Um Conto de Ônibus
3 Ele De Novo
Notas iniciais
6 de agosto. Levanto pensando, claro, nele, aquele garoto que não sei nada a respeito e que vi no ônibus. Lembro que saí de casa no horário de sempre, 10h30, mas o nervosismo para repetir a rotina de ontem e dar tudo certo me faz ficar paranoico e pensar que vou ir cedo demais, ou sair atrasado demais.
Café tomado, banho, mochila e estou no ponto. Me irrito pois esqueci de um detalhe: o ônibus não está no ponto sempre que eu preciso, sempre tenho que mofar uns 20 minutos até que ele passe. Respiro fundo, me concentro, e aguardo. Passam 30 minutos e nada dele. A esse momento eu só conseguia pensar que o destino estava me pregando uma peça.
Logo depois que começo a xingar meia-dúzia de possíveis responsáveis pelo atraso do coletivo, como o governador, os donos das empresas que disponibilizam poucos veículos, os motoristas lentos etc, ele passa: o ônibus com destino à Central Rodoviária.
A esse horário sempre tem lugar vago, mas sempre do lado onde o sol mais queima. Os que pegaram o ônibus antes não são burros e tratam sempre de ocupar os locais onde, durante o trajeto, terão sombra. Eu nunca liguei por ir nos bancos onde o sol bate, mas comecei a pensar que ficaria cheio de suor, e dessa forma não seria interessante encontrá-lo.
Me sento ao lado de uma senhora de idade bem avançada. Eu deduzo que ela está saindo para fazer exames, e que por isso deverá saltar antes do colégio onde eu vi o garoto, onde tem uma grande clínica dedicada à terceira idade. Bingo. Ela saltou e fiquei com a janela, e com um lugar vago ao meu lado.
O próximo ponto era o da escola. Instituto de Educação Apollo, um grande projeto de escola de ensino médio público, uma parceria entre o governo estadual e algumas empresas privadas que cuidaram da infra-estrutura. Conta com um campus enorme e muito verde, é algo bonito de se ver durante meu caminho para a escola, mas eu esperava ver algo ainda mais bonito que isso.
O ônibus para, e tem muita gente no ponto, mas não o vejo na porta. Pronto, perdi, nunca mais irei vê-lo. Tem mais um colegial pedindo pro motorista abrir a traseira, e me pergunto que diabos aconteceu com o sistema de cartões de transporte dessa escola, mas pelo visto eu estava enganado. Ele passou pela roleta, não desceu e subiu por trás.
– Obrigado
Escuto e me arrepio. Era a voz do garoto de ontem, que subiu pela porta traseira, como ontem. Logo concluo que o garoto da frente fez o pedido por ele.
Nossa, eu realmente queria isso, mas novamente, não estava preparado. E agora?
Mesmo com muita gente embarcando, poucos já haviam passado pela roleta. Pelo menos uns 17 lugares continuavam vagos, inclusive o banco do meu lado. Quando começo a cogitar a possibilidade dele ocupá-lo, acontece.
– Com licença — diz o misterioso garoto enquanto se senta ao meu lado.
Eu. Quero. Morrer. O ambiente ficou sufocante, eu mal conseguia respirar, tinha medo de respirar errado, fazer barulhos, e ele notar. Eu começo a suar e a ficar um pouco trêmulo. Enquanto isso, ele abria a mochila, agora em seu colo, procurando alguma coisa.
Não, não vai ser hoje. Vou deixar para outro dia, hoje, assim, não dá. Eu estou nervoso demais, e sinceramente, tenho medo de ficar nervoso assim sempre. Mas não vou pensar nisso agora, preciso relaxar, observá-lo aqui, ao meu lado, por hoje, basta.
Abro a mochila e pego um livro para ler. Obviamente não consigo prestar atenção, mas eu bem que tentava. Reparei que ele olha pro lado, com aqueles olhos que não são japa, mas que parecem, e ao mesmo tempo parece algo tão único que não consigo descrever. Os olhos dele fitavam meu livro. Provavelmente ele buscava o nome, por pura curiosidade.
– Charles Baudelaire?
Tremi. Ele estava falando comigo.
– S-sim. É uma coletânea de poesias bem famosa dele-
– As Flores do Mal? — Pergunta
– S-sim. Conhece?
– Nunca toquei em nada dele, mas assisti uma série onde o protagonista adorava Charles Baudelaire, e principalmente esse livro, o As Flores do Mal. Que coincidência, você também viu essa série?
– Sim, claro — respondo eu sem nem saber que uma série assim existia.
– Uma pena que foi curta demais, e duvido que tenha uma segunda temporada.
– É — concordo, novamente, dando tiros no escuro.
A conversa acaba. Não achei uma brecha para perguntar o nome dele, mas tudo aquilo me parecia tão suficiente naquele momento, que relaxei. Fechei meu livro, e fui ali, aproveitando aquele momento ao lado de um estranho que nem desconfiava que eu estava apaixonado por ele.
Me pergunto se, novamente, saltaremos no mesmo ponto. Já estamos próximos, mas ele não dá o sinal. Me levanto, puxo a corda, e ele continua imóvel. Uso isso como desculpa para tocar seu ombro.
– Com licença, é o meu ponto — com um sorriso sincero, uma coisa que raramente consigo fazer.
– Claro — ele responde
Eu passo, caminho para a saída, e percebo que após me dar passagem, ele não sentou novamente, caminhava atrás de mim até a porta.
Por que ele não deu o sinal e esperou que eu fizesse algo, se o ponto dele era ali também? Por que não caminhou na minha frente quando se levantou para me dar passagem? Essas pequenas atitudes estavam martelando na minha cabeça, e eu não fazia ideia do que elas poderiam significar.
A porta abre, eu salto, e sento no banco para esperar o meu próximo transporte. Vejo ele descendo, novamente olhando para trás, para frente, e caminhando. Mas dessa vez, bem, ele me reparou sentado ali enquanto passava.
Eu preciso desse garoto.
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