Notas iniciais
Vinícius toma uma decisão para descobrir mais sobre o misterioso garoto, mas será que dessa vez as coisas sairão como o planejado por ele?

Eu preciso desse garoto. E por mais feliz que eu estivesse por ter viajado ao seu lado, sabia que quando chegasse em casa me arrependeria por não ter feito nada. Não que, agora, eu tenha coragem de abordá-lo, mas nada me impedia de seguir lentamente seus passos para ver seu destino. Afinal, é provável que ele more na região.

Ele segue reto até o final da esquina, onde tem um cruzamento e várias opções para ele atravessar. Parei um pouco, fingi observar uma vitrine até ver para qual lado ele ia.

Pronto, ele seguiu para a esquerda, que dava em uma rua pouco movimentada e bem arborizada, uma daquelas ruas onde pode fazer o sol que for, sempre está fresquinha porque o verde quase tapa a passagem de luz e proporciona muita sombra. Segui para o sinal e atravessei rapidamente quando ele fechou. Visualizava o garoto já bem distante, quase na esquina, mas a essa distância eu podia apertar o passo um pouco para não perdê-lo de vista.

Para a minha surpresa, ele não ficou ali parado aguardando o próximo sinal, ele virou e continuou andando, provavelmente. Quando cheguei lá, já não o visualizava nem de longe. Era o fim, teria que ficar até o dia seguinte rezando para pegar o mesmo ônibus que ele de novo.

Resolvo voltar pelo mesmo caminho que vim. Já estava uns 20 minutos atrasado para a faculdade, mas não estavam dando muita importância a isso, porque era um dia só de matérias teóricas, matérias que faço de tudo para ficar longe.

Usei isso como desculpa para matar aula de vez, e resolvi voltar para casa. Eu já estava quase saindo da rua verde onde o vi entrar, e me virei novamente e segui até seu fim, pois atravessando ela, daria em uma avenida onde passa meu ônibus indo no sentido contrário, que me deixaria em casa.

Vou andando devagar, aproveitando o barulho que o vento produzia nas folhas daquelas árvores e a falta de outros ruídos. Incrível como a essa hora do dia existem ruas calmas em uma cidade turbulenta como o Rio de Janeiro. Tudo favorecia meu momento de reflexão naquele momento, quando sou abordado por alguém.

– Está perdido? — diz uma voz já familiar que me fez congelar.

Me viro e vejo. É ele, o garoto do ônibus.

– N-não e-exatamente... — respondo travando.

– É que te vi no ponto ainda há pouco, depois, quando virei a próxima esquina, tive a impressão de te ver aqui. Como queria constatar que não estava ficando louco, dei a volta e fui apressado até o ponto já que a essa hora todo coletivo demora, e não te vi lá. Bem, isso poderia apenas significar que você tinha conseguido pegar o seu, mas agora a minha surpresa ao constatar que não estou ficando louco e que sim, era você aqui. — Diz ele

– Eu desisti de ir pra faculdade, aí estou indo pro ponto onde pego o ônibus retornando. — Digo eu milagrosamente sem travar.

Mas pera, porque mesmo eu estava dando satisfações para esse garoto?

– Ah, desculpe. Eu só queria constatar que não estava ficando louco mesmo. Não é como se eu estivesse te seguindo ou coisa do tipo para te levar pra um cativeiro.

– Não, tudo bem. Aliás, qual o seu nome? — Isso! Eu consegui fazer a pergunta!

– Lucas. E o seu?

– Vinícius.

– Bem, Vinícius. É um prazer conhecê-lo, mas como eu observei, você está parado aqui há um tempo, não? Tem certeza que sabe como chegar no seu ponto?

– Acho que não. — Mentira, mas vai que ele resolve me levar até lá?

– Não tem erro, é só seguir até o final da rua e atravessar.

Puto. Percebo que depois daquelas palavras, as próximas poderiam ser o tchau. Então tentei prolongar.

– Você não acha perigoso ficar seguindo os outros não? — Pergunta o hipócrita

– Depende. Quando se é um detetive profissional, não. Quando se é um pobre estudante, como eu, sim. Mas quando é um pobre estudante querendo comprovar que não estava ficando louco, os riscos devem ficar em segundo plano.

– Então existem casos onde os riscos de seguir alguém compensam? — Pergunto

– Acho que sim, foi isso que eu quis dizer. Mas pra que isso? Você estava seguindo alguém também? Não me diga que atrapalhei a sua "investigação"?

Meu sangue ferve nessa hora e solto.

– Sim, mas não, não me atrapalhou, porque eu procurava você.