Um Anjo no Inferno
8 Capítulo 8 - Separando o Grupo
Notas iniciais
Acordei com Daryl me chamando, havíamos dormido dentro do carro. Uma pessoa de cada carro iria fazer ronda trocando os turnos a cada duas horas. Só que nunca me deixam ajudar nisso, eu gostaria de fazer ronda é algo que eu posso fazer. Não consigo matar um zumbi, mas se visse um eu poderia avisar e nos manter a salvo. Tentei protestar contra isso ontem a noite, mas o objeto de toda minha afeição – sei que isso foi muito brega – disse que não conseguiria dormir se eu ficasse aqui fora porque ficaria preocupado comigo.
Olhei sonolenta para o loiro e me levantei, estava cansada e dormi mal pensando em Sophia mas tentava acreditar que tudo estava bem. Fui meio sonolenta, mas tentando me manter o mais acordada possível para junto dos outros. Rick estendeu varias armas sobre a capota do trailer e falou para que os que forem ajudar na busca pegarem uma.
Me aproximei para pegar uma, mas senti as mãos fortes e um tanto calejadas de Daryl segurarem o meu pulso. Não.. eu vou nessa busca, não gosto de matar zumbis porque eles ainda são humanos e se houver uma cura estarei matando pessoa que podem ser curadas. Além de que... é complicado, mas não conseguiria matar um zumbi. Só que eu encaro todos os meus medos para ajudar na busca.
O encarei e estendi a outra mão para pegar uma arma, odeio o desafio porque sinto o meu coração diminuir só que eu tenho que fazer isso. Confio cegamente no Daryl e sei que ele jamais me colocaria em uma situação de risco, mas no momento eu tenho que correr esse risco.
Ele puxa o meu outro pulso e me força a encará-lo, percebo todos nos olhando mas não ligo. Meu coração batia rápido, um flash do nosso beijo veio a minha mente. O contexto é completamente diferente, sei que ele não vai me beijar porque aquele foi um beijo de bêbado. Talvez algo em mim naquele momento tenha despertado o seu interesse, talvez ele não tenha me achado tão menina. Não sei e tenho tentado não pensar nisso, não adianta sonhar com Daryl. Por mais que eu o ame tenho que me conformar em ser sua amiga, em tentar fazê-lo feliz. Isso tem que ser o suficiente.
– Você não vai, é perigoso e eu estarei preocupado rastreando pegadas não terei tempo de cuidar de você – ele falou sério, frio e grosso, mas eu não liguei, sabia que ele só falou assim porque se importava.
– Por favor ela era minha amiga, não vou conseguir ficar aqui – falei um pouco desesperada – não vou atrapalhar e vou ficar por perto. O Carl vai, me deixe ir...
– Não se afaste e se um zumbi vier para cima de você grite, caso contrario fique quieta – ele falou me olhando nos olhos.
Senti um frio percorrer a minha espinha, mas mesmo assim sorri. Ele me deixou ir! Ele me deixou ir! Pego uma faca e acompanho o grupo, fiquei perto de Carl e Lori porque eles são legais e me sinto segura perto deles. Daryl está na frente, ele que está guiando tudo mundo porque ele sabe seguir trilhas. Bem certo, eu fui escoteira mas eu não fui escoteira por muito tempo. Fui só até entrar no colégio interno, depois só fui escoteiras nas férias. Não tive muito como aperfeiçoar a parte do seguir trilhas, mas me contendo em ficar aqui procurando Sophia.
Andamos por bastante, tempo, bastante tempo mesmo. Isso não era tão emocionante ou assustador quando eu achei que poderia ser. Ainda não houve nada de zumbis (o que eu agradeço porque não quero realmente ver um cara a cara, eles me dão muito medo!) só que também não temos nenhum sinal da Sophia. Será que ela está bem? Onde será que ela está?
Foi quando do nada paramos de andar, haviam encontrado uma barraca e que Sophia poderia ter passado a noite lá. Tomara que ela esteja lá, tomara que ela esteja bem. Carol chama pro ela mas ninguém responde, talvez ela esteja dormindo, só isso. Daryl entra e começa a demorar demais para voltar não sei se isso é bom ou ruim. Ele sai sozinho.
– Era apenas um cara que como o doutor Jenner diz Encontrou a saída – ele falou sério – vamos logo.
Andamos bastante até que ouvimos o barulho alto de sinos, uma igreja no meio do nada? Isso parecia tão irreal quanto assustador, fomos andando o mais rápido e silencioso que poderíamos. Achamos uma igreja só que sem sinos, infelizmente quando entramos nela haviam zumbis lá. 3 para falar a verdade. Abracei Carl não sabia se para afastar o medo dele ou para afastar o meu. Rick, Shane e Daryl tomaram a dianteira e revistaram tudo.
Ficamos o resto do dia na igreja, tinha a esperança de que Sophia também tivesse ouvido os sinos (no final a igreja tinha um dispositivo automático que ativava o som ) e viesse até aqui. Sabia que Carol estava nervosa e culpava Rick, mas não acho que foi culpa dele. Ele fez o melhor que pode agindo sobre pressão e sem esperar. De certo o acho bem corajoso, ele é um bom líder para o grupo. Ainda confio em Daryl e sei que ele tomará a decisão certa que eu posso não ver, mas Rick é bom para o grupo.
Estavamos espalhados pelo terreno boa parte entrou na igreja para rezar em algum momento, eu rezei para agradecer a chance que deus me deu, agradecer por Daryl ter me encontrado e por cada dia que tenho de vida. Notei que Daryl não tinha entrando na igreja em nenhum momento e fui me sentar ao lado dele. Estavamos atrás da igreja, não tinha ninguém por perto.
– Porque você veio? Estaria mais segura com Dale e T-dog – ele falou parecendo irritado, engoli em seco e me encolhi ao seu lado – não... merda... não fica assim, eu só não quero que um zumbi te devore e agora eu tenho que me concentrar em achar Sophia, não posso bancar a babá.
Arregalei os olhos e depois me senti uma pessoa minúscula, eu agradecendo por Daryl ter me encontrado quando eu me transformei em um verdadeiro fardo. Ele é obrigado a bancar a babá porque eu não posso me defender sozinha, sou um fardo que está atrapalhando o homem que eu amo.
Não vou chorar, não posso chorar. Se eu chorar ele pode ficar com pena de mim, não quero pena dele. Tudo menos pena, vou sair da vida dele, vou me aproximar mais dos outros e parar de ser um fardo. Vou parar de atrapalhar as coisas dele, vou aprender a me defender também. Quem sabe eu até não consigo ficar forte o suficiente para deixar o grupo e ir atrás do meu irmão? Droga quem eu estou tentando enganar? Não vou conseguir deixar o grupo, preciso ficar perto do Daryl mesmo que de longe.
– Me desculpe... não sabia que era assim – disse tentando forçar a minha voz a sair normal – vou parar de ser um fardo, vou ficar forte e andar mais com os outros... Ai você não vai precisar se preocupar comigo, vou parar de te atrapalhar... Não se preocupe.
Não deixei ele falar me levantei, eu precisava sair dali antes que eu caísse em lagrimas. Cada palavra que saiu da minha boca era como uma facada no meu coração, doía e muito. Eu queria fazê-lo feliz, fazê-lo sorrir mas eu não sou boa o bastante para ele. O que eu entendo da vida? Sou só uma garotinha, ele vai estar melhor sem mim.
Já tinha me virado para sair dali, precisava me afastar quando ele me puxa pelo pulso. Sou virada para encará-lo, engulo em seco tentando segurar as lagrimas já formadas em meus olhos. Porque aquilo tinha que ser tão difícil? Provavelmente porque eu havia me apaixonado por ele. Ficamos nos encarando por muito tempo, não sei dizer quanto exatamente. Só ficamos ali nos encarando sem dizer nada, talvez essa seja a ultima vez que vamos estar assim tão perto.
Nosso contato foi quebrado quando ele me puxou contra seu peito duro, meu coração batia a mil por hora, minhas mãos deviam estar suando, minhas bochechas deviam estar MUITO vermelhas e meus lábios formigaram. A sensação de dejá vu quando ao que houve CCD voltou, aquela era a primeira vez que ele me abraçava. Geralmente sou eu que o abraço.
– Não – ele falou e senti seus dedos percorrendo a linha da minha coluna, aquilo era bom – você não é um fardo... Não se... você não precisa se afastar. Eu já disse que não me dou bem com as pessoas... Não sei lidar com elas.
Passei meus braços pelas suas costas o abraçando de volta, apoiei minha cabeça em seu peito. Notei o quão difícil foi para ele falar assim comigo, ele não era delicado e eu noto o esforço que ele faz para ser gentil comigo. Também tenho que me esforçar para ser forte por ele.
Eu não estava mais triste, eu não era um fardo para ele. Não precisaria me afastar, iríamos continuar juntos. Tudo bem não juntos, juntos.. Sabe juntos no quesito romântico, mas ainda assim estaremos juntos. Ainda posso ficar perto dele, ainda posso lutar para fazê-lo feliz e ajudá-lo a recuperar o seu sorriso.
Não sei quanto tempo passamos assim, mas foi bom. Me senti conectada com Daryl, como se tudo pudesse dar certo. Ninguém veio nos procurar o que foi bom, não quero que as histórias sobre e o Daryl estarmos juntos voltem. Se os boatos voltarem podem querer nos separar, impedir que passemos muito tempo juntos ou muito tempo sozinhos juntos. Quando estamos afastados de todos Daryl é mais gentil comigo, ele se aproxima mais e conseguimos conversar mais também.
Nos separamos do abraço depois do que pareceu uma eternidade, nos encaramos nos olhos e depois nos separamos. Tínhamos que voltar para perto dos outros. Todos estavam juntos na porta da igreja,Shane nos olhou com suspeita e isso me deixou constrangida. Mesmo não tendo feito nada.
Eles começaram a falar do plano, todos iríamos cobrir a parte de trás do riacho e depois voltar para o trailer. Rick, Carl e Shane ficariam para trás, talvez Sophia venha para cá. Dessa vez Daryl pediu para eu ficar mais perto dele e eu fiz isso, me sentia mais segura assim. Lori estava com uma arma, acho que isso é para tranquilizar o Rick.
Ver Lori e Rick é uma coisa que me dá esperança, esperança no amor para falar a verdade. Andamos por um bom tempo, muito tempo para falar a verdade. Eu tentava ser o mais silenciosa possível, as vezes Daryl me olhava. Apenas por alguns segundos, talvez para ver se eu estava bem. Eu o olhava bastante também, eu tentava achar Sophia, mas olhar Daryl também era importante. Na verdade era meio que inconsciente, quando eu via já estava olhando-o.
De repente Carol parou de andar, sinto tanto dor por ela. Sophia é uma garota incrível e tenho certeza que vamos achá-la. Logo a doce garotinha de 12 estará conosco de novo e eu irei passar mais tempo com ele, irei dançar com ela sempre que ela pedir e vou tomar conta dela, impedir que ela seja pega.
– Então é isso esse é o plano? – Carol diz inconformada se sentando em uma árvore caída.
Todos paramos de andar, como eu queria fazer algo para ajudá-la. Queria encontrar Sophia, queria que Sophia aparecesse aqui bem. Segura. Isso seria bem mais fácil, melhor. Olho para os lados com a esperança tola de que ela aparecesse, de que houvesse algum sinal dela. Nada. Suspiro e olho Daryl que estava apoiado em uma árvore e eu estava bem ao seu lado, nos olhamos e eu sorrio para ele. Sentia que não precisávamos de muito mais do que isso.
– Meu anjo, não imagino o que está passando – diz Lori para Carol – e faria tudo para resolver. Mas pare de culpar o Rick, está na sua cara todas as vezes que olha para ele. Quando Sophia correu, ele não hesitou, não é? Nem por um segundo! Não sei se iríamos atrás dela do jeito que ele foi ou tomar as decisões que teve que tomar. Alguém teria feito algo diferente? Alguém conseguiria se proteger, proteger Sophie e matar os dois zumbis.
Lori é uma mulher valente, uma das mulheres mais valentes daqui. Achou que o marido estava morto mas reuniu forças para tentar proteger o filho, ela não se dá por vencida e apoia o marido incondicionalmente. Além dela e Rick serem uma prova que o amor pode existir nos dias de hoje, eles são um casal bonito de se ver.
– Daryl consegue proteger Cristal e nunca precisou deixá-la sozinha – falou Carol olhando para baixo.
Daryl ficou tenso, bem tenso. Já percebi que ele não gosta de se envolver nos problemas do grupo e nas discussões. Ele gosta de ficar a parte, não conversa com a maioria e fica na sua garantindo a sua segurança. Quer dizer a dele e a minha, ele não se importa que eu fiquei por perto. Gosto disso, gosto de ficar por perto dele, de conversarmos.
– Não fale do que não entende. Eu estou acostumado a protegê-la e sei o que fazer. Além disso, eu posso atirar, minha arma não faz barulho. Rick não podia atirar e não está acostumado a proteger alguém assim. São casos diferentes – Daryl falou quando todos olhavam fixamente para ele – vamos logo, ainda temos um grande espaço para cobrir.
Daryl virou as costas e saiu andando, me virei para ir atrás dele. Ainda tínhamos um grande perímetro pela frente e vamos achar Sophia. Tenho fé nisso, a cada passo que dou tento me convencer de que estou mais perto de encontrá-la. Isso me ajuda a acreditar e a ter fé.
The Walking Dead – POV Daryl
Faltava pouco para chegarmos de volta a estrada onde estava o trailer, continuava a procurar por Sophia, mas vou admitir que queria voltar para a estrada. Não me sentia confortável com Cristal aqui, não que ela fosse um estorvo ou eu a quisesse distante. Desde que ela pegou aquela maldita doença eu sei bem o motivo, mesmo ainda não o aceitando completamente.
Não queria que Cristal estivesse aqui, ela é delicada demais e aqui é perigoso. Podem haver vários zumbis aqui na floresta, tenho medo que ela se afaste e seja surpreendida por algum deles. Não sei se o seu instinto de sobrevivência é mais forte que o seu senso de ética, por algum motivo ela não mudou junto com o mundo e isso me faz duvidar que ela conseguiria atacar um zumbi que tentasse devorá-la.
Noto que a maioria parou de andar e me irrito, eles acham que estão onde? A floresta não é um local seguro, não se pode andar nela como se estivesse em um shopping Center e agora com zumbis a solta existem ainda mais motivos para se tomar cuidado.
– Estamos todos torcendo e rezando com você, não sei se isso vale alguma coisa para você – ouvi Andrea falar.
– Vou dizer do que vale: absolutamente nada, rezar e torcer é perda de tempo –falo entrando na conversa e encarando Carol – vamos localizar aquela garotinha e ela ficará bem. Sou o único calmo por aqui? Pelo amor de deus...
Depois volto para onde estávamos, tínhamos um caminho longo para percorrer passo meus olhos pela doce garota loira que me olhava com um sorriso brilhante de orelha a orelha, aquele sorriso era incrível por ser tão doce. Não consigo imaginar o que está por trás dele, é tão previsível e imprevisível ao mesmo tempo. Talvez eu tenha dito algo que a agradou, talvez ela tenha entendido que eu realmente estou tão preocupado em encontrar Sophia quanto ela, não sei.
Olhando nos olhos da maioria do grupo eu vejo que ninguém realmente acredita que vamos encontrar a garota. Os únicos de todo o grupo que realmente acreditam nisso somos eu, Dale, Rick, Carol e Cristal, o resto apenas finge acreditar mas em seus olhos dá para ver que eles só querem ir para o próximo lugar.
Andamos bastante, faltava pouco para chegarmos de volta a estrada quando Andrea começa a gritar ela havia se afastado um pouco mais. Merda, mulher burra! Ela não sabe lutar e está no meio de uma floresta onde um zumbi pode aparecer do nada. Não tínhamos combinado de não nos afastar, não sair da vista um do outro? Corro até onde Andrea tava, um zumbi estava quase em cima dela quando uma garota louca montada em um cavalo aparece e atinge a cara do zumbi com um taco de baseball o jogando longe.
– Lori? Lori Grimes – pergunta a mulher montada no cavalo e Lori ergue a mão se identificando, burra pode ser uma armadilha – Rick me mandou, precisa vir, Carl foi baleado mas ainda está vivo.
Para a minha completa incredulidade Lori não faz nenhuma pergunta! Ela não sabe quem é a mulher e simplesmente decide que vai com ela? Ela joga a mala do chão e foda-se o resto? Se for uma cilada, se a mulher vem nos escutando e quer uma refém ela vai conseguir de mão beijada! Será que só eu percebi que o mundo mudou? Não existem mais leis, não existem mais regras e as pessoas agora podem mostrar seus lados mais sombrios e podres.
Não é porque esse grupo é politicamente correto e age como se toda as antigas leis funcionassem – como quando eles inventaram que eu era um pedófilo e estava comendo a Cristal – que todos os outros sobreviventes agem assim.
– Nós não a conhecemos, não pode subir no cavalo! – digo inconformado.
Sou ignorado completamente e isso só me deixa ainda mais irritado, e é por isso que não posso confiar a segurança de Cristal completamente neles. Eles deviam fazer mais perguntas ser humano em um mundo zumbi não torna todos aliados. Bufo irritado, mas sabia que não há nada a fazer. Lori é grandinha o suficiente para cuidar de sim mesma sozinha, a garota deu os nomes da família dela e eu não sou nada dela para a proibir de fazer o que bem entender.
– Rick disse que a outros na estrada do grande engarrafamento – falou a mulher do cavalo – Vá à estrada Fairburn, estamos 3km ao sul. É a caixa de correio dos Grenne.
Depois disso a garota montada no cavalo sai galopando rapidamente com Lori, merda parece que temos um novo destino agora e nem ao menos podemos decidir quanto a isso. Com aparentemente Lori, Carl, Shane e Rick com a família da mulher do cavalo não creio que tenhamos muita escolha.
Continuamos o caminho no mais completo silencio, Glenn se animou e decidiu ir na frente, eu olhava tudo atentamente a procura de Sophia ou de um zumbi, aparentemente tem mais zumbis aqui que o normal, não posso deixar Cristal andando pela floresta. Andrea quase virou jantar, vamos andando até chegarmos na estrada.
Quando chegamos Glenn contava tudo para Dale sobre o nosso encontro com a garota do cavalo e de como Lori não está mais com a gente. Entro na estrada ajudando Cristal a pular a proteção que separa a floresta da estrada.
– E vocês a deixarão? – fala Dale chocado.
– Da um tempo, cara... Rick a mandou, ela sabia o nome da Lori e do Carl – falei irritado me afastando de todos.
Esse grupo consegue ser um pé no saco, o numero de vezes que tive vontade de simplesmente ir embora desse grupo é enorme. Pegar minhas flechas e sair no meio da noite, sem falar nada para ninguém. Eles conseguem ser insuportáveis quando querem e pouco racionais, sei que em grupo temos mais chances, mas viver em grupo é complicado demais. Principalmente com pessoas tão diferentes que não tem nada em comum.
Ficar nesse grupo antes era útil quando tínhamos um lugar fixo, era mais fácil para mim e para Merle. Não sei se é o caso agora, todos eles conversavam e se aproximavam ao mesmo tempo de onde eu estava. Não entendi o motivo de quererem tanto que eu faça parte da conversa até ver Cristal vindo até o meu lado.
É verdade eu não sou o único a me importar com ela, de algum modo ela cativa a todos e até os mais resistentes se renderam quando ela convenceu o doutor Jenner a abrir a porta. Olho para aqueles olhos negros e entendo o porque de eu ainda não ter ido embora, foi por ela.
Comecei a prestar atenção na conversa, eles falavam sobre se deveríamos ou não ir até a fazenda. Carol não quer ir, ela tem medo que Sophia volte e tenhamos partido mas Dale acha complicado deixarmos o grupo separado. Os dois lados estão certos e isso só vai tornar as coisas mais difíceis, ainda mais para eles que estão acostumados a deixar Rick resolver tudo por eles.
– Tudo bem, precisamos planejar bem, amanhã cedo é o suficiente para nos preparar – me manifesto – dar-nos uma chance para armar um sinal. Deixar suprimentos para ela... Vigiarei hoje a noite, com o trailer.
Todos me escutavam com atenção, ninguém me interrompeu e pelos olhares deles todos pareciam aceitar o que eu disse. Pelo menos agora eles não vão mais brigar, mas teremos que se parar o grupo e dessa vez não posso deixar Cristal aqui comigo. A estrada já mostrou que não é segura, uma horda de zumbis passou por aqui e havia um não muito distante na floresta. Talvez esse sitio onde Lori e Rick estão seja mais seguro....
– Se o trailer ficará, eu também ficarei – Dale diz chamando a minha atenção de volta para a conversa.
Nós olhos de Carol dava para ver o agradecimento pelo que estávamos fazendo, acho que Cristal está me tornando mole demais. Ou talvez eu sempre tenha sido assim, Merle sempre disse que me parecia demais com a nossa mãe. Talvez eu realmente me pareça demais com ela. A ideia de que nesse fim de mundo, nesse mundo sem regras as pessoas mostram quem realmente são, mostram seu lado podre... Talvez eu seja uma dessas pessoas, talvez esse seja o meu lado podre. Me importando com pessoas que não ligam se eu estou vivo ou morto, amando uma garotinha de 16 anos que transpira todas as virtudes possíveis.
– Eu também vou ficar – fala Cristal.
Não ela definitivamente não vai ficar, não vai ficar aqui. Não que eu saiba o quão segura é essa fazenda, mas lá estão Rick e Shane e os dois sabem atirar. Se lá tem uma família, lá talvez seja mais seguro do que era o nosso antigo acampamento. Olho seus olhos determinados, merda.
– Você vai com eles – digo seco sem deixar margem para discussões, ergo seu rosto para ela me encarar nos olhos – preciso de você em segurança, vá com Glenn e T-dog...
– Mas... – ela diz em um tom um pouco chocado –eu prometi que nunca iria te deixar... que estaria sempre aqui com você.
Ela realmente não tem noção do quão ambíguas são as palavras dela, qualquer um que ouça pode pensar merda de ouvir isso. Tudo bem as palavras estão saindo dos lábios mais inocentes que sobraram neste mundo, mas essa frase é muito ambígua e uma parte de mim queria que o que ela quis dizer fosse o lado errado, o lado que todos podem entender. E não o lado puro e bem intencionado das suas palavras. Céus, o que ela está fazendo comigo?
– Você ainda vai estar comigo, mas também estará lá ajudando Carl... Afinal naquele banheiro você me disse que sabia primeiros socorros, você deve ser útil – falei mudando de abordagem.
Ela suspira e acaba se dando por vencida, é colocar os outros como argumento ajuda a vencer discussões com ela. Não que nós cheguemos a discutir muito, exceto quando ela quer me acompanhar em algo que obviamente vai por a sua segurança em risco. Ela não tem a menor noção do perigo que a certa, me pergunto como seus pais aguentavam. Ela deve ser do tipo que conversava com um assaltante e o chamava para um chá.
– Glenn, leve Cristal e T-dog no carro da Carol até a fazenda – falou Dale sério – e não deixe o T-dog para trás. Não é uma opção, aquele corte dele foi de mal a pior a infecção no sangue dele está indo de mal a pior. Leve-o aquela fazenda e veja se eles tem antibióticos pois se não tiverem T-dog morrerá, e é sério.
Ouço isso e vejo o quão séria a situação do moreno é, quando a horda de zumbis chegou e ele estava com um machucado não achei que fosse realmente não sério. Ele não foi na busca até a Sophia, mas não imaginei que fosse por isso.
Vou até a minha moto e vejo uma toalha do Dale encima da moto e a tiro imediatamente a segurando com uma mão, depois vou no compartimento da moto onde tenho guardado os remédios do Merle e os que antes ficavam na caixa de primeiro socorros de Cristal.
A maioria perdeu tudo no CCD e remédios hoje em dia são raros, uma mala pode ser deixada para trás. Mas usamos esses carros e a moto para fugirmos caso aja algum problema, logo depois que Cristal melhorou os remédios foram postos aqui. Puxo a sacola com todos os remédios e volto para onde o grupo estava, jogo a toalha no Dale.
– Deixe seus trapos longe da moto, porque esperou até agora para contar da infecção? – apoio a sacola na capota do carro e começo a olhar os rótulos do remédio – é o estoque do meu irmão com algumas coisas da Cristal... Ecstasy, não precisam disso, alguns analgésicos dos bons... Ah aqui está a doxiciclina, não são genéricos são de qualidade. Merle tinha gonorreia às vezes.
Com a doxiciclina, um tipo de antibiótico, nas mãos de Dale volto para guardar o resto onde estava. Pego uma faca de caça, não é muito afiada mas é leve e fácil de utilizar. Volto para onde o grupo estava e vejo que cada um já está dividido em suas próprias tarefas.
Os que vão com Glenn até a fazendo arrumavam suas coisas, inclusive Cristal. Dale fazia T-dog ingerir os remédios – ele parecia péssimo – Andrea mexia na arma. Não deviam dar uma arma para essa mulher, ela não sabe atirar e vai acabar atirando em coelhos, mas isso não é da minha conta. Glenn fazia sua mala.
Vou até Cristal que arrumava as suas coisas, seguro sua mão e ela me olha com duvida, coloco a arma na mão dela, mas ela não segura. Droga isso vai ser mais difícil do que eu imaginei, mas não posso deixá-la totalmente desarmada. Não sei se ela vai encontrar zumbis naquela fazenda ou se os próprios moradores não podem tentar algo.
– Leve com você, eu vou ficar mais tranquilo – olhei para os lados e tive certeza de que não havia ninguém ali por perto – amanhã estarei lá, se algo ou alguém a atacar lute. Me prometa isso, me prometa que vai estar segura.
– Eu prometo – ela sussurra me abraçando.
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