Um Anjo no Inferno
7 Capítulo 7 - O sumiço de Sophia
Notas iniciais
Fazia duas semanas desde que deixamos o CCD, fazíamos turnos para que nunca precisássemos parar de dirigir, nunca sabíamos se estávamos em um local seguro e por isso nossa melhor chance. A uma semana atrás achamos um campo com algumas árvores com maças e laranjas, o tempo estava nublado e Cristal ficou com as crianças colhendo frutas enquanto eu tentava achar algum animal, um esquilo talvez, achar comida estava se tornando algo difícil.
Só que do nada começou a chover, foi uma daquelas chuvas de verão que começam fortes e acabam rapidamente, todos correram para dentro dos carros para tentar se esquentar. Carl e Sophia apenas ficaram levemente resfriados, mas a minha garotinha não teve a mesma sorte. Começou com tosse, depois ela ficou febril e na manhã seguinte estava queimando de tanta febre e delirando também. Ela teve que ser removida para o trailer para ficar deitada e mais confortável. Fiquei realmente com medo de perdê-la, perdê-la para uma maldita febre. Posso protegê-la de zumbis, mas não de uma doença. Quando os zumbis atacaram achamos que essa não era mais uma preocupação, que não dava para morrer assim, mas naquele momento eu tive medo.
Ela murmurava algumas coisas, palavras soltas. As vezes chamava pelos pais, chamava nomes como Jade, Yasmin, Cléo e mais alguns que deviam ser de amigos, ela parecia sofrer. O meu nome saia varias vezes de seus lábios, a noite ela costumava me chamar e pedir para eu não ir embora. Não sei no que ela sonhava, mas por mais que eu tentasse mostrar que eu estava aqui, ela não parecia me ouvir.
Carl e Sophia ficavam todos os dias com ela, faziam tranças em seu cabelo e conversavam com ela esperando que ela ouvisse. Todos estavam preocupados, mesmo ela sendo a mais nova no grupo desde que ela conseguiu convencer o doutor Jenner a nos tirar dali todos a olharam diferente. Por mais de 20 minutos ninguém conseguiu convencer o doutor Jenner a nos tirar daquela sala, nós poderíamos ter morrido ali sem nem ter tido a chance de chegar na porta da saída. Mas ela convenceu ele, ela tem alguma coisa de especial. Era mortificante vê-la piorar cada vez mais.
Acho que foi naquele momento, quando uma noite Dale disse que ela não melhoraria. Que a febre dela estava alta demais e não tínhamos antibióticos ou remédios suficientes que eu surtei. Ela não podia morrer, ela não pode simplesmente entrar na vida de alguém assim e depois simplesmente morrer!
Flash Back on
Naquela noite eu havia ficado no trailer, geralmente eu ficava no carro junto com Glenn e T-dog mas com Cristal nesse estado simplesmente não dava para ficar longe dela. Dale acha que ela não vai sobreviver, ninguém parece acreditar que ela vai sair dessa. Merda!
O pior é que agora todos me olham com pena, não preciso da pena de ninguém! Até uma semana e pouco atrás eu era o pedofilo que estava comendo uma garotinha de 16 anos e agora eu sou o coitado que está perdendo a filha? Hipocritas, a maioria nem se importa comigo, Cristal é o importante para eles. Desde que ela convenceu Jenner ela deixou de ser a garotinha-inutil-inocente-que-não-sabe-fazer-escolhas-totalmente-dependente-e-abusada-pelo-Daryl para virar a queridinha que todos amavam. Já era tarde e no trailer só Dale estava acordado dirigindo na estrada.
Toquei seus cabelos e fiz um carinho em seu rosto, ela pegava fogo, droga. Não posso perdê-la, de todos nesse grupo porque ela? Carl e Sophia são crianças seria mais fácil eles ficarem doentes, não ela! Quando Merle sumiu porque Rick e os outros o deixaram para morrer eu me senti sozinho, ele era a única pessoa importante para mim no inferno que o mundo virou. Então eu encontrei-a, assustada e indefesa naquele banheiro sem nem saber diferenciar um zumbi de um sobrevivente. Quando eu a tirei de lá jamais imaginei o quanto ela seria importante para mim.
– Não sou bom em lidar com as pessoas – sussurrei em seu ouvido me sentindo estúpido por falar com alguém que não conseguia me ouvir – mas você... você é... importante para mim, você não pode morrer. Você não pode me fazer gostar tanto assim de você e depois morrer!
Foi quando notei o quão fácil era falar com ela quando estava assim inconsciente, quando ninguém podia me ouvir. Não importava se eu dava a resposta certa ou errada, ninguém saberia e ninguém sairia machucado. Mas o que mais me chocou foi o que eu disse, eu gosto dela. De algum modo eu gosto dela e não do modo como eu deveria gostar, não de um modo protetor.
Sim eu quero protegê-la e me odeio por não poder fazer nada por ela por ela agora, odeio não ter como fazê-la melhorar. De algum modo ela se tornou muito importante para mim, não sou bom em lidar com as pessoas, mas quero ser por ela. Quero que ela fique por perto, gosto quando ela dorme apoiada no meu ombro, gosto do cheiro dela, do jeito doce dela, de como ela não mudou mesmo com o fim do mundo. E a perspectiva de perdê-la só me da mais certeza de que eu gosto demais dessa garotinha inocente de 16 anos. No momento ela parece estar tendo um sonho tão tranquilo, nem se mexe, me lembra um anjo.
– Daryl – ela diz dormindo e depois suspira.
Aquilo foi demais para mim, por mais que eu odeie admitir por saber que é errado. Por saber que eu sou muito mais velho, que ela por algum motivo me vê como um herói e apenas isso, que ela é inocente demais e eu não podia ter nada com ela. É errado, eu seria um pedofilo, seria um monstro. Só que quando ela disse o meu nome daquele jeito, e eu com tanto medo de perdê-la eu fiz algo impensado.
Rocei meus lábios contra os dela, apenas um leve tocar de lábios. Seus lábios estavam quentes e tinham um gosto bom, uma mistura de remédio com algo doce. Me afastei rápido, não podia fazer isso de novo, olhei para Dale que estava distraído na estrada. Nunca mais tocarei nela, um único dele, ela é só uma garota inocente que eu vou proteger, uma amiga no máximo. Se ela sobreviver nunca mais vou tocá-la.
Flash Back Off
Ironicamente por algum motivo no dia seguinte a febre dela começou a baixar e em dois dias ela já estava recuperada. Nunca mais encostei um dedo nela, ela é apenas uma garotinha de 16 anos. Estamos indo para uma cidade que Rick e Shane acham que pode ter armas, estava na minha moto com Cristal na garupa. Ela usava o capacete que era de Merle, seus braços finos me abraçavam com força e eu sentia seu rosto nas minhas costas.
Preocupo-me que ela passe mal, que ela não esteja 100% recuperada, mas não posso prendê-la em um carro. Ela diz estar bem e o máximo que posso fazer é perguntar de tempos em tempos como ela está, se quer entrar em um dos carros. Estou acostumado a andar de moto, ela não. A noite deixamos a moto na parte de trás da caminhonete e dormimos no carro onde Glenn e T-dog estão. Ela gosta de ficar perto de mim e por mais estranho que seja ficar perto dela sem tocá-la, sem encostar nela, eu não posso afastá-la. Não posso explicar o porque do afastamento e não sei se aguentaria muito tempo. Ela produz um efeito estranho em mim.
Seguíamos uma estrada para Fort Benning se não me engano, como eu tinha uma moto eu ia na frente para ver se estava tudo limpo ou teríamos problemas, não muito na frente e voltando de tempo em tempos para encontrá-los, a moto era apenas mais fácil de desviar de obstáculos.
Foi quando vimos vários carros parados na estrada, alguns virados de cabeça para baixo, dentro do carro a pessoas mortas. Não zumbis, essas pessoas estão simplesmente mortas. Alguma coisa as atingiu e as matou, sinto Cristal me abraçando com mais força. Dale tinha dificuldades em dirigir o trailer entre os carros, mas de repente o trailer dele começa a fazer barulho e simplesmente para. Paro e volto com a moto para mais perto deles. Desço da moto e a loira também não usávamos capacetes. Eu não tinha nenhum, se tivesse daria para ela.
– ... Parou por falta de água – ouvi Dale dizer – estamos parados no meio do nada, sem esperança de...
Como assim sem esperança? Estamos no meio de milhares de carros, haviam pessoas aqui e se elas planejavam fugir elas levavam água, comida, roupas, armas.. Esse tipo de coisa, tem tudo aqui. Além de ter vários carros, eles podem encontrar alguma coisa. Os ignoro e vou até um carro de frente para onde eles estavam, o porta-malas estava aberto. Começo a ver o que tinha ali, algumas roupas e brinquedos.
– Se não pode achar uma mangueira de radiador para o seu trailer, há outras coisas que podemos achar – falo terminando de vasculhar os carros.
Todos pararam e me encaram, depois aos poucos cada um começa a olhar os carros para ver se encontrava algo para comer, talvez armas, roupas ou algo que sirva para Cristal. T-dog me chama para ajudá-lo a tirar combustível dos carros, vou com ele mas peço para Cristal não se afastar dos outros.
Eu abria com uma faca a entrada por onde se punha gasolina no carro (N/A: não sei o nome :x) enquanto T-dog tirava a mesma e a guardava em um galão. Me apoie em um carro, o sol estava forte. Não havia corpos no carro, abro as malas procurando por algo que fosse útil. Algumas barras de cereal, havia uma caixa pequena abro e vejo um colar delicado de fada ali. Era algo fresco, delicado demais e infantil e ao mesmo tempo me pareceu o tipo de coisa que Cristal gostaria.

– Ela vai gostar do presente – fala T-dog surgindo do nada. Ele não deveria estar terminando de pegar a gasolina dos carros?
Com tantos grupos de sobreviventes eu consegui ficar no com pessoas mais intrometidas, eles não se preocupam em cuidar das próprias vidas porque é muito mais interessante cuidar das dos outros. Só que até pouco tempo atrás eles ainda mantinham uma distancia segura, aparentemente agora que ando com a Cristal essa distancia parece ter sumido e eles voltaram a se meter na minha vida.
– Eu não dou presentes, ainda mais um presente inútil – falei fechando a cara e ponto o colar na caixinha de novo – não temos tempo a perder, vamos logo.
The Walking Dead – Cristal narrando
Estava ajudando o pessoal a procurar comida ou coisas uteis dentro dos carros, tentava evitar mexer nos carros onde haviam corpos de pessoas. Isso me parecia meio errado, mexer nas coisas dos outros sem permissão. Tento pensar que estou fazendo o melhor para o grupo, porque precisamos de comida, água, armas e a maioria precisa de roupas.
Ficar mexendo nessas coisas me deixa nervosa, vejo Glenn tentando arrumar o trailer. Talvez ele precise de ajuda, sei que é egoísmo meu fugir assim, mas me sentiria mais a vontade ajudando-o. Sorrio para ele que sorri de volta. Me encarrego da função de passar as ferramentas e tentar aprender como se concertar a mangueira de um trailer quando Shane nos puxa para trás e nos empurra para debaixo dos carros.
Arregalo os olhos ao ver os zumbis se arrastando e tenho que tapar a minha boca para não emitir som nenhum eu estava morrendo de medo e sozinha em baixo de um carro. E se algum deles me atacasse? E se todos viessem atrás de mim? Engulo em seco e vejo Glenn e Shane fazendo gestos para eu fazer silencio do carro ao lado. Me encolho assustada e com medo, fecho os olhos esperando isso passar.
Daryl... céus ele tem que ficar bem, ele não pode ser pego por todos esses zumbis. Ele tem que ficar bem para que eu possa vê-lo sorrir mais, ele não pode morrer. Ele vai ficar bem, ele é experiente e sabe o que faz. Daryl não vai morrer, ele vai sobreviver e ficar bem. Fico mentalizando isso tentando não fazer nenhum barulho quando sinto uma mão tocando minha perna arregalo os olhos assustada e começo a chutar a pessoa.
– Calma Cris, sou eu! Sou eu o Glenn os zumbis já foram! – fala ele e eu me acalmo.
Olho para o garoto que a algum tempo disse gostar de mim, mas que não passa de um amigo. Um bom amigo, realmente por termos idades próximas foi fácil nos aproximarmos. Glenn é apenas alguns anos mais velho do que eu e podemos conversar sobre muitas coisas, as vezes antes de dormir (sempre ficamos no mesmo carro) ele me pergunta como estou e como foi o meu dia. Acho isso legal da parte dele, assim como acho legal ele não ter contado para ninguém sobre o beijo... Também nunca mais falei sobre ele, é melhor deixar as coisas assim. Por mais que eu ame Daryl, não vou estragar o que está bom, estamos próximos e quando estamos sozinhos ele é carinhoso comigo. Noto que ele se importa e que ele só é realmente próximo de mim no grupo, no quesito de passar tempo, abraçar e essas coisas. Vou admitir que isso me deixa morrendo de alegria.
Quando sai do carro que eu descobri que Sophia havia saído correndo pela floresta sendo seguida por dois zumbis, Rick foi atrás dela mas ele não pode atirar por causa de todos aqueles milhares de zumbis que já passaram. Vejo Daryl se aproximando com T-dog e suspiro aliviada, ele estava bem.
Nossos olhos se encontram e tenho vontade de correr para abraçá-lo, mas tenho tentado me controlar. Tudo bem eu vivo abraçada com ele na garupa da moto e durante a noite dormimos abraçados na traseira do carro e isso sempre me dá a sensação de segurança. Mas bem, não sei se ele se sentiria bem comigo correndo para os seus braços, ele já me disse que não sabe lidar bem com as pessoas.
– Eu, Daryl e Glenn vamos lá ajudar o Rick – diz Shane e eu arregalo os olhos.
Não que eu posso mandar em Daryl ou pedir para ele ficar. No primeiro caso ele iria do mesmo jeito e ficaria bravo comigo, no segundo caso ele também iria. Daryl é independente e gosta de fazer a coisa certa. É uma das coisas que mais admiro nele, e por mais que eu morra de medo que algo aconteça eu sei que não podemos deixar a Sophia lá sozinha. Ela é mais nova que eu e deve estar assustada, eu ficaria assustada.
Engulo em seco e sem tirar os olhos de Daryl vou até ele, ele pode ficar irritado com isso mas eu sei que preciso disso. Preciso disso para acalmar o meu coração, me aproximo dele e o abraço com força, muita força. Sei que não é um adeus, que ele vai voltar, mas preciso disso.
– Eu vou voltar, mas tome cuidado não se afaste do Dale e qualquer coisa se esconda – fala Daryl no meu ouvido antes de se afastar.
Depois disso começamos a mexer nos carros, continuamos a nossa busca por comida, roupas e água. Separamos a água que Shane havia achado em todos os carros para não ficar muito pesada, mas a maioria ficou na caminhonete. Depois começamos a empurrar os carros, temos bastante combustível e pelo que eu entendi vamos pegar outra rota, uma que o Glenn achou. Pelo que percebi ele é bom com mapas e rotas, ele era entregador de pizza e estava acostumado a ir entregá-las em endereços estranhos e que nunca tinha ouvido falar.
– Mas o que era aquilo... eles marchando juntos daquele jeito – comentou Glenn atraindo a atenção de todos.
– Uma horda parece o termo certo – fala Shane arrumando a arma – já vimos aquilo, foi igual ao ataque ao acampamento. É alguma horda itinerante, só que maior... Certo pessoal temos muito o que fazer.
Voltamos as nossas atividades, mas notei que Carol não estava bem e me aproximei dela. Não falamos nada apenas nos abraçamos, tentei tranquilizá-la, sabia que Sophia voltaria. Rick e Daryl são caras legais e de confiança, eles jamais as deixariam para trás. Esse é um grupo unido, somos uma família. Uma família meio estranha e desajustado, mas é isso que somos. E família não vai embora, a família sempre perdoa e nunca abandona.
Nos sentamos e ela começou a me contar da garota incrível que Sophia era, de como era a vida das duas, de quando o primeiro dente da Sophia caiu e tantas outras coisas bonitas. Isso fazia com que o meu coração doesse, eu queria chorar porque tinha medo pela doce garotinha assustada que estava perdida naquela floresta.
O tempo passou rápido demais, ou lento demais. Uma parte de mim queria que eles voltassem logo. Queria ver Sophia ali segura, se ela voltasse eu dançaria para ela todas as vezes que ela me pedisse. Outra parte queria que o tempo demorasse a passar para que eles tivessem mais tempo para encontrá-las. Logo o sol já estava se pondo e eu abracei forte Carol nervosa.
Eles não a encontraram e ficou tarde para continuarem a busca, droga isso é assustador. Eles se aproximavam lentamente, sei que nessa situação é errado pensar assim mas ao menor Daryl está bem. Sei que ele não corria perigo, mas me preocupo com ele. Não posso protegê-lo, mas meus pensamentos sempre retornam para ele. Acho que isso faz parte de se estar apaixonada.
– Não podem deixá-la sozinha – falou Carol em uma misto de magoa e raiva – para passar a noite sozinha na floresta, ela deve estar assustada.
– No escuro não é bom, poderíamos nos atrapalhar e teríamos mais gente perdida na mata – falou Daryl se aproximando de mim vejo que ele está todo sujo de sangue e arregalo os olhos. Ele se machucou? Está ferido? – amanhã de manhã partiremos.
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