Notas iniciais
Fortes emoções, é só o que eu digo!
Boa leitura!

- Salve o Egito -

— Pai, é o senhor?

Essa pergunta ecoou pelas paredes do vazio Salão do Grande Mestre. Shion então usou seu Cosmo para acender as lamparinas do Salão, iluminando a ambos. O horror e susto tomaram conta de ambos semblantes; incrédulos, taparam as bocas simultaneamente ao soltarem um grito abafado de terror.

Shion fitava a menina; seu corpo magro, pequeno, delicado. Sua pele alva, seus olhos ametistas e cabelos cianos. O fantasma de seu passado.

— Minha menininha... — Sussurrou em um transe assustador, com lágrimas escorrendo por seu rosto paralizado pelo horror — Eu te perdi...

Ametista não mais via Shion. sua mente a levara para um local distante, para o Egito. Ela estava vendo a capital, Cairo, para ser mais exata. Especificando ainda mais, ela se encontrava em uma embarcação que subia o Rio Nilo, a grande maravilha do Egito...

***

Cairo, Egito — 14 anos antes...

Duas crianças lemurianas corriam afoitas pelo convés do navio. Eram um casal; o menino, decerto mais velho, tinha cabelos lilases que batiam em sua cintura, olhos da cor de esmeraldas, pele alva e um lindo sorriso. Vestia uma longa blusa de cor verde-clara, calças de cor bege e sapatos marrons. A menina, mais novinha, tinha cabelos cianos curtos, que chegavam em seus ombros, pele tão branca quanto a do rapaz, olhos da cor de ametistas e bochechas bem coradas. Vestia um vestidinho cor de salmão e sandalinhas rosadas.

As crianças brincavam sob o olhar vigilante de Shion de Áries, que sorria para elas.

— Mu, cuidado com sua irmãzinha! — Advertia o Grande Mestre — Não a deixe se machucar!

O garoto assentira afirmativamente, segurando a mão da irmã e começano a dançar com ela o que se parecia com tango. Sorridente, Shion retirou-se para a cabine interna a fim de resolver alguns assuntos. Sozinhos, os irmãos se entreolharam.

-Tô com fome... — Choramingou Ametista, sentando-se no chão — Quero doce...

— Não podemos... — Censurou Mu — Nós ainda não almoçamos, e Shion nos dará doces apenas se formos bonzinhos...

— Mas nós somos bonzinhos... — Replicou a menina, inflando as bochechinhas em sinal de irritação e inconformação — E eu quero...

A menininha levantou do convés e passou a saltitar em direção à popa, fazendo Mu suspirar tristemente e segui-la. A garota havia acidenalmente despistado o irmão por entre as pilastras que lá haviam, fazendo-o se perder enquanto ela perigosamente se aproximava do enferrujado parapeito da embarcação.

A garota pôs as mãozinhas sobre o parapeito, fitando a água azul do rio. As ondas brilhavam ao sabor dos raios de Sol. Contudo, havia algo singular naquele brilho: era como seu um gato se desenhasse na água, caminhando elegantemente enquanto o barco seguia seu curso. A menina abriu um enorme sorriso, esquecendo-se da vontade de comer doces.

— Que lindo... — Disse a menina, fascinada. De longe ela ouvia a voz do irmão, mas parecia tão compenetrada que sequer reparou.

Ela, em um ato de coragem, pôs ambas mãos no parapeito, sentando-se no vão entre uma viga de aço e outra, fitando o gato de luz que parecia segui-la. Ela soltou as mãos do parapeito, querendo pegar o gato. E foi nesse momento que Mu finalmente chegara.

— Ametista! — Gritou o futuro cavaleiro de Áries, apavorado, correndo em direção à pequena infante.

A garota nem sentira o solavanco da embarcação, que a fizera perder o equilíbrio e inclinar-se perigosamente para frente. Para a sorte dela, seu irmão conseguiu agarrar-lhe a mãozinha direita, mas não a manteria segura por muito tempo.

— Ami! — Ele berrava — Ami, segure minha mão! Ami!

A menina não respondia. Seus olhos ametistas fitavam o rio. O gato, antes luminoso e alvo, tornara-se negro, habitando o fundo das águas. Havia algon naquele evento que mexia com Ametista, e apenas com ela. Seus olhos pareciam sem vida, como os de uma boneca, e sua mão lentamente escorregava por entre as de Mu.

— Mestre! Mestre! — Berrou Mu, desesperado — Shion-sama, me ajude! Mestre!!!

O antigo Cavaleiro de Áries, de sua cabine, ouviu os gritos de seu discípulo e correu para ajudá-lo. Ao sair da cabine, ouviu um grito feminino seguido do horrível grito de um menino pequeno. Desesperado, correu até o local, apenas para ver seu discípulo ajoelhado, com os olhos vidrados e mãos sobre a boca, fitando o rio Nilo, cujas águas apresentava ondas circulares a se propagar em sua superfície.

— O que houve?! — Indagou o Antigo Cavaleiro de Áries, sondando o convés. Seu semblante fora tomado pelo terror ao perceber que Ametista não se encontrava ali. Acabou por ligar os pontos: o desespero de seu discípulo, os gritos... As ondas no Nilo. Ametista...

— ...Caiu — Balbuciou o pequeno — Ela caiu... Não deu pra segurar, Mestre... Não deu... Não fui forte o bastante... Não sou forte o bastante...

Shion, arrasado, deixou seu corpo cair, ajoelhando-se no assoalho de madeira e envolvendo o discípulo em seus braços. Seus olhos ficaram semicerrados e lágrimas rolaram deles.

— A minha menininha... — Balbuciou inconformado — A minha menininha... O Nilo... O Egito... O Egito... Tirou a minha menininha... — Ele apertou Mu contra seu peito, que chorava sofregamente.

O Grande Mestre do Santuário voltou seu olhos para os céus, com semblante de rancor. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, que ainda saíam de seus olhos.

— Deuses cruéis! — Gritou — Vocês tiraram minha menininha! Devolvam minha menininha! Devolvam! Os Deuses me tomaram minha filha!

Ele gritou por mais uns minutos, com a voz embargada pela dor e sofrimento.

— Minha menininha... Devolvam minha filha...

***

De volta aos tempos de hoje, Shion encontrava-se ajoelhado, com os dedos quase fechados sob a palma de sua mão encostados no solo, chorando. Ametista, imóvel, sentia lágrimas correrem livres por seu rosto alvo e delicado.

— Devolvam minha filha... — Sussurrava Shion — Devolvam minha filha... — Ele abraçava a si mesmo, com as mãos em seus ombros, devastado.

Ela se aproximou a passos lentos de Shion, colocando o rosto dele entre entre suas delicadas mãos, erguendo-o a fim de fitar seus olhos.

— Pai... — Ela disse com um sorriso alegre e lágrimas no rosto — Eu estou de volta. Eu não morri, eu estou viva! — Ela o abraço — Viva, sã e salva.

O Grande Mestre retribuiu o abraço, feliz. Ele ainda estava pasmo, incrédulo. Seria essa menina, quase uma mulher, a menininha que criara como filha até os três anos de idade, perdendo-a para as profundezas do majestoso Nilo?

— Nunca mais nos separaremos, ouviu? — Disse Shion, rindo entre as lágrimas — Menina travessa! Não faça mais isso, ouviu?

A menina riu levemente desse comentário, fazendo um sinal afirmativo com a cabeça. Shion sorria para ela. Não havia dúvidas em sua mente que essa era a sua meninha — o Cosmo dela, as feições, tudo era similar, com a diferença de estar 14 anos envelhecida.

— Nunca perdi as esperanças, filha — Disse o Grane Mestre, levantando-se com ela — Não houve um dia sequer em que não tenha te buscado às margens do Nilo...

A tristeza fora rapidamente substituída por enorme felicidade. Shion pôs as mãos na cintura da menina, erguendo-a no ar, como costumava fazer quando ela era um bebê. Girou-a no ar, alegre e de bem com a vida. Sorria como jamais havia sorrido antes. Há muito o homem bicentenário não sorria.

— É a minha menina, Ametista! — Gritou alegre, abraçando a moça novamente — Devolveram minha menina...

Ele a pôs no chão, deixando-a sentar ao seu lado no divã.

— Quero que me conte tudo! — Pediu Shion — Conte-me como sobreviveu... Como se adaptou? Aprendeu rápido o idioma? Tornou-se adepta do Islã? Como passou esses anos? Por acaso... Esqueceu-se de nós em algum momento?

A garota fitou-o com surpresa. Não esperava tantas perguntas. Contudo, faria seu melhor para respondê-las.

— Deixarei os detalhes da sobrevivência por último, sim? — Começou; ao ver resposta afirmativa de seu pai, seguiu com seu discurso — Bem, demorei pouco tempo para aprender... Vivi uma vida difícil, roubando para viver... Sei que o senhor não aprova, mas... Não tive opções...

Shion assentiu, compreendendo a situação da filha.

— Eu, de tanto viver no Egito, acabei por abraçar o Islã... — Ela disse, tímida e com um sorriso — A fé me fez suportar cada dia que se passava... Nunca os esqueci. Nunca te esqueci, pai, nem meu irmão... Minhas preces eram sempre direcionadas a vocês, e sempre sonhava com o dia em que os encontraria novamente... Foram anos difíceis, mas... O sofrimento parece ter valido a pena.

Ela sorriu para o mestre, imensamente feliz.

— Amanhã mesmo chamarei todos os Cavaleiros para conhecê-la! — Disse Shion, alegre — Atena estará de volta, e ela também a verá. Avisarei-a sobre a ameaça, mas antes... Quero que todos vejam a minha menininha!

Continua...

Notas finais
Saiu curtinho, mas tá valendo! Até a próxima, moçada! Beijocas!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.