Um Conto de Natal - Dramione
1 Parte I
A correria em verde, vermelho e dourado me enlouquecia cada vez mais. Ouvir os frequentes gritos da minha mãe ao pedir “Draco, busque isso! Draco, traga aquilo!”, não ajudava em nada. Assim como em toda semana em que tinha um feriado, a loja da minha família estava lotada. O que me incomodava não era ter que trabalhar naquele dia, mas o trabalho em si.
A Decorações Malfoy era um bom lugar para se estar como cliente, admito. Cuidávamos pessoalmente da sede, que ficava no shopping mais movimentado da cidade. Sua posição estratégica no andar inferior à praça de alimentação também contribuía para o sucesso do lugar. Não que precisássemos disso, é claro. Ali as coisas se vendiam sozinhas por sua qualidade e tradição.
Abraxas Malfoy, meu falecido avô, tinha algo com aniversários. Quando o planeta concluía uma volta e um de seus amigos completava mais um ano de vida, ele fazia tudo o que estivesse ao seu alcance para tornar tudo o mais especial possível para o aniversariante. Pelo que meu pai fala, vovô tinha os planos mais mirabolantes para enganá-los e os surpreender, apesar dos olhares desconfiados que recebia conforme determinada data se aproximava. E assim surgiu nossa loja.
No começo era apenas um pequeno estabelecimento situado em um lugar minúsculo, mas que enchia meu avô de orgulho por poder compartilhar sua paixão por aquela festa específica. Artigos de decoração como bexigas, velas e painéis tomavam todo o ambiente, para sua felicidade. E então a loja foi crescendo. Pudera… Pelas histórias que meu pai conta eu nunca soube de alguém mais determinado do que o velho Abraxas em tornar o dia especial de alguém o mais mágico possível. Então é claro que isso se refletiria na expansão de seus negócios.
O tempo levou o vovô a inovar e não mais vender apenas coisas relacionadas a aniversários, nos transformando em uma loja temática de decorações. Maldito Halloween de qualquer ano antes de eu nascer, é o que digo! Não a sério, claro. Só fico absurdamente rabugento e revoltado nesta época do ano em que todos desempenham seu papel como mandam os bons costumes.
O fato é que em algum fim de outubro Abraxas aproveitou seu apelido de “bruxo” para vender coisas relacionadas ao Halloween. Meu pai saía da infância nessa época, e até hoje guarda com carinho as fotos daquela noite. Ele atendia os clientes fantasiado de monstro de Frankenstein. Depois disso as datas ditavam o visual da loja, e os trajes usados para atender os clientes também mudavam no decorrer do ano.
Mas algo nunca mudou. Havia uma parte fixa na loja ainda destinada aos aniversários. Mesmo depois de sua morte meu avô ainda ajudava a alegrar o que segundo ele deveria ser o dia mais feliz do ano para as pessoas. Gostaria de tê-lo conhecido, talvez assim quem sabe eu lidasse melhor com isso que o velho bruxo tanto adorava. Afinal, ajudar a organizar uma boa festa se tornou o legado dos Malfoy.
Todavia, sempre há alguém do contra na família.
Estávamos na semana do Natal, e eu o odiava. Não só a data em si, aquele dia específico do ano. Havia algo de extremamente irritante no modo que as pessoas agiam como as mais bondosas das criaturas terrestres de uma hora para outra por causa daquilo. Uma simples data, um dia qualquer no calendário. Era falso. E assim meu sofrimento chegava junto com o mês de dezembro. Para o meu azar, não nasci na família adequada para ter uma opinião assim. Os outros Malfoy não colaboravam.
É difícil expressar mesmo para mim, quando tento a impressão predominante é que não estou sendo claro. Apenas nunca fui esse tipo de pessoa. No fim do ano ou em qualquer outro dia dele, a alegria não vinha a mim como uma imposição, e não o faria devido um velho barbudo e fictício.
Conforme crescia me perguntava “Porque eu deveria ser feliz? Se felicidade é algo que acontece quando estamos bem, como é que eu faço isso me sentindo pressionado?”. Certa vez li que o amor tem que vir até nós como um gato, de livre e espontânea vontade. Tomei esse conselho como exemplo mudando uma palavra. Para mim era isso, eu não tinha que esquecer todas as ofensas do ano ao abraçar alguém que não gosto e tratá-lo como meu melhor amigo. Nada no mundo me obrigaria a sorrir vendo uma cena que eu sei ser falsa em nome da tradição natalina.
E isso se aplicava a Ação de Graças, Dia da Independência, aniversários… E como que por castigo, em breve seria o meu. Como sempre, em uma véspera de Natal. Na droga do dia mais detestável do ano, em que eu tinha que me vestir de forma particularmente ridícula e levar bronca dos meus pais por — assim como todos os dias que antecipavam a grande data — não estar sorrindo para os clientes. Ao menos daquela vez consegui me livrar do medonho uniforme temático, por mais que o avental verde escuro com enfeites desenhados nas laterais e uma estrela na altura do coração estivesse preso ao meu corpo. O que porra eu era, uma árvore de Natal? Suspirei resignado ao notar que, ao que tudo indicava, a resposta era sim.
Para onde se olhava havia clientes, e o falatório estava me deixando doente. Sem contar os esbarrões e todo o resto. Eu certamente contava. Eu não tinha o perfil adequado para trabalhar lá no fim de ano, ou em qualquer outro lugar em que socializar fosse preciso. Por mim apenas fingiríamos que não havia nada acontecendo. Toda aquela alegria falsa e obrigatória sugava minhas energias. E a animação dos clientes ao fazerem tudo aquilo? Céus, não tinha o menor sentido. Nada explicava essa obsessão natalina.
Às oito e quarenta da manhã era nessa parte da loja em que eu estava. Vinte e um de dezembro. O “ninguém merece” era um pensamento que se repetia na minha cabeça, dando voltas e voltas até completar o ciclo e me fazer bufar exasperado mais uma vez ao pensar “ninguém merece”. E não merecia mesmo.
Por que infernos as pessoas pareciam acampar nos shoppings no fim de ano? Por que, porra, não eram nem nove horas da manhã e o lugar estava lotado como se um apocalipse zumbi se aproximasse e fosse necessário estocar o máximo de comida possível? Só que em vez de alimentos para o corpo, toda aquela gente estava desesperada por pisca-piscas, Papais Noéis de todo o tamanho, bengalas de Natal e os demais enfeites. Apenas não fazia sentido na minha mente.
Eu pagaria para ter um pouco de sossego e um tempo só para mim, mas Lucius e Narcisa Malfoy estavam atolados de trabalho e precisavam de toda a ajuda que conseguissem. Nessas horas eu gostaria de não ser filho único. Havia outros funcionários, é claro, mas o trabalho sempre dava um jeito de voltar até minha adorável pessoa.
Eu estava no último degrau de uma escada para pegar a estrela que deveria ficar quieta no topo de um pinheiro sintético, mas uma senhora ruiva e mandona discordava de mim quanto a isso. A cliente se interessou pelo objeto e não havia ser humano vivente capaz de convencê-la a ver uma daquelas que estava no estoque, pois ela exigia analisar aquela com as próprias mãos. Talvez fosse questão de honra. A mulher definitivamente precisava rever suas prioridades.
Quando acabei de atendê-la e ouvir que aquilo não era o que ela precisava, fugi daquela parte da loja como se um duende tivesse ameaçado minha vida. Pensei seriamente na possibilidade das pessoas serem loucas e ficarem ainda mais insanas no Natal. Então sim, eu tomaria distância daquela área e nada me convenceria do contrário. Fui até minha mãe, que estava no caixa. Ser filho dos donos deveria me dar alguma vantagem, certo?
Ignorei quando meu corpo bateu no da pessoa que tomaria seu lugar na fila e que seria atendida naquele momento para debruçar sobre o balcão, oferecendo o sorriso gentil que mamãe tanto adorava desde que eu era pequeno. Era fácil ganhá-la usando aquele truque. Concentrado na vitória iminente nem me importei com a reclamação vinda da cliente que teve a audácia de ficar no meu caminho quando nos esbarramos. Obviamente não por minha culpa.
— Dona Narcisa, dona Narcisa… Como vai? — Perguntei com simpatia para sequer receber um olhar em troca. Um verdadeiro ultraje! — A senhora precisa de ajuda?
— Por todos os revólveres do Clint Eastwood, eu mereço… — Ouvi um resmungo para em seguida a voz se dirigir a mim, alta e clara. — Com licença, garoto, mas é falta de educação furar fila desse jeito. Ainda mais quando os estabelecimentos ficam um inferno de tão cheios. Se não se importa, estou com pressa.
Virei na direção em que o som veio, dando de cara com uma garota de pose altiva e nariz empinado que devia ter a minha idade. Minha postura ainda era desleixada ao analisá-la dos pés à cabeça tendo absoluta noção que ela me encarava com claro desagrado. Seus pés vestiam um all star preto surrado, que combinavam muito bem com a calça jeans rasgada nos joelhos. O cabelo castanho e cacheado estava um caos, mas decidi que gostava dele. A blusa de moletom mal aparecia nos braços finos que carregavam várias e várias das caixas enfeitadas vendidas na loja. Na mão direita pude observar também que ela tentava agarrar uma lista prestes a escapar de seus dedos e cair no chão.
Por um momento tive pena da fulana e desejei que ela tivesse conseguido pegar uma de nossas cestas para carregar o que precisava enquanto estivesse ali. Mas não importava quantas tivéssemos, elas se tornavam escassas naquela época do ano. Simplesmente desapareciam. E a criatura em questão finalmente ficou desconfortável sob meu olhar, mudando o peso dos pés e pigarreando ao assumir um olhar ligeiramente assassino. Isso foi incentivo o bastante para me tirar do transe em que inadvertidamente me meti.
— É, tem razão. Eu realmente não me importo. — Respondi com falsa indiferença, olhando novamente para minha mãe, que não me deixou falar mais nada.
— Draco! — Ela ralhou. — Não foi desse jeito que eu te ensinei a tratar alguém, muito menos uma garota! Peça desculpas agora mesmo.
— Por quê?
— Eu poderia te dar mil motivos, mas saiba que te coloquei no mundo e posso muito bem te tirar dele!
A encarei, incrédulo. Ela ia mesmo me submeter àquele constrangimento? Mães e suas leis injustas! Aquilo sequer era um argumento de verdade, e eu não estava disposto a acatar a ameaça com tanta facilidade. Só que mais uma vez, a primeira cliente da fila fez questão de se intrometer.
— Está tudo bem, senhora. Agradeço muito pela defesa e sei que não tem culpa pelo que ele fala, então não precisa obrigá-lo a se desculpar.
Santa intromissão e bendita garota do cabelo revolto, pensei.
— É muita maturidade de sua parte. — Mamãe falou, claramente admirada. E eu nem a julgava por isso, já que a garota estava aliviando o meu lado. — Espere, você não é aquela menina que está sempre por aqui?
— Pode ser, pois amo esse lugar e venho com certa frequência. Tem de tudo.
Mamãe sorriu, e notei que a menina tinha a conquistado. Antes de ouvir qualquer palavra eu já sabia que ela havia arquitetado algo.
— Qual o seu nome, querida?
— Mione. Hermione Granger, senhora. — A atrevida respondeu.
— Soa muito bem. — Considerou. E tudo estava bem até dona Narcisa voltar a reparar na presença do próprio filho. — Draco, pegue o brinde que nossa cliente escolher e embrulhe para presente.
— É sério, não precisa. Eu dou os presentes, não recebo. — Hermione disse de um modo muito estranho antes de sorrir horrorizada e com o cenho franzido, como se sequer considerasse a ideia louca de receber algo em sua vida. Quase fiquei interessado em sua história e motivos, coisa que raramente me era despertada por alguém. Eu disse quase.
— Faço questão de presenteá-la ao menos com um vale-presente. — Mamãe insistiu.
— Garanto que não deixarei de frequentar a loja por causa do seu funcionário, portanto isso não é necessário. Mas pelo que entendi a senhora é a mãe, então ninguém poderá julgá-la se colocá-lo de castigo e lhe der umas boas palmadas.
E pronto, toda e qualquer simpatia que eu pudesse ter pela fulana desapareceu, assim como minha paciência para ela.
— Ha-ha, muito engraçado. — Respondi ao revirar os olhos, interrompendo a conversa das duas. — Mãe, eu não quero mais ficar na parte dos aniversários nem do Natal, o que não me deixa muita opção. Eu até beijo essa daí se você me deixar ficar no caixa. Por favor, não obrigue essa pobre alma a se jogar no chão e fazer uma cena.
— Se não for pedir muito, será que posso ser atendida antes? Realmente estou com pressa.
— Claro, meu bem. Coloque os embrulhos aqui. — Mamãe finalmente lembrou onde estávamos e resolveu ser objetiva ao realizar seu trabalho. — E você pode ficar no meu lugar, Draco, mas se eu souber que destratou outro cliente…
— Não se preocupe, a senhora não saberá. — Apenas murmurei, pois não arriscaria perder aquela chance de manter minha sanidade.
— Muito obrigada pelo vale-presente. Só não garanto que usarei em benefício próprio, senhora. — Hermione aceitou o mimo enquanto eu ajudava a colocar todas aquelas coisas no caixa. Nem me importei com meu orgulho já que finalmente consegui o que queria. Passar as compras de clientes loucos era melhor que ajudá-los a escolher o que levar. E eu era absurdamente rápido naquela tarefa, pois fazia de tudo para me livrar deles.
— Me chame de Cissa. — Mamãe pediu.
— Tudo bem, Cissa. — A garota disse tímida conforme suas tralhas eram postas em sacolas com nossa logo. — Gostaria de conhecer alguém que faça aniversário ainda esse ano, mas quem seria louco de nascer na época do Natal?
— Eu. — Respondi sem ter tempo de pensar ao menos um motivo de me abrir para aquela abusada. Mas ela pareceu genuinamente interessada quando soube.
— Sério? Quando?
— Na véspera.
— Puxa vida, isso é tão… — Hermione fez uma careta enquanto pagava tudo aquilo e tirava o celular tocando do bolso, ficando afoita em um segundo. — Desculpe, eu não sou a maior fã dessa data, mas feliz Natal para vocês caso eu não os veja de novo até lá. E parabéns. Draco, não é?
Observei incrédulo enquanto ela desajeitadamente atendia o telefone e batia com as sacolas em um senhor tão barrigudo que poderia ser o próprio Papai Noel disfarçado. Era informação demais disparada em tão pouco tempo. Ela também odiava o Natal? Onde essa menina havia se escondido minha vida toda? E onde se meteria agora? Nós poderíamos ser melhores amigos, até porque era difícil encontrar alguém de bom senso o suficiente para desprezar aquela comemoração estúpida.
Aquele com certeza era um ponto positivo. O simples fato de odiar o Natal a recomendou como alguém de caráter tão de repente que me vi perdido sobre o que achar da abusada.
Como se um feitiço me prendesse, estiquei o pescoço conforme ela se esgueirava para sair da loja, e me esforcei para ouvir suas últimas palavras naquele ambiente barulhento.
— Já estou indo, Viktor. Chego em alguns minutos, eu garanto. Aham… Eu sempre estou com doces, chefe.
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