Um Dia Em Riyadh
2 Sonhos
Notas iniciais
- Sonhos -
Tão logo quanto Algol despediu-se de Ametista, trombou com Asterion, que estava claramente envergonhado e preocupado.
— Sinto muito, Al! — Ele disse — Me desculpe, por favor...
Algol fitou-o com seriedade. Sem pronunciar uma palavra sequer, passou pelo Cavaleiro de Cães de Caça e seguiu seu caminho. Asterion, ao vê-lo se afastar, soltou um largo suspiro.
— Parabéns, Asterion... — Sussurrou ironicamente para si — Você é um gênio...
O alemão esperou o árabe dar mais alguns passos para então segui-lo. Aquela noite, controlar-se-ia para não mais ler a mente de Algol. O saudita deveeria estar sentindo-se humilhado. Por ser tão orgulhoso, Algol jamais fora capaz de suportar brincadeiras — especialmente aquelas que levavam seu nome.
Ele adentrou no dormitória sem fazer uma expressão sequer, o que fez Dante, Misty e Capella de Auriga, que chegara minutos antes no recinto, fitarem-no com extrema curiosidade. O saudita passou pelo cômodo ignorando completamente a presença dos outros Prateados, enfurnando-se rapidamente em seu quarto.
— Deve ser a hora da última reza do dia... — Comentou Misty, apontando para o relógio — Você sabe como é Algol, Capella. Se ele não reza direitinho...
— ... Acredita que vai queimar no fogo do Inferno sem as 72 virgens! — Completou o cavaleiro de Auriga, rindo junto ao Prateado de Lagarto.
Logo em seguida, chega Asterion, ofegante e triste. Capella e Misty, surpresos, se entreolham.
— Viram Algol por aí? — Indaga o Cavaleiro de Cães de Caça.
— Foi pro quarto — Aponta Misty — Ele ficou bem chateado com a nossa brincadeira...
— Que brincadeira? — Indaga Capella.
— Longa história — Interveio Asterion — Vou falar com ele. Desejem-me sorte!
Os outros assentem e Asterion vai até a porta do quarto de Algol, com muita hesitação. Ele bate três vezes, esperando resposta.
— Al? — Asterion indaga, colando o ouvido à porta. Perseu estava bem desperto, recitando as rezas do Alcorão com toda disciplina que sempre teve.
Cães de Caça engole em seco e abre lentamente a porta. A sincronia fora tanta que, ao adentrar nos aposentos do saudita, o mesmo finalizara o rito diário de voltar-se à Meca.
— Al! — Exclamou Asterion, sem jeito — Oi... Olha, desculpe pela coisa da “esposa”... Não que eu despreze seu sonho... Só fiquei... surpreso...
O cavaleiro de Perseu vira o rosto em sua direção; em questão de segundos, seu semblante fora de frio, apático, para animado, exultante; um sorriso brotou nas faces do saudita, que começou a rir levemente, fechando a porta do quarto, mas sem chaveá-la. No instante que se seguiu, Algol envolveu os ombros de Asterion com seus braços, rindo em puro êxtase.
— Aahhh! — Suspirou Algol alegremente — Alá é grandioso...
— Ahn? — Indagou Asterion, confuso — Posso saber o porquê de tamanha alegria?
— Ah, Teros... — O saudita deixou-se cair na cama, acertando as costas com tudo no colchão macio — Acabei de ver uma moça linda...
— Cuidado com isso... — Sorriu Asterion, revirando os olhos — Aparências enganam...
— Mas ela não era apenas um rosto bonito! — Perseu estava exultante — Ela é uma Amazona. Bem, na verdade, não sei bem ao certo se é isso o que ela é, pois não é desse Santuário. Ela vem de outro...
— É mesmo? — Asterion estava fascinado com a alegria do amigo, puxando a cadeira para se sentar e ouvir o restante — Conte-me mais sobre ela.
— Bem... — Ele começou a brincar com os dedos, disfarçando a timidez — Ela tem a pele branca, mede por volta de 1,55... Tem longos cabelos lisos e azuis como safiras, e seus olhos são da cor das ametistas... — O rosto de Algol estava corado, mas a alegria era tanta qu ele parecia não se importar — Eu acho que ela é da mesma linhagem do cavaleiro de Áries.. Como é o nome daquela raça mesmo? Lemu... Lemúria... — Ele estalava os dedos da mão direita procurando se lembrar.
— Lemurianos. — Respondeu Asterion, com um sorriso.
— Isso! Isso! — Agradeceu Algol animadamente — Ela trajava uma armadura diferente das nossas amazonas, com as cruzes egípicas a enfeitá-la... Ah... — Ele suspirou novamente, cerrando lentamente os belos olhos — Acho que me apaixonei, Teros.
— Não me diga! — Disse Asterion com um tom sarcástico e um sorriso no rosto.
— Eu não sei... — Divagou Algol com os olhos ainda cerrados — Espero que ela não seja apenas um sonho meu... Quando eu acordar... Vou procurar por ela.
Asterion acenou afirmativamente com a cabeça, sorrindo para o amigo.
— Aí, você está com fome? — Indagou para Algol, que logo tornou a fitá-lo — Hoje, Babel e Moisés* prepararam uma janta árabe. Você sempre reclama das coisas que organizamos aqui, por comermos carne de porco e você não...
— Por mim, tudo bem. — Replicou o saudita, com um sorriso, sentando-se na cama para enfim levantar — Vamos.
Perseu e Cães de Caça saíram aos risos do quarto, o que causou surpresa para Lagarto e Auriga que, há pouco, viram o primeiro enfurecido e o segundo, entristecido. A cena fez um sorriso malicioso brotar nas faces de Misty, que não mais seguraria o comentário.
— Hoje teve, hein, seus danados? — Disse com uma risadinha.
— Vire essa boca para lá! — Respondeu Algol, furioso e constrangido, enquanto Asterion, com a expressão torcida, fazia o sinal da cruz, beijando os dedos indicador e médio de sua mão esquerda.
— Estou brincando, tolinhos! — Desculpou-se Lagarto, risonho — E então? Todos para o dormitório de Babel, Moisés, Capella e Dio?
Todos no recinto assentiram afirmativamente e seguiram viagem ao dormitório do quarteto composto pelos cavaleiros de Centauro, Baleia, Auriga e Mosca, respectivamente. Dante já os esperava lá, bem como os demais Prateados.
Pela primeira vez na vida, Algol sorria de alegria, não de sarcásmo ou de desdém, o que surpreendeu a todos que se encontravam ali presentes, incluindo Albion de Cefeu, o mais velhos do Prateados, cuja vida também fora devolvida.
***
Templo de Atena...
Ametista estava sentada no divã do salão principla. Atena não estava presente, pois seu Cosmo não podia ser sentido por ela, mas o Grande Mestre, cujo nome ela desconhecia, estava presente, e logo a atenderia.
Ela fitava a cortina da varanda, que dançava suavemente ao sabor dos ventos. A guerreira de Bastet percorria todo o ambiente com o olhar, lenta e detalhadamente, a fim de não perder nada. Sempre fora assim, observadora, atenta, como um gato em noite de vigília. Então, o Cosmo do Mestre adentrou no recinto. Ametista levantou-se de sopetão, arrepiada não pela demonstração de poder, mas pelo Cosmo em si — ele lhe era estrnhamente familiar...
O Grande Mestre era Shion de Áries, recompensando mais uma vez com a vida por ter sido tão leal a Atena, mesmo quando havia trajado uma Surplice e falsamente jurado lealdade a Hades. O homem bicentenário de jovens feições, cabelos longos e esverdeados e olhos da cor das maduras groselhas, aproximou-se da visitante a passos cheios de majestade. A escuridão não lhe permitia ver o rosto da jovem. Contudo, dada a pacificidade do Cosmo dela, não encarou-a como ameaça, e sim como arauta.
— Boa noite, senhor — Reverenciou a menina — Sou a representante do Templo de Bubastis**, do Egito. Venho trazendo notícias e pedindo auxílio.
A garota também não conseguia ver claramente o rosto de Shion.
— Prossiga — Disse Shion, sério, ainda que estranhasse a voz da menina, que lhe parecia familiar.
— Os Santuários egípcios estão divididos — Contou a menina — A ameaça de que Seth renasça uma vez mais está cada dia mais próxima da realidade. Há um traidor entre nós, tenho certeza. Contudo, se Seth renascer, não poderemos enfrentá-lo sozinhos: humanos não são páreos para Deuses, com raríssimas exceções.
— De fato — Concordou Shion — Já que falamos nesse assunto, Atena estava se dirigindo ao Egito justamente para falar com a representante do Templo de Abu-Simbel, dedicado ao deus Ptah da Criação... Se Seth resuscitar, não será apenas problema egípcio: será nosso também.
— Para ele resuscitar, será necessária a obtenção de todos os Sistros Egípcios — Ela avisou, mostrando a gargantilha que ostentava, que continha a miniatura de um sistro com um gato atrás, envolto em uma esfera de vidro — Esses Sistros são vitalícios: para obtê-los, o dono deve ser morto... Ao todo, são Doze Sistros para os deuses Osíris, Ísis, Hórus, Hátor, Neftis, Tot, Ptah, Sekhmet, Haroéris, Anúbis, Khnum e Bastet. Seth, por ter sido selado por eles...
— Não tem Sistro próprio — Completou Shion — Não se preocupe. Falarei com Atena e tomaremos as providências para...
Shion se deteve. O luar oriundo da porta da varanda atingiu o rosto de Ametista, revelando sua imagem. O antigo Cavaleiro de Áries tremeu ao ver o rosto da menina, que lhe era assustadoramente familiar, como se ele estivesse frente a frente com um fantasma de seu passado. A menina, contudo, não podia vê-lo totalmente: o rosto continuava oculto pelas sombras.
— Seu nome? — Indagou Shion, nervoso.
- Desculpe? — Indagou ametista, inocentemente.
— Qual seu nome? — Indagou Shion novamente, ainda mais nervoso — Seu rosto... Ele n’ao me [e estranho! Tenho quase certeza que você é...
— Ametista — Respondeu a menina, confusa — Ametista é meu nome.
Shion ficou estático; ele empalidecera, começando a suar frio, com uma lágrima percorrendo seus olhos.
— Ametista... — Ele sussurrou — Houve uma vez... Quando treinei o cavaleiro de Áries... ele trazia suar irmã consigo... Criei-a como filha...
Quando o Grande Mestre terminou de pronunciar a última oração, a luz da lua parecia ter se voltado para ele, iluminado-lhe os cabelos e clareando levemente as faces. Agora, quem mantinha-se estática era Ametista.
— Pai? — Indagou, assustada — É o senhor?
Continua...
Notas finais
**Templo de Bubastis: Templo dedicado à Bastet na margem esquerda do Rio Nilo, creio que a 2000km de distância de Cairo (Mênfis).
Uma coincidência interessante: consegui listar o número de Deuses Egípcios idêntico ao número de Cavaleiros de Ouro (hehehehe). Eu não havia feito pensando nisso, a princípio, mas pode ser uma boa ideia.
Comentários, povo. Eles são muito bem-vindos, ok?
Fale com o autor