Notas iniciais
Mais um cap[itulo da Saga dos Prateados. Apreciem!

- Sonhos -

Tão logo quanto Algol despediu-se de Ametista, trombou com Asterion, que estava claramente envergonhado e preocupado.

— Sinto muito, Al! — Ele disse — Me desculpe, por favor...

Algol fitou-o com seriedade. Sem pronunciar uma palavra sequer, passou pelo Cavaleiro de Cães de Caça e seguiu seu caminho. Asterion, ao vê-lo se afastar, soltou um largo suspiro.

— Parabéns, Asterion... — Sussurrou ironicamente para si — Você é um gênio...

O alemão esperou o árabe dar mais alguns passos para então segui-lo. Aquela noite, controlar-se-ia para não mais ler a mente de Algol. O saudita deveeria estar sentindo-se humilhado. Por ser tão orgulhoso, Algol jamais fora capaz de suportar brincadeiras — especialmente aquelas que levavam seu nome.

Ele adentrou no dormitória sem fazer uma expressão sequer, o que fez Dante, Misty e Capella de Auriga, que chegara minutos antes no recinto, fitarem-no com extrema curiosidade. O saudita passou pelo cômodo ignorando completamente a presença dos outros Prateados, enfurnando-se rapidamente em seu quarto.

— Deve ser a hora da última reza do dia... — Comentou Misty, apontando para o relógio — Você sabe como é Algol, Capella. Se ele não reza direitinho...

— ... Acredita que vai queimar no fogo do Inferno sem as 72 virgens! — Completou o cavaleiro de Auriga, rindo junto ao Prateado de Lagarto.

Logo em seguida, chega Asterion, ofegante e triste. Capella e Misty, surpresos, se entreolham.

— Viram Algol por aí? — Indaga o Cavaleiro de Cães de Caça.

— Foi pro quarto — Aponta Misty — Ele ficou bem chateado com a nossa brincadeira...

— Que brincadeira? — Indaga Capella.

— Longa história — Interveio Asterion — Vou falar com ele. Desejem-me sorte!

Os outros assentem e Asterion vai até a porta do quarto de Algol, com muita hesitação. Ele bate três vezes, esperando resposta.

— Al? — Asterion indaga, colando o ouvido à porta. Perseu estava bem desperto, recitando as rezas do Alcorão com toda disciplina que sempre teve.

Cães de Caça engole em seco e abre lentamente a porta. A sincronia fora tanta que, ao adentrar nos aposentos do saudita, o mesmo finalizara o rito diário de voltar-se à Meca.


— Al! — Exclamou Asterion, sem jeito — Oi... Olha, desculpe pela coisa da “esposa”... Não que eu despreze seu sonho... Só fiquei... surpreso...

O cavaleiro de Perseu vira o rosto em sua direção; em questão de segundos, seu semblante fora de frio, apático, para animado, exultante; um sorriso brotou nas faces do saudita, que começou a rir levemente, fechando a porta do quarto, mas sem chaveá-la. No instante que se seguiu, Algol envolveu os ombros de Asterion com seus braços, rindo em puro êxtase.

— Aahhh! — Suspirou Algol alegremente — Alá é grandioso...

— Ahn? — Indagou Asterion, confuso — Posso saber o porquê de tamanha alegria?

— Ah, Teros... — O saudita deixou-se cair na cama, acertando as costas com tudo no colchão macio — Acabei de ver uma moça linda...

— Cuidado com isso... — Sorriu Asterion, revirando os olhos — Aparências enganam...

— Mas ela não era apenas um rosto bonito! — Perseu estava exultante — Ela é uma Amazona. Bem, na verdade, não sei bem ao certo se é isso o que ela é, pois não é desse Santuário. Ela vem de outro...

— É mesmo? — Asterion estava fascinado com a alegria do amigo, puxando a cadeira para se sentar e ouvir o restante — Conte-me mais sobre ela.

— Bem... — Ele começou a brincar com os dedos, disfarçando a timidez — Ela tem a pele branca, mede por volta de 1,55... Tem longos cabelos lisos e azuis como safiras, e seus olhos são da cor das ametistas... — O rosto de Algol estava corado, mas a alegria era tanta qu ele parecia não se importar — Eu acho que ela é da mesma linhagem do cavaleiro de Áries.. Como é o nome daquela raça mesmo? Lemu... Lemúria... — Ele estalava os dedos da mão direita procurando se lembrar.

— Lemurianos. — Respondeu Asterion, com um sorriso.

— Isso! Isso! — Agradeceu Algol animadamente — Ela trajava uma armadura diferente das nossas amazonas, com as cruzes egípicas a enfeitá-la... Ah... — Ele suspirou novamente, cerrando lentamente os belos olhos — Acho que me apaixonei, Teros.

— Não me diga! — Disse Asterion com um tom sarcástico e um sorriso no rosto.

— Eu não sei... — Divagou Algol com os olhos ainda cerrados — Espero que ela não seja apenas um sonho meu... Quando eu acordar... Vou procurar por ela.

Asterion acenou afirmativamente com a cabeça, sorrindo para o amigo.

— Aí, você está com fome? — Indagou para Algol, que logo tornou a fitá-lo — Hoje, Babel e Moisés* prepararam uma janta árabe. Você sempre reclama das coisas que organizamos aqui, por comermos carne de porco e você não...

— Por mim, tudo bem. — Replicou o saudita, com um sorriso, sentando-se na cama para enfim levantar — Vamos.

Perseu e Cães de Caça saíram aos risos do quarto, o que causou surpresa para Lagarto e Auriga que, há pouco, viram o primeiro enfurecido e o segundo, entristecido. A cena fez um sorriso malicioso brotar nas faces de Misty, que não mais seguraria o comentário.

— Hoje teve, hein, seus danados? — Disse com uma risadinha.

— Vire essa boca para lá! — Respondeu Algol, furioso e constrangido, enquanto Asterion, com a expressão torcida, fazia o sinal da cruz, beijando os dedos indicador e médio de sua mão esquerda.

— Estou brincando, tolinhos! — Desculpou-se Lagarto, risonho — E então? Todos para o dormitório de Babel, Moisés, Capella e Dio?

Todos no recinto assentiram afirmativamente e seguiram viagem ao dormitório do quarteto composto pelos cavaleiros de Centauro, Baleia, Auriga e Mosca, respectivamente. Dante já os esperava lá, bem como os demais Prateados.

Pela primeira vez na vida, Algol sorria de alegria, não de sarcásmo ou de desdém, o que surpreendeu a todos que se encontravam ali presentes, incluindo Albion de Cefeu, o mais velhos do Prateados, cuja vida também fora devolvida.

***

Templo de Atena...

Ametista estava sentada no divã do salão principla. Atena não estava presente, pois seu Cosmo não podia ser sentido por ela, mas o Grande Mestre, cujo nome ela desconhecia, estava presente, e logo a atenderia.

Ela fitava a cortina da varanda, que dançava suavemente ao sabor dos ventos. A guerreira de Bastet percorria todo o ambiente com o olhar, lenta e detalhadamente, a fim de não perder nada. Sempre fora assim, observadora, atenta, como um gato em noite de vigília. Então, o Cosmo do Mestre adentrou no recinto. Ametista levantou-se de sopetão, arrepiada não pela demonstração de poder, mas pelo Cosmo em si — ele lhe era estrnhamente familiar...

O Grande Mestre era Shion de Áries, recompensando mais uma vez com a vida por ter sido tão leal a Atena, mesmo quando havia trajado uma Surplice e falsamente jurado lealdade a Hades. O homem bicentenário de jovens feições, cabelos longos e esverdeados e olhos da cor das maduras groselhas, aproximou-se da visitante a passos cheios de majestade. A escuridão não lhe permitia ver o rosto da jovem. Contudo, dada a pacificidade do Cosmo dela, não encarou-a como ameaça, e sim como arauta.

— Boa noite, senhor — Reverenciou a menina — Sou a representante do Templo de Bubastis**, do Egito. Venho trazendo notícias e pedindo auxílio.

A garota também não conseguia ver claramente o rosto de Shion.

— Prossiga — Disse Shion, sério, ainda que estranhasse a voz da menina, que lhe parecia familiar.

— Os Santuários egípcios estão divididos — Contou a menina — A ameaça de que Seth renasça uma vez mais está cada dia mais próxima da realidade. Há um traidor entre nós, tenho certeza. Contudo, se Seth renascer, não poderemos enfrentá-lo sozinhos: humanos não são páreos para Deuses, com raríssimas exceções.

— De fato — Concordou Shion — Já que falamos nesse assunto, Atena estava se dirigindo ao Egito justamente para falar com a representante do Templo de Abu-Simbel, dedicado ao deus Ptah da Criação... Se Seth resuscitar, não será apenas problema egípcio: será nosso também.

— Para ele resuscitar, será necessária a obtenção de todos os Sistros Egípcios — Ela avisou, mostrando a gargantilha que ostentava, que continha a miniatura de um sistro com um gato atrás, envolto em uma esfera de vidro — Esses Sistros são vitalícios: para obtê-los, o dono deve ser morto... Ao todo, são Doze Sistros para os deuses Osíris, Ísis, Hórus, Hátor, Neftis, Tot, Ptah, Sekhmet, Haroéris, Anúbis, Khnum e Bastet. Seth, por ter sido selado por eles...

— Não tem Sistro próprio — Completou Shion — Não se preocupe. Falarei com Atena e tomaremos as providências para...

Shion se deteve. O luar oriundo da porta da varanda atingiu o rosto de Ametista, revelando sua imagem. O antigo Cavaleiro de Áries tremeu ao ver o rosto da menina, que lhe era assustadoramente familiar, como se ele estivesse frente a frente com um fantasma de seu passado. A menina, contudo, não podia vê-lo totalmente: o rosto continuava oculto pelas sombras.

— Seu nome? — Indagou Shion, nervoso.

- Desculpe? — Indagou ametista, inocentemente.


— Qual seu nome? — Indagou Shion novamente, ainda mais nervoso — Seu rosto... Ele n’ao me [e estranho! Tenho quase certeza que você é...

— Ametista — Respondeu a menina, confusa — Ametista é meu nome.

Shion ficou estático; ele empalidecera, começando a suar frio, com uma lágrima percorrendo seus olhos.

— Ametista... — Ele sussurrou — Houve uma vez... Quando treinei o cavaleiro de Áries... ele trazia suar irmã consigo... Criei-a como filha...

Quando o Grande Mestre terminou de pronunciar a última oração, a luz da lua parecia ter se voltado para ele, iluminado-lhe os cabelos e clareando levemente as faces. Agora, quem mantinha-se estática era Ametista.

— Pai? — Indagou, assustada — É o senhor?

Continua...

Notas finais
*Moisés: Moses é Moisés em inglês. Acho sacanagem não traduzir. Não sou cristã nem nada, mas acho que, se há nomes que foram traduzidos, como Máscara da Morte, acho válido traduzir Moisés. Na fic, referir-me-ei a ele por Moisés, mas pode ser que um ou outro o chame por Moses. É a mesma pessoa.
**Templo de Bubastis: Templo dedicado à Bastet na margem esquerda do Rio Nilo, creio que a 2000km de distância de Cairo (Mênfis).
Uma coincidência interessante: consegui listar o número de Deuses Egípcios idêntico ao número de Cavaleiros de Ouro (hehehehe). Eu não havia feito pensando nisso, a princípio, mas pode ser uma boa ideia.
Comentários, povo. Eles são muito bem-vindos, ok?