? Oh, isso está um pouco fora do meu alcance... mas, o que não faço por um paciente, não é mesmo? As passagens estão bem baratas nessa época do ano, eu presumo. E eu não ando muito ocupado recentemente.
Era possível ouvir a voz de Crawford murmurando “Mas...” no fundo, mas Lecter parecia não dar muita atenção à isso.
– Devo chegar aí semana que vem. Amanhã, ligo-lhe de novo, para especificar os detalhes de minha chegada. – Explicou Hannibal.
– Wow... o senhor convenceu-se muito rápido, Dr. Lecter. – Comentou John.
– Oh, digamos que meus últimos pacientes andaram sendo bem chatos. – Disse Lecter. – Preciso de um desafio.
– Certamente não há desafio maior que o homem que ficará sob seus cuidados: Sherlock Holmes. – Disse Watson.
Os doutores se despediram, e desligaram em seguida.
John estava parado, na esquina da Rua Baker. A rua era fria de noite, e ele já estava voltando para casa. Logo, eu celular recebeu um torpedo.
“Volte para casa se conveniente. Se inconveniente, volte, do mesmo jeito.
SH.”
O “SH” no final deixava claro o remetente da mensagem – Sherlock Holmes.
Sherlock tinha essa mania: Frequentemente requisitava a presença de John quando o mesmo estava sumido à muito tempo de casa, mesmo que ficasse indiferente à chegada de seu colega de apartamento.
John voltou para o apartamento 221B. A Sra. Hudson já estava em casa, e agora descia as escadas, meio enfezada, murmurando algo à respeito de uma caveira.
– Oh, olá, John. – Cumprimentou-a, abrindo um sorriso quando o viu cruzando a entrada do apartamento.
– Sra. Hudson. – Retribuiu Watson, com um aceno de cabeça.
Subiu as escadas e foi ao encontro de Sherlock.
Holmes ainda estava deitado no mesmíssimo sofá. As pernas permaneciam na mesma posição, mas ele tinha um telefone celular apoiado sobre a perna esquerda. Não segurava mais o revólver, e suas mãos estavam juntas, como numa posição de oração, em frente ao seu rosto. Estava de olhos fechados, mas claramente encontrava-se acordado.
– Chamou? – Perguntou John.
– Você contratou um psiquiatra americano para mim? – Indagou Sherlock, com um tom de voz estranhamente calmo, ainda sem abrir os olhos.
– Sherlock... – Murmurou Watson. – Como você-
– Por favor, John, a segurança de seu celular é uma piada. Com o código mais simples do mundo eu consigo rastrear e ter acesso à todas as suas ligações e mensagens de texto. – Explicou Holmes.
– Isso... você não pode fazer isso. É espionagem. Isso é ilegal! – Declarou John.
– Blah, blah, blah. – Murmurou Sherlock. – Ainda assim, por que você está contratando um psiquiatra para mim?
– Vai dizer que você não precisa? – Perguntou John. – Sherlock, se você atirar à queima roupa nas paredes toda a vez em que ficar entediado, o prédio vai acabar desabando. – Desabafou Watson. – Além disso, não é preciso ser psiquiatra pra saber que há algo errado com você. Quem sabe, após algumas sessões, o Dr. Lecter consegue endireitar você um pouquinho.
– Me endireitar? Oh, John, eu te invejo tanto... – Disse Sherlock, com uma entonação sarcástica em sua voz.
A Sra. Hudson entrou pela porta, que estava entreaberta.
– Oh, vocês estão tendo uma briguinha? – Perguntou Sra. Hudson.
– John, prepare meu revólver. – Murmurou Sherlock, num tom de voz sóbrio, porém irritado.
– Cruzes. – Disse a Sra. Hudson, desaparecendo novamente.
– Sherlock, isso foi grosseiro. — Falou Watson. – Peça desculpas.
– Por que eu deveria? – Indagou Holmes.
John suspirou, praguejou mentalmente e decidiu ir dormir. Sherlock estava ficando cada vez mais irritante, dia após dia.
John Watson acordou por volta das 7 da manhã do dia seguinte. O sol nascia num dia nublado, e ele estava com uma estranha dor na coluna. Ele andou até a sala e olhou pela janela. Algumas estranhas mariposas alaranjadas batiam no vidro.
John abriu a janela e espantou os insetos. Achou aquilo um tanto peculiar, pois a Rua Baker não era muito frequentada por mariposas.
Sherlock Holmes entrou no aposento. Estava com o celular de John na mão.
– Lecter chega aqui na quinta-feira. Espero que ele seja um bom psiquiatra, pois custa caro. Ah, e você paga. – Declarou Holmes.
Naquela altura do campeonato, John Watson já sabia que não havia como contra-argumentar com Sherlock. Então, ele apenas acenou com a cabeça, num gesto de “sim”.
Era domingo. A semana passou gradualmente, e o clima entre John e Sherlock permanecia tenso, porém as brigas acabaram diminuindo um pouco.
Na manhã de quinta-feira, John tomava café enquanto lia o jornal, quando seu celular tocou.
– Alô? – Disse Watson.
– John Watson? Aqui é o Dr. Lecter. Acabo de desembarcar aqui no Aeroporto Internacional de Londres. Posteriormente, passarei o endereço de meu Hotel e o número de meu quarto por mensagem de texto. Assim, amanhã, o Sr. Sherlock poderia me visitar, para termos uma conversinha. – Disse a voz do outro lado da linha.
– Certamente. – Concordou John.
Eles despediram-se e Watson desligou o telefone.
Sherlock Holmes entrou no aposento.
– O que houve, John? – Indagou Sherlock.
John sabia que, com “O que houve”, Sherlock na verdade queria dizer “Você sabe que eu sei o que houve, mas quero ouvir diretamente de você”.
– Bom... – Falou John. – Parece que Hannibal Lecter chegou em Londres.
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